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sexta-feira, 20 de junho de 2014

(Parte 2 de Diário de Caça) 19:00 até 19:59 – Queen – Under pressure.

Pressure, pushing down on me
Pressing down on you, no man ask for
Under pressure! That burns a building down
Splits a family in two
Puts people on streets


Arrumei-me da melhor maneira possível naquela noite que iria começar a ser barulhenta mais uma vez. Já que estava voltando para casa, lembrando que estava em uma das maiores cidades do mundo. Ou a maior cidade. Ou com a maior população do mundo. Nunca soube direito. Fazer o que. Nunca fui muito boa com essas coisas de escola. Ao menos era boa o bastante para escrever. Isso vem das minhas aulas de inglês. Nisso eu era boa o bastante para lidar. Nada, além disso. Mas sabia enganar como toda a boa mulher fazia... E nenhum homem faz direito.
De qualquer modo eu precisava voltar para casa. Esquentar a comida para o meu irmão.
Iria pegar o metrô, mas fazer isso quando a noite chegava era como pedir pra ser morta, assaltada, atacada sexualmente ou algo pior. E pode ter certeza, com a quantidade de loucos que surgem nos dias de hoje, você teria medo de entrar em algum lugar como o metrô. Recomendações que até o meu patrão fazia a mim para sobreviver naquela selva de concreto.
Então, aproveitei uma brecha entre os carros estacionados. Passei por eles e comecei a pedir por um táxi.  Depois de alguns segundos, pela sorte – ou azar – consegui pegar um dos amarelinhos. Fiquei com medo, pois até os motoristas eram dos tipos mais diversos. Certa vez, tinha entrado em um ônibus, e o motorista não tirava os olhos das minhas pernas. Filha da puta. E nem sou exibida mostrando minhas pernas como uma garota oferecida qualquer. Era uma saia bem abaixo do joelho, mesmo estando no verão. Cafajestes, que não conseguem sair com mulheres e ficam fantasiando na cabeça cenas sexuais com elas.
Minha sorte é que era um indiano pelo que me lembro. Esses não têm a libido muito aflorada.
Pegando o táxi, entrei prontamente no carro com meu piloto indiano de libido baixa. Notei que logo chegaria a minha casa onde teria que preparar a comida para meu irmão mala. Comprei algumas coisas e já sabia o que iria preparar para o besta. O idiota do Sidney que mandava várias mensagens para estar em casa com a comida pronta quando chegasse. Estivesse lá onde Deus permitisse. Aliás, eu nasci e fui criada como uma protestante. Comentário rápido. Nada de mais.
Só para entender que sempre fui religiosa, mais por obrigação do que por vontade. E isso me fez uma cética por natureza. Menos mal, já que isso me tornou uma pessoa forte por natureza.
De qualquer modo, estava voltando para minha casa. Demorava meia hora com algum táxi ou ônibus para alcançar meu lar. Mais de uma hora a pé. Tirando o risco de andar a pé. Literalmente, o custo benefício de voltar sem um veículo até onde morava era extremamente perigoso. Perder minha escassa grana é algo horrível. O problema maior é quando nem dinheiro possuía. A vida nas cidades grandes se tornava perigosa. O que me faz querer morar em uma pequena cidade que um amigo me falou. Heber Village. Não é tão pequena quando uma cidade do interior, só que tem o estilo de uma em certos pontos.
Olhava pela janela do carro todas aquelas pessoas calmas e tristes muitas vezes. Vez ou outra surgia uma cena bonita. Como quando vi a mãe brincando com seu filho, com roupinha amarela contra chuva. Eu falava assim, mas era uma mera capa. Com tudo isso sendo tão simples e tão bonito, trazia a mim memórias tão dolorosas de minha mãe. Sendo assim mesmo, algo que me trazia dor, fiquei ali observando bem a dupla pulando poças de água com botas bem coloridas. Vi também amigos brigando e brincando uns com os outros, como só quem volta da escola pode fazer. Não tinha tantos amigos no meu período de colégio, então nem foi algo que me comoveu. Nem tanto se comparado ao cachorrinho que surgia todo sujo de um Opala velho e antiquado, que esqueceram em uma rua. Fazia meses que ele estava ali. Já o vi antes, quando caminhava para chegar ao serviço. Eram tão bonitos, carro e cão. E estavam ali, abandonados como se fizessem companhia um ao outro.
Só que aquela área não era formada só por bons fluidos. Passando por uma rua mais escura, que já estava bem longe do consultório, vi alguns rapazes sendo presos por porte ilegal de drogas. Malditos traficantes. Acabando com a vida de bons rapazes e moças. Se permitissem, pegaria uma arma e estouraria os miolos de qualquer um que me surgisse tentando fazer algo de errado – em especial ao meu irmão que lidava com essas coisas horríveis – e conseguisse ver. Do que adiantava isso, de qualquer jeito? Na esquina seguinte, conseguia ver um garoto de blusa pesada cinza e tênis bem claros fumando o que com certeza era um baseado. Detalhe: ele não deveria ter mais do que quinze anos, aposto. Essa juventude não nota que são eles que sustentam a criminalidade e os marginais que matam bons e honestos policiais. Isso na cidade de Nova Iorque existia e até demais.
Tínhamos como um de nossos vizinhos, um policial de maravilhosa índole. Seu nome Robert Snyder. Quando Sidney havia sido preso por alguns crimes cometidos, como furto para pagar apostas, quem nos salvou? O Tio Bob como o chamava. Lógico, tudo dentro dos limites da lei. Prender um tonto como meu irmão era algo comum entre os policiais de onde morávamos. De qualquer modo era maravilhoso ter alguém com quem poderíamos contar. Não ficar falando e tagarelando como eu sempre fazia antigamente.
De qualquer forma cheguei à minha casa. Fui descendo do veículo amarelado, porém, tirei de um bolinho de notas sujas e surradas o que deveria ser o pagamento da viagem. Ele deve ter agradecido muito por isso, já que começou a falar algumas coisas que não pareciam ser grosseria. Entretanto, qualquer coisa que um estrangeiro fale ainda me parece alguma grosseria e xingamento. Vai se entender... Talvez tenha sido o convívio com os porto riquenhos que surgem pela cidade.
Finalmente, casa! Lugar maravilhoso, pelo menos para mim. Nos últimos dias, meu irmãozinho havia se tornado um tanto chato com relação a nossa casa. Engraçado, visto que foi ele quem encontrou o lugar para nós. Graças é lógico, a uma ajudinha do doutor Fitzgerald, meu anjo da guarda pessoal. O meu irmão falava que ele na verdade tinha alguma tara por mim. Só que nunca vi nada de mais. Ele não ficava me fitando como um daqueles tarados das ruas. Muito menos comprava coisas para mim. Ajudar sim, mas nunca ultrapassava essa linha. Por isso considerava ele como um segundo irmão mais velho. Quase um pai. Nunca iria falar isso a ele, pois... Bem, ele era muito novo para ser pai. Pelo menos fisicamente.
Ele era bonito, mas mais por natureza do que por se cuidar. Não fazia bem a barba e tirando o consultório, dificilmente se vestia bem. Era alguém bem simples em tudo. Sim, eu olhava para ele, oras. Esqueçam o que acabei de escrever, ok?
De qualquer forma estava ali na minha casa. Coisa simples no Queens, com estilo de madeira antiga. Bem conservada por mim. Já que eu passava sempre produtos e vernizes no final de semana para manter a casa inteira. Acabava com meu tempo livre, mas fazia a casa brilhar e ficar inteira. Mais uma das coisas da lista de coisas que eu tinha que fazer para nos manter em pé. Literalmente.
Entrei como um furacão pela varanda, abri a porta de casa, girei em direção a sala e deitei no meu sofá menor. Pode ser pequeno entre os dois que tínhamos, mas era mais confortável. Nessas poucas vezes, me lembrava de que meu irmão deveria estar ali em casa, com fome. Sempre quando chegava das apostas, voltava com fome. Perdendo, chutava as latas de lixo por toda a cidade, até em casa. Ganhando, gastava todo o dinheiro que recebeu da premiação em bebidas e mulheres. Sentia falta de quando meu irmão pulava em cima de mima para brincar, não por estar mal depois das porcarias de apostas.
Na verdade ele fazia esses jogos no Hipódromo Aqueduct, e conhecia os homens que lidavam com dinheiro nessas apostas muito bem. Em especial, alguém que ele conseguiu conhecer antes de ficar nessa onda autodestrutiva. Japoneses, e seu líder era o empresário Hiro Mishima. Eu sempre tive medo que eu encontrasse meu irmão em um saco de lixo, ou até mesmo, que afundasse bem no fundo do rio East. Histórias contavam que ele era um yakuza de grande poder dentro de sua família. Outras histórias diziam que ele na verdade nem mais pertencia a alguma das famílias, participava de algo maior. A pior falava que na verdade ele era um dragão na forma de um homem. Dessa eu ria muito. Bando de medrosos. Como diria o Batman, enquanto houver medo e superstição no coração dos ladrões haverá uma esperança. Babaquice não é? Mas prefiro assim. Hoje eu sei que era pior. Desgraçado.
Deitei por alguns minutos. Como disse antes, demora cerca de meia hora para chegarmos de carro em casa. E o táxi conseguiu pegar uma rota bem livre até. Lembrando que falávamos de uma das maiores cidades do mundo. Peguei com o pé um dos CDs que estavam sobre a mesa. Tirei-o da capa e comecei a escutar. E me fez saltar e cantar. Mesmo exausta.

There was a friend of mine on murder
And the judge's gavel fell
Jury found him guilty
Gave him sixteen years in Hell
He said, I ain't spending my life here
I ain't living alone
Ain't breaking no rocks on the chain gang
I'm breakin' out and headin' home

     E eu já cantava os refrões “Gonna make a jailbreak” enquanto pulava e dançava. Não como aquelas vedetes ridículas de show de rock. Era mais gostosa. Ridículo eu sei. Mas era como eu aproveitava minhas noites de descanso. O final de semana estava chegando. E veria o meu lindo namorado. Qual não foi minha surpresa quando o telefone de casa e escuto a voz dele. Estava ainda no serviço pelo jeito. Algo em que tinha trabalhado mesmo a noite, pois era um bom dinheiro e era para prefeitura. Mesmo assim sentia sua voz cansada. Como queria estar com ele.
     -Olá quem fala? – perguntei cheia de sarcasmo.
     -Você sabe que sou eu Sel – falou se referindo ao apelido carinhoso que me deu.
     -Sel? Não conheço nenhuma moça que tenha esse nome aqui – continuei.
     -Esta bem. Então Vou desligar...
     -Fala seu bobo!
     Ele riu por ter visto que a chantagem deu certo. Como gostava dessas pequenas conversas. Se você possui alguém com quem possa fazer isso, aproveite. Você nunca saberá quando isso poderá ser retirado de você. Não falo isso por me achar dona da verdade. Só conhecimento de causa.
     -Tudo bem amor?
     -Tudo meu anjo. Esta no serviço?
     -Sim, mas fugi um pouco do canteiro de obras.
     -Coisa feia. Matando trabalho para falar com as suas namoradas.
     -Plural? Eu era bom de cama e não sabia? Tenho dupla personalidade? Sel você tem que me falar essas…
     -Ah cala boca seu tonto! Você é um doce...
     -Desde que derreta em sua boca.
     Mordi os lábios. Nem preciso falar o motive. Apesar de não o querer só em minha boca, confesso que era... Digamos, nem grande, nem curto, mas fazia bem o trabalho quando exigido. Mas se fosse para fazer aquele homem gemer de prazer como eu com ele, fazíamos sexo oral facilmente. Homens pensam mais no próprio prazer e Lankford não era diferente. Nem ligava. Homem como aquele era raro. E com um pau daqueles também.
     Deve estar pensando, como ela é tarada. Grande merda. Estou escrevendo minhas memórias. Lembro de cada detalhe como se fosse hoje. Talvez para manter uma faísca de vida nesses olhos já cansados. Eu agora sei como um professor se sente, exausto depois de uma vida trabalhando – mesmo quando se mexe com isso alguns anos – pois faço isso há vinte anos. Gosta de lembrar-se dos tempos melhores e mais calmos. Quando poderia até mesmo pensar no seu prazer como se fosse eterno.
     Nada é eterno. Nem mesmo isso.
     -Eu iria falar que vou levar as cervejas depois do trabalho e dormimos juntos. Levo um filme. Que tal
     -Tudo bem por mim. Que não seja um de terror, esta bem?
     -Ainda esta com medo desde que viu aquele filme?
     -Lógico! Era horrível!
     -Esta bem. Tentarei levar um de comédia. Só que tem que ser bom. E que não será com Adam Sandler. Já me cansei daquele cara.
     -Esta bem. Pois saiba que um dia ele vai ser um grande ator.
     -Se for quando ele deixar de fazer filmes de segunda. Acho que ele só vai fazer pontinhas em produções.
     -Esta bem. Vai trabalhar ou o seu patrão vai te despedir.
     -Tudo bem, antes... Tenho que te falar...
     Ele parou um pouco antes de continuar. Eu sabia que tinha algo para me falar. Era uma mania que só eu entendia. Ainda tinha algo a me falar.
     -Fale – soltei como um inquisidor espanhol.
     -Eu vi seu irmão... No território do Hiro. Estava com dinheiro.
     Nesse mesmo instante saltei do sofá. Ele foi lá. Mesmo eu falando tantas vezes. Repetidas vezes disse, não vá mais atrás daqueles caras. E o que ele me faz? Vai assim mesmo. Havia vezes que eu pensava que não era a mais nova dos dois. Algumas vezes até achava que era a mãe. Nunca entendi como a cabeça daquele idiota funcionava. Nem me interessava. Desde que ele voltasse vivo depois. Para eu acabar com ele.
     -Estou indo John.
     -Amor...
     -A gente se vê mais tarde. Eu prometo.
     Peguei um casaco o mais rápido que pude. Nem lembro como era, mas depois notei que era cinza. Um antigo que não conseguia me livrar e sempre gostei. Acho que era da minha mãe. Parecia que me dava forças. Precisaria delas agora. Quando meu irmão se metia em enrascadas, era federal.
     Antes de sair, peguei o telefone do tio Bob. Rezei para que estivesse em serviço. Já que da última vez em que Sidney esteve no território de Hiro, foi jurado de morte. Idiota, idiota, idiota! Deus! Como acabamos sendo irmãos? Irmã do cara mais idiota do mundo? Juro que não sei como. Posso não ser um Einstein, mas juro que teria mais inteligência do que aquele pedaço de carne mal gerado.
     Pedi desculpas ao meu pai e minha mãe mentalmente.
     Tio Bob não estava. Pelo menos não na delegacia. Liguei então para a casa. Atenderam. Era sua mulher. Ela nunca foi com a minha cara.
     -O que foi? – disse a voz de Elisabeth, a mulher de tio Bob. Cheia de raiva.
     -Estou procurando o policial Snyder. Meu irmão Sidney Queen...
     -Ah! Você é a Queen? A filha da puta que retira meu marido da cama pra arrumar as merdas que seu irmão faz? Aquele vagabundo...
     -Ele não esta pelo jeito – falei rápido.
     -Como sabe?
     -Se não ele teria tirado o telefone da sua mão piranha mal comida!
     Em seguida desliguei rapidamente na cara dela. Bob entenderia. Certa vez me disse que tinha uma amante e só não se separava da mulher por conta dos filhos. Só nunca entendi como ele fez cinco filhos naquele ser do outro mundo. Bem, vai se entender.
     Peguei minhas chaves, minha bolsa e uma faca de cozinha. Aquela que fosse mais afiada. Sabe como é ainda não entendia muitas coisas. Um dos meus primeiros ensinamentos de caça foi: não é a arma que faz o estrago. É até onde você a enfia no corpo do desgraçado que você esta tentando matar.
     Coloquei-a no casaco e fui correndo fechando minha casa as pressas. Eu nunca imaginei que ao girar aquela chave na maçaneta nunca mais a veria. Na verdade, não como antes. Hoje em dia a vejo sendo de um casal que deve dois filhos. Essa não é uma história em que no final estarei morta camarada. É onde mostrarei que o mundo esta indo pro buraco e nos dois estaremos nele. Sim, eu e você.
     Peguei e comecei a correr para onde era o território do Hiro. Dessa vez, peguei um táxi. Era um dos tarados... Droga.
     Antes de entrar estava com a nítida impressão que um desgraçado lá de fora ficava me olhando com um casaco pesado e grande. Que cobria muito bem o rosto. Se fosse o tipo que imaginava seria pior que um tarado. Ignorei, pois já tinha muita coisa na cabeça. E já tinha que me preocupar com os olhos do veado que dirigia o táxi. Pensei em usar minha faca.
     Antes de ir, parecia que do casaco do estranho eu vi a ponta de uma faca. Nem sabia eu que era um facão. Ele entrou em um carro. Ele me seguiria, mas eu não sabia.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

(Parte 1 de Diário de Caça) Começo do Arquivo



Bem isso deveria ser um simples diário, mas não é. Escrevo aqui sobre minha vida. Mas minha vida não é como de muitos por ai. Acreditem. Até tentei sair desse rumo, mas não consegui. Se é que posso chamar isso de rumo, sendo que me vi sendo empurrada para ele. Não funcionou. Sabe quando você diz que é mentira, o ocorrido é falso? Pois isso é o que sempre faço quando acordo.
Mas não é para poder me vangloriar do que aconteceu... Não nunca iria fazer isso. Quem o faz só pode ser um amador que nunca olha direito. Não enxergam o estrago causado por si, as pessoas que nem conhece. Assim como para seus entes queridos e amigos próximos. Lembrou-me de um caso em Washington. Você não imagina como aquela cidade é suja no que chamamos de periferia. Isso sem falar no meu tipo de sujeira. Pensando bem, às vezes acho que muitos dos tipos que encontro no meu “trabalho”, tem um jeito simpático. Se compararmos aos miseráveis que abusam dos inocentes nas grandes cidades, parece nada.
Então, por onde começar? Parece mais fácil falar do que fazer. Juro. Muitos só juntariam um monte de papéis e anotações, talvez recordes de jornais. Eu não. Prefiro algo mais verdadeiro. Simples mas eficaz. É o que aprendemos desde cedo. Nada de uma bagunça na casa alheia. Ou onde nossa busca nos leve.
Escrevi muito, mas não imaginam o que faço. Certo? Bem, devo primeiro me apresentar. Meu nome é Selina Queen. Sou uma mulher que atualmente tem 38 anos. Não tenho residência física. Na verdade viajo por boa parte dos Estados Unidos. Atualmente sozinha. Antigamente com alguns homens e mulheres com os mesmos ideais que os meus. Se isso pode ser chamado como uma ideologia. Conheci muitos como eu. Estranhos e até louco. Todos corajosos pelo menos. Já li certa vez (até mesmo nos quadrinhos do Homem-Aranha se me lembro bem), que a linha que divide o sábio do louco é tênue. E eu a atravessei.
Antes de tudo saibam que não vivi minha vida inteira assim.
Antes eu era Selina Queen, secretária de um dentista. Uma vida comum, um trabalho comum, um namorado comum e um irmão nada comum. Mas a gente não pode ter tudo na vida também. Mesmo assim, eu trocaria tudo que eu tenho agora por aquilo. Muitos pensam que possa ser exagero, que estou mentindo. Não meu amigo, estou sendo o máximo possível verdadeira. E nenhuma linha aqui será exagerada. Já será difícil você acreditar em mim sem ser assim. Imagine se eu viajasse no que escreverei a seguir.
Mas voltemos ao assunto...
Nasci em Seatle. Mas minha família se mudou, logo após eu nascer, para Nova Iorque. Deveria ser por conta de oportunidades de emprego. Bobagem não é? Cidade suja essa em que vivi até os meus vinte e cinco. Só que eu pensava “ei, é agora minha cidade suja!”. Coisa rara de uma pessoa pensar fazer, gostar da cidade.
Após os meus oito anos tive a primeira grande fatalidade da minha vida: meus pais morreram em um acidente de carro. Um caminhão surgiu do nada na contramão e os fez bater em uma árvore na rodovia I-78, quando voltavam de Nova Jersey. Meu pai dirigia. E ele que adorava beber, não tomou uma gota naquele dia. Pelo menos é isso que o exame toxicológico mostrou. Já o caminhoneiro não poderia dizer o mesmo. Estava tão alcoolizado que mal conseguiu levantar para ofender os policiais que o encontraram a meia-noite de um dia de abril. Comemorariam o aniversário de casamento.
Desde então vivemos com minha tia, Elizabeth. Uma velha chata que batia em mim e no meu irmão mais velho Sidney. Só que as coisas eram diferentes com o Sid. Sim, brigas épicas. Ah se eram...
Meu irmão era um herói. Mas não com capa e espada, como o que aparece naqueles filmes antigos que apareciam nos filmes em preto e branco. Muito menos como aquele escoteiro do Super Homem. Não, nem um pouco. Parecia mais com algo entre o Justiceiro e o Batman. E sim, sou uma ex-viciada em quadrinhos. Não tenho mais tempo para acompanhar as histórias. Adorava os escritos de Alan Moore e Neil Gaiman. Se bem que eu adorava os desenhos de Jim Lee. Homens musculosos e lindos como aqueles eram raros. Continuam. Sidney usava os quadrinhos e um walkman antigo de marca ??? para me fazer viajar com histórias da Vertigo e da Image. Enquanto ele se atracava com nossa tia em mais umas das famosas brigas dos Queen. ´
Tirando nossa tia, éramos felizes. E quando atingimos certa idade pudemos viver por conta própria. Saímos do bairro Bronx e fomos para Manhanttan. Evolução rápida e astronômica. Lindo, parecia quase um conto de fadas. O maninho era um gênio quando se tratava de negócios.
Só que muitas vezes nossa vida se torna uma pequena caixa de surpresas. E entre elas estava que meu irmão que havia conseguido um magnífico emprego na bolsa de valores perdeu tudo com a única coisa que nunca conseguiu vencer: seu vício por apostas. Gastava tudo em corridas de cavalo. Nunca odiei tanto esses animais. Na verdade, sempre odiei animais de qualquer espécie. Porém desde então eu tenho um ódio mortal por cavalos em especial. Se ao menos eu soubesse...
Bem, graças ao meu sábio irmão, tivemos que parar no lugar mais pobre em todo o Queens. Estávamos na nossa segunda crise após a morte de nossos pais e deixarmos a casa de nossa tia. Pouca grana, comida pouca. Não iríamos voltar a morar com ela, mas eu tinha que fazer algo. Comecei a mudar isso trabalhando como secretária. Como, nem eu me lembro, mas me lembro que menti minha idade. Afinal, não iriam querer contratar uma adolescente. Quantas vezes fugi do azar de ter alguém revelando minha idade no consultório. Amigos do colégio, ou quem sabe um parente. Namorados? Demorei a ter. Até um tempo antes do desastre.
Fui passando de emprego para emprego, mas sempre bem recomendada por todos os meus patrões. Nunca fiz nada do que uma moça possa se arrepender. E algo que sempre fiz foi para lutar contra os problemas. Às vezes causados pelo meu irmão, às vezes pela vida. Complicado.
O que escrevo se refere a um período em minha vida ao qual tudo estava bem. Trabalhava como secretária para um dentista chamado David Fitzgerald Jr., até que bem renomado. Os problemas com relação a meu irmão estavam, digamos, controlados. Eu mesma estava namorando.
E como ele era bom pra mim. John Lankford. Rapaz trabalhador. Não pensava muito, nem era tão inteligente, mas se importava comigo. Idiotas são essas garotas que procuram satisfação com o corpo de um homem sem nenhum conteúdo. Ridículo e patético. Tive uma amiga que terminou com um bom rapaz do nada. Sem motivo algum, simplesmente disse que não o amava mais e que estava tentando mudar o coitado. Estranho mesmo. O que é uma coisa idiota. Mas eu sempre valorizei o meu namorado. Trabalhava como um dos inúmeros pedreiros da cidade. E mesmo sendo um rapaz cheio de palavrões e xingamentos no seu dia-a-dia, ele sempre tinha o seu bom humor no final, falando como eu era linda. Que queria ver meu sorriso sempre. Por isso me presenteava com aquilo que as mulheres normalmente gostam: livros. Algumas, sem personalidade, só se fixavam nas compras de sapatos e roupas. Nunca gostei, prefiro estar completamente nua, mas cercada das grandes obras que ele me trouxe. Era um pequeno paraíso.
Essa vida com Lankford e o babaca do meu irmão Sidney era boa e se foi... Com tanta rapidez que nem sei em que dia, semana, mês ou ano ela se foi. Mais forte que qualquer tornado ou ciclone. Ou um maremoto. Quando as pessoas se pegam olhando as fotos dos desastres naturais ninguém imagina o que ocorre nesses lugares. Assim como quem presenciou tudo aquilo de dentro do olho do furacão. Que lindo era aquilo comparado com hoje em dia. Era um paraíso o frio que sentia na pele depois do serviço. Os tons cinza da cidade se confundiam com as roupas baratas que conseguia comprar. Valia à pena tudo aquilo mesmo com as dificuldades que passávamos.
Só me lembro que naquele dia era inverno. Sei disso, pois estava pensando no que comprar para os enfeites de natal. Eu sempre fui muito sistemática com isso. Era engraçado como tínhamos, eu e o Sidney, esse costume bobo ainda. Carregava-me nas costas e me fazia colocar a estrela na ponta da árvore de Natal. Era um rito, uma prática que tínhamos. Nunca poderíamos deixar de fazer isso no final do ano. Uma vez voltei muito tarde para casa e não avisei a ele. Quase brigamos fisicamente, mas ele tropeçou na varanda de casa. Ri muito. Parecia tão patético. Ele também riu e se levantou, ofendendo Deus e o mundo. Só que aquela época festiva também se tornou complicada para mim.
Estávamos com muitas consultas. O doutor Fitzgerald, que sempre insistiu que o chamasse pelo primeiro nome, estava cheio de consultas no meio do dia. Isso sem lembrar que eu já cheguei atrasada.
Abríamos o consultório às nove da manhã. E eu acordei mais tarde... Quase uma hora mais tarde. Bem, depois me entenderia com meu patrão. Ele sempre tão prestativo e me doava altas broncas. Eu até me sentia mal por ser tão relaxada por isso. No geral, mesmo assim, trabalhar lá era bom. Salário médio para uma mulher nos Estados Unidos.  Melhor que nada era o que sempre dizia. Sempre piorava, mas usava esse refrão para não perder a força. Nem a vontade de viver. O que era difícil.
Almocei como um foguete. Não queria me atrasar mais uma vez. Batatas fritas, com um pouco de arroz, uma panqueca, salada de alface e tomate, além de um refrigerante para que tudo isso entrasse de uma só vez. Parecia até um hipopótamo comendo ali. Refeição barata em um dos lugares mais sujos da cidade. Um verdadeiro cinzeiro em forma de restaurante. Porém, como disse antes, comida com preço acessível e era melhor que muitos outros lugares.
E lá fui eu trabalhar novamente. Era cada tipo de pessoa com bocas cheias de dentes podres, cáries, crianças mal educadas, barulhentas ou fedendo. Admito, não tenho paciência com pestes assim. Só que sabia lidar com eles melhor que as mães algumas vezes. Elas não tinham que lidar com caras como Bradley, o valentão da escola. Sempre tem um deles nos colégios. Aprendemos a fugir deles, ou como se livrar deles na base da pancada. Se fosse tão fácil lidar com eles não aprenderíamos nada nessa vida. Descobri que na nossa vida temos sempre uma terceira opção. No caso do brigão era arrumar alguém mais forte pra bater nas bolas dele. No caso das crianças, é simplesmente fazer uma ameaça velada longe das mães. O dentista garante que tenham dentes limpos e saudáveis, já eu garanto que não os percam antes da consulta.
O doutor até sabia do meu “truquezinho” para manter calmos os pacientes mais novos. Porém, fazia vista grossa. Entendia que fazia algo assim, pois não era fácil lidar com isso todo o dia.  Nem pra mim, nem para ele. Que amor ele era.
De qualquer forma estou divagando. Enrolando, para não escrever o que realmente preciso. Colocar nessas páginas um dos piores fatos que constatei nesses últimos anos, devido ao que aconteceu naquela noite. Algo que veio antes dessas noites sem dormir. Antes de ter que escolher um novo caminho. Onde pessoas não são pessoas. Sangue é bem mais comum do que se imagina. Matar se tornou fácil nesse mundo.
Um mundo de sombras, trevas e escuridão. E ele esta aqui. Ou melhor, ali, depois da próxima esquina.
Para começo de conversa, saiba que foi assim que perdi meu irmão e meu namorado. Não de um modo convencional. Ah não senhor, meu amigo. Mas foi assim que conheci Vanessa Garcia, uma bruxa na melhor das hipóteses. E em especial o homem que nunca me treinou, mas que me fez seguir o meu caminho. Ao qual ninguém jamais gostaria de seguir por livre e espontânea vontade. Essa foi minha terceira opção. Eu caço e mato monstros. Isto é sério.

Nova história! Diário de Caça! terror ao estilo Storyteller!

Sou e sempre fui um grande fã do estilo Storyteller que usa um cenário de terror punk-gótico. Que atualmente esta muito perdido... Por isso comecei a saga de Selina Queen. Espero que gostem.
Selina é uma excelente caçadora, conhecida demais no submundo dos caçadores de monstros em geral. Toda a saga tem um começo.... Leiam e aproveitem!
Índice

Começo do arquivo.
19:00 até 19:59 – Queen – Under pressure.
20:00 até 20:59 – Aerosmith – Livin on the edge.
21:00 até 21:59 – Misfits – Die, die my darling.
22:00 até 22:59 – Charly Garcia – Simpathy for the devil.
23:00 até 23:59 – Megadeth – Never dead.
00:00 até 00:59 – The Animals – House of rising sun.
01:00 até 01:59 – AC/DC – Safe in New York City.
05:00 até 05:59 – AC/DC – Highway to Hell.
Final do arquivo.