Mostrando postagens com marcador A Progênie do Dragão Dourado. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A Progênie do Dragão Dourado. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

(Parte 27) "Me diga o porquê"


-Ora essa Lucian Van Kristen – disse Nico olhando com raiva para o irmão de Lacktum – E não se espante, pois é pouco o que não sabemos, pelo menos na visão de vocês mortais.
Lá estava o enigmático feiticeiro Nico, o mesmo que sempre auxiliara o grupo com suas magias e palavras enigmáticas. Ele estava ali como um anjo que surge nas escrituras antigas dos que acreditam no deus católico, ou como o mensageiro dos deuses pagãos. Não importava como ou para que, os Dragões da Justiça sentiram suas forças renovadas como uma chama que levanta com o impulso correto. Como a lenha de uma nova esperança. Mas o que tinha aquele jovem. O mago de cabelos vermelhos já tinha certeza que ele não era humano, mas certeza de algo que seria difícil definir. Tanto poder seria difícil conceber. Ele agora tinha certeza que os poderes do misterioso homem nublavam as mentes de Halphy, Arctus e dele próprio só concedendo uma certeza. Havia algo maior em jogo.
-Como sabe o nome que usava enquanto vivo? – exigiu um enlouquecido Kalic Benton – Revele sua verdadeira forma.
-Não há um motivo para mostrar minha verdadeira forma a seres tão inferiores como vocês. Mas mesmo assim, vim aqui exigir que se cumpra o pacto da marca arcana. Você deve recuar diante um mago de poder superior, caso contrário, sofrerá com a força que o Paradoxo possui! Vá de retro criatura inferior! – exigiu Nico com só uma de suas mãos estendidas.
Foi quando o mago mascarado colocou a mão sobre a face com sua máscara sobre ela. Novamente, seu rosto estava coberto por aquela coisa que o tornava mais sombrio que qualquer ser na mente de todos. Ele exigiu que seus homens e criaturas se afastassem daquele templo de sombras.
-Não sei quem és tu, mas saiba que conseguiu um inimigo para a vida toda!
-Já ouvi isso antes e não me rebaixarei a responder a altura.
-E quando a você irmãozinho bastardo – dizia isso o mago enquanto retirava os efeitos da barreira mística que colocou no jovem mago inglês – Van Sirian e Azerov foi só o começo. Muito mais eu irei lhe retirar, até que não sobre uma única migalha do que foi o legado dos Van Kristen, compreende? Sua alma e seu corpo foram apenas o começo do inferno em terra que irá viver filho de um adúltero!
As palavras acertavam no coração do jovem. Sua vingança foi obliterada no momento em que Kalic Benton pronunciou que ambos possuíam o mesmo sangue. Nunca lhe ocorreu que ele, o suposto inimigo, teria feito tudo aquilo por um sentimento tão próximo do que ele alimentou por tantos anos. Só que era possível ver no olho dele o mesmo demônio que o consumia a cada dia: ódio em seu estado mais puro.
Nesse momento, o mago mascarado começou a andar com calma e modos sinistros, até uma parede. Como num piscar de olhos, ele sumiu nas sombras da estrutura.  Talvez fosse magia, ou algo mais tenebroso. De qualquer modo, ele sumiu como um fantasma. Os seus soldados andavam para fora da estrutura.
Thror pensou em impedi-los, mas foi detido por Nico, com um gesto rápido. Sua meta era cortar a cabeça do tal Yue Khan, mas sabia que sua lamina ainda não estava afiada o bastante para aqueles olhos puxados e rabo de cavalo. Ele se mostrou inteligente, pois mesmo em alguns combates, sempre perde o mais tolo dos lados de qualquer modo. De todo modo, não era o momento. Assim deixou também irem embora Matadouro.
E do mesmo modo que surgiram eles somem. Silenciosamente.

Todos do grupo – os que restaram ainda naquele grupo – se levantaram ou se posicionaram de um modo mais respeitoso. O clérigo começa a preparar os curativos especialmente no guerreiro careca.
-Me largue padre! – falava isso mexendo o braço ferido, como um menino mimado o guerreiro – Mesmo estando ferido não vou morrer. A não ser que me mexa demais como um jumento arredio! – nesse momento, Arctus até pensou em falar algo, mas sabia que não era o momento – Se eu fosse você... Aconselharia o mago que esta com o olhar mais perdido que Odisseu no mar. Ele levou um golpe tão poderoso que nem o mais poderoso machado ou a mais antiga magia conseguiria fazer tamanho dano em sua mente.
Vez ou outra Tzorv falava algo que fazia sentido. E quando isso ocorria significava que algo estava realmente errado no mundo.
Lá estava o mago, com seus olhos perdidos para a parede pela qual passou o suposto irmão. Mesmo depois de tudo que ele disse ele ainda gritava em sua mente, indo contra aquelas tolas idéias. Mas nada que impeça seu raciocínio único mostrar que mesmo que ele queira lutar em sua mente a resposta para muito do que ele imaginava a tempos era uma coisa tão simples, e viria na língua do antigo inimigo. Não importava o que ele fizesse, o mago Kalic Benton II era seu irmão.
Nem Gustavo parecia ter palavras que o acalentavam. Parecia inútil qualquer uma que proferisse. O que o fazia o lembrar que mesmo como conhecedor dos segredos religiosos, ainda era mais guerreiro que qualquer outra coisa.
Ele levantou e se virou na direção de Nico. Seu rosto continuava com raiva, mas agora ele tinha que se concentrar, momentaneamente em conseguir entender a situação. E o jovem misterioso de cabelos loiros era talvez a maior parte das respostas.
Não importava se o feiticeiro se mostrasse como um salvador naquele momento, o jovem inglês de cabelos ruivos estava furioso que o agarrou pelo pano da roupa. Seus olhos se enchiam da fúria que antes estava destinada ao mago mascarado que teria matado sem nenhum motivo a família inteira de Lacktum, além de supostamente ter matado o velho mago Azerov.
-Me fale por qual motivo, em nome de Odin, Thor, Loki e tudo que serve a magia nórdica, que infernos fez e o que afinal é você? Já estou cansado de suas atitudes suspeitas! Fale desgraçado!
-Lacktum pare – gritou Thror.
-Mestre Van Kristen – falou rapidamente o pequeno suricate.
-Pare em nome de Deus – esbravejou o padre, segurando o braço do mago.
-Deixem-no – falou calmamente Nico fitando somente Lacktum.
-Mas Nico... - falaram alguns.
-Deixem-no – repetiu ele com voz firme, mas ainda transparecendo calma.
Todos se afastaram calmamente dos dois jovens. Enquanto isso, Lacktum segurava compulsivamente a roupa do jovem de cabelos loiros.
-Vamos me fale sua criatura maldita! Fale-me logo!
-Tudo bem Lacktum, mas antes – falava isso enquanto retirava as mãos do mago de sua toga com extrema facilidade – saiba que não esta com raiva de mim, por ocultar quem eu sou. Nem de seu pai por esconder algo assim. Nem de Lucian... Ou Kalic Benton II. Muito menos de seus amigos que nada puderam fazer. Você esta com raiva, pois mesmo depois disso você não consegue chorar pelo que ocorreu mesmo sabendo que talvez, só talvez, pudesse ter impedido tudo. Mas lhe garanto, não havia nada a ser feito.
Lacktum o soltou e colocou sua mão direita sobre a cabeça, como quando sentimos grandes dores nessa parte de nosso corpo. O resto dos Dragões e animais que o acompanhavam, correram em sua direção. Com um gesto, o arcano os interrompeu e disse:
-Se acalmem! Foi só uma leve enxaqueca.
Todos sorriram e foi quando Thror disse sua besteira do dia, enquanto abraçava o companheiro:
-Nem parece que você encontrou um parente seu hein?
Nesse mesmo instante, alguns colocaram as mãos sobre seus rostos e olharam com raiva para o guerreiro com a ferida em forma de X na cabeça.
-Que foi que disse algo de mal? – falou um revoltado Tzorv.
-Não – disse Lacktum sorrindo envolvido pelo abraço – Você esta certo. Eu tenho um irmão ainda. E por ele... Devo viver!

-Bem, essa frase seria mais de Van Kristen, mas... – disse isso um padre um pouco relutante – se revele Nico! Qual sua verdadeira forma? Retire-nos essa duvida.
O feiticeiro olhou para todos com olhos amendoados de ouro. Ele então começou a andar em direção ao centro do lugar. E então falou calmamente:
-Sou um dragão.
Nesse mesmo instante, algo aconteceu. Nico curvou-se para frente, com uma rapidez tremenda. Logo em seguida, seus cabelos se eriçaram como se eles dobrassem de tamanho, porém, não possuíam mais uma característica de partes do feiticeiro humano que conheciam. Eles pareciam mais a pelagem de um animal selvagem. Seus olhos dourados, que muitos não notavam antes, agora tinham uma força maior em toda a sua extensão. E nem sequer ele havia mudado seu corpo ainda. Em seguida, de suas costas, um par de asas magníficas surgiu como quando uma borboleta se levanta abrindo seu casulo. Tão grandes que quase atingiram o teto do lugar. Seu corpo começou a mostrar uma estrutura maior e que rapidamente acabou rasgando suas roupas. Era como se pudessem ver uma criança nascendo alguns pensariam. A pele foi trocada por escamas brilhantes e poderosas, que traziam fascínio e temor. E logo a criatura tomou lugar do feiticeiro, como um ser único no universo. Mesmo que eles tenham visto recentemente um dragão, nada os preparou para ver aquele ser, tão grande em poder e magnificência. Até mesmo, uma parte do corpo que logo reconheceram como uma cauda trazia com ela certa imponência com pequenas farpas, que mais pareciam de puro metal dourado. Cor essa que atingia boa parte do corpo tal qual a coroa de um rei, mas muito mais poderosa e imponente. E por último, de onde ficava a face do arcano brotavam chifres na parte de cima, enquanto estranhos pelos surgiam do queixo, como uma imensa barba que atingia até o peito da criatura – o que mostrava quão colossal este monstro magnífico era.
 Arctus olhou com tanto espanto, que se esqueceu de fazer uma de suas famosas pragas contra qualquer criatura que não servisse o deus católico. Thror caiu ao chão machucando até mesmo seu traseiro no processo. Seton colocou a foice de lado como sinal de referência. Os animais fizeram o mesmo com mais rapidez orgulho, afinal, acima dos animais só estavam os elfos e os dragões, alguns diziam. Lacktum estava espantado, isso era claro, mas como o bom curioso e audaz líder dos Dragões da Justiça, ele agora examinava o dragão com extrema cautela.
Sua barba imensa, sua aura de poder – que já era grande quando ele tomou a forma de um homem – seu tamanho e o fato dele ser mais forte até que Daehim que enfrentaram recentemente significava que no mínimo ele deveria ser um ancião entre os de sua raça.
-Bem que eu imaginava que você era imensamente poderoso, mas isso beira o impensável – o pequeno mago falou tentando conter o espanto.
-Perdão meu pequeno amigo humano, – disse Nico, como se dirigisse a uma formiga – mas menti por muito tempo a vocês irmãos de viagem. Para começar saibam quem eu realmente sou. Chamo-me de Ikkanon, uma das três estrelas douradas de Isis. Deusa que foi esquecida por seu povo, mas ao qual nunca se esqueceu de vocês. Meus irmãos se chamam Ixxanon, que se tornou deus perante os homens e as criaturas desse mundo, e Ixxamon, que atingiu as estrelas e criou sua própria constelação com seu corpo ao partir desse mundo.
Todos se sentiram extasiados com o que ocorria ali. E foi Thror quem disse as palavras para fazer a todos saírem do transe:
-Por Zeus... Você é grande Nico.
O dragão riu, fazendo o que pareceu um terremoto por alguns momentos.
-Sim amiguinho, realmente estou. Muito grato devem ser a Seton. Graças ao que lhe ensinei você pode impedir algo pior.
O druida sorriu com muito orgulho enquanto fechava os olhos.
-Só fiz o necessário!

Quando tudo isso ocorria, em um país muito distante, onde o gelo é tão comum como a grama nas terras dos heróis, sua força se mostrava maior que o normal. Mas lá há um homem que também já foi herói. Sua espada estava colocada na frente de uma caverna antiga, a qual muitos achavam ser maldita. Era exatamente por conta disso, que seu atual morador usava aquele lugar. Para se afastar da escoria humana que tanto protegeu. Aqueles que nunca souberam nem se importavam com o que estava para acontecer. Que deram as costas para os deuses esquecidos de Atlântida. Que deram as costas para Kanglor, seu deus, o senhor da fúria e dos combates até a morte.
Nesse lugar funesto, um homem surgiu, tentando enfrentar o frio com varias peles de lobo negro do norte, com certeza. Era obvio isso pelo tamanho das peles que eram somente duas. Seus cabelos negros chicoteavam seu rosto. Parecia ter vindo de terras muito distantes mesmo, mas demonstrava grande satisfação ao chegar naquele lugar.  Ele estava na entrada do lugar e gritou:
-Ei, Homem Santo! Vim aqui pelos seus conhecimentos de uma época em que os deuses caminhavam entre os homens! Em que os guerreiros lutavam mais por honra do que por terras ou fortunas! Onde os guerreiros esquecidos ainda existiam! Eu clamo por sua sabedoria!
No mesmo momento, um homem de barba mal feita surgiu da escuridão da caverna. Era realmente humano, mas deveria estar acostumado com penumbras e as trevas que surgiam do coração do inferno. Isso era visível já que seu rosto estava cheio de raiva e rancor. Possuía muitas peles que cobriam seu corpo, além de uma roupa também pesada, só que sem nenhuma armadura. Suas mãos estavam cobertas com faixas preparadas muitas vezes com o intuito de melhor segurar uma arma pesada. E com elas, pulou no pescoço do homem que gritava no lugar. E se enfureceu com as palavras e seus cabelos, tão negros quanto o do agredido, lhe concediam um aspecto de loucura, como se estivesse possuído por um demônio ou uma entidade poderosa. Como se as forças antigas estivessem na voz daquele homem e uma magia antiga o despertou. Mas não era isso. Mesmo o mais antigo e sábio ser do mundo sabe que as palavras podem ferir mais do que a lamina mais afiada.
O homem de peles de lobo negro segurava o outro pelas mãos e dizia sorrindo:
-Que coisa, parece que perdeu parte de sua força divina Homem Santo.
O homem tomado pela raiva gritou a plenos pulmões:
-Desgraçado! Maldito seja homem! Meu nome não é Homem Santo! Nunca pense em pronunciar meu nome novamente Kalidor Hein Hagen! Saia de minha casa! Saia de meu lar! E nunca mais volte miserável! Por Kanglor e tudo que ainda tenho de força em meu coração, juro que nunca mais sairei daqui!

-Bem devo começar a explicar, minhas funções nesse grupo. Ou melhor, meus verdadeiros motivos para estar aqui. Bem como imaginam, estava aqui para vigiar os passos de todos que estão aqui. Isto se devia a importância que cada um possui.
-Isso parece claro para alguns... Mas fica difícil evidenciar em outros membros – falou Arctus com seu tom de desprezo pelo que era arcano – Se é que me compreende.
-Sim, entendo seu receio quando ao que provem da magia, mas lhe garanto que sou um ser de puros intentos. Muitos de vocês têm importância vital, tanto para deter o inimigo, como para auxiliá-lo.
-Interessante... - disse Lacktum – Então alguns, podem ajudar nossos inimigos?
-Sim – respondeu prontamente Nico, ou melhor, Ikkanon.
-Quais de nós? Halphy é uma delas, isso se mostrou claro.
-Bem o outro é você Lacktum Van Kristen.
-Eu? – soltou um espantado mago. Tudo bem que seus hábitos nunca foram os melhores perante os outros por muito tempo, mas ele estava mudando. Tão lentamente como uma tartaruga, só que estava.
-Sim... Veja, seu nascimento estava previsto em antigas escrituras que um de meus irmãos disse ter visto com um antigo ser iluminado. Que sua existência trazia um grande perigo para todo mal existente nessa terra. Ela dizia algo como, o nascimento de um filho da casa de Van Kristen, com cabelos vermelhos como o fogo, traria o fim a todo o mal que surgiu no começo da era dos cristãos. Seu apogeu viria em 1147, quando um evento cataclísmico, o faria ascender com o poder de abrir o Portal da Verdade.
-Caramba! Sempre me achei importante, só que assim é muito exagero!
-Isso me traz mais temor que admiração meu caro Lacktum – falou Arctus.
-Acho que sei o motivo disso padre – interrompeu Ikkanon – Sendo a profecia verdadeira, isso significa que há dois seres capazes de impedir o mal que esta para surgir. Um deles esta aqui, junto a nós e o conhecemos como Lacktum. Mas o outro se autodenomina Kalic Benton II e sabemos que se chama Lucian Van Kristen. Que atualmente serve Sinestro, um ser de índole maligna e poderes incríveis.
-Muito bem colocado... Ser – falou com certo ar de repugnância ao dragão.
-Se Lucian for o Van Kristen que pode impedir o mal, isso significa que poderá até ser pior para nós que ele esteja do lado de Sinestro – refletiu Lacktum.
-Isso é obvio, mas as profecias não corretas. Há sempre pequenos trechos que não compreendemos ou ignoramos. Seja lá de onde elas surgiram. Mas há também o fato que não me lembro de toda a profecia.
-Ah que ótimo, entre todos os dragões que poderíamos ter de nosso lado – falou isso o mago inglês colocando a mão sobre o rosto em forma de decepção – temos o único que não tem memória!
-Acredita ser fácil lembrar-se de algo que leu de relance a milênios? – soltou o dragão dourado um pouco irritado.
-Bem, ao menos sabe onde esta essa escritura?
-Não. A tabua foi escrita pelos antigos deuses dos egípcios, e estes sumiram sem deixar qualquer pista sobre a profecia ou de como ela funciona. De qualquer forma... Seria difícil encontrar.
-Ótimo, só temos todo o reino egípcio e mais além. E quando aos outros? E suas importâncias nessa jornada?
-O jovem sacerdote Arctus terá como função relatar muita coisa a Santa Sé, já que boa parte do que vocês estão passando se deve a ações dela.
-O que insinua demônio?  – disse um exaltado Arctus, diante as patas dianteiras de Ikkanon – Que como tantos outros, o Santo Padre esconde algo? Ou aqueles que o servem.
Ikkanon esticou a cabeça, de modo que sua bocarra ficasse de frente ao pequeno homem. Qualquer um se apavoraria, com exceção daqueles homens jovens e tolos. Apesar, de que alguns soltavam frases de alerta ao padre.
-Meu caro homenzinho dos costumes novos, qualquer homem, seja santo ou não, esconde algo. Sua função nesse grupo era encontrar os artefatos malditos certo? Se os pegasse e entregasse aos seus mestres, o que pensa que eles fariam com eles? Os colocaria a vista de todos, ou ocultariam o mais rápido e prudentemente possível? Eles devem ter muita fé em suas ações.
O homem de batina se calou rapidamente. Mesmo sabendo da importância de seus mestres em sua vida, sabia que a igreja continha seus problemas ocultos. Alguns que nunca poderiam vir a publico, pois se viessem, trariam o caos. Não somente a hierarquia daquele grupo religioso, como toda fé que conseguiram nos séculos anteriores.
-De qualquer forma, não existe nada que eles tenham como certo. Só que, a Igreja esteja de pose de um artefato que pode abrir o Portal Infernal.
-Esta brincando?
-Nunca brincaria com isso sacerdote – já respondeu zangado o imenso ser.
-Por todas as forças da natureza! – soltou Seton.
-Como isso é possível? – gritou Arctus.
-Mas que força criou tal artefato Nico? – perguntou o mago e líder do grupo.
-Foram pessoas que serviram a Hades nos tempos antigos – ele respondeu prontamente.
-Hades? – gritou perplexo Thror e com um tom de fúria – O Senhor do Mundo dos Mortos? O senhor de tudo que não vive? Mestre do Submundo grego? Que controla o Tartaro, o rio Estige e os Campos Elísios?
-Sim meu caro. O que há demais nisso? – perguntou curioso o imenso ser.
-Não sei o motivo – disse o guerreiro com marca em forma de X na cabeça – mas parece que meu sangue ferve quando ouço tal nome. Era como... Como...
-E ai meus caros Dragões da Justiça, esta nosso terceiro membro de importância tremendo nesse grupo. O jovem e poderoso guerreiro, Tzorv. A verdade é que parece saber mais do que realmente sabe. Ou melhor, ele não se lembra de certos fatos, mas isto esta prestes a ser desvendado. O lugar para onde pretendem ir, traz consigo uma mulher com poderes acima de qualquer um nessas terras e em varias outras. Talvez, só talvez, ela desvende os enigmas por trás de tudo que ocorreu com você guerreiro. E vão ver que ela os irá treinar para serem mais do que apenas meros guerreiros, sacerdotes e arcanos. Vocês estarão prontos para enfrentar qualquer problema futuro.
-Mas Arda nos disse...
-Exatamente – disse Alexander, o cão que se calara até então – Arda, o regente de Avalon. Não nosso rei e líder. Não foi nem Altair, meu mestre, nem Arthur Pendragon, rei por direito. Ele não é nada a não ser um mero usurpador do trono até que estejamos prontos para receber o que realmente merecemos.
-Tenho medo de você cão – falou o arcano com um rosto de sarcasmo – Tem certeza que não é um homem assumindo a forma de animal?
-Ora só digo a verdade. Afinal, você deveria saber disso, visto que estão vivos não por conta dele, mas sim por Aluniel.
O semblante de Lacktum mudou para algo mais sério.
-Não me esqueço disso Alexander. Se não fosse por conta do sacrifício dela talvez não estivéssemos vivos nesse momento. Se casar com alguém que não se ama deveria ser algo impensável para os elfos.
-Mas foi necessário para que os Dragões estivessem preparados para o que estava por vir.
-Do que adiantou Alexander? Dois membros saíram do grupo em Avalon, um dos mais inteligentes entre nós traiu o grupo. Não querendo desdenhar dos Dragões, mas só possuímos algumas poucas curas, mas quase nenhuma força bruta e arcana. Nenhum ladino para parear com Halphy ou seu intelecto e poder de combate.
-Tudo que você falou faz sentido mago, - falou um irritado Thror – mas quando a força bruta... Eu tenho mais que suficiente para matar qualquer um.
-Você me entendeu Thror! Mesmo que fossemos enfrentar criaturas como kobolds ou duendes verdes, nada disso seria o suficiente para enfrentar um exército. Precisamos de um grupo coeso e forte para estar à frente de situações perigosas. Agora me entendeu?
-Mais ou menos... Mas eu mato.
-Eu sei Thror.
Ikkanon levantou sua cabeça quase atingindo o topo do lugar novamente. Ele estava com uma face de calma.
-Meus amigos, meus pequenos amigos, se acalmem e reflitam. Não há porque se desesperar. Já que vocês estarão viajando para um lugar seguro. E lá treinaram para se fortalecerem e se tornarem poderosos. E com isso trazerem mais aliados para o seu lado. E quem sabe, nem tudo isso seja preciso para trazer, não aliados, mas amigos de verdade.
-Devo confessar – falou Seton um pouco receoso – que fiquei um pouco decepcionado por Halphy ter nos traído. Ela era um dos três membros fundadores desse grupo e um dos mais fortes. Mas mesmo assim, com as palavras de ser tão majestoso sinto uma grande esperança crescendo em meu coração. E uma grande fome.
Todos riram. Somente Lacktum se manteve quieto, como se tivesse descoberto algo.
-Sua voz! Era sua voz – refletiu e gritou como se houvesse descoberto uma nova magia – Foi ela que havia escutado no templo dedicado a Ixxanon! Só pensei nesse fato agora, após tudo que ocorreu e meu coração se aquietou!
-Isso meu pequeno senhor das magias do espaço e tempo. Agora caminha na trilha para superar o paradoxo e controlar seu destino. Lembra do que falei: E este é o momento em que deve decidir, se sua vingança importa mais do que o controle sobre o seu destino. E você o fez. Agora deverá decidir mais uma vez, mas com outro ideal.
-Na verdade, - disse se lembrando daquele dia fatídico o inglês – foram outras palavras suas que me salvaram.
-Quais foram?
-Você tem que perguntar a si mesmo, se ainda quer um lugar ao céu, ou não. Você quer?
Nesse momento o imenso dragão esboçou um sorriso. Enquanto Lacktum, que parecia triste e desconsolado, de repente se lembrando de algo bom sorriu.

Grécia. Terra de heróis. Nessas linhas escrevo sobre uma nova personagem que irá se encontrar com dos Dragões da Justiça, já que ele concederá sua vida para protegê-los. Mas o que o destino reserva para nós quando embarcamos em uma viagem pode não ser tão bom quando imaginamos.
Seu nome era Tom Drake Harem. Ele havia recebido esse nome de um clérigo que protegia os costumes dos tempos helênicos. Cultuava a Zeus e prestava homenagem a ele. Seu surgimento diante seu pai adotivo foi algo raro: certa vez, Markus, um sacerdote de Zeus, já com grandes poderes, teria encontrado uma criança recém nascida e m uma tempestade tão perigosa e poderosa que mal sabia como o bebê não foi varrido daquele lugar. Acreditando que a mãe morreu – o menos cruel a se pensar naquele momento – ele o criou como seu filho. Em certo dia, quando os ventos do mar se tornavam poderosos demais, e a colheita da aldeia em que viviam iria ser destruída, nem Markus e seus poderes não conseguiriam deter as forças daquele tempo sinistro. E nesse pandemônio que estava à vida do clérigo de Zeus, o jovem Tom havia sumido. Para onde o pequeno rapaz, que nunca causou problemas teria ido? Será que os ventos que o trouxeram agora o tomaram de seu pai? Se for assim isso seria um choque duro demais para o sacerdote do Imperador dos Trovões. Que fosse a vida dele e não a de seu filho a ser tomado por essa tormenta! Só que ao procurar por todos os lugares, um aldeão encontrou o garoto próximo a um precipício com os braços estendidos. Seu pai foi ao seu encontro e pediu para que ele não saltasse dali, que a colheita seria reposta depois de algum modo. Mas o garoto respondeu que não estava tentando se matar e sim falar com os espíritos do ar que brincavam ali. E então ele pronunciou:
-O Pai de Tudo que Viaja em Tuas Nuvens, Senhor das Estrelas e do que Paira no Céu, Dono dos Raios e Trovões, tem piedade de mim e de teus filhos que mantém as tradições antigas com respeito e dignidade. Nossa colheita deve sobreviver assim como o povo de sua aldeia, agora manda teus filhos mais travessos pararem com isso, para que sacrifiquemos nossa primeira parte da colheita em teu nome. Quem fala é um de seus filhos mais ardorosos.
Nesse mesmo momento, as nuvens se dissiparam, as águas retrocederam e qualquer vestígio de tempestade sumiu daquele lugar. Tom olhou para Markus simplesmente falando ao pai como se fosse à coisa mais comum:
-Nosso Pai nos escutou. Zeus nos escutou!

Bons tempos haviam se passado, e o garoto Tom deu lugar a um poderoso clérigo. Ele era tão bom com a espada, quando com a lança. Seus poderes cresciam, mas nem tanto quando naquele impressionante dia da tempestade. Mesmo assim, ele era hábil em aprender os caminhos da magia divina. Fácil seria a palavra mais apropriada. Seguiu seu pai, trilhando o caminho da adoração a Zeus.
E no dia se sua partida todos os aldeões estavam o olhando com certo ar de saudade. Ele era muito querido por todos. Mesmo sendo tempestuoso demais.
-Bem amigos o norte do mundo me chama. Afinal é para lá que meu coração esta mandando ir e propagar a fé no maior dos Imperadores.
-Não vá Tom – disse um dos aldeões com ar de saudades.
-Mas eu devo ir meu amigo. Para auxiliar aqueles mais desafortunados.
-Na verdade estava só querendo meu dinheiro de volta!
-Praga de trovões – falou o clérigo.
Após isso, seu pai adotivo bateu com um cajado em sua cabeça. Nunca gostava de ver Tom praguejar; E sempre o punia rapidamente.
-Para onde pretende ir meu filho?
Ele então sorriu para Markus.
-Vou para terra onde antes havia homens que pilhavam e destruíam sem distinção, usando os mares como suas estradas e rotas de fugas. Para o extremo norte desse muno.
Alguns se espantaram, mas outros diziam que isso só poderia ser coisa de um bom e velho Tom.
-E a pedra meu filho? Esta contigo.
-Sempre meu pai. Mesmo porque eu também não consigo me livrar dela.
Aqui será necessária uma explicação: quando o jovem Markus encontrou seu filho, junto a ele estava uma pedra com propriedades arcanas. Era simples como parte de uma pequena rocha, mas ainda possuía um formato quase oval. O sacerdote de Zeus a levou junto ao recém nascido. Certa vez, ele tentou separar a pedra do garoto. Qual não foi sua surpresa ao perceber que o item sumira num piscar de olhos e voltará para as mãos da criança. Anos se passaram e nada de concreto foi obtido sobre o item a não ser que era um artefato interessante. Mesmo Tom tentou se livrar dele, uma vez ou outra, o que terminou com cenas hilárias, como uma pedra voadora que acertou sua cabeça criando uma imensa concussão.
-Talvez, não sei o motivo, mas talvez em algum lugar distante exista a resposta sobre minha origem. E dessa pedra maldita.
-Sei por experiência que você pode ser um pouco afoito, mas é sábio em suas decisões. Vá, parta meu filho. Que o céu de Zeus esteja sempre limpo em seu caminho.
-Ele estará. Pelo trovão ele estará. Adeus meu pai.
-Adeus meu filho.
E tom começou a caminhar pela estrada que ficava próxima a uma pequena e singela plantação. Só que antes de partir, ele tentou jogar a pedra mais uma vez no ar. A pedra voltou diretamente para sua mão.
-Por mil almas do Tártaro! Quando vou me livrar de você coisinha incomoda?
Foi assim que Tom Drake Harem caminhou em direção a uma aventura a qual, outros heróis já haviam se entrelaçado.

Um dia havia se passado desde que houve o combate contra Lucian e os membros do Pacto de Guerra. Todos estavam bem. E estranhamente, Lacktum esboçava um belo sorriso. Não parecia incomodado com a traição da meio elfa, nem com o fato do mago que tanto caçou ser seu irmão bastardo. Sua mente estava concentrada em partir para onde Alexander exigisse que fossem.
Para conseguir abrir o portal do templo seria necessário um grande gasto de mana. Com Nico ali, isso foi mais rápido do que muitos esperavam. È notório que dragões são grandes arcanos por natureza. O que contribui para que muitos os venerem e os temam.
Thror e Gustavo arrumavam as armaduras e tentavam manter elas o mais limpo e utilizável possível. O que era difícil visto que já estavam altamente danificadas pelos repetidos golpes que sofriam em combate. O punho do estranho monge oriental ainda machucava sua barriga, pensou o guerreiro grego.
Arctus orava. Sua fé não parecia abalada, mas duvidas surgiam em sua cabeça. Em alguns momentos, ele culpava o dragão por pensamentos tão pouco confiáveis sobre seus mestres da Santa Sé. Dizia a si mesmo que eles se deviam a alguma bruxaria dele. Só quando se concentrava demais, pensava no mais lógico: aqueles pensamentos já estavam lá mesmo antes da criatura surgir em suas vidas. Pensamentos que refletiam no que o teria feito partir nessa cruzada pelos artefatos. Sua mente estava confusa.
Só Seton parecia muito calmo. Na verdade não calmo, mas sim sonolento. Estava tirando uma pequena soneca.
O mago inglês que conseguiu energizar a esfera central do templo gritou tirando todos de seus afazeres.
-O que? Hã? – fez Seton que pareceu perdido pela atitude do colega mago – Qual o motivo desse grito?
Lacktum que tinha Valente no seu ombro respondeu prontamente debaixo da estrutura:
-Terminei de energizar a orbe do templo. Partiremos daqui a pouco. Pegue seus equipamentos mais essenciais.

Após todos estarem prontos, foi novamente um momento de despedidas. Alexander e Fiel iriam deixar o grupo.
-Bem meus caros humanos – disse o cão guia Alexander – aqui que nos despedimos de vocês.
-Muito grato cão. Nunca me esquecerei de vocês. Vão para onde? Avalon?
Alexander olhou para Nico, agora já na forma humana novamente, e disse que não. Altair havia os instruído a ir para Arcadia, o reino élfico que se localizava perto da Grécia já que havia coisas sinistras ocorrendo em Avalon. Ele não poderia explicar o que era, pois ainda não havia provas suficientes. Isso deixou a cabeça de Lacktum e Arctus confusa. Mas compreendeu que tudo se revelaria com o tempo. Nada de tentar descobrir coisas com a qual não possa lidar.
-Bem todos contados e presentes? – disse Nico falando em tom de brincadeira.
-Só mesmo Caça-Trufas que sumiu... – falou o pequeno e triste, suricate. Ele ainda acreditava que o colega medroso estava vivo, fosse lá onde estivesse.
-Bem então vamos – falou o líder dos Dragões da Justiça. Agora parecia que esse título tinha mais sentido. Ele se sentia forte para levá-los a qualquer lugar. Talvez fosse a presença de Nico, mas ele queria acreditar que não. Era que o fato que agora ele se sentia parte deles. Mesmo após a traição e as reviravoltas – não somente em sua vida, mas de todos os membros do grupo – eles eram um símbolo que deveria perseverar custasse o que custasse.
-Adeus meus jovens amigos, que Ixxanon os proteja – disse o dragão dourado.
-O mesmo me digo dragão Ikkanon – falou o mago, antes de acionar o portal – Axis mundi!
E com isso, um grande vórtice de energia de tom azul, mas que parecia ser formado por eletricidade, tocou cada um deles. Isso foi pouco a pouco fazendo que cada membro da comitiva sumisse, até que o arcano que evocou tal efeito fosse o único sobrando. Então, até ele desapareceu.
-Me diga, nobre Ikkanon vai para onde? – perguntou Alexander.
-Eu vou atrás de Halphy, mas acho que vai ser complicado, pois para isso preciso enfrentar Zacharias eu acredito.

Os jovens se sentiam como se tivessem passado por um sonho. Isso se devia ao fato que quando abriram os olhos não estavam mais na frente do lugar conhecido como Portal de Ixxanon, e sim de uma vila horrível e com um céu nublado, pouco convidativo. As casas estavam todas fechadas e pareciam ter olhos em cada fresta de porta ou janela. Eram olhos temerosos e com certo ar de pavor recente. Os jovens sentiram algo assim, mas não com tamanha intensidade. Não era mais uma sensação de sonho e sim de pesadelo.
-Onde diabo está todo mundo dessa cidade? E onde nós estamos – falou Gustavo irritado.
-Não use palavras tão feias Gustavo – disse Lacktum sarcástico – Mas verdade seja dita, não reconheço esse lugar. Não se parece com a Inglaterra. Nem com nenhum outro lugar que conheço... E estamos no inverno lembram e vejam seus pés... Terra fresquinha... Meio queimada, mas sem nada de neve.
-Verdade seja dita: parece que o lugar foi carbonizado pelo sopro de um dragão – falou um espantado Arctus.
-O que acha Thror? – perguntou Lacktum sabendo que o guerreiro era perito em certos assuntos.
-Não sei tanto de criaturas quanto você mago. Mas se pudesse dizer, afirmaria que aqui houve um combate.
-Combate? Certeza?
-Sim. Vejam – apontando para alguns pontos distintos ali – Há partes que estão cheias de marcas de pés, além de chamuscados e até mesmo terra revirada.
-Muito bem guerreiro – disse Gustavo.
Os aventureiros começaram a ir à direção da vila diminuta que nem sequer possuía um templo ou igreja. Eram estranhos os olhos por entre as casas. Pareciam querer ver as almas daqueles homens por medo. Mas ainda assim possuíam força para combater caso fosse necessário.
Enquanto passavam por ali, Gustavo perguntou a Lacktum:
-Quem é que devemos encontrar aqui? Alias, nem sabemos onde estamos!
-Se acalme paladino, pois Alexander me falou que aqui nessa cidade havia uma pessoa que me informaria onde esta o nosso alvo.
-Teremos que matar alguém?
-Não. Mas usei o termo alvo, pois ficava mais bonito. Olhe ali...
De repente, um único homem, segurando um instrumento de agricultura como se fosse uma arma, surgiu na frente da casa. Ele parecia ser o mais bem protegido por uma armadura. Isso, pois usava uma defesa quebrada e remendada. Seus pés estavam descalços.
-São amigos da bruxa?
-Bruxa? – disse Arctus rapidamente e com certa raiva nas palavras.
-Não finjam que não sabem. Usam poderes e armas estranhas. Com certeza devem ser...
-Meu caro, - falou Arctus com autoridade – juro que somos de boa índole. Deus nos protege mais do que imagina – ao falar isso, Arctus mostrou seu símbolo sagrado - E essa tal bruxa, saiba que se for realmente guiada pelo mal talvez possamos fazer algo contra ela. Eu sou um servo de Deus.
-Padre? Certeza? Parece mais com um guerreiro mercenário!
-Ora... – e quando ele iria golpear o camponês com sua maça, eis que foi detido por Thror.
-É verdade – disse Gustavo – Que os céus caiam se Arctus mente meu senhor. Diga-nos onde esta a tal mulher a quem chamam de bruxa?
Aquele homem então com o objeto de agricultura apontou na direção de uma estrada mal cuidada, e em que a grama parecia um pouco maior que o normal. Lacktum reclamava que teria que andar por aquele caminho inóspito, mas muitos já tinham certeza que era por conta da preguiça de querer passar por um caminho tão cheio de plantas.

Eles haviam chegado a uma casa depois de um longo caminho pela estrada. Era escura e parecia que possuiu vida naquela floresta há muito tempo. Mas muito tempo mesmo. Como se as forças que controlavam o bem ao redor da estrada fosse mais que qualquer coisa, banido dali para sempre. Como um sonho que nunca mais retorna a nossa mente, como uma sensação que se perde do coração quando perdemos a quem amamos. Seja para o bem, ou para o mal.
Muitos ali sabiam como era e não gostaram do que sentiam.
Longe, viram uma cabana, pequena e feia. Pelo menos parecia confortável. De sua pequena e singela chaminé saia uma fumaça pequena e convidativa. E a frente, notavam que havia uma mulher, ao que parece.
-Será ela a bruxa? – falou Seton.
-Talvez, mas não vá perguntar isso – falou seriamente o mago inglês.
-Por que não? – perguntou um curioso Thror.
-Senhorita, por acaso é a bruxa que estamos buscando desde que saímos da ilha mística de Avalon e passamos por toda a Inglaterra, perseguidos por criaturas do mal? Pergunta muito sensata – Lacktum proferiu isso sarcasticamente, mas com certa acidez na voz ao guerreiro grego.
-Hum! – o soltou em resposta Thror.
Então se aproximaram dela o suficiente para uma conversa simples. Viram que usava uma saia branca, um tanto surrada pela sujeira de um campo, com certeza. Mesmo assim parecia extremamente bela. Não havia sequer um sinal de velhice.
-Senhorita, nós...
E antes que pudesse terminar a frase Lacktum foi atacado e ferido em um ponto fatal de seu corpo. Não o matou, mas rapidamente fez jorrar sangue da ferida como um enorme jato de água. Isso ocorreu, pois escondia uma espada curta debaixo da saia com tiras de couro presas a perna.
Em seguida, em retaliação, Thror foi direto ao combate. Sacou sua espada e escudo assim partiu com tudo para contra ela. Qual não foi seu espanto, quando notou que a jovem desviou de seu golpe quase que dançando e ainda por cima, com um leve toque no punho dele, fez com que a espada longa do grego caísse. Ele ficou furioso com o acontecido.
Arctus lançou uma magia de forças divinas contra a desconhecida. Mas, novamente, ela surpreendeu a todos refletindo a magia em Arctus que ficou desacordado no chão. Quando viu que seu mais querido amigo teria tombado diante daquela mulher Gustavo gritou de raiva:
-É você a bruxa que buscávamos! – esbravejando isso, o paladino soltou sua espada com a máxima força de sua lamina. E novamente só com um toque suave de sua mão livre ela segurou a espada de Gustavo e disse:
-É até desperdício usar magia contra vocês, mas o farei mesmo assim. Troveje!
Nesse instante, ela parecia uma tempestade já que sua mão era um ninho de relâmpagos que se conduziam a arma de Gustavo. Este por sua vez, gemia com a dor provocada pela poderosa magia de outrora. Não parecia ser tão forte assim aquela magia pensou Lacktum, mas ela a tornava. Foi o que pensou o arcano.
Lacktum, sangrando muito, tentou soltar uma magia em direção a ela. Só que a surpresa foi que ela o golpeou com uma boa seqüencia de chutes – dois no peito e um no rosto – enquanto tomava impulso para pular contra Thror que mal conseguia se preparar para o próximo ataque.
-Mas que?! – nesse momento, o guerreiro grego que havia acabado de pegar sua arma, a soltou. Porém, não foi por um golpe de desarmar, mas sim por um poderoso ataque que fez jorrar sangue contra ela. A tal mulher não se importou com isso. Na verdade estava acostumada ao que parecia.
Ele até mesmo pensou em ir para cima dela novamente, mas foi detido pelo grito do líder dos Dragões da Justiça:
-Pare Thror!
-Ora qual o motivo disso Lacktum?
-Olhe para a mão vazia dela!
E quando Thror fitou a mão vazia dela, notou que lá havia uma grande e poderosa esfera de puro poder. Maior que o mago do grupo conseguiria conjurar, talvez até mesmo o dobro. Aquilo era a maior bola de fogo que um ser humano poderia fabricar até então pensaram aqueles que tinham conhecimentos arcanos. Ela dissipou a magia, com a mesma facilidade que a conjurou.
Lacktum caiu ao chão. Seus cortes e machucados eram tantos que não conseguia manter-se de pé. Ele estava cansado e deitou no chão sujo. Foi quando a mulher pisou em sua mão.
-Argh!
-Ah coitado do Van Kristen! Pensei que ele estivesse acostumado com dor!
-Praga! Alexander não nos mandou para uma bruxa, mas para um diabo! Qual o motivo de nos fazer sofrer?
Ela riu e ficaram evidentes as orelhas pontudas de um elfo embaixo dos cabelos castanhos. Com olhos sádicos, mas ainda assim muito convidativos ela disse:
-Serei eu que os treinará contra Sinestro e seus asseclas, pois já tive o sangue dele correndo em mim. Muito prazer sou Iliana Brown, a avó de sua amiga Halphy Brown. Muito prazer novamente!
-Halphy... Juro que se isso foi uma armação sua eu te pego onde estiver! – praguejou o arcano de cabelos de fogo.
-Pare com isso garoto. Não deve competência de se proteger de Halphy e acha que vai sobreviver a mim? Não me faça rir...

Ela estava em outro lugar. Cercada de ruínas de um velho, mas outrora, majestoso castelo. Era poderoso em sua época de glória alguns pensariam. Mas era hoje em dia um lugar que atraia espíritos maus. Metafórica e literalmente falando. Parecia que cada sombra dos escombros daquela estrutura pularia contra ela com garras afiadas. E houve um momento em que ela jurava que uma delas parecia passar por sua perna, como a mão de um morto faminto...
-Esse é o lugar mesmo? – falou um pouco apreensiva a jovem meio elfa
-Sim tenho certeza – respondeu friamente o mago mascarado – Algum motivo para se sentir apreensiva?
-Ah nada, é maravilhoso o lugar. Sinto-me tão bem, como se qualquer nesse lugar quisesse me matar...
-Não se desespere minha cara flor de espinhos... Logo será um lar para você...
-E um caixão também não é?
-Isso só você poderá responder. Mas devo confessar que sua frieza ao encarar os Dragões foi formidável. Pena eles terem fugido graças a Nico.
-Aquela coisa do tamanho de um castelo que brilhava era Nico? Huuuuuum que coisa interessante...
-Sim, eu mesmo constatei com as magias que ele usou para chegar até ali. Pareciam carregar uma grande aura arcana, mas raros são feiticeiros que possuem esse tipo de poder. Só poderia ser um dragão.
-Olha, pensei muita coisa, mas um dragão confesso que me surpreendeu.
-Realmente, até mesmo para mim isto foi um choque.
-Deve ter sido... Mas me diga quem tanto esta nesse castelo dos infernos?
-Não trate essa construção como algo profano minha cara – e disse isso enquanto andava em direção ao portão – Essa será a sede de um novo mundo. Um mundo controlado por nós do Pacto de Guerra. E com isso traremos a paz que esse mundo precisa.
-Acredito muito nisso.
-Por qual motivo desdenha de nossas metas?
-Pelo mesmo motivo que odeio a maioria dos homens. Pois mentem! Olhe você busca vingança. Yue Khan e Augustus são contratados pelo nosso mestre. Nem sei o motivo de Mallmor, mas conheço um mentiroso quando o ouço com dez ou mais palavras. E por ai vai. Vocês não me enganarão. Diga-me, qual a idéia de nosso mestre? O vovô esta fazendo o que?
-Pergunte para ele. Afinal, ele possui um laço de sangue com você. Não comigo.
Antes de subirem as escadas Halphy se deu conta de um fato.
-Ah sim, acabei de me lembrar... Quem me vigiava? – disse ela com uma face perversa.
-Como? – soltou um falso e sarcástico o homem a sua frente.
-Não minta para mim mago morto. Acha que nunca desconfiei de alguém me vigiando para me delatar ao grande Sinestro? Ele sempre sabia para onde iríamos, caso contrario seriamos atacados com mais rigor enquanto atravessávamos a ilha! Pensa que me engana? Seu mestre sim, você nunca!
Kalic olhou com reprovação, mas ainda assim, um tanto admirado com as atitudes daquela fealith. E então ambos viram Mallmor, que parecia trazer consigo uma mochila que se movia em suas costas. Bem estranha e bizarra era o seu movimento. Sem aviso, o anão soltou o conteúdo no chão: Furta-Trufas!
-Furta!? – falou a jovem espantada mostrando até mesmo certo sinal de receio pelo animal estar ali e fitou o mago – O que ele faz aqui? Sei que podemos ter que eliminar os Dragões da Justiça, mas me nego a matar um ser como ele. Sem culpa nenhuma!
Os três – Kalic Benton, Mallmor e o próprio Furta-Trufas – começaram a rir freneticamente. Então, o pequeno animal começou a se decompor diante de todos. Parecia que seu focinho havia se tornado um nariz cheio de verrugas, seus olhos tomaram mais expressão de algo quase humano, suas patas pareciam agora cobertas por diminutas botas, sua cabeça cheia de pelo antes, agora estava careca e seus dentes pareciam um amontoado de presas mal colocadas na boca, mas afiadas.
Quando a transformação foi completada, o ser tomou a forma de um duende. Isso era obvio pelo pouco que a jovem Halphy conhecia. Ela suspirou de alivio, mas começou a temer por si. Ele era o espião de Sinestro.
-Vejo que ainda possui muito do que chamo de fraqueza dos homens. Seus sentimentos não podem ficar a vista garota. Caso contrário, não será digna de encarar lorde Sinestro. Ele é perigoso e extremamente poderoso minha cara e sabe o que se passa nas almas dos humanos.
-Mas eu não sou humana! Sou uma meio elfa...
-Parte humana – quis insistir o mago mascarado.
-A maior parte élfica – ela soltou já um pouco nervosa.
-Tudo bem, tudo bem – disse Mallmor, apaziguando os ânimos – De qualquer modo, estamos todos juntos agora. Para deter os Imortais Esquecidos.
Halphy ergueu uma sobrancelha de espanto.
-Vamos enfrentar os Imortais e não os Dragões?
Kalic olhou serio para a jovem.
-Os Dragões são só mera distração se formos pensar, com exceção de Lacktum, mas isso é pessoal. Os Imortais podem se tornar um estorvo pelo que me passaram um homem de extrema importância no nosso circulo interno. Seu nome é Zacharias. Você o conhecerá bem...
Ele então começou a entrar, assim como o duende que não conhecia o nome. Mallmor caminhava quase que entrando ao mesmo tempo em que a jovem Brown pelo portão principal da ruína em forma de castelo. O portão era negro e cheio de detalhes em forma de dragões e cavaleiros, como se ali antes fosse um lugar em que se caçava esse tipo de criatura. Visto que todos os desenhos pareciam com bravos guerreiros com armas típicas para isso. Era um lugar sinistro agora, cheio de maus fluidos e impressões. Mallmor fez um gesto no portão para Halphy de modo cavalheiro, mas antes disse:
-Um ninho de cobras venenosas.
-Como? – soltou Halphy espantada com as palavras surgidas dele.
-Minha cara senhorita, onde vai entrar é um ninho de cobras. Se prepare, pois caso contrário o veneno que irá lhe tomar será demais para sua vida. Acredite, eu sei.

Nesse instante, Halphy viu Mallmor fechar o portão, e com isso escurecendo – talvez – todas as chances de fugir daquele lugar de sombras. Seria mesmo aquilo que ela queria? Ela teria que descobrir sozinha.

sábado, 13 de setembro de 2014

(Parte 26) A Ilusionista


Essas linhas tratam sobre a traição de Halphy Brown e como ela o fez, mesmo estando entre os Dragões da Justiça. Muito se diz sobre aqueles com alma pura, mas quando se nega a escuridão em seus corações isso os torna fracos contra o verdadeiro mal. Assim como não se deve negar a escuridão existente em nossos corações, não se deve abraçá-la completamente... Pois ela pode retribuir. Há uma teoria entre os celtas que diz que tudo que é feito – seja na Arte quando na vida – volta três vezes mais para quem o fez. Se for feito o bem por toda a sua vida, um afortunado destino o aguarda. Agora, se o mal for feito, desgraças e pragas caíram sobre você como pagamento. Agora bastava saber ser para a jovem meio elfa ela tinha feito algo maligno.
Já que para alguns, o bem e o mal, são paralelos. E até mesmo possuem muitas brechas, aos quais os corações mais astutos se usam. Corações esses que nunca se deixam enganar, a não ser por mentes mais astutas. Corações e mentes que se cruzariam.
Enquanto o grupo ainda não possuía um nome, e ainda estava sobre os olhos atentos de Arda, a jovem Halphy não imaginava o que poderia ocorrer com ela. E a magia do lugar era superior a ela de qualquer modo. Uma tentativa de revolta do grupo não adiantaria em nada, lembrando o que sua mãe sempre dizia: corações ambiciosos não duram muito em Avalon. E quem mais poderia ser mais ambiciosa no grupo do que ela? Arctus era um padre que queria poder sim, mas para ajudar os mais necessitados. Gustavo o seguia por isso, o que demonstrava sua falta de ambição, normal para um paladino. Gor era um Imortal, o que lhe deixava bem acima desses conceitos de objetivos sombrios, ela acreditava. Seton não queria mais nada, a não ser viajar e conhecer o mundo. Hugo e Richard nunca quiseram poder, se fosse assim estariam acompanhando o grupo em suas viagens mais efetivamente. Só sobrava o vingativo Lacktum, mas até ele teria seu coração acalmado. Seja lá o que ocorreu no templo de Ixxanon, fez com que começasse a agir em grupo e não do modo individual de sempre. Logicamente isso não ocorreu de uma vez, pois gradativamente ele obteve a consciência de que fazia parte de um grupo. E isso aterrorizava a garota. Se até mesmo aquela cabeça de fogo tinha mais consciência do que ela imaginava, ela seria a única que cairia diante do obelisco da ilha.
Ela aprendeu com sua mãe que o poder da ilha era tamanho que teria sido depositado em parte em uma construção que continha um antigo símbolo que tinha como significado a lealdade e a confiança. Porém, os que juram em falso testemunho qualquer coisa diante dela são atingidos por uma terrível e poderosa onda de dor proveniente das forças que fundaram a Ilha Sagrada. Sem falar na Marca do Traidor, um signo que fica implantado na palma da mão direita. Ele é parecido com um circulo quebrado, representando a confiança e fé partidas naquela pessoa, e força nenhuma no mundo mortal conseguiria retirar aquela marca.
Nesse instante, enquanto a jovem Halphy se lembrava do que sua mãe falava sobre o poderoso obelisco, surgiu em suas costas um estranho e incomodo peso. Não era de sua mochila, pois sempre deve o devido cuidado para nunca carregar demais. Uma das regras dos ladinos era carregar o que conseguia nunca o que não conseguisse levantar. E foi quando ela se virou que ela viu o duende.
-Shh! – fez o pequenino ser com o dedo indicador em sinal que queria que ela ficasse em silêncio.
O pequenino ser tinha um gorro marrom todo surrado e um pequeno colete faltando um dos três botões. Os dentes eram ficavam a mostra parecendo mais com presas e não que tivesse algum problema na boca. Seus pés eram cobertos com uma bota tão velha que mofo crescia nela. Era ele quem fazia peso nas costas da jovem ladina feiticeira, mas logo ao seu pedido de silêncio prosseguiu:
- Continue quieta sobre a minha presença aqui minha jovem ou nós dois poderemos morrer. Nós sabemos que você não passará pelo obelisco. Segure firme essa pedra, especialmente no símbolo, enquanto recita o juramento diante dele – e nesse momento, ele retirou uma pedra negra de seu bolso, que parecia sujo e cheio de trapos velhos – Mas para isso só lhe peço isso. Vá até o Carvalho Podre que fica no centro da ilha. Lá deverá conversar com uma pessoa. Você saberá quem é na hora.
Ela pegou a pedra com um símbolo na parte mais pontuda.
-E como posso confiar em você duende? – disse ela em voz baixa – Ninguém além de mim lhe vê ou ouve certo? Que tipo de criatura soturna.
-Sou mesmo soturno, mas também sou sua única chance de passar nesse teste minha jovem...
E no mesmo instante em que ela tentou olhar novamente na direção da criatura diminuta, ela sumiu em pleno ar. Como mágica, como sempre. Essas criaturas eram conhecidas por terem seus vários truques mesmo quando não seguiam as linhas da magia. Eles eram perigosos como uma arma na mão de um inimigo secreto. E este era poderoso, ela sentiu isso.
Ela usou então a pedra, faltava falar com o estranho e misterioso senhor daquele duende

Um dia havia se passado e Halphy podia agora se afastar da cidade. Pelo menos foi isso que Aluniel havia comentado. Mas pediu que não fossem na direção das brumas e muito menos da Floresta Silenciosa. Eram dois tabus enormes pelo que contavam os antigos. Isso se devia aos poderes que surgiam neles.
Nas brumas, havia como atravessar e chegar até lugares fantásticos, nunca antes imaginados: reinos submarinos dignos de Poseidon e outras divindades marinhas, terras inalcançáveis das lendas do Oriente, regiões subterrâneas onde monstros antigos e esquecidos dormiam outros planos parecidos com Gaya, terras distantes em que é possível ver bem próximo de seu rosto as estrelas que existem em todo o universo conhecido e desconhecido, as moradas dos deuses nórdicos passando pela própria Yggdrassil. Só que como era inconstante a força dessas névoas, a pessoa poderia se perder para sempre em um plano infernal, por exemplo. Ou pior. Trazer algo que ninguém deteria.
Mesmo assim, contrariando o pedido de Aluniel e mentindo a todos do grupo, falando que iria para outro lugar, a jovem partiu em direção ao Carvalho Podre que ficava na Floresta Silenciosa. E nada seria como antes.

O caminho, diferente de toda a ilha, era repleto de pedras afiadas e pontiagudas, plantas cheias de espinhos e uma sensação que tudo ao seu redor estava vivo, o que seria até bom, pois pelo menos ela saberia o que estava para atacá-la... O cavalo, um puro sangue, também temia mais por sua vida do que a própria jovem. Bem dizem que os animais conseguem sentir o mal que os cerca. E como foi criado por elfos, esse corcel sabia que estava cercado por crias das trevas. Não podia os ver, muito menos os ouvir, mas o simples sentimento que muitos chamam de instinto, forçava a si mesmo a ir contra sua cavaleira, em vão.
Fosse o que fosse a curiosidade de Halphy a forçava a continuar com força e determinação. Mesmo sabendo que o inimigo poderia estar lá, sua mente fervilhava em saber o motivo dela ter sido poupada. Há tantos naquele grupo que possuem um passado para ser usado contra eles, um motivo para serem controlados, por qual motivo ela havia sido a escolhida? Isso ainda não fazia sentido. Ainda. Mas talvez aos pés do Carvalho Podre, ela conseguisse saber o motivo de ter sido salva por seu estranho e enigmático benfeitor.
O Carvalho Podre era um dos elementais que protegiam as árvores, assim como os silfos e gnomos que protegem o ar e a terra, respectivamente. Porém, no período em que as lendas ainda eram verdadeiras, muitos falam de uma cidade que teria abusado de seus conhecimentos sobre estes seres e os enganados para que destruíssem seus inimigos. Quando uma comitiva dessas criaturas teria voltado para sua terra natal, haviam sido saqueados, pois as árvores teriam sido cortadas e queimadas em comemoração a derrota de seus adversários. Sem um lar para cuidarem, e com depredação do lugar, muitos deles se resignaram a morrer, outros preferiram procurar um novo lar. Porém, somente um daqueles espíritos não admitiu as atitudes dos homens. Um que era chamado de Pé de Carvalho, o mais jovem e mais bravo deles. Ele começou a combater sozinho todos os homens daquela cidade maldita. Só que ao terminar a carnificina muitas crianças e mulheres inocentes morreram sem necessidade. E um espírito que relatava aos deuses as atitudes de todos na terra se compadeceu com os mortais e disse
-É de o homem destruir sua madeira, sua terra, e até sua carne... Mas não é dos elementos fazer mal a eles... Por agir como um deles, tua pena é agir como um deles para sempre.
E então, Pé de Carvalho seria chamado para sempre de Carvalho Podre, com seu coração cheio das trevas que os homens sempre carregam consigo. Isso o tornou um monstro irascível que foi ao encontro de vários homens durante séculos, trazendo a destruição da natureza por onde passava. Até que um mago de grande força e poder teria o levado até Avalon, na Floresta Silenciosa, através de encantos de teleporte. Assim, ele manteria a ordem no caos tenebroso daquele lugar.
E foi ali que Halphy, aos pés de um Carvalho Podre morto, surgiu. E foi lá que ela encontrou seu misterioso benfeitor, Mallmor, o Príncipe Negro dos Anões.

O anão continuava firme e forte como daquela vez, de frente a torre de Azerov, com sua armadura de tom negro e com vários desenhos de poder inscritos por toda a armadura. As formas trançadas de suas barbas demonstravam idade e respeito. Mesmo sendo um traidor entre os de sua raça, ele parecia ser bem mais majestoso que qualquer um que ela tenha visto na ilha ou em toda a sua vida. Mesmo com os fios de cabelos brancos que surgiam ao lado de sua grande cabeleira, não parecia ser tão velhos para os padrões.
Só que Halphy sabia que não era bem assim.
Anões vivem bem mais que homens, mas não são de vidas milenares como os dragões e elfos. E o poderoso guerreiro estava velho demais para extensas batalhas, era o que todos sabiam daqueles que ouviram falar da revolta do Levante dos Escudos. Apesar de tudo isso, ela não estava interessada nas experiências do pequeno elemental de terra.
Ela desceu de sua montaria calmamente, mas seu coração não estava do mesmo jeito. Ele carregava consigo dois dos martelos, símbolos das famílias nobres dos anões. O uso de qualquer um poderia estraçalhar um homem comum, imagine então os dois em uma mera e linda garota como ela?
-Se acalme Brown, nada de mal ocorrerá a você e a sua montaria.
-Espero mesmo anão – dizendo isso, ela tirou a mão do cavalo. Parecia mais que ela o fazia por medo do que por cuidado ao animal. Até isso era aceitável, visto o terreno ao seu redor: um punhado de vinhas cheias de espinhos com um chão coberto de grama negra. Era tão escuro aquilo que parecia que uma queimada havia passado ali. E acima, num pequeno monte, jazia o famoso Carvalho Podre das lendas sobre a floresta. Parecia morto.
Notando os olhos fitando o Carvalho, Mallmor acalmou Halphy:
-Não se preocupe. Ele esta morto. Eu mesmo conferi.
-Está completamente certo disso?
-Lógico!
-Esta bem então... Mas então o que precisava tratar comigo?
-Ora, é obvio – disse ele com um sorriso que cortava o rosto barbudo – Quero que me mantenha informado sobre o que ocorre naquele grupo de jovens promissores.
-Ah sim! – começou a falar de modo debochado a jovem – Irei trair meus supostos companheiros de viagem por terem salvado a minha vida! Isso é a coisa mais obvia do mundo... Esta bem que farei isso! Conceda-me um bom motivo homem! Estamos em Avalon e logo saberão que você esta aqui seu louco!
-Acha mesmo que seria tolo de vir a uma terra onde a maioria é de elfos que possa muito bem me matar, sem estar munido de magia poderosa o bastante para me proteger ou ocultar?
-Veja bem, eu ando com um inglês sedento de vingança, um guerreiro burro com falta de memória e um homem, que ao que parece, é imortal. Não posso falar que ando próximo de muitas pessoas sãs ultimamente, se é que me entende.
Ele bufou de raiva, mas prosseguiu nas palavras.
-Meu mestre, meu verdadeiro mestre, sabe tão bem quanto eu que você não quer nem merece esse grupo de criaturas perdidas juntas de você. Sua competência, tanto em combate como em manipular os fatos até então demonstram que você é quem mais necessitamos para estar ao nosso lado, em uma posição confortável.
-Como assim eu...
Antes que pudesse responder algo. Mallmor levantou o indicador como se quisesse impedir Halphy te falar. Mas não era só isso.
-Não pense que me engana Halphy. Sabemos que só esta no grupo para, quem sabe, ir até o famoso item de seu ancestral.
Halphy nunca se sentiu tão desarmada. Mesmo com toda a magia que existia no mundo, mesmo que alguém no grupo soubesse suas verdadeiras intenções, nada seria tão rápido e poderoso para conseguir saber desse segredo que a meio elfa guardava tão bem de todos, mesmo com tudo que ocorreu em Delfos. O único que poderia estar desconfiado dela era Lacktum, mas ele ainda não tinha todas as principais respostas do que estava ocorrendo.
E isso só poderia significar uma coisa, pois quando tudo parece improvável, é que isso pode ser provável.
-Então quer dizer...
-Sim Halphy... Nosso mestre, meu e de Kalic Benton, é seu ancestral, Sinestro, o detentor e criador do item que você tanto cobiça.

-Não acredito nisso... Agora faz sentido... Tudo faz! A batalha na Grécia... Você pediu por mim e Lacktum! O resto era dispensável aos seus planos. Afinal de contas, tenho parentesco com o seu mestre. E seja ele como for, pode querer usar a mim como uma espécie de apoio. A família, apesar de desavenças, sempre será uma família.
-Não posso falar muito disso compreenda – disse o antigo lorde de modo sarcástico – Lembre-se que meus iguais hoje em dia me odeiam. E eles possuem certos laços de sangue comigo.
-Compreendo... Sim... Espere! Quer disser que o caixão que estava em Starten era...
-Era Sinestro, nosso lorde.
-Mas como pode? Nos meus sonhos e poucos manuscritos que li tudo se referia a ele como um elfo poderoso. Nenhuma relação com seres draconicos!
Nesse instante Mallmor fez um sorriso de escárnio.
-Sinestro vive á séculos... Ou melhor, viveu. Seu poder supera os meros mortais que se utilizam de magias. Ele esta pronto para ressuscitar, só o seu corpo é um empecilho.
-Se refere á enorme carcaça que reside nos Portais Infernais como um lacre, ou seja, lá que for? Eu já ouvi alguns comentários – Halphy soltou um sorriso malicioso. Ela se lembra de Delfos, da visão da criatura draconiana com uma forma maléfica. E dos homens aos quais, estão buscando os artefatos. E ela já sabia que o que fosse conversado naquele lugar, traria conseqüências para o resto de sua jornada. Mas conseqüências nunca foram uma de suas principais preocupações. Afinal, ela era Halphy Brown.
O anão notou o desejo de poder no rosto da meio elfa, e se regozijou daquilo. Seus intentos, e de seu atual mestre estariam mais próximos. Pena ele não poder os conseguir agora. Mas logo. O que demorou anos seria alcançado meses... Até semanas! Para seu próprio bem, ele se negou a pensar neles agora.
-Com isso os poderes antigos que residem no corpo de Sinestro vão ressurgir e suas metas serão alcançadas. Trazendo uma paz, já que ela nunca pode ser conquistada sem um poder superior. Ao qual, nesse mundo, só existe ele como uma criatura tão poderosa que traga esse controle. Entenda como quiser, mas o senhor Sinestro lidera nossas atitudes para um futuro glorioso onde as raças nunca mais serão escravizadas. Compreende?
Halphy boceja. Ela já tinha uma resposta e uma proposta pronta para ele.
-Olha não quero saber dessas histórias de futuro, paz... A única coisa que me interessou foram palavras sob controle. Isso é o verdadeiro poder. E também me interessam os outros e sim a mim. Ele me concedeu um poder caso eu buscasse por ele. Eu o quero. A todo custo.
-Tem certeza disso? – falou um abismado Mallmor – Não era você mesmo que tinha dito...
-Eu sei o que disse, mas agora que estou tão perto do que almejo me sinto a vontade para destruir todos.
-Como assim? – o anão poderoso se sentiu intimidado com a atitude obsessiva da fealith. Parecia que de repente a pessoa que chegou com temor de conversar com ele havia se transformado pelo ar daquela floresta negra e terrível. Seus desejos superavam qualquer medo que possuía antes. E a tornava mais poderosa. Não era a toa que descendia da família Sinestro. Seu poder emanava até em suas palavras mais tolas e sem vontade.
-Eu quero – e falava isso a jovem aproximando o rosto até o guerreiro antigo – o amuleto do meu vovô. O que contem os seus poderes mais antigos sobre a mente das pessoas. O Medalhão da Dominação.
Uma gota de suor saiu da testa do velho anão. Ele então notou que ela não tinha limites. Nem escrúpulos. Talvez ele mesmo fosse um dos membros com maior orgulho e honra entre todos com quem convivia. E mais uma cobra estava para se infiltrar naquele ninho, pensou.

Mallmor começou a falar que toda e qualquer informação obtida pelo grupo deveria ser reportada por ela, para seu mestre e ancestral. Qualquer informação importante que os aventureiros conseguissem ou qualquer item poderoso que eles conseguissem, ela como espiã, deveria reportar. Minar qualquer oportunidade de poder deter seu mestre também. E era isso que ela fez. Tudo pensado e planejado. Ela estava preparada para trair seu grupo.
A prova disso foi que ela foi presenteada com itens para lhe ajudar em seus planos, entregues e explicados pelo próprio Mallmor. Foram três: duas gemas – uma vermelha e uma azul – e uma pequena estatua em forma de leão.
A estatueta possui o poder de se tornar um enorme leão mecânico com o simples comando chave apropriado, ao qual foi falado para Halphy. Assim, quando se pronunciasse a palavra correta, ele seria acionado como servo da jovem. As pedras preciosas tinham funções distintas. O rubi era usado como um meio de comunicação entre ela e o Príncipe Negro dos Anões. Através dele, é possível falar, ver e ouvir pessoas, mesmo através de mares bravios ou longínquos. Seu poder só não atravessava as barreiras dos outros mundos. Só que não havia mesmo a necessidade, pensava ela. Por ultimo, a pedra azul, continha dentro de si um Elemental formado de pura água e poder primordial para ser usado como seu protetor em ultimo caso. Ele foi preso como tantos seres e entidades são, por itens usados como receptáculo, como gênios, demônios e outros. O comando para liberar a criatura era mais fácil ainda para ser usado como ultimo recurso.
Mallmor então aconselhou a jovem que não mostrasse os itens a ninguém, algo óbvio, mas era sempre bom lembrar. De qualquer jeito, ela os colocou no fundo de sua mochila grande. Um presente que já tinha fazia um bom tempo na viagem. Era maravilhoso para aquela função. Também falou para sempre relatar o que ocorria. E então no final disse:
-No final da viagem chegaram a um dos famosos Portais de Ixxanon...
-Como tem tanta certeza de nossa direção, baixinho? – questionou a jovem sabiamente.
-Não é o momento de saber, nem serei eu que lhe direi sobre isso. Saiba somente que um dia saberá de tudo pela pessoa certa. Continuando... Lá poderá abandonar o grupo do qual participa. Esteja pronta, pois Kalic terá preparado uma magia para lhe deixar a salvo.
-Esta bem. Posso ir? – falou ela com certa impaciência para Mallmor.
-Esta livre para voltar à cidade.
-Grata!
Antes de ficar completamente de costas para o pequeno ser, um pensamento lhe veio a cabeça.
-Mallmor... Quem será a pessoa que irá me conceder as respostas sobre tudo isso? E para onde vamos depois de tudo pronto? Isso ao menos eu mereço saber!
O velho anão tossiu um pouco. Não foi pelo lugar frio. Mesmo sendo um lugar sombrio e maléfico, a sensação que a jovem deve sobre aquela tosse foi de algo que conheceu quando ainda era uma menina que ficava nas barras da saia de sua mãe. Mas nunca seguiu os caminhos das ervas ou cura da mesma forma que sua progenitora. Ela usava esse tipo de conhecimento como uma arma para se defender. Além do mais, era só um anão velho e sem muita importância, pensou ela.
-Se quer tanto saber – e os olhos cansados de tanto tossir e um pouco sombrios começaram a encarar ela com uma revelação que traria temor se ela já não esperasse por algo parecido – vamos para um castelo bem distante, cuja localização por enquanto será um segredo. E quem irá lhe conceder as respostas, será seu ancestral pessoalmente. Não lhe contei não é? Ele logo despertará a consciência num novo corpo. Não tão poderoso quando o seu original, mas algo que possa lhe conceder boa parte de seus poderes arcanos em grande parte.

E foi assim feito: desde a partida de Avalon, Halphy concedeu cada informação ao anão como uma espiã fria e calculista. Falou sobre as brigas e o problema de Lacktum com o livro que quase enlouqueceu ele e Azerov, sobre o conflito no castelo de Van Sirian, sobre o encontro com mais um dos Imortais, sobre o resgate da Vila Meio Sangue e do Vale das Esmeraldas, e até mesmo sobre os itens que obtiveram no meio do caminho. Inclusive a poderosa arma que intencionalmente obteve do padre Arctus.
Como cartada final, Halphy sabia que mesmo mentindo maravilhosamente bem, seria questionada, pois Lacktum sempre se mostrou inteligente para deduzir certos fatos. Talvez, não tão bem quanto ela, mas ele ainda tinha na cabeça a memória de Delfos, ela tinha certeza disso. E o mago era o principal problema. Ele era mais teimoso e mais difícil de convencer do que um animal silvestre e feroz. Só que com sua astúcia sabia que se não podia mudar os pensamentos dele sobre tudo que ocorreu, poderia desviar eles para outro foco.
Halphy aprendeu cedo que para enganar os mais inteligentes teria que fazer com que a verdade fosse tão forte e contundente, que muitas vezes fizesse ignorar a mentira e falsidade. Foi então que todo o momento que pode, usou parte de seu passado para ludibriar a cabeça do arcano. Além disso, Van Kristen começou a mudar seu comportamento bruscamente devido ao que aconteceu enquanto usava a máscara do Desalmado. Realmente não parecia o cabeça de fogo de antes. E isso era útil a meio elfa.
Usando um pouco de encenação e usando fragmentos de sua vida, ela convenceu a todos na caverna do Vale das Esmeraldas. E ela agora se sentia dona de tudo.

Ela agora estava fora do templo de sombras que parecia ser o Portal de Ixxanon. Ao seu lado estava o Príncipe Negro dos Anões, Mallmor, observando que algo se desenrolava naquela enorme estrutura arcana. Ela olhava, nem com fúria, nem satisfação. Seu olhar parecia frio, como o de uma estatua criada por um dos grandes artistas da antiguidade, ao qual se torna indecifrável. Se eles morressem ou sobrevivessem nada seria bom ou mau, pensou o velho guerreiro anão. Pois ela tinha planos tão sinistros e sombrios quando qualquer um que ele havia se aliado.
Já o anão, com sua armadura que lhe concedeu parte de sua alcunha, ela não transmitia um brilho sequer. Como o negro de uma floresta depois da queimada, ou como o coração de um demônio, se este tipo de criatura ainda possuírem tal coisa em seu corpo. Seu machado, este sim, brilhava com runas na língua dos anões, como uma grande força de destruição. Ele traz consigo palavras feitas pelos seus ancestrais, mostrando de onde procedia a sua origem: séculos de tradições antigas desse povo poderoso e forte. Tanto em físico como em honra. As armas nesse povo eram o motivo de maior orgulho deles.
-O que me diz? Acha que eles sobrevivem ao poderio de Benton? – falou tossindo um pouco o idoso Mallmor. Ela já notara em conversas anteriores que o anão estava muito mal, mas preferiu não comentar.
-Duvido. Além de estar acompanhado daquele ogro arcano, Matadouro, o monge esta o auxiliando. Tirando isso existem os mortos famintos controlados pela lanterna. Isso tudo, sem contar com os claros poderes arcanos muito superiores de Kalic e sua vontade de vingança. E você me entende não?
Mallmor riu e fez uma cara de desconversa.
-Não sei do que fala orelhuda...
-Não tente me enganar me ofendendo baixote. Eu sou rápida para esse tipo de truque. Já tenho até uma teoria sobre quem ele é realmente. Diga-me, ele é meio irmão de Lacktum, não?
O anão corou de espanto e tossiu fortemente.
-Mas... Como?
-Sou rápida em meus raciocínios, além de ser rápida para matar. Então não minta, sua atitude o entregou. Ao que parece no Pacto de Guerra você é um dos mais confiáveis. Não seria de estranhar um louco por vingança como Kalic Benton confidenciar sua vida a um homem e guerreiro valoroso como você. O que me deixa um pouco preocupado... O que teria feito você decair ao ponto de servir um mago tão louco e obsessivo como ele?
-Sua sagacidade me deixa boquiaberto minha querida. Mas ainda esta longe de compreender os desígnios de minha vida, bem como de tudo que nos cerca. Quando estiver pronta para saber... Saberá.
-Se não quer falar, tudo bem meu caro. Mas juro que não vou trair meu querido ancestral Sinestro, por todo o poder que ele me concederá.
-Mesmo que quisesse – tossiu mais uma vez – não conseguiria minha cara. Ele parece ser tão poderoso, quando o horizonte é profundo. E o mesmo pode se falar do jovem e louco morto sem descanso que assumiu o nome de Kalic Benton.
-Muito bem, de qualquer modo, ele vencerá. Não importa o quanto Lacktum se mostre poderoso, ou inteligente, sua fúria cairá perante a loucura do mago mascarado. Agora que sua verdadeira identidade esta revelada, creio eu, não há nada para fazer – Halphy até riu – Se o cabeça de fogo acreditasse em milagres diria que seria bom ele rezar para que um ocorresse nesse instante.
Mallmor ouviu aquilo e pensou consigo mesmo, se aquilo não era uma prece da garota, mas ignorou naquele instante.
Era o fim. Ao menos era o que ambos pensavam até enxergarem uma luz no céu.

Era forte como um sol. Mas este já estava no alto da abóboda celeste. O que de todo modo poderia ser um sinal do fim do mundo, se tornou um temor para a ladina. Afinal, o que ela imaginou ser o único meio para salvar a todos que estavam cativos dentro do portal de Ixxanon se tornou realidade. Um milagre ocorrerá!

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

(Parte 25) Templo de Sombras



Naquele lugar, Lacktum e os dragões da Justiça ficariam por uma noite. Visto que Galtran invadiria o Vale logo, com toda a sua força militar os o líder havia pedido aos homens e mulheres que permanecessem no lagar[1] aquela noite. Com isso, Arctus mandaria uma mensagem para Coração Prateado, assim que tudo estivesse seguro.
O mago se sentia péssimo ainda. Ele ainda se ressentia pelo que havia cometido contra Draclyn. Mas a promessa estava feita.
Todo o lagar era tão antigo que Halphy acreditava que deveria ser do período em que os romanos dominavam toda a ilha. Era todo cheio de ramos, mas a estrutura ainda assim, estava forte e firme apesar dos séculos passados. E não parecia ser como uma das construções.
O resto do grupo se juntava na fogueira comunitária. Eles precisavam se sentir melhor.
Gustavo aproveitou para ir falar com Lacktum. Este estava em uma janela, olhando para o norte. Ao longe era possível notar uma construção. Com certeza era o Portal de Ixxanon.
-Lacktum, esta melhor?
-Não, mas sobrevivo.
-Rapaz, se quiser pode chorar. Ninguém te condenaria.
Lacktum fitou o paladino com certa fúria.
-Não prefiro assim. Amanhã chegaremos ao Portal. Não tenho tempo para isso.
-Você tem que melhorar. Afinal, se vamos para lá...
-Tem algo que estou suspeitando.
-O que seria?
-Que encontraremos inimigos por lá.
-Por qual motivo acha isso?
-Por conta do traidor. Ele irá relatar que estamos indo. Se já não o fez.
Gustavo olhou para o mago cheio de ares de desconfiança.
Eu lhe disse sobre o que falou, mas se acalme. Isso pode não ser verdade.
-É sim. O tal Marduk falou coisas diversas sobre nós que alguns poderiam saber, mas o fato de Thror perder a memória foi algo pouco conhecido.
-Pode ser. Mas ele não esconde esse fato de ninguém.
-Porém, aqui na ilha praticamente ninguém sabe disso. Seria impossível.
-Alguém poderia ter obtido dados com alguns de nossos conhecidos. E repassado essas informações ao Pacto – sugeriu o Gustavo.
-Pouco provável – disse o mago voltando sua face para o norte – Além disso, mesmo que fosse assim, poucos sabem disso. Mesmo quando encontramos Nikus, um homem que cuidou de Thror só havia notado que ele não parecia grego. Nem nós, nem o próprio Thror comentou isso com ninguém. A não ser que isso fosse perguntado ao guerreiro. Algo nisso não faz sentido.
-Então... Se sugerir uma possível traição esta em sua mente, quem seria o traidor na sua concepção?
-Eu tenho três pessoas em mente: Halphy, Thror e Arctus.
O guerreiro sagrado se espantou com dois dos três nomes. Logo, Lacktum mostrou o modo como chegou a esses suspeitos.
Halphy é uma jovem, muito esperta e competente. Uma pessoa que, sem falta modéstia, era tão ou mais inteligente que o próprio mago. E ela já se mostrou uma mulher extremamente calculista e fria, quando necessário. Qualidades necessárias para um espião. Sem nem comentar sobre seus talentos como ladina.
Já Thror poderia ser um simplório e tolo, mas isso era uma arma a favor dele. Já que demonstrava tremendas qualidades bélicas, significava que não fosse por suas atitudes, seria até confundido com um capitão de uma milícia ou exercito. Não contando o fato de que vez ou outra, ele parece demonstrar conhecimentos da mitologia grega que até os mais experientes do grupo se espantavam. Pode até ser que ele não saiba disso, o que explicaria os estranhos surtos de sabedoria. Alguém que não sabe o que faz é uma ótima força. Bastava agora saber como era feito a passagem de informações.
E por último o padre Arctus tinha grandes chances de ser o traidor. Ele estava no grupo mais por necessidade do que por bondade, acreditava Lacktum. Não era tão clara a aversão do sacerdote pelos membros do grupo que cultuavam outros deuses, mas ele nunca escondeu esse fato. Em uma religião monoteísta como a do clérigo, nomes do tipo de Cernunnos, Odin e Athena, são profanos. Pura heresia. O tal grupo em que Kalic Benton poderia estar de algum modo, ligado ao clero. Ninguém sabia.
-E como ele mantém os poderes sagrados? – questionou sabiamente o paladino.
-Muitos sacerdotes, de ordens malignas, ou não mostram similaridades no que nós chamamos de magia. Eles chamam de milagres. Bem não importa. De qualquer modo, conseguem simular os efeitos das magias.
-Já que desconfia do sacerdote meu amigo, qual o motivo de não fazer o mesmo comigo?
-Pois você é um paladino. Seus poderes não são fáceis de simular. Seria necessária uma grande intervenção na Arte para tal feito. Um guerreiro sagrado é como uma luz que preenche a escuridão do mundo místico. Não é uma força fácil de ocultar.
-Certo, mas então por qual motivo não podemos crer que você seja o traidor? Só por estar na caverna de Ortro não podemos o descartar.
Lacktum fitou o paladino sorrindo.
-Sagaz você Salles, porém se fosse assim o grupo estaria indo para uma terrível armadilha. Veja.
E falando isso, o jovem Lacktum sacou a adaga de metal espectral. Ela não brilhava muito, mas parte da lamina brilhava contra o entardecer que caia sobre a construção. O assassino de todo território de Van Sirian estava próximo.
-Mas a última vez que esse item brilhou – relembrou um Gustavo temeroso – nos fomos atacados na torre de Azerov.
Lacktum saiu da frente da janela e se aproximou do Gustavo.
-Ele deve estar a um dia de viagem daqui. O brilho não é tão grande para estar próximo. Lembra como ele reluzia daquela vez? De qualquer modo, é a prova que eu não vou trair o grupo. Pois eu vou vingar todos os meus entes queridos. Amanhã cedo partiremos e então saberemos se aquela prole dizia a verdade.

Muitos estavam ao redor das fogueiras, incluindo alguns membros do grupo. Os aldeões se esquentavam como podiam. O inverno ainda imperava. Isso era notado com os ventos uivantes que chicoteavam alguns com o corpo mais fraco e a saúde debilitada.
Nesse momento frio e triste, Arctus trouxe um prato com comida para os necessitados. Estava bem quente e foi entregando aos mais fracos e Seton o auxiliava. Não foi tão bem sucedido como queria, mas fez o que era possível por eles naquela noite.
Gustavo voltava para o grupo, deixando Lacktum com seus próprios pensamentos. Todos se reuniram para conversar, só que Halphy começou a cantar:

Lá onde perdi meu coração
Nunca me ensinaram o que é o amor
Quem encontrar meu coração
Diga-me, por favor, meu senhor
Alguns membros do grupo, mesmo não sabendo cantar, começaram a criar um coro.
Lá onde perdi minha paixão
Nunca me ensinaram o que é esse calor
Quem encontrar minha paixão
Diga-me, por favor, meu senhor
E assim, todos do Vale das Esmeraldas entraram na canção.
Cante meu amor,
Cante minha paixão!
Mostre para mim,
Todo o seu coração!
Muitos sorriam e ficavam mais calmos. Seus corações não continham tanto medo quando antes. Era como se a canção tivesse despertado algum bom sentimento em todos naquele lugar.
Halphy começou a sorrir e chorar, como se a muito tempo, felicidade não tocasse aquele rosto. Alegria de estar entre os mais humildes pelo jeito. Foi quando Arctus perguntou a ladina feiticeira:
- Qual o motivos dessas lágrimas minha cara? Parece feliz?
Ela notou as lágrimas escorrendo de seu rosto.
-Faz muito tempo... Eu cantei essa canção com minha mãe. Era muito bom.
Gustavo a abraçou com extremo carinho. Ela tinha novamente um lar. Uma família.

A noite caiu no lagar. De manhã, os aldeões iriam para onde Galtran deveria estar. Enquanto os Dragões os protegessem, eles revezariam turnos para isso e segurança do lugar.
Foram separados os membros do grupo, em três turnos de vigia. Gustavo ficou com o primeiro, Halphy com o segundo e por último Thror.
Haviam passados os dois primeiros turnos e o guerreiro grego da cicatriz, começava o seu. Ele ficou fora da construção, coberto por peles, olhando para as estrelas. Ficava fitando uma em especial, que parecia ter um tom avermelhado. Por algum motivo ele se sentia bem olhando na direção dela.

Tzorv começou a cantar essa música, graças à melodia de uma lira. Ele a conhecia bem. Não graças a uma de suas memórias perdidas, mas sim uma lembrança firme em sua cabeça. Quando vivia com seu pai adotivo, Orfeu.
-Pai...

O guerreiro começou a andar em direção ao som. As notas surgiam com o dedilhado de mãos suaves. Elas continham tristeza, mas também eram belas como as asas de um anjo caído. Seu canto lembrava um serafim, uma sereia ou um súcubo. Os cabelos eram brancos e arrepiados, todos jogados para cima. Dois brincos surgiam da orelha, com mantos que misturavam um pouco da roupas inglesas com as gregas. Era como encarar um ser onipotente, mas que não esboçava um sentimento sequer na direção de Thror. O poder dele estava em seu carisma, em sua autenticidade, como um poderoso dragão das lendas. Mas não era assim que um dragão se com portava. Ele já sabia.
-Meu amado pai.
-Ora meu indômito filho de criação. Continua tolo como um Hércules, ou sábio como um Perseu?
-Pai... Porque sempre me ofende? – e continuavam a falar, enquanto se ajoelhava diante do homem – Sabe que trilhos o caminho da guerra, assim como os antigos espartanos.
-Os trata como mortos? Teus espíritos estão cheios de vida, inconseqüente filho. Esparta ainda vive naqueles que acreditam em sua glória. E tu deveria se inspirar nisso.
-Lembrarei disso pai, mas me diga qual o motivo de estar aqui? E como me encontrou?
-Ora filho, meus poderes são fortes o bastante para saber o que ocorre ao meu redor. E estou aqui para lhe preparar para o futuro, pois amanhã algo irá ocorrer que mudará tua vida e de todos ao seu redor.
-Alguém irá morrer pai?
E nesse momento, Orfeu dedilhou uma corda da sua lira, fazendo com que sumisse pouco a pouco.
-Não sei se isso ocorrerá meu filho imprudente. Mas sei que irá preferir isso.
-Como assim?
E do mesmo modo que surgiu, Orfeu sumiu. Deixando pó e cinzas onde estava.

Uma noite antes de partirem, além de Thror que foi visitado pelo pai, Seton foi visitado por outra pessoa. Quando ele estava desacordado, em uma barraca improvisada, alguém surgiu como uma sombra através dos panos. E chamou o druida.
Como se estivesse em um sonho ele levantou e disse:
-Quem é?
-Sou eu. Nico. E preciso lhe falar algo.
-O que seria?
-Algo para lhe ajudar rapaz.
-Não compreendo...
-Amanhã, quando entrarem no Portal de Ixxanon saberá do que falo. Agora escute...
E se passou boa parte da noite com essa conversa.

Eis que os aldeões do Vale das Esmeraldas começaram a sair em direção a um lugar seguro. Eles andavam com especificações que Arctus e Lacktum davam, pois haviam ouvido do próprio Galtran Coração Prateado. E foi quando o líder do grupo disse.
-Bem, Dragões da Justiça... Vamos?
Todos estavam preparados. Armas próximas aos corpos, magias memorizadas e coragem em seus corações. Todos gritaram em coro.
-Avante!

Enquanto andavam, o mago e a ladina prestavam atenção no templo que começava a surgir a sua frente. Já Thror e Gustavo notavam o que era mais evidente: que ao redor do enorme templo havia uma grande quantidade de esqueletos ao chão. O que significava que há muito tempo atrás, talvez até mesmo em alguns séculos atrás, houve uma grande batalha ali. Mas tão terrível que fez com que as pessoas que viviam perto daquele lugar nunca se aproximarem dos corpos. O que fazia sentido já que nenhum dos membros do grupo queria se aproximar dos corpos. Era um misto de respeito, temor, efeitos arcanos e a divinos, impedindo que os corpos – boa parte, vestidos com armaduras da época em que Roma dominava boa parte do mundo conhecido – fossem profanados ou roubados de qualquer forma.
E no fim, chegando próximo do templo, era possível ver que lá havia vários desenhos diferentes na estrutura do templo, feita de rocha forte e antiga. Talvez tão velha quando os dragões que as lendas citam. Mas seja lá como for já tinham consciência que dragões existiam. Teriam que entrar e viajar a qualquer custo

Eles entraram naquele lugar cheio de poder, que mais lembrava um templo. Cheio de energia arcana, isso era obvio. O corpo daqueles, mais voltados para a magia se sentia desconfortável, como se o tudo ao seu redor emanasse energia. E isso criava neles a sensação de que um deus passou ali há muito tempo. Que segredos, Ixxanon passou para aqueles que o serviam? Esse poder era mais aparente com as gigantescas colunas ao seu redor que sustentavam o teto. Tinha vários metros de altura com um desenho bem trabalhado de um céu noturno. Diferente de Avalon, não havia lá um céu tão vivo, mas o lugar nem precisava. O tamanho e magnitude dele criavam a sensação esperada de uma construção dedicada a um deus dragão. No meio do lugar, mais precisamente no chão, havia também um enorme mapa que encarava o espaço estrelado do teto. Uma parte parecia seria os reinos como a Inglaterra ou França, mas havia outros – muitos outros – que nunca viram em qualquer mapa. Não havia nomes, muito menos dados, que indicassem do que se tratavam os novos mundos, se poderia se disser assim. Mas o que realmente espantava a todos eram as estruturas entre o teto e o chão: uma escadaria gigantesca que ficava em forma de espiral em um dos cantos do templo, e replicas de vários astros que compunham o espaço ao redor de Gaya – isso quem constatou foi Lacktum.
Havia todos ali. Marte, Vênus, Plutão, Saturno, Júpiter e todos os outros astros reis. Cada um com seu tamanho, e ao que parecia, tinham as formas e cores referentes a cada um. Mas o mais espantoso é que flutuavam e não estavam presos ao teto, muito menos ao chão. Eram livres como seus correspondentes. A magia predominava ali.
Além disso, Arctus não tolerou algo que fez Lacktum o censurar rapidamente. Ele afirmava que a estrutura referente ao sol não poderia estar no centro de tudo aquilo. Mas mesmo que o mago explicasse o monge nunca iria compreender que suas palavras eram as corretas sobre o assunto.
De qualquer forma, nada disso deixava te conceder esse ar de fascinação ao grupo. Parecia que tudo era feito de energia arcana pura e bruta. E com isso tornava o lugar em uma grande massa de força mística. O que causava neles uma sensação de admiração e medo. Tudo isso ao mesmo tempo, como se algo mais forte existisse. Não que nunca acreditassem nisso, havia aqueles que tinham suas religiões e credos próprios, mas era como se fosse uma parte daquele deus na terra. Uma pequena demonstração da força de uma entidade poderosa nesse universo. Em pura força natural e clara. O universo era mesmo colossal...
Ao centro, no mapa de Gaya, havia um obelisco sobre o que seria o reino da Inglaterra. Ele parecia ser feito do mesmo material da pedra que esteve em pose de Azerov. Com certeza deveria ser uma pedra dedicada ao grande Ixxanon. E foi então que Lacktum, Seton e Arctus notaram que havia um obelisco desses em cada astro rei. Então começavam a compreender, em partes, como funcionava toda a estrutura. Além disso, havia três anéis de ferro com runas especificas de transporte a longas distâncias. Isso foi visto com alguns olhares bem atentos e curiosos. Significava que através deles era possível levar o usuário para qualquer ponto do mundo conhecido... E desconhecido.
-Veja isso Thror – falou Lacktum, como se tivesse encontrado um brinquedo novo – É uma pedra de teleporte!
-Lacktum, qual parte que você não entendeu que sou o guerreiro do grupo? – soltou de forma sarcástica o guerreiro mostrando sua espada curta.
-Mas note as marcas e a cor da pedra... Isso demonstra que ela consegue viajar pelos planos... Sem grande esforço! Isso é único no universo.
-O universo é grande Lacktum – respondeu Seton.
-Bem, único para mim. Esta melhor? De qualquer modo essa pedra nos envia para qualquer lugar que consigamos energizar. Esses três anéis são um modo de nos localizarmos através da trama arcana.
-Como assim? – questionou Arctus, mais curioso do que realmente queria admitir.
-O primeiro aro de ferro é feito para levar as pessoas pela linha do horizonte de leste para oeste, e vice-versa. Algo parecido ocorre com o segundo, mas se dirige do sul para o norte. Mas o terceiro parece ser único.
-Como assim? - perguntava Gustavo, guardando sua arma na bainha.
-Veja aqui. Cada símbolo parece ter um significado em uma língua antiga, como o atlante, ou até o nórdico. Há também escrita em língua que não conheço e que até – ouso proferir – não existem nesse plano de existência.
-Como a língua dos anjos? – Arctus perguntou achando ter acertado;
-Não. Sou versado nas línguas demoníacas e celestes, só que não identifico nada desse plano aqui – e falava isso o mago apontando para uma parte do aro. Parecia que minúsculos símbolos adornavam o estranho anel de ferro que circundava o obelisco. Mas, ainda havia um detalhe que ele iria explicar – Olhem isso, há uma seta em cada anel. Deve ser o posicionamento exato ao qual cada parte deve ser colocada para enviar os usuários. Realmente esse templo pode os enviar até mesmo para outros planos! Agora compreendo o motivo de isso ser feito de aço tão nobre.
-Deve ser aço de damasco – disse Gustavo colocando a mão no aro – Dizem que é mais leve e resistente que qualquer material desde épocas remotas até hoje. Posso tocar nele sem nenhum problema.
-Creio que sim, já que ao que parece não foi carregado. Para tal, seria necessário gastar grandes quantias de energia arcana de qualquer fonte. Seja divina ou arcana! Isso é incrível! É um catalisador de energia proveniente de qualquer tipo de poder místico, que transporta o usuário para qualquer lugar que se queira ir praticamente!
-O que ele disse? – exclamou o desatento e pouco culto guerreiro do grupo.
-Nós podemos ir para onde nos pediram – respondeu Gustavo.
-Ah sim, agora entendi! Então Lacktum energize essa pedra... Lacktum? O que houve? Ei, essa adaga esta brilhando de novo!
E o mago do grupo, que até então estava ajoelhado – para melhor identificar os poderes que operavam no obelisco do Portal de Ixxanon – notou que a arma que colocava junto ao pulso, presa por tiras de couro, agora estava radiando uma luz azul.
-É Thror, e esta brilhando mais do que antes!
E do ponto mais alto da escadaria seria possível notar a figura de um ser humanóide com um, sobretudo negro coberto por peles, ao qual ainda não se podia ver direito o rosto. Ele batia palmas, mas se alguém pudesse notar atentamente, perceberia que suas mãos eram cheias de feridas e quase estavam em completa decomposição.
Ele parou com o aplauso macabro e começou a proferir:
-Muito bem Lacktum! Seu show foi algo único! Nunca vi nada igual. Sinceramente nunca vi mesmo! Maravilhoso! Mas... Agora é minha vez de ser o protagonista. Tudo bem meu querido?

Os Dragões estavam a postos. Arctus, pela primeira vez, tirou pergaminhos no lugar de sua maça pesada. Gustavo erguia sua lamina e iluminava a todos com o brilho contagiante dela. Seton apontava a foice um pouco à frente do mago, como que para protegê-lo. O próprio inglês carregava suas mãos com tamanha energia arcana que parecia uma imensa tempestade arcana. Só Thror que como sempre, demorava a entender o que aquela situação significava: uma eminente batalha.
-Ora essa que imensa raiva é essa que vejo saltando do seu coração e parando nos seus pulsos? Até parece que não esta gostando de me ver Van Kristen...
-Desgraçado! Matou meu pai, mãe, minha irmã e minha noiva! Além de ter matado um homem que valia para mim como um segundo pai e ainda tem o disparate de querer me confrontar? Você não é só louco, você é suicida! Mas eu farei o serviço para você!
-Pode me chamar de suicida meu querido Lacktum... Mas pelos motivos certos.
Nesse instante, o mago sombrio saltou ao chão sem um dano sequer ao corpo. Parecia uma pluma negra, que atinge o piso com suavidade, mas trazendo uma mensagem de mau agouro. Só que o ruivo inglês nem sequer se incomodava com isso. Ele se sentia tão poderoso que sua primeira ação foi se deslocar até Kalic Benton. Esse por sua vez gritou rapidamente trazendo o mago a sanidade:
-Azerov iria querer que soubesse os motivos do seu inimigo em combate não é?
Nesse momento, o mago parou de frente ao mascarado. Agora era possível ver claramente o adorno no rosto dele. Era de aço polido e ricamente preparado, com o intuito de só deixar os olhos visíveis. E mesmo eles pareciam não ter vida, e sim, só a loucura continuava neles.
As mãos de Lacktum continuavam a transbordar o poder das magias que ele preparou. Ele respirava com raiva e ódio em seu coração.
-O que sabe sobre Azerov seu maldito? Ele foi mais que um pai, foi um amigo fiel e alguém com quem eu me identifiquei. Eu o amava. E você o matou!
-Será mesmo? Ou será sua sina que se completa? Diga-me – e falou isso o mascarado em tom de deboche – como é nascer em uma estrela amaldiçoada?
-Do que fala seu maldito? Você realmente matou Azerov, meu mestre? Responda criatura!
-Não vê que ele não dirá nada que seja realmente necessário a não ser que sirva para confundir sua mente! – gritou Arctus se colocando um pouco mais a frente. Ele já notava como funcionavam as ações do mago mascarado. Como uma serpente que prepara seu bote certeiro contra a vítima indefesa: Lacktum.
O mago inglês estava com as emoções transbordando assim como as magias que acumulava em sua mão, como mana puro! Mas não eram as palavras de Kalic ou Arctus que o impediam de atacar. Estava à frente do assassino de todos aqueles que lhe trouxeram alegria e o que fazia ele se conter? Não era nada do que havia sido dito antes, então seria o espírito de Azerov operando nele, ou algo mais sinistro? As repostas estavam ali, naquele lugar.
-Me responda meu querido Lacktum, qual a sua relação com seu falecido pai antes dele morrer? – perguntou o sombrio arcano.
Isso sim era novidade no andar das coisas. O miserável matou todos os que ele amava, agora lhe fez uma pergunta que o desestabilizou mentalmente. A relação entre o jovem Van Kristen e seu pai sempre foi difícil. Nos momentos de fúria e decepção é fácil para qualquer um ver os entes como figuras amáveis e bondosas. Porém, revirando o baú de memórias ele começou a se lembrar da quantidade de brigas que vivenciou com ele, das discussões, do tratamento inicial ao saber que iria se casar com Lirah e tudo mais que nós, esquecemos dos mortos, não por respeito, mas por amarmos eles demais. Seu pai era autoritário, rígido e ríspido. Cheio de uma força e orgulho que não o permitiam um momento de fraqueza sequer no corpo ou na alma. Era como uma rocha forte e poderosa, fria e sem sentimentos. E quando os demonstrava, quase sempre, não era afeição e sim uma falsa sensação de satisfação quando ao filho. Pois por mais que a criança Lacktum tentasse, nunca era o bastante para Dwalin, o nobre cavaleiro Van Kristen.
 -O que isso significa bruxo? Que conhecia meu pai? Que me conhecia? Acha que cairei em seus truques? Que sua magia me engana? Nunca!
-Vejo que ainda carrega a adaga... É bom mesmo. Talvez seu maior traço de afeição fosse suas armas não é?
Novamente, o estranho arcano mascarado se revela sábio e venenoso. Isso se devia ao fato que seu pai realmente era um homem áspero e que sempre visava o lado bélico da vida. Nada mais que a força bruta, a força de combate era visada por ele. Como se os deuses dele obrigassem o jovem Lacktum a se mostrar forte para o pai. Talvez houvesse sentido em tudo aquilo. Afinal, não foi por sua fraqueza – física ou arcana – que sua família, amigos e tanto outros haviam morrido? As dúvidas que tanto tempo atrás ele dissipou agora voltavam como demônios, fortes caprichosos, maliciosos, cruéis e maquiavélicos. Era como se ver refletido na água, como a criança que já havia sido muito tempo atrás. Assim se pareciam as palavras daquele miserável.
-O que sabe dessa adaga Kalic? – perguntou com medo de fazer tal questão ao inimigo.
-Não acredite nesse homem Lacktum! – gritou Arctus novamente.
 Kalic olhou com raiva para o clérigo.
-Você é o tal padre que foi mandado pela Santa Sé... Cale-se! – e com um simples movimento de sua boca, o sacerdote do Deus Único foi calado com um pequeno poder arcano – Não se preocupe... Não o feri nem o matarei. E então Lacktum que tal voltarmos ao nosso assunto?
-Do que fala demônio? Por que usa o nome de meu pai como se o conhecesse?
Nesse mesmo instante, Kalic riu, como se Lacktum tivesse contado a melhor piada de todos os tempos. A mais bem feita e mais engraçada. Uma piada mortal. Digna do melhor dos bufões.
-Ora meu caro mago inglês. Não nota que possuímos sotaques parecidos? Somos farinha do mesmo saco podre!
-Pare de rodeios seu maldito! E me diga o que quer de mim?
-Nada filho de Dwalin, nobre do Lobo Negro, aquele que descende dos servos de Kalidor Hein Hagen. Mago que segue as linhas nórdicas da magia. Não sei direito sobre o seu mestre, mas deve ser competente para treinar um homem tão mimado... Homem? Foi o que falei? Garoto mimado teria mais sentido.
-Isso era algo que não é tão difícil de descobrir. Você quer me impressionar com tão pouco - nesse momento, Lacktum deu de costas para Kalic.
-Você se lembra de uma casa que ficava próxima do baronato, ao qual moravam uma criança e uma mulher?
Foi quando Van Kristen se sentiu desconfortável. Lembra-se de quando algo em sua vida não parece ser uma memória, mas não parece fazer sentido? Nem todos já passaram por isso, mas os poucos que tiveram essa experiência ficaram desconfortáveis. E o mago de cabelos vermelhos se sentiu completamente fora de foco. A casa não lhe era conhecida, mas tinha sido citada algumas vezes em sua infância. Discussões acaloradas lhe vinham à cabeça entre seu pai e mãe, mas nada concreto. Como se fossem várias reviravoltas na sua mente pequena.
-Quem morava lá mesmo? - perguntou se virando com calma Lacktum.
Naqueles instantes, o grupo parecia notar que na frente da máscara, não havia expressão, mas era quase como se um sorriso surgisse nela.
-Uma bruxa, uma arcana poderosa e seu filho. Que aprendeu tudo que ela sabia. Desde muito cedo.
Os Dragões da Justiça ficaram calados. Eles notavam a dança de Lacktum e Kalic como se fossem uma presa e seu caçador. Eles se moviam ao redor um do outro, e mesmo o mago ruivo sendo tão sagaz, parecia estar lidando com o mais cruel demônio dos infernos mais antigos. Mas era só um homem. Assim como Van Kristen.
-Que importância eles teriam?
-Para o seu pai? Nenhuma... Afinal, eles foram abandonados pelo pai da criança. Sendo considerado bastardo, nunca foi admitido como parte da família. Mas porque alguém faria a tolice de admitir um rebento ilegítimo? Ele já tinha uma família linda! Qual motivo ele iria desperdiçar, com uma arcana louca que maltratava seu filho por não possuir nenhuma serventia? Hein? Diga-me?
Lacktum parecia confuso. As palavras faziam sentido, mas não para ele. O que uma coisa tinha a ver com outra? Por enquanto nada.
-Quem eles eram realmente? - disse Lacktum falando para o chão.
 -Como é? - perguntou em resposta, de um jeito que seria cômico, se não fosse a situação.
 -Eles têm alguma importância, de tal magnitude, que estão sendo citados aqui. Quem eles eram e por que estão sendo citados nessa conversa demoníaca?
Kalic virou de costas e tirou a máscara. Bufou um sopro gélido que impregnou o lugar.
 -O garoto era um filho de um nobre, que estava predestinado a nascer, pois ele foi escolhido para alcançar uma graça que poucos humanos obtiveram. E que nem os deuses poderão impedir, pois escrito esta que isso será maior que tudo no universo. Afinal, eles deveram obter aquilo que é a maior verdade da vida: a própria verdade. Mas com medo do que estava escrito, o nobre mandou caçar mãe e filho em certa época. Foram acolhidos por um... Homem, que sabia dos feitos que o garoto poderia alcançar. Depois, após terríveis acontecimentos, o garoto perdeu a mãe e seu mentor. Buscou vingança contra aquele que lhe deu a vida - nesse momento, Lacktum pensou que o mago que segurava a máscara em sua mão iria falar como se referisse a uma pessoa distante, mas até mesmo o dom de voz mudou - Foi quando eu cheguei ao baronato dele, minhas mãos queimavam por vingança. Eu iria o fazer sofrer até no outro mundo. Maldito! E todos aqueles a quem amava! Não importa como fosse Dwalin iria sofrer! Sim Lacktum Van Kristen! A criança era eu, o nobre era seu pai! Kalic Benton I me cedeu seu nome, mas antes possuía um nome concedido por minha horrível e cruel mãe. Era Lucian. E meu sobrenome era para ser Van Kristen! Sou seu irmão, seu tolo e patético homem!
Lacktum se calou.
...
Thror começou a andar em direção ao seu líder de grupo. Porém, foi detido por um ataque de uma arma estranha que havia batido em sua lâmina. Parecia ser um pedaço retorcido de metal pequeno, menor do que um punho, mas com quatro pontas fortes. Quase teria feito a arma cair da mão de Thror, se este não estivesse prevenido.
De repente, das sombras, surge um homem com feições orientais, com roupas de mesma origem, bem leves. Não usava botas, mas sim sandálias surradas e sujas. Além de um rabo de cavalo enorme, apesar de quase não possuir cabelo no centro de sua cabeça. A cor de sua pele demonstrava que não era de muito longe. Além de ter as palmas de sua mão carregadas de energia arcana.
-Mas que merda é essa? - disse o careca Thror com ódio do inimigo.
-Honorável guerreiro gleco, querer me desafiar em combate?
-Mas é óbvio! - com isso, o guerreiro se levantou, pulando por cima do novo oponente, saltou com lâmina em fúria frenética. Só que nesse mesmo momento, o oriental deslizou por baixo de Tzorv, como se fosse feito de água. Tão fluente como este elemento. Em seguida, o inimigo do grego o atingiu com força arcana, como uma pedra batendo contra costelas humanas.
-Argh! - gritou ele, ao cair devido ao golpe e a dor causada. Caiu ao chão, deixando cair seu escudo de lado.
Nesse momento, Lacktum que estava atônito até então virou e começou a ir na direção do amigo caído.
-Thror!
-Não! - disse Kalic Benton mostrando sua face pela primeira vez. Seu rosto estava decomposto, não tanto quanto alguns imaginariam, mas o bastante para criar pesadelos - Não deixarei estragar a festa antes da hora - nesse mesmo instante, uma muralha invisível de energia surgiu a frente do arcano, líder dos Dragões. Batia contra a barreira com tanta força que sua mão ficava dolorida a cada golpe.
Nesse mesmo instante, outras criaturas começaram a surgir das sombras. Os menores e mais fracas eram mortos famintos, tão horríveis quando aqueles que viram em Starten, mas alguns possuíam proteções fortes. Couraças bem trabalhadas, mas corroídas com a força do tempo. Armas de mesma qualidade e duração.
Só que com eles, surgiu uma criatura maior, grande o bastante para encobrir o corpo de Arctus com sua sombra. Ele parecia com um ogro comum, mas mais magnânimo que qualquer outro. Possuía pele azul, com o peito completamente branco. Presas amareladas e horríveis criavam muito temor nos corações. Uma armadura cheia de detalhes escritos com letras na língua dos ogros, mas com efeitos mágicos e poderosos. Dois chifres brotavam de sua cabeça enorme e abaixo deles, brilhavam duas luzes de onde deveriam ser ver os olhos. Era pura energia arcana. O padre não havia notado esse ser que o espreitava por estar atônito com o que ocorria ali, além de se preparar para expurgar os mortos.
Seton grita para Arctus:
-Padre! Cuidado com o ogro!
-O que? - foi à única coisa que conseguiu responder. Logo em seguida, o enviado da Santa Sé sofreu um ataque da arma do ogro. Esta surgiu do nada. Como um vento cortante e decisivo, ela jogou Arctus contra uma das paredes do templo. Ele deveria ter ficado no chão.
Quando olhou, notou melhor a arma do oponente terrível. Era um machado feito de madeira poderosa e negra em seu cabo. Porém, havia duas lâminas em cada ponta da madeira, e cada era extremamente afiada. Mesmo com todas as marcas de batalha no terrível item, ele parecia ser forte o bastante para resistir a vários golpes poderosos. A criatura o segurava como um item de tamanho médio.
Eis que o ser grita:
-Ogro não! Ogro arcano! Me chamar Matadouro!
Era um espetáculo horrível. Todos, com exceção de Halphy e Seton estavam com oponentes extremamente poderosos. Arctus tinha a frente um ogro poderoso, o que impedia de usar seu poder para afastar os mortos. Já Thror, conhecido por seu combate feroz estava perdendo espaço para o oriental misterioso. E Lacktum via a tudo sem poder fazer nada.
O guerreiro poderoso do grupo então, com grande dificuldade, escapou do golpe daquele misterioso inimigo. E em seguida, golpeou as costas dele com ferocidade única.
-Ahá! Acertei você olhos fechados!
-Não entender polque esta contente honorável combatente - falava isso sem mudar a expressão de seu rosto - Não conseguil me derrotar, nem me matar é fraco.
-Cale a boca miserável! Com minha espada acerto qualquer um!
Nesse instante, o oponente sorriu.
-Então é só inutilizar sua arma, jovem gueleilo?
Falando isso, o inimigo saltou alto e distante o bastante para ficar numa situação segura. E em rápidos e estranhos movimentos de braços, ele finalizou golpeando o ar. E uma estranha pressão de ar afetou o corpo de Thror que ajoelhou de dor. Ele se posicionou como em um combate corpo a corpo, mesmo estando distante do alvo.
-Não achar justo moler sem saber nome de executor. Meu nome é Yue Khan.
-Desgraçado - disse isso o ferido Thror, que logo em seguida soltou sangue.
-Thror! - gritou o já triste mago – Halphy, Gustavo ajudem eles!
E nesse momento, Lacktum notou que os mortos famintos ignoravam a ladina feiticeira. Foi quando ele notou um sorriso da face de sua companheira de grupo.
-Desculpe Lacktum, mas agora é minha vez de revelar algo.
Com isso, a meio elfa sumiu em uma bolha de energia dourada do lado de Gustavo.
Lacktum ouviu a voz de Kalic, e disse:
-Ah, esqueci de lhe disser, Halphy traiu seu grupo. Era o clímax da pequena festa de despedida dos Dragões da Justiça. Pois todos iram morrer hoje! - e com isso soltou uma gargalhada de satisfação e loucura. Por último, Lacktum que tentou manter sua voz baixa em sua garganta, de repente soltou tão terrível grito de dor, que quem escutasse tal som, não saberia disser se era uma pessoa ou uma fera ferida no coração.
O grupo dos Dragões da Justiça havia sido traido, mas mais do que isso, foi por uma amiga.

Tudo havia se tornado cinzas. Nada além de pó. Sua confiança, seus exageros, tudo na vida de Lacktum Van Kristen era agora um grande nada. Era um momento em que as sombras pareciam engolir e eclipsar qualquer perspectiva nos olhos do mago. Nada mais certo, afinal, tudo tinha sido um mero devaneio de sua alma. Os amigos que perdeu ou aqueles que lhe traíram, os inimigos que derrotou e que agora tinham sido substituídos por outros... Mesmo que derrotassem as mais vis criaturas, elas nada eram em comparação a um grupo tão grande quando um batalhão de combatentes de diversas raças. E ele estava ali, impotente, sem forças. Mas o que fazer? Como? Nada era a palavra, a não ser esperar. Esperar que sua vida tivesse um rápido e triste fim. Ele estava resignado...
Mas algo estava errado.
Lacktum parecia estar diferente. Não era felicidade, muito menos prepotência. Era algo mais bruto mais selvagem. Não era confiança, tão pouco um mero devaneio de superioridade. Não era nem sequer uma fúria cega, ao qual ele tanto treinou para conter. Era mais bem mais que isso. Nada mais que a chama de um dragão que estava latente dentro dos corações a quem ninguém confiaria nada. Alguns chamam de esperança.
-Como dragões nós nascemos. Nossas espadas são nossas presas. Nosso poder é nosso sopro...
Nesse instante, Kalic Benton revelado agora como Lucian, olhava para o mago. Achava que o meio irmão estava rezando. Foi quando notou que ele simplesmente balbuciava algo. Parecia ser um brado sem sentido.
-O que fala Lacktum? Quer morrer mais cedo, é isso?
-Nossas forças são nossas garras. Nossos sonhos são nossas asas.
E enquanto pronunciava essas palavras, o arcano levantava de seu estado de catatonia olhando para os aliados. Ele estava gritando enquanto via a cena infernal.
-Vamos repitam comigo seu bando de Dragões idiotas!
-Mas o que... Espere você esta tentando os motivar?
-E nosso brado de justiça será escutado pela eternidade! Dragões levantem! Guiem suas armas para a justiça!
Em um instante, como em um passe de mágica os companheiros de Lacktum havia se levantando de sua agonia. Afinal, Halphy não traiu só o mago, mas todos os que com eles estavam. Além de que seu líder não estava morto, muito menos em agonia como antes. Ele estava firme. Mas nem tanto quanto antes, era óbvio.
Thror que sentia os impactos dos golpes gritava que depois de matar o monge, iria quebrar o crânio por ter o chamado de idiota. Arctus se sentia acuado, mas resistia bravamente com suas curas, não por muito tempo. Já Gustavo cortava os mortos com tremenda facilidade, mesmo com a imensa quantidade deles, que não rodeavam só eles, mas todos os membros restantes dos Dragões da Justiça. Mesmo Valente tinha dificuldades para livrar a ele e seus outros amigos animais dos ataques das criaturas necromânticas. Mas... Onde estava Seton?
De repente, o druida cheio de excentricidades e manias havia sumido. Kalic Benton havia desviado o olho um momento e perdeu ele de vista. Com certeza fugiu, aproveitando a confusão. Mas foi então que o mago notou que Seton não havia escapado. Já que ele surgiu do seu lado como se fosse uma sombra e pegou na mão de seu adversário cadavérico.
-Mas esta querendo morrer mais cedo rapaz? Não sabe que meu toque pode matar um homem comum em instantes?
-Você que não sabe a verdade Kalic, pois aqui não manda em nada. E eu não sou um homem comum! Sou um druida. Que as forças do Paradoxo brilhem nesse lugar. Eu exijo que o tratado antigo de Gaya venha até nós e seja respeitado por esse mago! Seton, usuário dos caminhos divinos da natureza exijo isso!
Com isso dito, as mãos de ambos brilharam, e Kalic viu uma runa surgir por alguns momentos nas costas da sua.
-Você esta convocando o Tratado do Paradoxo? Como? Só conheci magos muitos poderosos que soubessem sobre tal coisa. Ou criaturas de forças inigualáveis com magias latentes.
-Um conhecido me ensinou isso, mas não sabia se servia para algo bom. Ao que parece era sim – falou isso o druida soltando um grande sorriso.
De repente, uma luz dourada saiu de onde estava a runa e cruzou o templo. Era uma esperança surgindo, pois logo após ela sumir, conseguia se escutar um grito forte de algum ser. Um rugido forte. De uma poderosa criatura ao que parecia.
-O que é isso? – disse Lacktum ao qual foi respondido por Seton:
-Isso, é o nosso aliado, arcano mascarado.

Nas sombras, uma garota olhava a tudo com olhos de alguém mais velho.




[1] Lagar são locais equipados para espremer, por exemplo, uvas e azeitonas, e assim fabricar vinho e azeite.