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terça-feira, 8 de abril de 2014

(Parte 20) Capítulo Cinco: Necrópole



A morte contornava cada pedaço daquele lugar. Parecia uma região onde as almas se contorciam e que traziam consigo o ar do medo. Os espíritos dos mortos cantavam a Canção dos Condenados como um enorme coro. Os com vínculos com o arcano, divino e natural conseguiam ouvir os gemidos dos falecidos. Isso mostrava quando o lugar possuía uma aura de morte, sendo que apesar de experiente não possuíam força o suficiente para escutar as vozes dos espíritos corretamente. Era uma visão aterradora, não fosse pelo detalhe de serem forçados a ficar no castelo.
Havia uma tempestade de neve lá fora, criando medo a todos. Não teriam como sair da construção tão cedo. E mesmo as casas na vila não seriam o bastante para agüentar a força daquele clima. A noite se arrastaria pesadamente.
O castelo havia sido construído para Kalidor Hein Hagen, o líder supremo dos Imortais Esquecidos. Como tal, deveria resistir às forças dos elementos. Lendas contam sobre uma cigana que concedeu ao poderoso guerreiro as construção, através de uma carta de tarot, em sua juventude. Não parecia tão distante da verdade agora, pois além da aura de morte ali presente, havia uma fração de poder arcano também.
Halphy e Thror, depois de curados das feridas de combate, agiram como batedores para verificar se Diogo não teria deixado surpresas desagradáveis. E no final, estranhamente verificaram que não havia nada. Nenhum corpo, armadilha ou magia foi encontrada pela dupla. E Lacktum já sabia o motivo disso, afinal, Van Sirian deveria ser uma espécie de troféu para Kalic Benton. Cada vez mais o arcano tinha certeza que foi ele quem matou todos naquela terra. Assim como Lirah, ainda desaparecida.
A ladina verificou que além dos quartos da família, havia um salão de reuniões, uma ampla cozinha e vários dormitórios para hospedes. Esse castelo era realmente vasto em tempos passados, e deveria ter sido lindo. Agora ela entendia, em parte, os sentimentos que fizeram o mago, começar sua jornada de ódio. Mas mesmo assim, acreditava que nunca entraria em uma espiral de vingança que a consumisse a esse ponto.
Todos estavam no quarto, que em uma vida passada, pertenceu a Lacktum. Era simples e um dos mais aquecidos, não só pela lenha queimada que conseguiram achar, mas pela distância dos quartos com janelas. Era bem isolado.
A fogueira improvisada crepitava e os olhos de Gustavo fitavam as chamas com um ar de saudades... E ódio de si mesmo.
Lacktum levantou depois de certo tempo e então pediu:
-Nos conte uma história? Quem o grupo enfrentará?

Gustavo olhou fundo nos olhos do mago. Pediu que ele se sentasse novamente, pois a história seria longa. Todos se aquietaram ouvindo o paladino. Eles olharam para ele como se um conto de fadas fosse contado. Mas não seria isso.
-Vim de terras distantes, separado de meu querido irmão. Acho que talvez não soubessem – e mesmo que soubessem não faria diferença – que somo príncipes. Filho de um bom e gentil soberano que sempre prezou por seus rebentos. Quis a fortuna que ele tivesse três filhos. Eu atualmente possuo vinte verões de vida. Federick era o mais novo, que hoje deveria ter dezessete. Já Joseph era o do meio. Se ainda estivesse vivo, teria dezenove. Mas para a cabeça cheia de tramas dos nobres de nossa terra isso era um grave problema e terrível dilema. Nossa mãe morreu no mesmo dia em que deu a luz a Federick, o que fez com que nunca tivéssemos muito tempo para saber o que o abraço materno. De qualquer modo, crescemos e os costumes antigos de nosso povo diziam que um novo rei deve ser decidido antes de o antigo morrer, em um combate ritual, feito entre os herdeiros. Normalmente, ele nunca ocorria, pois sempre houve só um príncipe em cada descendência que se saiba. E esse combate ocorreria quando pelo menos um de nós tivesse completado vinte anos. Enquanto crescíamos, fomos treinados por um cavaleiro que seguia os costumes antigos da doutrina de James Gawain e seu discípulo Half, mestres nas espadas que treinaram diversos cavaleiros nobres, de diversas religiões. Seu nome era Diogo Fernandez, homem um tanto misterioso, mas sempre justo conosco. Fomos os três, treinados como seus filhos. Nesse meio tempo, os nobres pressionavam meu pai e Diogo sempre, mas nunca cediam. Mesmo assim, isso nos atingiu, pois treinávamos de forma, cada vez mais pesada... Isso criava raiva entre nós, ressentimentos... Certo dia, em um fatídico dia de treino, a batalha se estendia demais. Até que Joseph provocou a mim e a Federick. Sempre foi o melhor dos três. E nosso mestre observava a tudo... – nesse instante, o paladino fez uma pausa muito maior, tentando recobrar o controle sobre seus sentimentos – Quando em um golpe de azar, ambos acertamos o pobre Joseph. Ele deveria sobreviver a um combate como aquele. Sempre foi o melhor no combate. Mesmo assim, ele pereceu em nossas mãos. Diogo ficou irado. Ele nos amaldiçoou.
-Verdade? – soltou Lacktum.
-Ouvir disser que a maldição de um guerreiro sagrado é algo horrível – disse a ladina feiticeira se lembrando das frases de sua mãe – Um paladino abdica de seus tons e suas pragas se tornam poderosas o bastante para acabar com a vítima, ou tornar sua existência uma lastima. Se Diogo acreditava que fizeram isso por mal, com certeza as palavras teriam grande poder.
-É – falou Gustavo.
-É como se fosse uma troca? – perguntou Lacktum.
-É – respondeu Halphy.
-Qual era a maldição? – perguntou Arctus inflexível com os braços entrelaçados.
-Federick nunca morreria em um duelo justo, foi isso que ele disse. E pelo que me contaram de sua morte, isso se concretizou. Eu teria outro fim. Ele disse que eu morreria pelas mãos da pessoa que eu mais amo.

Todos se calaram o resto da noite. Cada um dias que passaram com o paladino parecera calmo até aquele momento. A vida deles sempre foi atribulada pela sucessão de combates e aventuras. A companhia do paladino sempre trouxe para todos eles confiança e bom senso. Sempre foi uma força de paz para os Dragões da Justiça. Como voltariam a ter o mesmo sentimento de antes por ele? Como lidar com um fato assim, tão sombrio? Será mesmo que os irmãos não fizeram aquilo por mal?
Tudo que foi falado fez sentido. Afinal, sempre haviam notado em ambos os irmãos certo ar de melancolia e nostalgia.
Já Arctus, não se deixaria se abater. Ele realmente se espantou com o passado sombrio de Gustavo. Mas o amor que sentia por Salles superava a precaução pedida naquela situação. Ele era o irmão que nunca possuiu.
Só sobraram acordados, o padre Arctus e o líder Lacktum. O mago olhava para a fogueira como se procurasse algo. Algo que não encontrou na vila, no castelo e muito menos durante o combate. Algo que alimentasse sua alma que ansiava a morte de certo homem de máscara. Esse algo, o cegava para os problemas do grupo.
Eis que de repente, Lacktum começou a recitar, sem notar o que saia de sua boca:
-Um dragão em espírito nós somos...
-Como? – olhou com espanto, Arctus para o arcano.
-Nada, me lembrei do Gor. Certa vez, ele disse que quando recitava uma frase diante a morte, ela temia nos levar. Muito tempo atrás em uma conversa de fogueira. Acho que era isso não é? Nem lembro mais...
-Você pensa muito no combate.
-Você acha?
-É você sempre se sente instigado a fazer o maior corte. O maior golpe possível. Nunca cicatrizando as feridas dos outros, nem as suas.
Lacktum olhou para o padre com raiva, mas também admiração por sua audácia.
-Você me considera um mau líder?
-Não... Sim, acho.
-Nem eu sei o motivo de ter sido escolhido para isso.
-Mas você foi escolhido. Não foi a mim, nem ao grego cabeça dura, nem a fealith. Foi você. E a liderança é um fardo que não se passa sem ter certeza que isso irá terminar de forma certa.
Mesmo não querendo admitir o padre estava certo. Ele não sabia que a liderança do grupo estava fazendo em suas mãos. Mas não poderia entregar seu cargo para outro tão cedo. Era necessário lutar para mostrar que sempre haverá alguém protegendo os menos afortunados. Contra qualquer coisa que o mundo jogasse de pior contra nós.
-Diga-me – falou o mago – nunca entendi essa idéia da magia divina. A Arte parte do princípio que o mana existe no corpo é todo focalizado através de nossa vontade. Assim, nós podemos criar magia.
-Já ouvi falar disso que chamam da Arte.
-Mas como vocês lidam com ela também? Vocês nem seguem os caminhos antigos da Arte. Nem você, nem Seton.
-Eu não sei quando ao druida – falou isso enquanto olhava para Seton – mas minha força vem de Deus.
O arcano riu como se alguém tivesse lhe contado uma ótima piada. Quase acordou os animais, que tinham a audição mais sensível. Quando terminou, secou os olhos.
-Me diga a verdade! – pediu o mago.
-Mas lhe disse ela. Você por acaso sente a magia?
-Mas o que...?
-Você sente?
-Logicamente!
-Eu também sinto Deus em meu coração. Através dele opero milagres. Que vocês chamam de orações.
-Mas eu não o vejo! – disse sarcasticamente Lacktum – Não vejo seus símbolos. Nem seus prodígios naturais. Como posso saber que existe.
Foi então que o padre se aproximou do mago. Então ele falou:
-Você vê a magia? Toca nela? Ou ela se parece mais com o vento que lhe cerca? Como posso saber que ela existe então?
O mago ruivo levantou em direção das próprias cobertas. Cobriu-se pronto para dormir.
-Padre ressentido. Que nervoso. Nem entendo como ele reage assim.

Todos dormiam alguns, em seus sonhos, sabiam que os ressentimentos e as duvidas surgiam em seus corações. Mas não era momento para isso. Os corações sonhavam ao invés disso. Lembravam de momentos bons e até tristes, mas todos oníricos, falsos. E mesmo nos sonhos, criavam coisas em suas mentes. Coisas belas, tristes, fortes, singelas e felizes. Mas o impossível não existia ali. Era uma palavra sem sentido.
Foi então que Lacktum despertou, olhando em direção da porta. Parecia ter ouvido uma voz na Canção dos Condenados. Uma voz conhecida. Que ele não ouvia a anos.
Ele começou a caminhar pelos corredores, sem nem notar o perigo que corria. Não avisou ninguém de seu time. Se fosse uma armadilha, ele estaria caindo direto para ela. Mas algo lhe dizia que não haveria nenhum mal naquele lugar. No salão que pertenceu a seu pai.
O lugar ainda era forrado por várias peles de ursos e outros animais caçados. Com exceção do teto, havia várias deles em todos os lados. No final do salão havia uma elevação, onde havia um trono. Todo feito de madeira nobre. Atrás dele, era possível ver uma janela circular. Passava uma pequena quantidade de neve por ela.
Lacktum olhava na direção do trono com muita saudade. Parecia até ver a forma de seu pai. Intransigente, áspero, forte e justo. Mas acima de tudo, se lembrava como ele o amava, mesmo não sendo um exemplo de pai. Ele foi seu problema e seu alivio. Seu herói e bandido. Parecia até que ele estava ali. E estava.
Sua forma espectral se formava junto com os flocos de neve que caiam da janela. Lembrava muito com sua forma em vida, mas em alguns pontos sua aparência se deformava como um borrão branco e translúcido. Parecia com um nobre cavaleiro, vestindo uma armadura pesada e colocava uma espada na cintura como um símbolo de austeridade. Toda a imagem ao redor criou um necroplasma com uma aura sobrenatural. Uma imagem majestosa, mas aterradora.
-Meu filho... Se ajoelhe. O nobre do castelo esta aqui.

Lacktum tremeu. Nunca, nesses últimos anos, se sentiu com tanto medo. Seu pai era duro e severo. A mera aparição dele – mesmo que em espírito – o deixava tão amedrontado, que fez ajoelhar pela fraqueza em suas pernas. Era como se uma mão invisível e gigante o forçasse a isso. Isso causou pavor no mago.
O mago falou para o pai com tom suplicante:
-Quer algo de mim meu pai?
O espectro olhou com ar de severidade para o rebento. Parecia nervoso mas ainda contido.
-Já nos vingou meu filho? Já nos trouxe a honra depois da morte? Diga-me.
Lacktum não conseguiu fitar mais o velho. O seu sermão ainda afetava Lacktum. Parecia que criava nele, o temor de um menino que cometeu um erro grave perante a família. Os lábios do mago inglês o traíram.
-Nã-não meu pai...
Foi nesse momento que o silêncio pairou. Mas depois de um tempo que a voz do espírito se fez ouvir como um relâmpago. Mesmo sendo transparente e translúcido, ele bateu na cadeira com força.
-Como um Van Kristen ousa não cumprir seu juramento de sangue?
-Mas como...
-Nós mortos, podemos escutar que homens pensam e falam. Os mortos sabem o que acontece na alma de seus amados. È seu dever desde que em nosso túmulo prometeu a morte de Kalic Benton.
-Então, ele é Kalic Benton? Seu assassino é ele? O mago que matou minha família inteira é Kalic Benton, que lidera o Pacto de Guerra? – Lacktum falou com um tom mais confiante.
A aparição levantou do trono, como se fosse soltar uma palavra que traria um alivio para a alma do arcano. O cavaleiro fantasmagórico andava calmamente, enquanto a neve e a luz da noite passavam pelo corpo espectral.
-Sim – falou ele sereno, mas ainda severo – Ele é nosso assassino.
-E o que quer de mim?
-Ora meu filho, o que acha?
-Quer que eu me vingue por vocês?
-Não quero só vingança. Quero que o elimine para todo sempre.
-Mas qual motivo disso? Como e qual o motivo dele queres matar vocês se vangloriar com minha dor? Não faz sentido.
-Calado!
O silêncio que surgiu depois parecia que precedia uma tempestade. O que fosse pronunciado, não seria algo bom.
-Não deve saber, mas o corpo de Sophia foi profanado.
-Minha irmã? O que houve? Onde esta seu corpo?
Foi quando o nobre espectral sacou sua espada, apontando para o mago.
-Essa será sua missão! Encontrar o corpo de sua irmã. Ela foi roubada pelo homem que estava residindo aqui. Diogo... Mas sua missão deve ser cumprida, com a finalidade de nos restituir a honra. Traga até esse castelo, com a adaga que lhe dei a cabeça de nosso assassino! Quero a cabeça de Kalic Benton II retirada com extrema crueldade!
-Sim meu pai... Eu o farei...
Falado isso, o nobre começou a sumir na luz noturna que passava pela janela. Sua forma não estava mais lá. A tempestade havia acabado lá fora. Mas não no coração do jovem Lacktum. Não. Ela ficava maior a cada momento. A vingança deveria ser concretizada. Paz aos mortos pensou o arcano.

Todos despertaram. Notaram que o mago estava com olhos vermelhos por falta de sono, ao que parecia. Halphy foi conversar com ele.
-O que houve ruivo?
-Nada – respondeu ele rapidamente.
-Como assim? Seu rosto esta...
-Nada aconteceu. Agora me deixe em paz! – falando isso, se levantou e saiu em disparada até seus pertences.
Halphy não entendeu a raiva do garoto com cabelo de fogo. Enquanto isso, Valente coçava a cabeça. Não entendia o motivo da raiva do jovem.
Alexander olhava a mesma cena no quarto, junto com Furta Trufas. O cão olhava com temor que poderia ocorrer. Sua raça, mesmo não falando era uma das mais sabia entre os caninos. Mas não era necessário muito para notar algo errado na alma do jovem Lacktum.
-Ele esta me-me-me dando medo – falou Furta Trufas tremendo.
-Não é só você, meu medroso amigo – continuou Alexander – Não é só você... O veneno nele é forte... Só gostaria de ter um emplastro para ele.

Gustavo se aproximou de Arctus. Mesmo de costas para o paladino, ele que arrumava seus pertences, falou:
-O que quer meu irmão?
-Mesmo depois de tudo que ocorreu me chama de irmão?
-Vamos ver... Você mentiu. Ou melhor, omitiu. Traiu nossa confiança. Matou um de seus entes mais queridos e nunca falou sobre isso. Seus companheiros tiveram que saber disso através de outro. Graças a isso, alguém que amava pereceu.
-Sim.
Arctus levantou com ar de sério que logo esboçou um sorriso. Gustavo ficava constrangido.
-Que sorriso é esse? – perguntou o paladino.
-Não importa o que aconteceu. Esta no passado. Somos dois amigos em uma mesma missão: reportar o que os Dragões fazem, para a Santa Sé. Nós começamos pontos antes disso e vamos terminar depois também. E meus planos precisam de você como meu protetor e irmão. Preciso de um homem forte ao meu lado, me protegendo do que vier pela frente.
-Mas eu posso ser um perigo para você! Seus planos de evoluir no clero!
-Fale baixo soltou Arctus, enquanto olhava ao redor para constatar se alguém o ouviu – Ainda bem que o seu serviço será me proteger, pois como espião você não serviria. Preciso de você ao meu lado. Quando subir, quero você ao meu lado. E saber seu segredo só nos une mais. Nós somos irmãos! E irmãos compartilham isso.
Gustavo tocou a mão de Arctus de um jeito afetuoso. Como os irmãos que eram.
-Deus esta contigo Zanien.
-Ele esta com todos nós Salles.
Foi quando Seton gritou:
-Vamos parar com essa frescura cristãos!
Os dois riram. Seton olhou para eles, que arrumavam seus pertences.
-Pelas fadas! Nós não deveríamos nos chamar de Dragões da Justiça e sim Dragões Loucos...

Eles saiam do castelo fúnebre. A ossada que enfrentaram na noite anterior, continuava lá. Mas não era isso que afetava suas mentes. Era o passado que começou a afetar algumas das mentes jovens e perigosas naquele grupo.
O paladino tinha vergonha do seu passado, mas não temia o que aconteceria. Isso graças a Arctus, que demonstrava ser mais forte do que ele, espiritualmente falando. Sua espada ficaria sempre como a defesa do sacerdote. Ele o faria sempre para proteger, assim como não conseguiu fazer com seu irmão. Jamais perderia alguém por motivo tão tolo. Mesmo que Diogo não acreditasse em suas palavras, ele provaria que estava errado. As palavras se tornavam cada vez mais fortes em sua mente. Até provar o que pensou.
O sacerdote se mostrava cada vez compenetrado em sua missão. Ele sempre viu o clero se abster dos conflitos no mundo leigo. Os camponeses eram tratados com desdém, sem o devido respeito. Arctus foi treinado por monges que acreditavam no auxilio dos mais necessitados. Mas em sua alma, crescia a idéia de que os homens não ambicionarem algo maior, o estado atual das coisas não mudaria. As crianças, os velhos e os doentes sofreriam nas mãos de nobres cruéis ou de invasores terríveis. A prova disso era aqueles nobres que deveriam servir Gustavo, que se preocupavam mais com quem herdaria o trono, do que com seu povo. O padre lutaria contra isso.
Halphy se mostrava cada vez mais certa de que Lacktum não servia como líder. Ele se mostrou, tantas vezes, como um jovem e promissor arcano, mas sua liderança não se mostrava sua maior qualidade. A torre de Azerov e os acontecimentos que se seguiram não foram o suficiente para alterar as idéias da meio elfa. Ele os liderou bravamente, mas ela também se mostrou como uma poderosa mulher no comando. Ela sabia que boa parte do grupo mostrava pouco respeito para com ela, devido ao fato de ser uma mulher. Isso ocorria especialmente no caso dos cristãos. Mas um dia, conseguiria o artefato que tanto buscava e mostraria para o ruivo quem realmente conseguiria liderar o grupo com punhos de ferro. Um dia, os Dragões da Justiça alçariam alturas colossais. Em suas mãos.
Por fim, Lacktum era um amontoado de novas e diversas emoções. Por um lado, havia as emoções que ele tinha em relação ao grupo, os Dragões. Jovens companheiros que até então, se mostravam tão inconseqüentes, mas verdadeiros. Os sentimentos deles o tocavam, alterando a ordem dos fatos tristes que afetaram a alma do arcano. Mas pelo outro lado, surgiam as memórias de alguns anos atrás, quando perdeu tudo que amava. Van Sirian, seu pai, sua mãe, sua irmã, sua noiva... Tudo em uma noite. Por conta de um demônio. Foi então que se lembrou de Delfos. Ele o encontraria, E nada poderia ser feito em relação a isso.
-O destino é um só.
Como se soltasse de um transe, Lacktum olhou para debaixo de uma árvore, onde estava o dono daquela voz.
Das sombras daquele lugar, surgia uma figura cheia de mantos brancos com aspecto arcano. Seu cabelo loiro, e todo arrepiado, mudaram um pouco, mas mostrava ainda a mesma jovialidade que tinha quando encontrou com eles na Grécia da ultima vez.
-Nico! – gritaram todos juntos.
Lacktum, Halphy e Thror, correram na direção do feiticeiro. Os outros, só olhavam com emoção para a cena, mesmo que Thror tenha tornado ela cômica esmagando a todos com aquele braço forte. Os animais olhavam para o afeto entre os quatro com um misto de felicidade e curiosidade. Logo foi explicado a eles por Arctus, que o jovem loiro foi um antigo amigo.
-O que foi? – perguntou Fiel, notando a alteração no jeito de Alexander. Os dois animais se conheciam a muito tempo e sabiam que cada um sentia quando algo os incomodava.
-Não sei... O cheiro do tal Nico... Lembra-me de um tipo de criatura... Que só senti uma vez.
Todos faziam a festa, quando Lacktum perguntou:
-Onde esta Azerov? Onde esta o velho caduco?
Mesmo com a tremenda força de Thror, Nico se desvencilhou do abraço. Todos então notaram que quando o jovem falasse, não haveria tanta felicidade. Isso era claro, pelo rosto cheio de tristeza e a cabeça baixa de Nico. Foi quando ele falou.
-Eu não sei. Ele conjurou uma magia sobre mim, que me mandou direto para as Terras Altas. Faz meses que estou aqui. Só não os encontrei antes, pois a tempestade de neve ficou cada vez pior nos últimos tempos. Só parou hoje. Através de magia cheguei aqui. Não sei mais nada sobre o mago a alguns meses. Nem ninguém que conheço da área arcana. Perdoem-me amigos.
Todos estavam tristes pela notícia. Mas Thror, logo perguntou algo que quebrou o clima triste:
-Poderia ter nos ajudado contra o enorme osso que enfrentamos.
-Ossada Thror! – corrigiu Alexander – É uma ossada!
Alguns riram, mas Nico continuou falando festivo:

-Não poderia entrar naquela cidade dos mortos. Eu estou vivo assim como vocês. Vamos meus amigos. A vida resplandece ao nosso redor e essa neve incomoda minhas pernas. A magia esta por todos os lugares por onde passamos e deixamos nossas marcas. E qual não é a maior magia da vida, senão ela própria. Por isso eu digo: a maior prova de felicidade é a vida. Vamos! Vamos embora viver!




sexta-feira, 21 de março de 2014

(Parte 19) Capítulo Quatro: Inverno novamente




Eles cruzariam as fronteiras da Inglaterra logo se não fosse o ocorrido de antes. Quando estavam caminhando, conseguiam imaginar o que deveriam fazer em relação aos atuais acontecimentos.
Sabiam que Kalic Benton estava com interesse nos itens do Desalmado e do Cavaleiro de Platina. Mas agora, descobriram que ele tinha interesse em Lacktum e Halphy. Isso foi possível imaginar, desde o confronto na torre de Azerov. O quem Mallmor falou inicialmente, era que se Halphy ou Lacktum quisessem, poderiam sair sem nenhum dano. Halphy tinha suas teorias: Kalic Benton com certeza estava envolvido com tudo de mal que ocorreu com Lacktum. Isso incluía a morte de seus entes queridos, o sumiço de Lirah – noiva de Lacktum – e a destruição de Van Sirian. Ela já desconfiava do motivo de a quererem, mas preferia não comentar com o grupo.
A neve havia cessado com a tremenda força que estava nos últimos dias. Mas era difícil atravessar as terras inglesas. Menos da metade um mês, eles atravessaram o terreno e a fronteira estava próxima. Mesmo com tantos feridos pelo caminho.
Só havia um problema. Pelo menos para Lacktum: teriam que passar por um terreno que já foi conhecido dele. Foi notado que havia muitos caminhos para cruzar aquele terreno. Mas todos estavam sendo protegidos pelo exército inimigo. E então Lacktum, Halphy e Arctus decidiram que chegariam as Terras Altas por aquela região.
Enfim, a noite caiu como um manto, enquanto a neve ainda descia como plumas. Isso criava no mago uma nostalgia sombria. Ele se lembrava de ver o corpo de seu pai, mãe e irmã. O pai que enfrentou o inimigo de máscara. A mãe e a irmã que nunca fizeram nada a ninguém. E Lugarao’Céu... só viu a casa dela ardendo em chamas.
As lembranças foram esquecidas por alguns instantes. Era possível ver uma pequena vila não muito longe e um castelo, outrora majestoso.
-Meus amigos – falou o arcano – esse é o condado de Van Sirian. Minha terra natal e meu antigo lar.

Eles passavam pela vila, que lembrava a necrópole do Oriente em que encontraram Kalidor. A diferença é que mesmo com o silêncio mórbido da vila igual ao do lugar onde deixaram Federick, os corpos não estavam em sarcófagos e catacumbas. Estavam nas casas, nas portas, na estrada e no caminho do castelo. Todos jogados ao chão, alguns pareciam se abraçar em uma comovente cena. Alguns picados por corvos, outros devorados por animais do tamanho de cães. Havia até mesmo vermes em alguns devorando carcaças humanas. Crianças, velhos e animais. Homens ou mulheres. Não houve piedade no confronto que participaram. Logicamente, se passaram alguns anos desde que o confronto aconteceu, mas suas marcas deveriam permanecer naqueles que sobreviveram ao caos daquele dia. E até onde se sabia, Lacktum era único sobrevivente de Van Sirian. Bem assim como dos nobres daquela terra.
Gustavo e Arctus rezavam a cada instante em que permaneciam ali. Lacktum ordenou que nenhum corpo fosse tocado, pois temia ataques de mortos famintos naquele local.
Agora muitos entendiam de onde surgia a petulância do mago, a arrogância e -acima de tudo – a raiva dele. Qualquer um que tivesse um episódio como esse, durante sua juventude, poderia forjar seus sentimentos com puro ódio. E era algo que Lacktum, talvez, superasse.
Mas enquanto caminhavam, indo em direção ao castelo, ouviram o grito de Fiel. Ele havia o mandando a frente para saber o lugar era seguro. Quando desceu, o clérigo perguntou:
-O que foi esse grito de alerta?
-Vi luzes no castelo. Abandonado ele não esta.
Continuaram a andar.

O portão continuava destruído, assim como o arcano se lembrava das cenas do massacre. Com certeza, as aldeias ao redor, acreditavam que o lugar era mal assombrado. E não era para menos.
Além disso, graças à neve que caia, havia enormes montes de neve. Ela cobria as construções ao redor do castelo. Outras só certas partes. Mas a entrada do castelo estava livre.
Lacktum então pediu:
-Gustavo, nos mostre se o mal aqui reside.
Quando o paladino iria pressentir se havia mal no lugar algo aconteceu.
Uma luz surgiu da entrada do castelo. Lembrava uma lanterna, mas extremamente sombria e de tom azulado. Uma fumaça com uma aura diferente, quase divina. E era possível ouvir a canção dos condenados através dela.
Das sombras surgiu uma armadura de tom ébano, que se confundia com a noite. Era uma loriga segmentada. Com a mão direita, portava uma lanterna que era fonte da iluminação sinistra e com a esquerda segurava uma espada longa. Tinha uma capa de cor negra, que era presa por um broche de rosa negra. No elmo, havia uma enorme pluma de cor sombria.
Lacktum esperava encontrar Kalic Benton, mas ao notar corretamente, um mago não portaria uma armadura. E não parecia se tratar de um revenant solitário. Um verdadeiro cavaleiro com aura sinistra.
Ele parou a uma boa distância do grupo. Colocou a lanterna presa a cintura e fixou a espada no chão, cheio de gelo. Pousou as mãos sobre o cabo da arma.
-Caro Gustavo, não vai me apresentar seus colegas? Ou pretende matar eles também? – disse o homem de armadura.
Foi quando o paladino, mesmo sentindo muito frio, começou a suar frio. Aquela voz o atormentava no passado, com raiva, mas autoridade também. Uma voz que se aproximava do tom paterno. Alguém sumiu da vida do paladino, até agora.
-Diogo! – gritou um Gustavo completamente desnorteado, com o corpo tremendo.
-Quem é esse homem? – perguntou Halphy.
Foi quando o estranho de elmo falou:
-Eu me apresentarei. Meu nome é Diogo Fernandez, antigo mestre do estilo do Lobo Sacro. Atual mestre da Rosa das Trevas. Antigo servo de Kanglor, pois hoje sirvo a Hel. Mestre de nobres e príncipes. Meus últimos pupilos se chamavam Federick, Gustavo e Joseph. Três príncipes de terras distantes. E houve a morte de um deles pelas mãos dos outros. Minto por acaso Gustavo?
Todos olharam para o paladino com espanto. E este abaixou a cabeça. Seu silêncio mostrava que era verdade.

-Ora Gustavo, diga que é mentira! Que isso nunca aconteceu! Esse homem não fala a verdade! Não é?
Ele continuou com a cabeça baixa e olhos cerrados. Não queria admitir que um passado negro condenasse os irmãos Salles. O que faria? De repente Lacktum soltou sua língua ferina contra o homem de armadura negra.
-Eu não quero saber sobre isso. Temos um inimigo que possui uma réplica da Lanterna dos Condenados. Ou pensa que o fato de ter falado sobre isso, nubla a certeza de possuir esse item. E até onde sei, Gustavo demonstra mais honra que você. Um homem que muda de estilo de combate e deu? Há! Faça o favor de não insultar a minha mente. Quer saber alguém que não merece confiança aqui, esse alguém é você!
A armadura negra não se mexia. Mas dela surgiu mais uma vez a voz de Diogo.
-Muiti bem... Lacktum, eu suponho? Kalic Benton me falou muito sobre você. O que disse até agora faz jus ao seu intelecto.
-Muitas coisas ruins eu suponho – falou o arcano.
-Tem coisas boas? – cutucou a meio elfa
Foi quando Gustavo soltou um rompante de fúria contra o antigo mestre. Ele se lembrou dos ensinamentos de Diogo. Coisas que vinham do tempo que James Gawain criou o estilo do Lobo Sacro: um inimigo declarado é um inimigo; uma espada desembainhada tem como repouso ou a bainha de seu dono, ou o peito de seu inimigo; e se a espada não serve para matar, ela deve proteger aqueles que amam.
-Minha lâmina! Seu pescoço! – gritou exaltado o paladino.
-Muito bem meu pupilo – disse Diogo, sorrindo – Mostre as garras. Mas tenho que partir para tratar assuntos mais importantes...
De repente, Gustavo sacou a espada que portava. Ele correu com ela, curvando bastante seu corpo, com o escudo na frente. A espada, que estava toda voltada com a ponta para trás, seria um golpe circular certeiro. Seria certeiro, se tivesse acertado a espada.
Antes que chegasse a tocar o antigo mestre puxou a lanterna e proferiu:
-Que os espíritos surgidos no mal, me obedeçam prontamente. Aqueles que não enxergaram a luz me obedeçam imediatamente.
Foi quando Gustavo interrompeu a trajetória, devido a um tremor no lugar. Quando notaram, achavam que era um terremoto, mas não era forte o bastante. Então, foi que Lacktum conseguiu notar algo tão tolo que passou pela sua mente tão rápido. Uma das casas cobertas de neve não era uma casa.
-Mas o que?... – soltou Gustavo.
-Gustavo! Volta – gritou Lacktum.
Nesse instante, o paladino saltou para trás, com o intento de não ser esmagado pela neve.
A neve caia, enquanto o ser se erguia debaixo dela. Parecia que a criatura surgia de algum pesadelo. Era gigante. Do tamanho de uma torre.
-Um gigante? – perguntou Arctus aflit.
-Não existem gigantes na Inglaterra! Pelo menos a alguns século! – falou Lacktum, respondendo rapidamente.
-Então o que é aquilo? Um cachorro grande? – falou Thror.
-Talvez um revenant? – gritou Seton.
-Não! – falou Halphy irritada e puxando alguns dos membros do grupo para trás de uma construção – existem muitos revenants, mas nenhuma armadura cobriria um ser tão grande por completo! Essas coisas precisam ser cobertas por inteiro para se locomover, pelo que entendo.
-Maldição! – soltou Rufgar nervoso.
-Praga! – disse Alexander.
- O que foi? – disse Valente, prestes a partir para cima do inimigo, se não fosse Lacktum o segurar. Todos estavam atrás da construção agora.
-Esse cheiro que estou sentindo e pelas palavras daquele homem... Acho que se trata de um morto faminto!
-Praga – disse Thror.
-Praga nada! Arctus pode o expulsar! – falou aliviado Lacktum.
-Por isso! – respondeu tristonho o grego.
-Mor-mor-morto faminto? Ai... – Furta-Trufas caiu depois de falar isso. Halphy o pegou em seus braços.
A criatura parecia combinar um enorme tamanho com uma força descomunal, mas não era só isso que ele trazia de assustador. Era uma criatura como uma ossada com vida. Enormes pontos de luz avermelhada cintilavam em suas orbitas vazias. Um enorme esqueleto, que obedece a seu mestre maligno, como um boneco nas mãos de seu dono. Esses seres atacam até serem completamente destruídos ou eliminarem seus alvos. A monstruosidade era o esqueleto de um gigante, que saia da neve.

-Com certeza animaram o corpo de um gigante e o trouxeram até aqui – falou o arcano.
Estavam todos escondidos, com medo do ataque do monstro. Só que Halphy constatou:
-Eu acho que se trata de uma criatura grande demais para nos esconde dela.
-Acha mesmo? – perguntou temoroso Seton.
Foi quando sua mão, em forma de garra esquelética, despedaçou o telhado da construção. Alguns pedaços voaram na direção dos Dragões, mas nada que os ferisse. Furta Trufas, que parecia acordar, desfaleceu novamente.
-Deixem comigo! – falando isso, Gustavo se levantou com rapidez em direção ao monstro. Seu olho parecia cheio de raiva, O pior é que Diogo não estava mais ali. Ou seja, o alvo de sua fúria sumiu. Mas o mal permaneceu.
-Que a lâmina de Deus venha até mim. Pelo nome de Mikael, príncipe dos arcanjos, que o mal pereça na minha lâmina.
Nesse momento, a lâmina de Gustavo se encheu de uma aura brilhante e cintilante. Com o valor de seu coração, a arma percorreu o ar até acertar a perna do esqueleto. Aparentemente, afetou demais o oponente sinistro. Isso era claro, pelo grito sinistro que o esqueleto. Lembrava o uivo de um lobo, com extrema tristeza.
Com isso, Arctus pegou seu crucifixo e a levantou contra o ser das trevas. E como um poderoso homem, exclamou:
-By the name of God and Metatron, the prince of the seraphim. Through this names that bring truth, release this site from all evil. Amen
Uma aura de grande bondade e poder surgiu ao redor de Arctus. A paz que irradiava, criava uma redoma de força que se dispersou e deveria destruir o monstro, mas não o fez.
Os poderes de alguns sacerdotes com fé verdadeira conseguiam operar milagres. Entre um desses um desses milagres, estava algo chamado exorcismo. O dom de afetar entidades malignas como gênios, demônios ou até mesmo anjos das trevas. Mas algumas vezes, esse dom é usado para manter espíritos que não alcançaram a luz até o Além[1]. Normalmente, quando isso ocorre, os espíritos inquietos se enfurecem. E a enorme ossada não era exceção.
Ela se debatia como se estivesse em pura fúria. O crânio girava muito rapidamente como um mangual pesado erguido em combate. E o monstro já tinha decidido quem destruir.
Foi quando Gustavo pulou na frente do golpe que seria feito contra Arctus. O pobre paladino bateu contra uma parede. No mesmo momento desmaiou.
-Gustavo! – gritou em desespero Thror.
O céu anunciava uma tempestade. Mas a verdadeira destruição ocorria no chão. Pequenas construções que restavam, eram demolidas pelo simples encostar do monstro na madeira. Aquilo fazia Lacktum temer. De repente se lembrou de dois anos atrás. Não sabia o motivo, mas algo naquilo tudo fez lembrar-se do massacre de tudo que amava. Ele ficou estático de medo. Não conseguiu enfrentar os próprios temores. E a meio elfa notou isso.
-Lacktum! – batia e falava a ladina feiticeira – Nós precisamos de você aqui.
Será que tudo iria acontecer novamente? As únicas pessoas importantes de sua vida sumiram naquele lugar. Ele se sentia medo, pois novamente era inverno.
-Maldições de Odin! – disse o transtornado arcano – Esse lugar é uma maldição de algum gigante ou força das trevas! Só isso explicaria tantos problemas! Por Asgard!
-Estou achando que ele esta dominado pela lua – disse em tom baixo o druida.
-Quieto Seton! – pediu Halphy.
Arctus levantou o companheiro caído. O golpe foi terrível, mas não havia tempo para aplacar a dor. Quando notou, estava atrás de uma construção. Mesmo não estando vivo, a ossada gigante parecia soltar um hálito congelante. Isso cobria todo o local ao redor dos dois, deixando o clérigo com mais medo do que frio.
-Arctus! – gritou a ladina, antes de tentar voltar a tirar o mago daquele estado – Vamos Lacktum, se continuar assim, Arctus e Gustavo vão perecer diante de morto faminto!
-Esse lugar é amaldiçoado. Só existe essa explicação! – Lacktum enlouquecia cada vez mais.
Halphy tinha que fazer algo em relação ao arcano. Então, se lembrou do nome de alguém que poderia o retirar daquele estado.
-Pense em Lirah! O que acha que ela pensaria disso? De sua atitude agora?
Isso deveria fazer o ruivo reagir, mas nem isso foi suficiente. Foi quando uma idéia passou pela mente da ladina. Se ele não foi comovido pelo nome da mulher amada, talvez se revoltasse com a memória do inimigo.
-Olhe aqui, seu mago egocêntrico e manhoso – disse ela com ares de razão – se não em ajudar Kalic Benton irá vencer! Eu não sei o motivo de me querer viva, mas eu sei o querer você: ele quer te atormentar! Quer acabar com cada fração de razão que você tem! Quer deixar que ele vença? – falava isso enquanto puxava, com força, a camisa do mago – Que perder tudo? E quando digo tudo, falo dos Dragões da Justiça! Nós estamos juntos desde Starten! Se não somo companheiros somos o que?
Lacktum levantou seus olhos. Eles continham a raiva de antes, o mesmo fogo de ódio. Halphy soube atiçar o jovem mago.
Ele então levantou com certeza de que só um Van Kristen teria.
-Após o inverno, vem a bonança! Thror se prepare para a luta! Tenho um plano.
-Certo! – respondeu o grego.

-Halphy! Você, Alexander e Fiel, chamem a atenção daquela coisa!
-Ah que maravilha! – disse a ladina com tom de reprovação – Nós somos a isca!
Nesse instante, Halphy e os dois animais, correram em direção ao monstro. A criatura parou seus ataques ao sacerdote para matar seus novos alvos.
-Thror se prepare para magia – falou Lacktum para o grego.
-Como? – se espantou Thror.
-Arctus! Venha aqui! Seton você também. Se aproxime.
O padre ouviu o grito da direção dos colegas, deixando Gustavo em segurança antes. Colocou o paladino próximo de um estábulo. Em seguida foi até os companheiros. Lacktum, quando notou todos ao seu redor, falou seu plano.
-Vamos preencher Thror com poder suficiente para destruir este ser – falou ele com certeza do que falava – Acho que Gustavo já o feriu bastante, mas acredito que minha magia não vai afetar o monstro. Nem a de ninguém.
-Mas por qual motivo não preenche a mim, então? – reclamou o druida.
-Você é guerreiro?
-Não.
-Ai esta sua explicação.
-Praga!
-Mesmo que fosse notou o que tem na ponta da corda que segura?
Ele olhou para a corda e notou o que havia na outra ponta: o desarmado Rufgar.  Novamente, Seton se decepcionou.
-Praga novamente!
-Preparem as magias – disse o padre Arctus.
-That rage ignite both this warrior, that his rage fill his blade against the enemy.             
Agora é sua vez druida
-Eich arf bydd un diwrnod yn dod mor beryglus â'r hud sy'n treiddio y byd hwn.
É com você Arctus
-Dio guidare la vostra lama. Essere letale come la spada di Gabriel.
Agora vá Thror. Vá e faça o melhor que puder!
-Podem deixar comigo! – disse o grego em resposta.
Os músculos de Thror aumentaram de modo particularmente rápido. Literalmente, pura mágica. Sua espada possuía também duas auras: uma que irradiava energia cintilante e dourada, já a outra, possuía cor branca. Era como se Thror tivesse crescido tanto em alma como em corpo. O grego mostrou que a magia o permeava.
Ele correu na direção da torre. Arctus e Seton estranharam a ação, mas Lacktum os acalmou. Já imaginava o que Thror faria.
O grego subiu a escadaria. Em ritmo frenético passou, sem ver um quarto sequer, por toda a extensão da torre. Chegando lá, viu a janela, e então soltou dela.
Enquanto o monstro terrível atacava a jovem Halphy e os animais, muitos notaram o salto louco que Thror fez como um demônio saído do Inferno. Suas pernas procuravam um lugar seguro, enquanto o corpo percorria o ar. Então, a corrida aérea teve fim.
A lâmina cheia de mana despedaçou parte da mandíbula da enorme cria da necromância. Ela quebrou como se fosse feito de material muito pobre. Mas todos sabiam que isso se devia a magia.
Novamente, a criatura expeliu um grito. Parecia mais um rugido de uma fera ferida, agora. Com o golpe caiu, quase esmagando alguns dos membros dos Dragões da Justiça. Um pedaço de madeira acertou Arctus, quando o monstro caiu sobre ela, atingindo o padre na cabeça.
-Arctus! – gritou o druida.
-Concentre-se! The sound travels through the air and becomes a weapon. This all with the slightest movement of my hands.
Nesse instante, das mãos de Lacktum que se bateram, surgia um vórtice sonoro que incomodava todos. Não afetou de vez a ossada, mas foi o suficiente para o druida usar uma magia.
Ele tocou o gelo, enquanto recitava:
-Mae'r rhew o'n cwmpas yn dod yn y carchar!
Foi quando a neve de baixo da ossada começou a cristalizar. Ela ficava ao redor da perna do esqueleto, o impedindo de andar. O rugido que ele soltava ficava cada vez maior. Parecia um enorme leão com a bata ferida por um caçador.
Enquanto isso, Thror ficava no chão, caído como um morto. Mas só estava cansado.
-Levanta careca! – gritou Halphy desesperada.
-Esta bem – soltou Thror inconformado – Mas eu quero descansar!
Thror levantou com o escudo acima da cabeça e abaixou a espada. A ponta da arma ficava na direção do chão. Flexionou o joelho, de modo que o bote fosse perfeito. Naquele momento, como poucas vezes acontecia, seu ar caricato sumia. Com a batalha, Thror parecia ser outra pessoa, possuído por um espírito bélico. E então, em disparada feito um relâmpago, a espada curta fez um novo golpe na perna do monstro.
A pena já havia sido congelada o que facilitava mais o golpe. A enorme criatura caia depois do corte perfeito de Thror.
Mas antes que tombasse por completo, o grego acertou o que seria perto dela em um grande ato de força.
-Γιατί Άρης!
No fim, o morto faminto de ossos se espatifou, trazendo silêncio repentino. A aura de morte parecia permear todo o lugar mesmo com a ossada em pedaços na frente deles. Na verdade, isso criou um clima mais sinistro ainda, ao lugar.

Quando tudo acabou, Lacktum notou uma luz bem ao longe, na direção das fronteiras.
Ele então pegou algumas tiras de couro e dois objetos sólidos e transparentes. Colocou junto das tiras os objetos de modo que o maior ficava na frente do menor.
-O que é isso? – perguntou Arctus, enquanto subia no estábulo junto com o mago.
- Uma luneta – respondeu – Eu comprei de um oriental de uma de nossas aventuras. Conseguimos ver ao longe com ela.
-É bruxaria?
Lacktum tirou a visão do item e olhou com raiva para o padre.
-Você anda com uma maga, uma meio elfa, um druida e ainda fala sobre bruxaria? O nosso problema mesmo é o que estou vendo. Pegue isso olhe.
Arctus, desconfiado e desajeitado, olhou através do item.
Ele viu Diogo em cima de um cavalo marrom, com pelagem bem cuidada. Havia tirado o elmo negro e mostrava sua face. Estava em carne viva, como um cadáver que morre esfolado. Seus dentes a mostra, pareciam presas e seus cabelos mal concediam uma aparência humana a ele. O que era mais claro mesmo era o brilho da Lanterna dos Condenados falsa que portava consigo.
Quando o padre terminou de ver a cena, o cavaleiro entrou na floresta.
Lacktum então falou:
-Vamos. Temos que cuidar dos feridos.




[1] Além, nesse caso, quer disser o mundo pós-vida, após a vida terrena.

sexta-feira, 7 de março de 2014

(Parte 18) Capítulo Três: Homem solitário




Já fazia alguns dias e o grupo se recuperava do surto de loucura que o inglês deve nos últimos dias. Ele pediu desculpas a todos, até mesmo a Rufgar, que seria o alvo da fúria do mago. Após muitas conversas e teorias sobre o livro, Halphy e Arctus guardaram o códice longe de Lacktum, com medo de um novo ataque. Foi uma decisão bem acertada pelo que Alexander comentou, usando como referência o que Seton falou da torre de Azerov.
Mas o caminho que eles trilhavam, não ajudava muito no processo de recuperação de seus membros. Eram colinas atrás de colinas, morros atrás de morros e os Dragões da Justiça ficavam exaustos atravessando aquele reino. Mas graças ao auxilio de Fiel e Alexander, se tornava mais fácil. O cão encontrava rastros, protegendo o grupo de conflitos contra ogros, anões e até mortos famintos. A águia conseguia mostrar caminhos mais rápidos e seguros até o objetivo do grupo. Era uma boa equipe, não fossem por estarem cansados.
Em mais alguns dias chegariam às fronteiras.
Em uma manhã, quando a neve caia forte, todos olhavam ao longe um destacamento passando por eles. Não muito perto, mas o bastante para se saber que havia cerca de seis deles. O pior é que a águia não conseguia voar para sobrevoar devido ao tempo.
-O que acha Lacktum? – perguntou Arctus em dúvida, cobrindo o rosto contra a neve.
-Não sei... Mas anões e ogros não devem ser. O tamanho não bate com eles. E nem andam como um dos mortos famintos. Estamos próximos das fronteiras então talvez possamos até pedir ajuda. Nossas provisões acabaram ontem.
-Talvez sejam soldados ou camponeses fugindo – disse Gustavo, arrumando seu elmo.
-Eu acho que são soldados – falou Thror.
-Detesto concordar com o careca com X na cabeça, mas também acho que sejam soldados – completou Halphy – Chamem de intuição.
-Vamos ao encontro deles – terminou Lacktum enquanto corria na direção do grupo desconhecido.
-Lacktum, eu não... – mesmo com Halphy insistindo para que não fossem até os estranhos.
-Deixe Brown – falou sem muita empolgação sobre o mago.
Ele se cansava das decisões de Lacktum. Apesar de ser o líder, o ruivo só trazia problemas. Era necessário alguém mais firme. E rapidamente.
Quando caminhavam, os passos foram se tornando mais pesados para alcançar eles. O mago ficava com medo de perdê-los. E depois de um bom tempo, alcançaram o grupo. Era difícil a visão até mesmo para aqueles que estavam tão próximos um do outro. Lacktum foi mais a frente conversar com eles.
-Olá? Chamo-me Lacktum e estou aqui...
Só que quando o mago iria conversar com um dos supostos homens, ele notou que não era bem isso que ele era. Lacktum conseguiu ver o que um revenant é. O resultado dos experimentos alquímicos de Paracelso, uma armadura animada, que age e pensa como uma pessoa. Não tão rápidas como os humanos, mas assim mesmo, ótimos combatentes. Feitos de armaduras pesadas como cotas de talas, lorigas, peitorais de aço e até armaduras de batalhas. De longe, realmente pareciam humanos cobertos dos pés a cabeça. Usavam até elmos. Mas de perto, poderia se notar um construto com alma transmutada em um grande pedaço de metal ou outro material. Eles não pareciam ter piedade, assim como a criatura mitológica que originou o nome dessas criaturas.
Quando Lacktum notou que o elmo estava vazio, deu um passo para trás com medo.
-Dragões da Justiça, ergam suas armas! – soltou Arctus em socorro ao mago.

Thror saltou espada e escudo contra o revenant que iria atacar Lacktum. Com a arma curta, atravessou a liga metálica que tinha vida própria. Mas isso não foi o suficiente para fazer o construto tombar. Tanto que ele golpeou no peito com uma lança. Foi um golpe quase perfeito. E quase, não significa morte. Pelo menos não para o grego da cicatriz.
O sacerdote Arctus aproveitou e golpeou algo que deveria ser a cabeça da criatura. Um ataque desses mataria um homem comum, mas não estes seres desprovidos de um corpo carnal. Mas o sacerdote prosseguiu no ataque, não deixando espaço para qualquer ataque contra si. A monstruosidade também não parava.
Halphy não achava problemas para enfrentar o seu adversário, mesmo não possuindo um ponto vital para explorar. Ela obtinha bons resultados fazendo vários ataques. Além disso, o machado não tocava seu corpo, assim como, um gato foge de cães. E a meio elfa uma gatuna.
Um dos que mais temia o combate, era Gustavo. Ele conseguia sentir, que dentro das armaduras, não havia mal. Estes seres poderiam ser um processo de alquimia e necromância, mas almas dentro das armaduras não eram tocadas pelas trevas. Mesmo assim, o paladino tinha que combater, pois era sua vida que estava em jogo.
Sua espada longa teria atravessado um corpo feito de carne. Mas os revenants eram perigosos e resistentes. Agüentavam duros golpes, e não gemiam de dor. Na verdade, só soltavam um estranho barulho, que mais parecia rangidos de uma porta. Eram soldados perfeitos que não se cansavam, nem dormiam ou se alimentavam. Mas Gustavo acreditava que era possível derrotar o inimigo feito de malha.
Os únicos que possuíam problema no combate eram Seton e Lacktum. O druida foi proteger o arcano, mas acabou com problemas, já que o aliado caiu no chão. Ou seja, era necessário enfrentar dois oponentes. Com a foice, separava os oponentes deles.
Ele gritou sua arma acertando as duas pontas nos oponentes. Não causou grandes efeitos.
-Lacktum! Faça alguma coisa! – gritou o druida em desespero.
-Já farei Seton! My finger lead the force of thunder.
E eis que nenhuma chama surgiu nas criaturas de metal, mas era possível notar nelas uma coloração forte como se estivessem sendo forjadas novamente. Porém, uma delas caiu imediatamente após o uso da magia.
Isso aguçou a mente de Lacktum, que partiu em direção da armadura. Seton gritou para o companheiro, pedindo auxílio, mas esse o ignorou em nome de sua curiosidade.
O arcano chegou até a armadura procurando por algo que nem ele sabia o que era. Foi quando, ao olhar dentro da armadura um pentáculo. Ele parecia ter sido inscrito com uma faca de metal. Porém, derreteu no momento em que a magia se tornava mais poderosa. O que o levou a uma conclusão:
-Existem pentáculos[1] nas armaduras! Os destruam e acabaremos com eles!

Agora havia só cinco armaduras e o grupo precisava proteger a si mesmos a aos animais. Alexander e Fiel se mantinham calmos e observando tudo ao redor, para auxiliar em caso de problemas. Caça-Trufas já segurava Valente pelo rabo para impedi-lo de entrar no conflito. Mas o jovem suricate, se perdia no meio de toda a neve que caia.
A maré da batalha mudou isso era certo. Os golpes de grupo eram mais precisos. Como única exceção estava Thror que não sabia o que era um pentáculo.
Gustavo então rogou aos céus, enquanto erguia sua lamina para trás:
-Que o aço aqui forjado, se torne arma para as minhas vontades se tornarem realidade. Que Deus proteja a mim e aqueles que amo.
Foi quando, a lâmina de sua espada longa desceu com a fúria de um sol. Abriu uma grande brecha na armadura viva. Com um olhar atento, o paladino conseguiu a notar um pentáculo dentro de aquele ser. Quando viu o revenant pegou sua espada tentando destruir o paladino. O guerreiro sagrado destruiu o símbolo contido na parte mais firme do metal, atravessando a armadura.
Thror gritou para todos.
-O que é um pentáculo?
Enquanto todos lutavam, alguns olharam com ar de estranhamente para o grego. Como ele poderia ser tão estúpido? Ele não sabia o que é um símbolo arcano! Mas não era o momento para isso: o guerreiro da cicatriz estava muito ferido por um golpe que sofreu quase trespassando seu coração. O que ele não contava era com uma frase de Arctus:
-Pentáculo é um desenho!
Então, Thror abriu a guarda da criatura. Nesse momento, a armadura caiu no chão como uma fruta madura. O guerreiro saltou em direção da criatura a impedindo de levantar. Com o escudo, bateu no elmo do revenant. Então viu dentro da armadura um estranho desenho.
-Tem que ser esse!
Quando falou isso, com a espada curta, riscou o símbolo com força. Rápido o bastante para que não fosse golpeado pela lança.
-Tivessem falado que era um daqueles símbolos que o Lacktum sempre vê nos livros. Seria mais fácil para mim!

A batalha se mantinha ferrenha.
Seton já havia dominado seu adversário. O problema é que nenhum dos dois conseguia acertar um ao outro. Mesmo assim, o druida tinha vontade de acertar o adversário da mesma forma que fez com o outro. Não conseguiu.
O revenant estava preparado para qualquer ataque. Parecia que aprendiam, entendiam e sabiam como desviar dos golpes. Com a maça, tentava fazer um ataque em resposta ao jovem druida. Nada ocorria de diferente.
E então, eis que surgiu Gustavo com sua espada longa atravessando as costas do construto. Mas o símbolo estava na parte da frente, por dentro da armadura. Isso não causou nenhum efeito no ser.
Mas agora, ele tinha que lidar com dois adversários. Seria um desafio.
Halphy lidava com o monstro como uma menina que brinca. A criatura estava muito ferida, se é que se pode falar isso em um caso assim. Havia várias marcas na cota de malha vazia e não tinha mais apoio, afinal, suas pernas haviam sido cortadas pela adaga certeira dela. Eis que o monstro caiu diante depois de tanto tempo.
-Esses monstros se enfraquecem depois de muitos golpes! – disse Halphy girando a adaga – Devem estar muito feridas agora! Ataquem com tudo!
Nesse instante, do dedo de Lacktum saltou um pequeno raio de eneregia pura.
- Hell fills up this fire, but he will attain my enemies!
A criatura foi afetada pelo fogo do arcano ruivo. Mas nem tanto quanto o jovem queria. Ela não se abalou pelo golpe de energia. Na verdade, era até possível comparar o dano recebido um pequeno corte na pele. E não a explosão de energia que surgiu subitamente com a magia.
O que a criatura não contava, era com o poderoso golpe da espada de Thror, pelas costas, enquanto segurava o elmo. Era como se estivesse segurando a cabeça de um inimigo, ele tombou diante das botas do grego.
-Thror... – iria começar a falar o mago.
-Não precisa se preocupar em me agradecer! Notei que este saiu de perto do clérigo...
-Não iria agradecer! – disse Lacktum contrariado – Só queria saber o motivo de continuar a segurar o elmo com a mão do escudo.
Foi então que o homem da cicatriz olhou para o elmo. Então, o jogou no chão com receio que ganhasse vida de novo.
Seton ainda tinha dificuldades em enfrentar o seu oponente, pois além de ter se afastado de seus aliados, ficou encarregado do anão Rufgar. Ele não poderia largar o prisioneiro que poderia delatar o grupo. Foi nesse tempo, que o revenant se aproximou o bastante para fazer golpe perfeito. Mas foi interrompido pelo corpo do anão, que saltou servindo como escudo.
-Vai druida!
Foi como em um piscar de olhos: a foice atravessando o revenant, enquanto o anão caia de dor. O construto também caiu.
-Ei barbudo, esta bem? – soltou o aflito druida.
-Não acha... Que uma espada curta irá me matar, não é?
Seton sorriu e começou os procedimentos mágicos de cura no peito do anão.

Todos foram até o anão. Exceto Lacktum que parecia querer contemplar a vitória. Viu Halphy ajudando o padre.  Também viu o jovem Gustavo cumprimentando Thror pelos excelentes golpes desferidos. Viu a raiva de Valente por não participar do combate, enquanto Caça Trufas se sentia aliviado. Alexander e Fiel estavam alegres, só pelo fato, de todos estarem bem. E como todos se reuniram ao redor de Rufgar para saber se ele estava bem.
O que ele não viu, foi o golpe de uma adaga em suas costas.
-Mestres Hazik e Kalic Benton II mandam lembranças... Disse uma voz.
Lacktum então ouviu o metal se afastando do corpo. Ele colocou a mão nas costas e tentou olhar a palma da mão. Não houve tempo. Caiu inconsciente no chão.
-Ruivo! – gritou Thror.
-Lacktum! – gritou Halphy.
-Mas o... – e antes que Arctus terminasse a frase, entendeu o que foi dito pelos companheiros. Ele conseguia ver, próximo do corpo inconsciente do mago. Lacktum, um homem de vestes negras, capa vermelha e usava um capuz para esconder sua face. Segurava uma adaga grande cheia de um líquido vermelho e negro que escorria de sua lâmina. Apontando para o grupo, saltou:
-Meus mestres querem os itens do Desalmado e do Cavaleiro de Platina! Com isso seu colega poderá viver! Estarei naquela direção – disse apontando para um morro -  e quero que cheguem antes do anoitecer... Se não...
E nesse instante, o assassino fantasmagórico sumiu com a mesma velocidade que surgiu. Com a ajuda da neve naquele lugar. E a cada momento ela ficava maior, quase cobrindo o corpo do mago.
Todos foram até seu líder caído. Ele foi erguido pela jovem Halphy de todo aquele branco. Ela o virou procurando a ferida. Arctus e Seton não entendiam o motivo da ladina querer ver o golpe no corpo do mago antes deles. Alguma coisa a intrincava.
Foi quando a jovem encontrou a ferida. Notou que ao redor dela, havia uma substância esverdeada. Temeu que sua conclusão estivesse certa. Cheirou e então a fala do estranho. Ela sabia o que era aquilo.
-Praga! Vamos encontrar um lugar seguro para deixar Lacktum! Isso é veneno de quimera[2]! Temos que achar uma cura ou ele não sobreviverá!

Encontraram uma caverna, não muito distante de onde tiveram o conflito com os revenants, para deixar Lacktum mais acomodado. Era um local cheio de pedregulhos, mas era o único lugar seguro para depositar o líder e o colega Lacktum com aquela neve toda. Sendo que agora ela se tornou tão poderosa.
O jovem de cabelos vermelhos continuava inconsciente e extremamente febril. Sua pele ficava quente e seu corpo mole como uma trouxa de roupas.
Todos se preocupavam com o destino do rapaz. Caça-Trufas era só choro, enquanto Valente se mantinha ao lado do mago, esperando a melhora do amigo. Todos os outros se entreolhavam. Como se cada um quisesse que o companheiro ao seu lado tivesse a resposta para aquela situação.
-Vamos até onde ele esta – disse Halphy com toda a certeza em sua voz.
-Ele? Refere-se aquele homem encapuzado? – soltou Arctus estranhando.
-Sim. Não temos opção. Conheço o veneno e ele trará a morte ao Lacktum quando o dia raiar... Ou até antes.
-Mas então temos muito tempo para conseguir a cura – disse Thror aliviado.
-Não é bem por ai – respondeu a ladina – É certeza que ele irá morrer quando amanhecer! Temos que encontrar aquele estranho!
-Mas você acha que ele realmente deve ter essa cura? – perguntou Arctus com medo da resposta.
Halphy ficou calada, como se tentasse achar a resposta. Olhou para a mochila e a pegou.
-Você vai levar a mochila dele? Qual o motivo? – perguntou um Seton assustado.
-Os itens estão divididos entre nós. Um deles esta com Thror. Outro com Gustavo, pois foi o item que causou a morte de seu irmão. Tanto que Lacktum, Azerov e eu decidimos isso. Faltam então os dois itens que Lacktum possui. Até onde percebi, a máscara é o principal problema do conjunto do Desalmado. Parece ter vida própria e fica mais poderosa com os outros dois. Vou levar a máscara, pois se houver o problema de ser roubada, pelo menos nos livraremos do item que nos traz mais inimigos. Mas não podemos deixar que a busca por essas coisas, traga um mal tão grande para Lacktum. Ele sofreu tanto... E não merece...
Gustavo colocou a mão no ombro do jovem. Ele balançou a cabeça como se negasse seus próprios pensamentos.
-Vamos com você – disse Gustavo.
-Sim, mas só vão comigo Thror e você. O resto fica para cuidar do inglês. E não adianta querer vir comigo Valente. Os itens de Platina ficam.
-Tudo bem – soltou meio triste o suricate. Afeiçoou-se ao mago. Talvez por ser tão impertinente quanto ele. Preferiu ficar ao seu lado.
Seton e Arctus conseguem cuidar dele? – perguntou Gustavo.
Eles simplesmente confirmaram com a cabeça. Não havia o que se fazer, a não ser tentar manter o amigo bem.
-Tomem isso, é uma erva para neutralizar venenos. Vamos então os outros – terminou Halphy, para saírem daquele lugar.
E o grupo formado por três pessoas atravessou a neve forte e perigosa das terras inglesas. Enquanto a febre crescia no corpo do mago Van Kristen.

O caminho era difícil. A neve atingia a cintura de todos e tornava quase impossível andar. Mas aquele não era um momento para pensar nas dificuldades.
Aqueles três cruzavam o oceano branco composto de gelo. Causaria medo até em pessoas experiente. Mas isso não era algo para se ter naquela situação. Um dos seus estava com sérios problemas.
Gustavo e Thror acompanhavam a ladina. Ela nunca se colocou na posição de líder, mas não seria o melhor momento para isso. Mais de cinco meses se passaram desde que começaram a viver como companheiros. Gor era o líder no começo, mas mesmo Halphy notou que o soldado inglês não servia como líder. Mas o jovem de cabelo de fogo se mostrou um líder destemido nos momentos de dificuldades. Isso foi mais claro com o ataque na torre de Azerov tomando as rédeas da situação. Ele sabia ser mais capaz do que o mago, mas era melhor o peso da liderança dos Dragões da Justiça nas costas dele do que nela. O que deveria fazer? O que qualquer um faria no seu lugar? O que ele faria no seu lugar?
-Halphy! – gritou Thror.
-O que foi?
-Como vamos atacar aquele homem? Que estratégia fará?
-Eu ainda não sei! Mas imagino quem seja! – falou a garota apressadamente.
-Quem seria? – perguntou Gustavo.
-Augustus! O especialista em assassinatos! Já estudei métodos para matar e combinam com o de um famoso homem que aprendeu sobre esse tipo de arte com orientais!
-Mas espere um pouco... – falou desorientado o paladino – Quer dizer que os membros do Tigre Demoníaco já estão de olho em nós? Isso é um absurdo!
-E o que isso tem de tão importante? Não importa - falou isso a ladina alterando o tom de voz mais ainda – o Lacktum esta sofrendo inconsciente naquela maldita caverna! E o único método de tratar veneno de quimera é uma pétala de lótus[3]! Só através disso vamos recuperar ele! Então, ou agimos agora, ou perdemos!
Quando Halphy iria voltar a caminhar, foi impedida por Gustavo, que segurou em seu ombro.
-O que foi agora?
-Nós vamos salvar eles?
Halphy se manteve firme. Uma mulher era quase sempre consolada em um caso desses, mas não era isso que ela queria. Odiava que a tratassem como uma garota fraca, mas ela sabia que era natural tal atitude, vindo de homens. Era o momento de Halphy mostrar o que era líder.

-Onde... Estamos?
Lacktum falava isso, enquanto acordava. Ao seu redor estavam Valente, Furta-Trufas, Fiel e Alexander, todos quietos. O suricate chorava pelo mago. Isso era notável.
-Em uma caverna a leste de onde fomos atacados – respondeu Alexander.
-Onde estão os outros?
-Arctus e Seton estão na saída da caverna, vigiando. Thror, Gustavo e Halphy foram atrás do assassino. Ele talvez possua a cura para o veneno que esta em seu corpo. Rufgar esta com Seton.
-Veneno? – o mago se ajeitou, mesmo com a dor que sentia no corpo. O corpo ardia. E quando o ponto onde havia sido atacado tocava a parede da caverna, ardia mais ainda.
-E... Mas onde estão meus itens?
-Halphy os levou.
-Como? Maldita ladina!
-Isso ela fez para te salvar – gritou Valente irritado com a atitude do arcano.
-Calma... Calma – falava Furta-Trufas para tentar acalmar o companheiro animal.
-Halphy pensou que, já que o inimigo quer os itens, valeria mais a pena perder a máscara que os outros itens – Alexander disse.
-Verdade – consentiu o mago – isso bem o jeito dela de pensar. E bem certo confesso.
-Também é o seu jeito.
-É... Isso é verdade...
-Me diga – começou Alexander, alterando o tom da conversa – você esta triste o tempo todo. Qual o motivo disso?
Foi então que Lacktum notou que as memórias de seu triste passado ainda o marcavam. As imagens de seu pai, mãe, irmã e sua noiva sumiam em sua mente. Assim também ocorria com o que se lembrava de Azerov. As pessoas surgiam e sumiam em sua vida. E o pobre Federick, que lhe surgia como um fantasma devido ao seu irmão. Ele comentou tudo aos amigos animais.
Alexander se compadeceu do sofrimento do mago. Mas falou:
-Você agora lidera um grupo de companheiros leais. Aliados que estão dispostos a arriscar suas vidas pela sua. O veneno não é só proveniente de serpente ou criaturas das trevas. Ele vem também das trevas que surgem no coração. Corroem a alma e o espírito. Esse veneno nós causa tanto frio que sentimos nos tornando outras pessoas. Pois, um veneno altera tudo que há por dentro, sendo forte ou fraco fisicamente. E nem mesmo um arcano com tamanha inteligência como você pode sobreviver contra esse veneno. Só quando seu coração se livrar do mal que reside nele... Haverá uma pequena chance de redenção. Pois a vingança não trará seus entes e amigos queridos de volta. Só fará com que perca o pouco que lhe resta de bom em sua vida. Matar por matar é matar. Matar para proteger algo ou alguém, é algo de valor verdadeiro.
-É fácil falar! – se revoltou Lacktum – Não foram vocês que perderam aqueles que amavam!
-E isso lhe concede algum direito divino? Algum poder digno do deus da vingança? E nunca se esqueça: sempre se pode perder mais! Um coração com uma ferida não é algo incomum. Mas se o seu coração se encher de trevas, causará desgraça aos que estão ao seu redor.
O jovem virou seu rosto. Com a dor, parecia que dormiu rapidamente. Alexander pegou uma coberta e cobriu o arcano, como o bom cão que era.
-O que acha Alexande? – perguntou Fiel, em cima de uma pedra.
Valente se aninhou ao lado do mago. Furta-Trufas chorava com medo da sina de seu amigo.
-Eu não sei Fiel... Eu não sei.

-Vejam! Falta pouco até o morro.
Thror gritava isso como um cão que encontra a caça para seu dono. Havia uma parte no morro que subia em uma espécie de ladeira natural. Pelo que se notava era o único lugar onde haveria alguém naquele frio todo. Deveria ser ali que se escondia o maldito homem.
Halphy já ouviu falar sobre os assassinos. Os homens das terras escaldantes do Oriente. O temor aumentava no coração dela. Por isso, ela criou um plano: ela apareceria na frente do encapuzado, sozinha. Assim, o fazendoele acreditar que o grupo deixou à ladina ir sozinha até o lugar marcado. Era quase certeza que outro ponto de acesso existia naquele lugar. Podendo fazer uma emboscada ao inimigo. Ela sabia que isso era pouco provável, mas tinham que tentar.
O paladino e o guerreiro começaram a contornar o lugar. Enquanto isso, a ladina se tornou a isca para seu próprio plano.
Era necessário se manter calmo. O assassino não deveria suspeitar, nem um pouco, sobre as ações dela. A vida de Lacktum dependia disso. Demorou um para conseguir conceder tempo aos seus amigos.
Quando viu o homem ele estava em uma parte da ladeira do lugar. Estava sem capuz, mostrando a pele morena com um par de olhos azuis. Ele portava outra arma. Uma espada, mas pelo que Halphy notava, ela não parecia estar envenenada como a outra. Mas todo o perigo poderia estar escondido em pequenas coisas.
Ele começou:
-Halphy Brown.
-Augustus, não é?
-Há! Minha fama me precede.
-Não muito, mas sei o suficiente para distinguir um ladrão de um assassino.
Eles não se aproximaram o bastante para um golpe de suas respectivas lâminas, mas não estavam tão longe que não pudessem notar suas ações. Augustus sorriu e falou:
-Sim. Estou aqui para obter os itens. E deve estar com, no mínimo, a máscara.
-Item pequeno. Fácil de colocar na mochila. Óbvio.
-Bem óbvio.
-Mas o que mais quer?
-Como? – falou sarcasticamente Augustus.
-Usar uma arma com veneno em Lacktum. Falar para se encontrar com você, criando a idéia que possui uma cura para o veneno de quimera. Se você estava só querendo um dos itens, por qual motivo não o matou logo? O que você quer, tem relação com o ruivo. E quero que me diga agora.
Foi então que o assassino se mostrou surpreso. Ele superestimou a garota. Deveria ter obtido mais dados sobre ela. Apesar de que tinha ordens expressas de não se atrever a mexer um fio de cabelo de Halphy.
-Você é muito perspicaz menina... Para uma fealith. Mas existe uma falha em seus planos.
-Como?
-Não pense que me engana garota. E fale para seus amigos tentarem fazer menos barulho.
Nesse momento, Thror deveria estar acreditando que não criava nenhum barulho com sua enorme coleção de armas e sua armadura. Além de que, sua vantagem do terreno não era mais tão ampla devido ao assassino ter descoberto sua presença. Estavam, ele e Gustavo no alto da formação.
-Já ouviu falar em ser discreto? – falou baixo o guerreiro sagrado.
-O que é isso? – ficou realmente curioso o grego.
-Agora imagino como meu irmão foi morto! Por Deus!
Mesmo estando em minoria, Augustus não demonstrava estar em situação desfavorável. Ele sabia que os mais precipitados estavam entre os guerreiros. Ou seja, os mais descuidados.
Enquanto pensava isso, Halphy sacou sua besta disparando o conteúdo da arma contra o estranho. O virote passou próximo do pescoço, quase o ferindo mortalmente. Mas não foi o bastante.
Ele aproveitou esse ataque e sumiu em pleno ar.
Agora os Dragões estavam em perigo.

Não era magia. Halphy tinha noção disso através de seus dons arcanos, o que necessitaria de componentes verbais e gestuais. Aquilo era um truque avançado, prestidigitação, não a Arte.
Ela tinha que se preparar para o ataque iminente do inimigo. O assassino Augustus deveria manter a si mesmo nas sombras para conseguir continuar com o truque. De onde partiria o golpe era uma incógnita. Mas nem tanto se ela estivesse certa. O inimigo talvez não a atacasse, pois ladrões e assassino usavam habilidades parecidas que poderiam anular um ao outro, e naquela conversa ela conseguiu o deixar confusa sobre si. Mas o caso de Thror e Gustavo era diferente. O alvo mais provável era o grego que não possuía grande poder defensivo. Ela mesma acharia mais fácil eliminar ele primeiro.
-Thror, fuja! – ela gritou.
Mas era tarde. Do mesmo modo que sumiu, ele surgiu ao lado de Gustavo, o atingindo em um ponto preciso de seu corpo. O que fez com que o paladino ficasse completamente paralisado. Deixando Thror completamente desguarnecido. A meio elfa não pensou nisso.
Augustus rapidamente conseguiu render o grego, segurando seu corpo com uma mão e com a outra encostava a arma no pescoço do mesmo. Thror pensou em usar a força para se soltar do assassino. Só que era difícil na atual situação.
-Se você mexer qualquer parte de seu corpo – falou o assassino Augustus – eu não mato só você cicatriz, como levo o seu amiguinho parado aqui do lado! Agora quieto.
-Ora seu...
-Thror, não se mexa! – implorou Halphy. Ao ouvir isso, ele aquietou como uma estátua.
Gustavo estava parado como em uma posição de defesa. Quando o golpe paralisante o afetou, fez com que o paladino ficasse assim. A dor tinha sido tremenda, mas se sentia inútil naquela situação e por ter caído nela.
Augustus então guardou a arma que usava para pegar entre seus pertences, um pequeno saco que exalava um perfume adocicado. Thror se lembra do cheiro, não sabia de onde, mas era conhecido.
Ele então jogou o pequeno item aos pés de Halphy. Essa constatou imediatamente que se tratava de uma pétala da flor rara. Memórias voltaram para a meio elfa. Mas as ignorou.
-Agora imagino parte do que seja tudo isso! Kalic Benton II não quer matar nem a mim, nem a Lacktum. Já suspeito do motivo. Mas mesmo assim – olhou Halphy para o pequeno saco – muito grato Augustus.
-Esta bem. Bem então... – quando o inimigo iria se despedir surgiu um raio de energia do nada. Do lugar que ficava entre Halphy e Augustus surgiu uma forma que começou como transparente, mas foi tomando uma forma mais definida e concreta. Era Lacktum, que não conseguiu atingir Augustus.
-Lacktum! – gritaram os dois colegas quase ao mesmo tempo.
-Muito bem Van Kristen – falou novamente de forma sarcástica o assassino – Mas falta muito para me pegar com um truque dessa categoria. Adeus, donzela Brown.
Nesse instante, sumiu novamente largando Thror que caiu no chão enquanto tentava sacar sua espada. Tudo em vão. O assassino sozinho conseguiu vencer sozinho, os Dragões da Justiça. Não era momento para se manter pensando nisso de qualquer forma. Lacktum que estava com o braço estendido devido a magia, caiu ao chão, quase morto. O veneno fazia efeito.

Halphy chegou ao corpo frágil e febril do arcano. Ele parecia tão quente quanto uma fogueira. Ele balbuciava e espumava pela boca. Era horrível.
Com certeza, Lacktum aproveitou uma distração de todos na caverna para nublar a visão de seu corpo, pensou a jovem. Mas não era hora para refletir sobre isso. Ajoelhou-se rapidamente.
Colocou a pétala de lótus na boca do mago. Forçou a boca do mesmo para mastigar. Ele mal tinha força para isso.
-Vamos cabeça de fogo! Fique vivo! Anda!
Nenhuma reação.
Thror levou Gustavo até próximo dos amigos. O corpo do paladino continuava adormecido, mas começava a sentir mobilidade em seus membros. Pelo menos estava melhor que Lacktum
Continuava sem nenhuma reação.
Halphy colocou a mão no chão em desespero. Ela tremeu quase chorando, assim como os outros. Foi quando ela sentiu algumas batidas afetuosas na cabeça e uma voz fraca, mas sarcástica dizendo:
-Você fez o que pode Brown...
Ela levantou a cabeça como um gato.
-Lacktum! Seu louco! – respondeu à jovem quando notou que quem falava era o arcano petulante.
Os dois guerreiros sorriam, enquanto a jovem Halphy o abraçava com força. Ela não chorou, mas pouco não o fez. Não era por ser mulher, mas acabou se afeiçoando aquele romântico vingativo.
-Ai! Me solta Halphy! Eu ainda estou ferido esqueceu? – começou a rir enquanto falava isso.



[1] Um símbolo geométrico que consiste em uma estrela de cinco pontas com traçado contínuo. É o símbolo chave dos magos e sacerdotes de origem celta.
[2] O veneno da quimera é duas vezes mais potente que qualquer elixir, mineral ou veneno proveniente direto da natureza.
[3] A lôtus teria várias propriedades como anular completamente venenos, recuperar mana e até mesmo curar corpos.



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

(Parte 17) Capítulo Dois: Negro como a escuridão


Era Inverno. Todos colocaram peles grossas e espessas para resistir ao tempo frio. Foram concedidas pelos irmãos Wadonski para enfrentar aquele lugar, A embarcação sumia rapidamente sob a grossa força da neve que tudo encobria. Talvez o menos acostumado com tudo aquilo, fosse Gustavo. A terra de onde ele vem não era tão fria nessa época do ano. Isso explicaria o fato de seu povo ser muito caloroso em todos os sentidos, como muitos diziam. Um povo que agora só possuía um homem para assumir o trono. O paladino Salles.
E ele não queria saber sobre aquilo. Preocupava-se com Diogo, seu mestre. Ele ensinou os irmãos Salles. Mostrou que mais que uma arma, uma espada, deveria se tornar uma extensão de seu corpo. A arma deveria ser seu ataque e defesa. Mas acima de tudo, uma filosofia que exigia de seu usuário, a queda perante a arma de um inimigo que idolatre o mal. E lógico, a proteção dos mais necessitados. Isso nunca deveria ser esquecido. Quem lhe ensinou isso, agora não acreditava mais nisso. Havia um motivo para aquilo.
A terra em que Lacktum nasceu não era mais a mesma depois dos ataques dos homens que servem Kalic Benton. Aqueles que viviam na grande ilha eram muitas vezes pessoas de origem celta, agora viam que além de seus deuses, agora eram suas esperanças que acabavam pouco a pouco.
Caminhavam pela neve notando a grande dificuldade. E era mesmo. O lugar parecia que exigia uma dose dobrada de força para cada passo. Arctus sentia o peso em seu peito, pois já notava que a guerra dominava o território em que se encontravam. Thror notava chamas ao longe, que ele sabia, era a queimada das casas das vilas. Halphy reclamava do frio, apesar de já estar acostumada com isso. Seton nem ligava, fez uma magia em seu corpo para suportar a temperatura. O próprio Gustavo preparava tudo para não passar pelas enormes fogueiras que eles viam ao longe. Mas Lacktum se perdia muito mais em pensamentos, pois ele olhava para o norte com um olhar de nostalgia.
-Lacktum? – perguntou Gustavo.
-O que foi? – falou em resposta o mago, como se fosse tirado de um transe.
-Contornaremos as fogueiras, certo?
-Ah sim! Lógico...
Foi quando Halphy chegou próximo do ombro de Lacktum. Ele estava cheio de neve. Tirou um pouco do que estava no mago. Então ela olhou com ternura para o colega.
-Pensava nela?
-Em quem?
-Na mulher... Na sua amada?
-Lirah... Lirah Lugarao’Céu. Ela era linda. Assim como minha irmã. E minha mãe. Éramos felizes. Mas, sei que isso pode parecer obvio, mas como soube que eu pensava nisso.
Foi então que Halphy caminhou junto aos outros, e as pequenas criaturas que os acompanhariam. O cão se aproximou de Lacktum, enquanto os outros continuavam. Ele falou:
-Mago você falou que era inverno novamente... Com tanta frieza que nos gelou mais a alma do que esse clima. Não deve nem ter notado.
O ruivo continuou andando como se seu rosto estivesse cheio de gelo. Mas não era gelo. Ele se lembrou do que era feito um mago: determinação e nenhuma piedade.
Nesse meio tempo, Thror sentiu uma sensação que parecia conhecer a um bom tempo. Como se sentisse que alguém o vigiava. E isso não o incomodava. Parecia conhecer mesmo aquilo.

Caminhavam sempre contornando os pontos onde notavam as fogueiras inimigas. O que dificultava muito a chegada até o ponto que procuravam alcançar. Esse era o Portal de Ixxanon, onde pretendiam chegar. Para tanto teriam que cruzar todo o território inglês e por último chegar ao extremo norte das Terras Altas. Passando até pelo Vale das Esmeraldas, um território que era extremamente pouco conhecido, mas que possuía muitos mitos. Dizem que lá nasceu Wiegref Hinagawa e Galtran Coração Prateado, dois dos Imortais Esquecidos. Talvez até encontrassem o poderoso guerreiro e druida. Mas o que importava era não entrar em confronto direto com nenhuma das três tropas que serviam a Kalic Benton II.
A Aliança dos Mortos Despertos era formada por criaturas piores que os demônios que encontraram em Starten. Destruíam aldeias, devastavam em plantações, quebravam sonhos e retiravam dos homens e mulheres o que não tinham naquela existência: a vida.
Já os seres criados com a pesquisa de Paracelso, eram tropas de assalto criadas com o fim de eliminar os oponentes mais resistentes. Soldados eficientes que conseguiam impedir qualquer chance de vitória contra as tais tropas da Aliança dos Imortais. Os revenants pareciam que eram mensageiros da morte. O silêncio das armaduras quebradas por sons que pareciam choro, mas sabiam que aquilo não era possível. Cotas de malha não poderiam chorar.
Dificilmente conseguiram encontrar as tropas da Aliança dos Mestres do Martelo. Eles eram mais bem treinados do que todos os outros, e pelo que Arda havia comentado com os Dragões da Justiça, uma força maior que as outras duas alianças juntas. Os guerreiros do grupo que temiam o que fosse aquilo.
Além disso, era possível notar tropas de criaturas maiores. Eram ogros enormes e fedorentos, todos bem armados. Traziam pavor, equipados então, muito mais. Com certeza estavam do lado de Kalic Benton II, foi o que pode concluir Halphy como batedora do grupo.
Isso criava uma maior cautela nos Dragões da Justiça. Poderiam ser jovens até que preparados, mas nunca houve garantia de vencer os oponentes. Inclusive tropas bem armadas, A missão é alcançar o portal que ficava nas Terras Altas. E isso impedia perda de tempo em batalhas desnecessárias. O único que reclamava das lutas não travadas era Thror, falando que seus antepassados teriam vergonha de suas forças.
No final de alguns dias, o grupo teria atravessado boa parte do território inglês, sem nenhum problema. Mas iria demorar até alcançar as fronteiras do reino. E em algum momento, uma luta seria necessária.
Em uma determinada manhã, os Dragões da Justiça se prepararam para enfrentar um problema: estavam caminhando por uma planície, coberta de neve, mas ao longe poderia haver inimigos. A águia Fiel notou que surgiam não muito longe, membros dos Mestres do Martelo. Todos carregavam uma insígnia de Mallmor, aquele que invadiu a torre de Azerov. O grupo se mantinha escondido.
-Vamos contornar – disse baixo Lacktum.
-É um luta desnecessária, realmente – assentiu Arctus.
-Qual motivo de não enfrentarmos eles diretamente? – falou Thror, quase alterando o tom de voz.
-Calado Thror! Não nota o perigo que nos expõe? – advertiu Halphy como uma ama-seca que adverte uma criança.
-Bem, então contornemos – confirmou o líder dos Dragões.
Os membros foram muito calmamente, atravessando a planície cheia de neve. Os primeiros a fazer isso foram os animais, furtivos naturalmente. Logo em seguida foram à ladina, o mago e o druida, que não usavam nenhum tipo de proteção ou armadura pesada. Por último, o guerreiro grego, o paladino e o clérigo católico, atravessaram aquele local. Ou quase.
 Foi ouvido um estalo de madeira se quebrando as grevas do Salles. Ele olhou para Thror a sua frente e Arctus na sua retaguarda. Seria até engraçado, se não fosse à força daquele barulho na planície. Completado com o rosto de Gustavo cheio de angustia por delatar o grupo sem querer. Soltou só um contido:
-Perdão.

Os guerreiros anões começaram a cruzar o gelo. Eles notaram especialmente a parte do grupo com armaduras. Todos os soldados possuíam machados bem afiados e bem trabalhados. Estavam em número de cinco que investiram na direção do grupo de jovens.
Atacaram, principalmente, o paladino. Dois contra Thror, dois contra Gustavo e um contra Arctus.
O que não era esperado foi o golpe certeiro do guerreiro sem memória, pouco abaixo do braço que segurava um machado contra o anão. Esse perdeu a força com a arma, mas não desistiu do combate. Golpeou o grego no ombro e esse também não se desestabilizou.
Anões que golpeavam Gustavo tentavam o fazer cair, mas este se protegia com seu escudo e espada. Ele se mantinha defendendo os dois machados, até que retirou a espada da posição defensiva que manteve até então, para atingir a cabeça do anão, enquanto com o outro braço empurrava o segundo adversário. Numa seqüência rápida, Gustavo golpeou o peito do anão.
Arctus não possuía tanta sorte quanto os outros, sua maça não conseguiu atingir o seu oponente. E esse se aproveitou para golpear o sacerdote no rosto. Com mais precisão poderia perder o pescoço.
Foi quando o druida e o mago começaram a agir escondidos pela neve. O jovem Seton sacou um arco e sua respectiva flecha. Disparou o projétil como se quisesse atravessar o peito do não. E seu desejo se concretizou. Pois o anão que combatia Arctus sentiu uma forte dor nas costas. Mas permanecia rígido e de pé. Isso até Halphy lançar a adaga no seu corpo que já se contorcia.
Lacktum erguia suas mãos preparando uma magia. Porém, parecia que ele envergava um arco. De repente ele entoou:
-What this arrow fill the breast of my enemy. Like Art makes me.
De repente, o inimigo adjacente a Gustavo tombou por uma seta de energia fumegante. Em alguns instantes ela sumiu das costas do anão deprevenido.
Um dos anões que combatia Thror, então grita:
-Dalik! Há conjuradores entre eles!
-Esta bem Rufgar!
Mas era tarde. Seton lançou setas de madeira contra o peito do anão que tentou agüentar bravamente. Não obteve sucesso.
-Dalik! Não!
O anão foi em direção do aliado caído. Thror então viu uma chance de definir aquele combate gélido.
-Thror não mate! – gritou Lacktum.
Nesse momento, o diminuto guerreiro se lembrou que estava em combate. Mas quando se virou, só pode ver o cabo da poderosa espada de Thror acertando sua face, antes de tombar.
Lacktum colocou as mãos na cintura como sinal de desaprovação, enquanto saia de seu esconderijo na neve. Thror estranhou a reação do mago.
-O que foi? – o guerreiro falou – Eu o deixei vivo.
Foi então que o mago pegou o inconsciente guerreiro e puxou para perto de uma árvore seca devido ao inverno.
-Bem... Ao menos podemos obter informações preciosas para enfrentar o nosso inimigo... Como ele pesa...

Depois de um bom tempo, o anão despertou como se fosse um bêbado que despertava de uma ressaca terrível. Mas com certeza, uma cerveja não traria tanta dor quanto aquilo, para o guerreiro vencido. Tanto no corpo quanto no orgulho.
Lá estava ele, amarrado a uma árvore seca, desprovido de arma e armadura. Seus pés também não podiam se mexer. E ao seu redor havia cinco homens e uma mulher, além das figuras animais. A barba cheia de tranças mostrava que muitos verões ele havia visto e temia que perdesse a vida por meros filhotes humanos. E seria uma desonra maior do que a de ser capturado.
Thror conversava com Lacktum, quando notaram que o anão despertou.
-Ora vejam – com tom de sarcasmo o mago – ele despertou para nos contar algo. Não é?
-Do que falam? – perguntou o anão com ar de raiva.
-Você é membro das tropas que servem a Mallmor – falou Arctus como um ferrenho interrogador – Das três tropas que servem Kalic Benton II, os anões são membros da única que podemos extrair informações. E ao que parece você era o líder daquele esquadrão. O que significa que pode nos informar sobre algumas coisas...
-Em nome de Vossa Majestade Mallmor, não irão obter nada de mim!
Lacktum olhou para Thror. Esse entendeu rapidamente – coisa rara para o grego. Ele pegou pela barba do anão com uma mão, enquanto com a outra pressionava próxima do olho dele ferido. O anão agüentou bastante, mas até um homem resistente cede. Ele gritou de dor, muita dor.
Foi então que o mago gritou para o guerreiro:
-Chega Thror!
O grego cessou a tortura. Era engraçado que o mesmo Thror tão gentil poderia ser tão terrível. Ele fez sangrar o anão com sua poderosa mão. Mais um pouco, poderia perfurar permanentemente o olho do inimigo. Foi quando Arctus chegou até o anão.
-Qual o seu nome, anão?
-Rufgar... Meu nome é Rufgar – falou o guerreiro torturado.
Sua ferida de repente sumiu, graças a ajuda do clérigo. Esse por sua vez disse:
-Anão Rufgar... Diga a eles o que desejam e talvez sejam clementes contigo.
-Clementes? Um bando de humanos clementes? Isso é uma piada?
-Você esta vivo, não é? – soltou de forma acida Gustavo.
Surgiu um silêncio, cortado pelas palavras de Thror.
-Eu queria matar. Não me permitiram.
Rufgar olhou a todos e depois de muito pensar, falou que iria responder as perguntas. Mas somente por conta da piedade que o padre cedeu a ele.
Lactum perguntou como os outros exércitos eram controlados. Afinal, os mortos famintos e os revenants teriam que ser manipulados de uma forma arcana única.
-Os dois exércitos estão sendo controlados através de itens conhecidos como Lamterna dos Condenados.
-Lanterna? – soltou um curioso Seton.
-As Lanternas são itens copiados por alquimistas, de um artefato único de mesmo nome. Cada uma delas esta na mão dos lideres das alianças. Pois foi através delas que as almas são colocadas em receptáculos de carne ou em armaduras. Com esses itens, eles controlam as tropas.
-Certo – disse Lacktum – Já que é assim, como eles obtiveram o artefato original?
-Não sei – soltou Rufgar – Alguns falam que o item original era do mentor de Kalic Benton II. Mas não há certeza de onde ele surgiu.
-Espere – falou Arctus compreendendo algo – quer disser que os revenants são preenchidos com almas ou magia?
-Com almas – respondeu Rufgar – A Lanterna dos Condenados original controla forças necromânticas. Eu nunca entendi disso, mas compreendi que isso tinha haver com os mortos famintos.
Isso começou a fazer sentido nas cabeças de Halphy e Lacktum. Quando estiveram em Starten, um número muito grande de mortos famintos estava atacando a vila. Inicialmente, pensavam que isso tinha haver com os poderes arcanos do mestre secreto do Pacto de Guerra, mas agora isso poderia ter alguma relação com o artefato. Mas não importava naquele momento.
-Como sabe tanto disso? – perguntou desconfiado Gustavo.
Todos começaram realmente a estranhar as informações detalhadas de Rufgar. Mas Lacktum não se deixava enganar. Ele notava a verdade nas palavras proferidas.
-Nosso mestre – continuou o anão – nos permite saber tudo que ocorre em seu exército. Ele chama suas tropas e concede informações da batalha esporadicamente. Assim como entrava em lutas antes, podemos confiar nele para nos mostrar um futuro glorioso e sem mentiras.
-Até parece... – soltou Thror.
-Não ofenda Vossa Majestade!
Novamente, a devoção do anão ao seu líder o tornava uma peça única. Ele estava longe de qualquer um de seus compatriotas, e mesmo assim, se sentia motivado a proteger a honra de sua raça. Especialmente, ao que se referia ao Príncipe Negro dos Anões.
-Muito interessante – falou o sacerdote católico com a mão no queixo.
-Sabe o nome do mestre de Kalic Benton? – perguntou incisivo Lacktum. Ele queria obter mais coisas sobre o homem que começava a acreditar que era seu nêmesis.
-Nunca ouvi falar nem boatos ou rumores sobre tal ser – respondeu prontamente Rufgar.
-Agora surge uma pergunta que começa a não fazer sentido na minha cabeça: ao que parece, algum lugar no Reino da França, ou até além, é o verdadeiro objetivo desses batalhões. Então qual o motivo de mandarem suas tropas para cá? Não faz sentido!
Rufgar quis se calar. Essa informação parecia extremamente vital para a missão que cumpriam. Até então, não se acreditava que haveria a captura de algum dos soldados anões. Um erro tolo demais, alguns pensariam.
Foi quando Lacktum falou para Thror ser mais rude com o anão. Ele realmente foi. O pequeno Furta-Trufas e Halphy ficaram horrorizados com os golpes do grego no diminuto ser. Ninguém, nem mesmo Lacktum, se divertia com aquelas cenas grotescas. Mas elas eram necessárias. Aquilo poderia impedir uma guerra sem sentido. Será que era assim que os jovens deixam sua inocência de lado e se tornam algo parecido com soldados?
Após um longo período, ao quais os mais precavidos temiam ser encontrados pelas outras tropas, o pobre Rufgar ensangüentado começou a soltar o que conteve até agora.
-Esta bem! Malditos sejam! Espero que O Nada[1] devore as almas de cada presente aqui! – nesse momento, Furta-Trufas desmaiou de medo – Se querem saber o verdadeiro motivo de combater nessas terras, devem saber que esse reino esta sendo limpo para que haja uma exército poderoso. A maioria de nossas tropas se concentrava aqui desde o começo. Limpando o caminho com tropas invencíveis estaremos livres para o verdadeiro objetivo desde o começo. Roma.
-Isso explica os mapas que encontramos tempos atrás – fala Lacktum, como se solucionasse um fato estranho – Vocês pretendem usar a Inglaterra como ponta de lança para um ataque contra Roma!
-E já sei até parte até parte do plano. Eliminando uma grande quantidade de pessoas, teriam material corporal e espiritual. Corpos para seu exército de mortos famintos e almas para preencher as aberrações, conhecidas como revenants – falou o clérigo católico, completando os pensamentos do mago.
-As Lanternas devem facilitar o processo – pensou Seton.
-Eles contam com mais alguém? – soltou Gustavo.
-Como assim? – desconversou o anão.
-Não me engana com sua fala guerreiro – começou o paladino – O que você ainda não respondeu é quem obtêm informações para Kalic Benton II. Afinal, as três Alianças que servem a ele, não são formadas por nenhum grupo de espiões. Os mortos famintos e revenants com certeza não devem ter consciência para conseguir planejar nada. Os anões são combatentes em suas fileiras, dificilmente haveria arcanos entre eles... Quando mais espiões! E nem necessito argumentar sobre os ogros.
-Esta bem – falou Rufgar, concordando com o paladino de cabelos negros.
-E então.
-Foi o Bando do Tigre Demoníaco.

O Bando do Tigre Demoníaco era formado por mercenários que trabalhavam sempre pelo melhor preço. Conhecidos por terem obtido êxito, aonde outros jamais se arriscariam. O grupo era uma espécie de guilda que aceitava os mais diversos serviços, desde a proteção de reis e nobres, até os assassinatos de pessoas com a mesma importância. Isso sem contar, a obtenção de artefatos sombrios e a destruição de monstros presentes só em lendas. Eram mais conhecidos como uma lenda para assustar piratas no Mediterrâneo.
Seu líder e criador seria Hazik, conhecido por manejar duas espadas como uma só. Ele foi um homem que nasceu nas terras do Mediterrâneo, mas que aprendeu os ofícios da Arte e suas utilidades. E se interessou, principalmente pelas evocações demoníacas. Assim obteve um favor do demônio, que um dia libertou: viveria o dobro de qualquer homem, se concedesse sua alma ao Inferno.
Com tanto tempo – e poder que obteve em decorrência de sua vida estendida – o guerreiro criou o Bando do Tigre Demoníaco. O nome vinha da alcunha de Hazik, o Tigre Demoníaco de Um Olho Só. Ele havia perdido um dos olhos em um combate contra um homem de extrema habilidade. Nunca souberam se Hazik havia vencido esse combate.
Ele tinha o auxilio de alguns homens poderosos. Entre eles os nomes de Daubar, Yue Khan e Augustus. Daubar era o braço direito de Hazik, mais conhecido como o Outro Olho. Espadachim tão talentoso quanto seu mestre. Yue Khan era um monge, mas não era como os ocidentais, guiados por um deus e sim por uma doutrina que conseguia simular os poderes arcanos de um arcano, mas não perfeitamente. Já Augustus era uma sombra, um homem especializado em mortes, um assassino que aprendeu essa arte com homens do oriente.
Muitos admiravam esses homens, mas os sábios temiam a todos. Os demônios cobram caro demais.

Após o interrogatório, os dragões se entreolharam. O que fariam com Rufgar? Foi então que a resposta dessa dúvida recaiu sobre os ombros de Lacktum.
-Ele vai conosco. Pelo menos até cruzarmos toda a Inglaterra.
-Certo – disse Arctus muito satisfeito com a decisão do líder.
-Eu o mataria – disse Thror, sacando a espada curta.
-Me solte careca e então veremos quem mata quem! – gritou revoltado Rufgar.
-Parem os dois! – falou rapidamente o líder arcano do grupo, enquanto se abaixava para tratar com o anão – Nós não faremos mal a você. Então, por favor, entenda que não podemos lhe soltar no momento.
O anão consentiu dizendo:
-Que o Imperador dos Reinos Além das Nuvens lhe seja grato arcano
-Me chamo Lacktum, Rufgar.

Dias se passaram, e pelo que Lacktum se lembrava não faltava muito para chegar até as fronteiras. Estranhamente, Halphy sentia um tom triste na voz do arcano. Ela obviamente começou a ter certeza que o baronato de Van Sirian estava próximo. E as lembranças do líder começavam a ferir seu coração novamente. Era como o golpe exposto de um corte, que dói mesmo com o mais forte dos bálsamos.
Arctus em determinada noite, também notou isso no rapaz. O monge ouviu Thror, como Lacktum teria se unido ao grupo, e se compadeceu dele. Como um sacerdote, desde que se lembra, ele nunca sentiu dor por ser órfão. O fato de  ser cuidado pelos padres de um monastério, fez querer que as pessoas que ele conhecesse, fossem protegidas por ele. Ele não se iludia com chances de encontrar seus pais, só de fazer o bem no nome daqueles que lhe concederam a vida. O que fez temer também por seu colega de grupo. Mas sempre o mago se fechava em seus livros.
Naquela noite, Lacktum se fechou novamente nas folhas.
Um livro que Arda entregou a Lacktum. Era uma compilação do livro que foi entregue por Azerov. O próprio regente teria usado meios arcanos para compilar os escritos e não enlouquecer no processo. O pouco que leu, falava de enorme mal surgindo das estrelas. Mas nada trazia mais medo que outro problema para a ilha, pensava o regente. Então, preferiu entregar o livro a Lacktum, que sempre se interessou nos assuntos relativos ao velho caduco da torre, como ele mesmo o chamava. Talvez, até mesmo conseguiria compreender que forças estariam agindo naquele livro.
O acampamento improvisado foi montado como tantas outras vezes antes, enquanto Lacktum se afundava no livro. Todos conversavam, tomando cuidado para que ninguém notasse isso, nem a fogueira. Era um território inimigo ainda. Mas o problema eram as broncas de Halphy sobre Thror. Era engraçado ver a jovem meio elfa tentando fazer o guerreiro grego parar de beber. Hilário alguém diria.
Depois de certo tempo, o barulho então cessou e muitos foram dormi. Com exceção do homem que liderava o grupo. Este continuava lendo o livro, com muito cuidado. Enquanto lia, ouviu o seguinte:
        Ele quer a máscara para si...
-Como? – falou Lacktum antes de olhar ao redor, vendo que todos dormiam, incluindo o anão que haviam capturado. A voz parecia muito certa do que falava e extremamente familiar. O arcano sentia a verdade nas palavras que ouviu. Mesmo elas vindo do vazio.
Novamente surgiu na escuridão:
Ele quer obter ela para entregar a Mallmor... Ou pior
E então, o arcano se sentiu confuso mas sugestionado a acreditar naquelas palavras.
-Quem?
A voz sumiu por alguns instantes. E quando ele achava que não havia acontecido nada, a voz lhe trouxe um nome:
Rufgar
Foi então que o arcano notou o anão amarrado e amordaçado, próximo a uma árvore novamente. Ele dormia de forma desajeitada, mas na mente e no espírito de Lacktum, ele acreditava que era tudo fingimento de Rufgar, se é que esse era seu nome realmente. Algo o fazia desconfiar das atitudes do diminuto guerreiro agora. Era um homem que servia a Mallmor, o mesmo miserável que um pouco mais de um mês invadiu a torre de Azerov. Quem não poderia garantir que ele, de alguma forma, estaria entregando informações ao líder dos pequenos elementais da terra?
Estranhamente, de súbito, Lacktum levantou como um fantasma que surge de um terrível pesadelo. Havia fúria em seus olhos, afinal, ele sabia que um inimigo terrível poderia estar ali, com eles.
A mão crepitava com mana, a energia mística inerente em todos os seres e coisas existentes no universo conhecido. Ela estava preenchida com um pouco de energia negra e profana da necromância. Estava pronto para lançar o feitiço, quando Halphy o interrompeu, segurando pelo pulso do arcano.
Os dois se fitaram como se estivessem enfrentando um ao outro de modo pessoal. Era estranho, mas Halphy começava a sentir a magia inerente em si crescendo, e sabia que se fosse necessário enfrentaria o mago inglês.
-O que foi ruivo? – perguntou ela – Qual o motivo de preparar a magia contra esse anão?
-Como sabe que era contra Rufgar? – retrucou o inglês.
-Não tente me enganar Lacktum! Sou experiente o bastante para saber suas intenções!
-Eu... Eu não sei o que deu em mim... Desculpe Halphy...
-Você não tem usado aquela máscara dos diabos, não é?
-Não... Qual o motivo de me perguntar isso?
-Nada. Só pensei que pudesse estar a usando e por isso agia assim.
-Tudo bem... – mas logo que terminou de falar isso, golpeou o rosto da jovem ladina feiticeira. O som que o golpe proporcionou finalmente acordou alguns dos homens que dormiam. Arctus e Seton foram acudir a jovem ladina. Valente pulou para a perna de Lacktum de forma a o deter com mordidas, assim como Alexander. Ambos inúteis.
Gustavo já iria sacar sua arma, quando o poderoso grego quase quebrou o queixo do mago, fazendo este cair no chão com um barulho seco na neve. O paladino ergueu o corpo de Lacktum da neve então. Quando notou, viu um estranho volume na mão direita do companheiro ensandecido. Era o livro traduzido de Azerov.
-Mas o que diabos, ocorreu aqui? Que demônio se apoderou dele? – soltou Arctus.
Parecia que naquele lugar, um furacão teria passado. Rufgar olhava tudo, sem poder se expressar sobre o ocorrido. E foi então que Seton se lembrou de uma cena que o apavorou demais no passado. Estava se repetindo o que ocorreu na Grécia com Azerov, só que agora era com Lacktum!


[1] O Nada: como em culturas celtas e germânicas não existem demônios (como os da visão católica), O Nada seria uma personificação do mal nos mitos dos seres elementais.