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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Afrodite & Odisseu - Capítulo 1: Introdução e Templo do Amor


Deuses gregos, romance isabelense, Stephen King, sexualidade e novela da Record me fizeram escrever esse livro
Eu não escrevo um romance a certo tempo. Meu único romance escrito é parte de uma trindade. Nada de saga, como em Contos do Tempo Perdido. Acho que textos assim perdem a força quando vem dessa forma. I’m Alive seria de três escritos que se passariam em Santa Isabel, tratando sobre três amores. 
O primeiro deles – já lançado –, I’m Alive, trataria sobre o amor entre irmãos, entre amigos, a philia. O segundo se chamará Hard Punch, que trata sobre amar a si mesmo e ao mundo, a ágape. O terceiro e último, terá o título de Error, finalmente abordando o éros. Eu não lembro onde eu ouvi pela primeira vez um desses nomes, mas cada um tratava de um modo diferente o amor. Na verdade, seriam “versões” dele. Aquele que se tem por pessoas que não tem seu sangue, ou quando se está amando e apaixonado ou ainda por si mesmo. Entretanto, algo aconteceu recentemente, sendo que nem mexi nos outros dois títulos ultimamente.
Em 28 de Junho de 2026, eu passei por uma experiência boa e ruim... Ao mesmo tempo? (Sério! Até hoje não sei como definir aquele acontecimento! E nem vou falar dele!) Enfim, me fez repensar algumas certezas que sempre tive na minha vida. Sobre amor principalmente, seja o meu, ou de outras pessoas, de sexualidade, e coisas que nem sempre mexi.
Me entendam: eu sempre me vi pisando em um chão firme de convicções, que nos últimos anos foram, se perdendo. Nunca fui um homem da direita, mas muitas das ideias que eu tive até então vinham dessa falsa noção de viver uma vida perfeita. Pois vivemos em uma sociedade extremamente liberal..., mas liberal com o que? Com a economia, é claro. Só que, assim como quando houve a Independência do Brasil, o país se dizia liberal mesmo possuindo escravos, eu nunca tinha me tocado em quanto vivemos em uma sociedade hipócrita.
Pior ainda, pois eu moro em Santa Isabel, uma cidade extremamente conservadora. Não há crimes de ódio contra minorias, nas ruas pelo menos, com tanta frequência. Entretanto, o que tem de pessoas que se escondem por trás de um perfil nas redes sociais, não é brincadeira. É preconceito contra negros, LGBTQIAPN+, religiões de matriz afro, além de toda a sorte de piadas cruéis, que escuto aqui e ali.
Obviamente, eu precisava de referências para aquilo que começava a escrever. E fui buscando em livros, mitologia, cultura pop e em exemplos da vida real.
Quando vi Pelos Estreitos Becos da Vida, de Armando Machado, o Machadinho, uma das coisas que notei foi como aquilo era com base na vivência do autor. Obviamente, poderia ter seus exageros, ele pode ter minimizado alguns episódios, mas o pior é que boa parte poderia ser verdadeira! Ainda digo mais, pessoas próximas dele, me falaram que realmente, alguns daqueles fatos são reais. O quanto era verdadeiro eu não sei, mas se tornou uma base nos últimos tempos para Afrodite e Odisseu. Pois até onde pude conhecer dele, não era uma pessoa perfeita. Assim como eu não sou. Como autores somos falhos e isso é ótimo para nossa criação. Sem contar que me usaria como protagonista, assim como faz Stephen King.
Acho que uma das coisas que poucos notam, é que sou um fã de Stephen King. Se você nota, deve ser um stalker meu! Parece bobo, mas muita gente não conhece toda a obra do cara, afinal, ele não procrastina em escrever. Quando era novo, conheci seus textos primeiro pelos filmes baseados em suas obras. Tais como Christine, Carrie A Estranha, Cemitério Maldito, It: A Coisa, Dança da Morte, além do controverso O Iluminado, que não tem muito da obra original. Anos depois, soube que ele escrevia contos, alguns mais curtos, nessa mesma pegada, como O Nevoeiro e Às Vezes Eles Voltam. Contudo, o que mais me pegou de jeito foi conhecer duas obras que não me lembrariam nada de terror, vindo dele. Um Sonho de Liberdade e À Espera de Um Milagre, ironicamente, sendo obras que tratam de pessoas presas. O que me fez pensar em King, não foi por si só o fato dele abordar o mais comum com tanta graça, mas se colocar nas obras. Ele faz isso, quase sempre, como na história do Hotel Overlook ou Janela Indiscreta. E eu queria me colocar aqui, da minha perspectiva, como autor e personagem. Mas não queria ser o protagonista.
Eu gosto da Odisseia. A saga do Rei de Ítaca, que foi guerrear contra Tróia, parece que foi buscar uns cigarros e só voltou quando estavam querendo pegar a mulher dele. Falando sério, Odisseu era um baita hipócrita. Caçou umas aventuras de brigas e amorosas, pra depois correr atrás do trono, por um certo peso na consciência. Eu amo esse personagem trágico, devido a isso, por parte de tudo ter acontecido devido a si mesmo. Triunfa, devido as suas falhas se tornarem a experiência para lidar com pessoas prepotentes. Os pretendentes a casar com sua rainha, fiel até o fim. Ao menos, é o meu entender. E ainda mais, ele ainda estava aprendendo no final de sua vida, também a como ser pai. Só que eu não o acho digno de um protagonismo, nessa peça.
Afrodite por outro lado, é uma deusa, uma entidade superior, mas cheia de falhas. Entretanto, a figura feminina – seja pelo cristianismo atual, ou até algumas visões pagãs machistas mesmo – sempre é retratada como uma pessoa que precisa ser punida. Aracne, Pandora, Menta, pesquise esses nomes, e vai encontrar que boa parte delas foi punida ou foi controlado o destino. Enquanto, quando um homem fazia alguma burrada, era transformado em uma lenda, em um mito, estrela, até em uma constelação inteira. A deusa do amor, que protegia o prazer, os apaixonados e até as prostitutas, sempre foi humilhada, sendo que só deve grande relevância na Guerra de Tróia. E mesmo assim, ela causa a disputa devido ao sequestro de Helena, por Paris. Ou seja, na mentalidade antiga, mulher causava confusão pros gregos, e esse pensamento se arrastou até hoje. Então, queria essa divindade como a protagonista.
Então, o que me fez pensar, E SE, Afrodite encontrasse Odisseu, durante o final da Guerra de Tróia?
Para quem não sabe, a saga de Odisseu, se dá quando ele, após ajudar a conquistar Tróia, desafia os deuses, em especial Poseidon. Além de ter vencido com o famoso Cavalo de Tróia, teria sido uma fera do mar que impediu o plano dos gregos de dar errado. Lembrando que equinos são criações desse deus. E como dito antes, Afrodite teria ajudado Paris, príncipe troiano, a sequestrar Helena, então mulher do rei espartano. Tudo por que ele a favoreceu em um concurso de beleza, entre ela e outras deusas. Fazer esses dois, em uma história seria delicioso de descrever.
Ainda assim, eu não sou grego, nem sequer sou Homero, nem Odisseu. Sou Luis Eduardo Caraça Tavares. E queria abordar temas mais sensíveis. Ao mesmo tempo que não queria ter uma obra como Star Wars, que trata sobre temas espinhosos, mas não pode colocar sexo ou coisas até mais polêmicas, no enredo. Lembrando que sou um fanático pela obra de George Lucas, mas o próprio ficou cansado disso em certo ponto. Então, me voltei para dois pontos que poderiam me ajudar: Entre o Outono e Você e Amor Sem Igual.
A primeira é uma obra escrita por Roberto Antunes, autor que assim como eu, é de Santa Isabel. Seu livro, foi publicado no ano de 2025 e trata sobre um romance que transcende o tempo e as estações. Sobre dois jovens, Rafael Schneider e Isadora Magalhães, que mesmo sendo tão diferentes, se encontravam nesses contrastes. Ao ponto que algo fará suas vidas mudarem completamente. E eu fiquei, gostei disso tudo, mas se eu pudesse ser mais cruel que o Roberto nesse desfecho? Pois há uma continuação do livro, o que pode dar um gosto menos agridoce a obra. E eu queria esse azedo e doce ao mesmo tempo no que escrevia.
Já na novela da Record, acompanhamos a história de uma garota de programa chamada Poderosa, salva por um homem trabalhador de nome Miguel. Acompanhamos, nessa obra uma tentativa de mudança da personagem, por parte de seu par romântico, para alguém menos promíscua, mas tudo naquelas cenas era muito forçado. Parecia um game, em que a decisão do personagem só influencia no final, próximo do encerramento. E a obra tinha chance de ser bem melhor, até mesmo se mudassem alguns detalhes. Deixassem a mensagem religiosa moralista, mas ao menos fizessem de um modo mais apropriado. Aquilo me fez pensar, eu poderia fazer isso de uma forma boa!
Então comecei a redigir no meu celular, de uma forma fora do contexto, um texto que trata sobre coisas pouco descritas nos meus livros. Algo que demonstre uma mudança na minha escrita, mas que possua meu DNA narrativo. E por favor, isso com certeza não tem nada a ver com Uma Linda Mulher. Está bem longe disso, sendo mais próximo de um romance bem fora da curva. Que ainda possuí algo perigoso a colocar na vida da protagonista.
-Escrito por Luis Eduardo C. Tavares, em 05 de julho de 2026, domingo

Estava até adiantado para ver ela. Barriga vazia, nariz escorrendo congestionado, corpo cansado, com uma mochila cheia de tranqueiras, como professor que era. Estava na Faria Lima, bairro dos ricos empresários de São Paulo. Não havia notado e desceu na Estação Pinheiros. Como não sabia que era perto do lugar o metrô, deve que pegar um táxi. Afinal, ele preferia chegar adiantado do que atrasado. Peque pelo excesso, nunca pela falta, sempre que podia falava.

Achava que estava bem, para o seu estilo padrão: um típico grunge! Tênis detonado, mas ainda impecável. Calça jeans, pois era o único tipo de vestimenta para as pernas que ficava bem nele. Presa por um cinto preto mais detonado que cão de rua. A camisa era do Rammstein, banda alemã que demonstrava sua vertente para a política de esquerda. O que esperar de um historiador? Para completar, um boné antigo cobria seu cabelo, que estava bem arrumado, para aquele tipo de cidadão pelo menos. Mas não queria parecer feio antes da hora. Usava um perfume chique, mesmo que para outros parecesse bobagem. Obviamente, não comentou sobre o que faria, ainda que quisesse estar charmoso.

Enfim, caminhou até a rua que ela havia especificado. Ficava próximo de prédios de ricos, que pareciam ter sua própria praça. Coisa de pessoas lotadas de grana, gente de quem ele não gostava.

De toda a forma, o lugar ficava ali. Não poderia ser outro lugar.

Apertou o interfone do prédio, com o número 130, como ela havia combinado. Não entendia essas tecnologias, então, demorou para aprender a como apertar. Diria, que como o escritor Tolkien, não era bom com algumas tecnologias.

-Olá? - disse a voz do comunicador eletrônico.

-Oi - falou aquele rapaz, com voz constrangida, que poderia entregar sua intenção - Ah, estou aqui para encontrar a moça do 59.

-Espere um pouco - e uma música, típica de elevador tocou. 

Ficou esperando no vazio daquele silêncio, no bairro nobre, por alguns segundos. Em seguida, a voz eletrônica da atendente surgiu. 

-Ela falou que vai lhe mandar mensagem pelo celular. Olhe aí.

-T-tá bem - meio nervoso ele pegou o aparelho e conferiu. Realmente havia um recado por parte dela.

Estava lá:


Eu disse 13:00. Ainda não me arrumei. 


Ficou meio com bronca, pois queria chegar cedo para poder aproveitar a companhia dela. Ele não fez nada de errado. 

Ainda assim, o rapaz respondeu:


Ok. Vou andar um pouco e já volto.


Ela, respondeu prontamente:


Pode ficar no aguardo, aqui dentro se quiser.


Respondeu por áudio, com um tom de voz afável, que não precisava. Andaria um pouco, depois voltava ali. Passear em Sampa era gostoso.

Em seguida, ela mandou um rápido e simplório "ok".

Bufou ao ver a resposta. Não existia um grande compromisso entre eles, mas queria a ver logo. Talvez nem daria certo, pois estava nervoso. De toda a forma, andou alguns metros para trás, onde viu um posto de gasolina.

Lá, comprou energético e balas para o hálito. Queria parecer minimamente bem. Apesar de usar um vestuário simplório para encontrar com uma moça como aquela. Jamais tinha feito aquilo, então, não era como se tivesse protocolos daquele tipo de situação. Então, tomou em alguns goles a bebida energizante, sem contar que depois consumiu uma das balas. Queria ter uma experiência perfeita.

Voltou de frente ao prédio, como se fosse um dos seus alunos que repetia um ato de pedido ao banheiro. Perguntando a mesma coisa, ainda assim, a atendente parecia não se lembrar dele. Como isso é possível? Ou a memória era bem seletiva, ou ela estava pouco se lixando para ele.

Enfim, a moça do apartamento 59, parecia estar pronta e mandou ele subir.

Havia até mandado mensagem pelo celular também. 

Isso lhe deixou bem, para mexer na porta. Quase fez aquilo que é pedido nela, só que ao contrário. Ao invés de empurrar, iria puxar. O nervosismo era claro. Ao menos, já sabia, se era no apartamento 59, seria no quinto andar.

Entrou no elevador, junto a uma senhora, que trabalhava no prédio. Ajudou como pode, com o peso de um aparelho que nem imaginava do que se tratava. Desceria depois dela, o que lhe deixava bem. 

Pois quando chegou ao andar, mesmo sabendo encontrar o quarto, se sentiu perdido. Finalmente, estava na porta, apertou a campainha. 

Quem atendeu era ela. Uma moça de encontros íntimos, ao qual dariam outros nomes antes. Uma garota de programa, uma prostituta ou uma puta. Pouco interessava, pois ela estava ali para ele.

-Oi gatinho. Tudo bem? Vamos, entra - e o puxou pelas mãos. Já notando elas trêmulas. 

-Olá... Ana - disse de um modo meio calmo, mas contido - Está bem?

Ela estava estonteante, com um body de renda preta, com detalhes que conseguia notar, cobrindo boa parte do corpo, com exceção das costas. Uma uma saia curta de jeans, estava na sua cintura, dando um ar de infantilidade, uma coisa mais inocente. E as botas, eram coturnos, que a deixavam maior em altura, mas não se comparava ainda ao rapaz e seu tamanho. Mas, abaixo daquele tecido, não existia mais nada, nem sutiã, nem calcinha, nem lingerie, nenhuma peça de roupa íntima. Era algo que jamais tinha visto pessoalmente, mesmo com um grande grupo de experiências sexuais. Não que fosse um especialista, muito pelo contrário, pois estava até meio atrasado nesse quesito. Ainda assim, manteve a calma, como se conversasse com alguém comum.

O problema estava nos seios, realmente fartos e voluptuosos, que forçavam ele a olhar para seus olhos. Pois olhar para baixo se tornava um perigo: ela, safadamente, deixa a mostra o que havia debaixo da saia, mesmo com a renda cobrindo parte daquela área. Ai, chegava na face da serpente, ele diria, pois o encarou com olhos azuis cheios de leveza e crueldade. Estava na frente de uma tremenda Capitú, aquele olhar penetrante, como de uma serpente, mas uma cascavel seria menos poderosa. Além de que, ao menos poderia ouvir um guizo.

A única coisa que estava fora do sonho molhado de um homem seria a maquiagem. Parecia ter sido feita as pressas, ou estava sendo para outra função. Ainda assim, os lábios vermelhos turvavam a visão, tempo suficiente para um ataque, se quisesse. Isso sem contar, que apesar de não ter conferido as ancas, o corpo em si, estava maravilhoso. Queria a tocar, mas mesmo pagando para estar ali, estava tímido.

Ela sentou na cama, oferecendo água, depois cerveja. Aceitou a bebida alcoólica. Talvez, sentisse mais confiança para agir.

-Desculpe a demora - começou Ana - Eu só queria me arrumar o melhor possível.

-Que isso! Você está fenomenal, como vejo no site - finalmente, falava de um modo mais aberto. Não achava que a bebida teria dado efeito, mas talvez, o energético já.

-Obrigado gatinho. Quer um energético também?

Após aceitar, já foi pegando, o que ela havia deixado na mesa. Era um apartamento pequeno, que ela com certeza alugou, para aquilo. Nada de motel. Garotas assim, tinham que preservar pela qualidade. E também, pelo sonho, a fantasia sexual. Havia uma geladeira, colocada em um ponto estratégico, junto a uma mesa improvisada, além de alguns armários. Dava para se ver do lado da cama, em um espelho e continha também a entrada de um banheiro, com porta transparente, como imaginava.

-Então, vê o site não é? - questionou sem malícia ou maldade.

-Ah, sim. É uma plataforma bacana. Na verdade - então, voltou e sentou ao lado dela na cama - o motivo de estar vendo aquilo tudo, é por estar solteiro. Se não, nem mexeria naquilo

-Um cavalheiro, creio eu - disse Ana, sem pretensão.

-Não. Bem longe disso - sorriu ao expressar aquelas palavras - Eu não acho certas atitudes de homens, que se mantém em sites assim, sendo que estão comprometidos. É hipócrita.

Então tomou um gole a mais no energético. Parecia querer der mais gás para falar sobre aquilo. 

E quando se virou para o rosto de Ana, ela estava com um rosto de perplexidade. Notando que ela ficou espantada sobre aquele pensamento. 

-O que disse faz muito sentido - foi a expressão da moça, com um sorriso no rosto - Então, por qual motivo entrou na plataforma?

Ele riu, pensando sobre algo que nem comentava muito.

-Eu mudei muito alguns pensamentos, nos últimos anos. Devido a coisas que passei, ver o quanto essa galera está mostrando ser hipócrita. Em especial, os pais de família conservadores e cheios morais e bons costumes.

-Sim! Falando que as pessoas devem respeitar a família e a tradição, mas... - Ana foi interrompida por ele, nesse momento.

-São os primeiros a traírem mulher e filhos, vindo em encontros assim.

-Exatamente - então, ao falar isso, ela pegou no joelho daquele rapaz. Dessa vez, parecia mais controlado, como se fosse natural aquela ação. Não era devido a bebida alcoólica, nem ao energético. Se devia a uma certa convicção nas palavras.

-Aliás - levantou rapidamente, tentando ser delicado com a moça, para ir até a mochila - Lhe trouxe algo aqui... Achei!

Quando disse aquilo, parecia ter descoberto a penicilina. Mas era um livro, que tratava sobre Nietzche.

Sentou ao seu lado como se fosse dar um

-Encontrei enquanto estava vindo - estava sorrindo feito uma criança ao entregar aquele livro. 

-Meu! - a expressão era genuinamente de felicidade no rosto da moça - Você notou mesmo! Mas confesso que curto muito livros de terror e fantasia.

-Isso imaginei, mas era um ou outro - fungou um pouco, ao falar aquilo, o rapaz. Poderia ser um adulto, mas atitudes que beiravam o infantil. 

Aquela musa riu, de uma forma única, que lhe deixava mais atraente do que já era. Enfim, ele notou o cabelo dela, com um volume único e misterioso. Era de um castanho, quase místico. Parecia as vezes mais claro, na parte alta, como os raios de lua cheia. E mais escuro, quando mais descia para o pescoço e o busto, com a escuridão de um céu noturno. Fascinado estava, ao olhar para aquela mulher.

-Por qual motivo escolheu esse então? - disse Ana, quebrando seu próprio encanto sobre o rapaz. 

-Ah, sim - ele notou essa quebra - Seus gostos nas redes me lembrou da mitologia grega. E como os deuses podem representar aspectos humanos.

A cara da moça parecia quase inocente ao ouvir aquilo, se não fosse pelo seu corpo pronto para algo mais. Ela usou os cotovelos para ficar no colo de seu contratante, e olhou com círculos castanhos chamativos e um lábio vermelho-rosa chamativo.

-Me explica isso.

Era notável que o membro dele estava atento, mas era engraçado que queria o controlar, ao menos um pouco. Realmente, nunca esteve com uma mulher contratada para o prazer.

-Deuses gregos... Demonstram como somos falhos. Um exemplo claro é o próprio Zeus. Um canalha de marca maior que eu odeio. Abusador, genocida, canalha de marca maior... E lidera o Olimpo!

A atenta Ana levantou do colo, de forma abrupta, mas parecia realmente interessada. 

-É verdade. Nunca achei que iria ouvir algo desse tipo de um homem. O Zeus é terrível, pelo que se sabe - ao falar isso, ela colocou sua mão na perna dele. Menos mal para sua libido.

-Sim. Ele deve mais de cinquenta casos e supera os mais de cem filhos, dentro da mitologia. Isso sem contar a destruição de tantas civilizações.

E ao falar isso, colocou a sua sobre a dela.

-Parece bem inteligente - disse ela com um sorriso quase infantil.

-A tática de pessoas realmente inteligentes é parecerem estúpidas. 

-Como assim? - Ana estava empolgada com aquele falatório, mas tirou uma lata de cerveja, que ele nem imaginava que poderia ter por ali.

-Pessoas, quando são inteligentes, não demonstram isso. São reservadas ou parecem estúpidas, pois é mais fácil para enganar os outros. Pois a queda de uma pessoa assim, não é falta de inteligência, mas o orgulho dela.

Isso fez a mente de Ana atingir novos patamares.

-Então, o certo seria parecer uma pessoa burra?

-Sim. Isso nos protege... - ao falar isso, ele se voltava para a bebida. Não como se tivesse sede, como se fosse um foco. Os olhos dele estavam cheios de uma nostalgia e melancolia. Se concentrava, não naquela moça, com quem conversava naquele momento, mas em algo.

-Uma bala por seus pensamentos moço.

-Eu só estava pensando em quanto estou ansioso...

-Faz parte - e Ana então esfregou suas costas, o consolando pela apreensão que ele sentia. Notava uma costa simples, sem grande força, mas ainda assim, bem mais definida do que esperava. Era um rapaz grande, cheio de um humor único. Pena ser apenas mais um trabalho para ela.

-Não é apenas aqui, mas com alguns dos trabalhos meus. Eu quero tanto atingir as pessoas com arte. Minhas obras.

-Você é formado em artes - ela respondeu, ao se lembrar de algo sobre ele.

-Sim - respondeu ele, de forma entusiasmada - Então, já viu alguma coisa minha?

-Me interessei - Ana comentou, com certo ar de desconversar - Como alguém que aprecia as artes seria como um deus? Tal qual Dionísio?

Ele riu, de uma forma franca. Ana gostou. 

-De certa forma - falou ele com olhos ternos - sou mais a cara de Odisseu.

-Um herói trágico - a moça disse isso colocando as duas mãos em suas pernas 

-Um homem que falha - falou ele, assoprando o ar em seguida, para se preparar. 

Ana em seguida se ajoelhou perto dele, na sua frente. De uma forma terna mas cheia de malícia, como apenas uma moça daquele ofício poderia ter.

Ela abriu a calça com certa delicadeza, ao ponto de que nem parecia estar mexendo em um zíper. Era mais algo próximo de um corte, seco, rápido, sem testemunhas. O quarto cheirava a Ana, com um perfume inebriante, exótico, até mesmo afrodisíaco. Na verdade, o estimulante era ela, voluptuosa, cheia de um cuidado único, abrindo a frente da vestimenta inferior, já notava o óbvio. Seu membro estava duro, erguido, ainda abaixo da cueca, preta ou azul. Era tantas vezes que lavava aquele pano, que perdeu a noção de cor. Seu corpo esquentava, não apenas pela manipulação das mãos da jovem, como também pelo que havia bebido antes.

Enfim, sacou a arma que ele guardava entre as pernas. Aquele membro estava cheio de veias, além de pelos mau cuidados ao seu redor. Era jovem, o que impedia de pensar que deveria aparar aquele "campo principal". Isso nunca foi uma dificuldade para ela. Ao dedilhar o instrumento dela, era com uma grande vontade - e experiência - que colocava sua boca a prova.

Ele notava até mesmo, que o rostinho dela, terno e singelo, ficava até mais caricato naquela situação prazerosa. Só que não importava, visto que isso era o suficiente para deixar ele mais travado naquele transe. Era como se ela fosse uma cobra engolido um animal de pequeno porte, em um golpe certeiro. Entretanto, não deixava de ser lindo se pudesse contemplar tal cena. Não por ser sexual, mas por demonstrar, de uma certa forma pervertida, afeto.

Eis que ela nota a grossura do membro e senta sobre ele. No seu colo, de forma quase infantil. Não ainda deixando a penetrações ocorrer.

-Se me rotulasse como uma de suas deusas, qual seria? - após isso, lhe lascou um beijo, que o rapaz retribuiu sem qualquer medo.

Os lábios queimavam da paixão e vontade. Ele parou, e como bom nerd que era, concluiu: 

-Afrodite, deusa do amor e do prazer, padroeira de Corinto.

-Diz Corinto, como aquela da carta aos coríntios? - ela misturava um semblante de curiosa e safada, que era único.

-Sim - continuou ele - De lá, saíram muitas sacerdotisas, tão promíscuas quanto você. 

-Promiscua, eu? - em seguida, sem deixar entrar o pau dele em sua vagina, mexeu a cintura. De um modo, que apenas quem está na cara do gol, sabe como é.

-S-sim, minha que-querida - ele tentava se manter controlado, para não gozar - Mas ela o manipulava bem. 

Eis que com a força que tinha, ele agarrou-a pelo corpo e se jogou sobre ela. Tinha medo que se encarar Ana, fosse petrificado, tal qual a Medusa. Já era tarde para isso, pois não havia virado pedra, mas ficou encantado com aquela divindade em forma feminina.

Os seios eram fartos, aos quais lambia, por cima da renda preta. Pernas firmes, combinando com aquela bota escura que ele já retirava dela. Bumbum pequeno, mas firme, para o agarrar, como se fosse um travesseiro fofo e afável. E a vagina, ah essa parecia pronta para o devorar.

Enfim, ela pegou uma camisinha e ficou por cima dele na cama, de pé mesmo. Abria o pacote, tal qual uma profissional. Com os dedos, segurando o peito daquele rapaz, cheio de vontade. Seu rosto estava quente, pois além de ver aquela figura linda acima dele, sua visão da área íntima era primorosa. Ela abaixou, colocou com o cuidado que tinha, o preservativo sobre seu membro. Estava apontado para cima e pediu:

-Tira pra mim? - apontando com as mãos, para aquela transparente vestimenta.

O rosto dele, que estava vermelho, já parecia muito focado nela. O seu tom escarlate poderia ser vergonha, excitação, doença ou falta de medo agora. Porém, ele estava diante de sua musa e faria o possível para fazê-la ficar excitada. Enquanto retirava a peça de roupa dela, acariciava seus seios fartos. Dedilhava eles, como uma peça de arte que pudesse tocar. Ana colocava a mão dela, com suas unhas em sua nuca. Retribuía aquela ação, pois se sentia bem. Era difícil alguém que estivesse realmente com vontade por ela mesmo. Não só querendo mais um corpo.

Enfim, ela estava despida e ele sem roupa alguma, a não ser sua proteção ao pau.

Ela o jogou, sobre um dos travesseiros e sentou. Com sua bunda virada para seu rosto.

Havia movimento nela

sábado, 16 de agosto de 2014

I'm alive (Capítulo I)

Esse é o primeiro capítulo de um romance que estou escrevendo. Espero que gostem ^^



Ele terminará de ler a carta. Suas mãos tremiam de raiva. Como ele pode fazer aquilo? Mais uma para a lista infinita de merdas que ele fez, pensou. Não ligava para o pai, só que aquilo, era imperdoável. O desgraçado conseguiu esconder tudo aquilo por todo esse tempo. Canalha. Sem saber Edgar tinha uma irmã. Uma meia irmã seria o correto.
Sentou no sofá, com a folha jogada a sua frente. Cheia dos escritos daquele que dizia ser alguma coisa sua. Colocou as mãos sobre o cabelo de forma pesarosa. Os pêlos castanhos arrepiados eram remexidos para tentar aplacar sua fúria. Sem sucesso.
Bufou como um touro bravo lançado na arena. Seus dentes rangiam com muita força. Pareciam até que trincariam a qualquer momento. Ele estava em fúria como sempre estava, mas agora era bem pior. Visto que aquilo era um segredo que foi tanto tempo ocultado. Para que? Para ele se sentir bem?
Levantou de uma vez só e chutou o ar. Virou em direção à parede e a golpeou inúmeras vezes. Até ver um vermelho escorrer na frente de seus dedos. Como se fosse um rosto. E até formou um rosto mentalmente ali. O foco do seu ódio momentâneo eterno, igual a tantas outras vezes fez antes. Se bem que preferiria que fosse ele mesmo, para ver o sangue daquele nariz nojento.
Por último, gritou. Ao fazer isso sua mãe apareceu na sala extremamente preocupada com o filho.
-O que foi Edgar? Algum problema?
-Ele tem uma filha! Desgraçado! O filha da puta tem uma filha! Desgraçado, cachaceiro e cuzão de primeira!
-E o que tem isso? – falou calmamente e baixo como sempre fazia Benedita.
-E o que tem isso? – perguntou um Edgar Pontes furioso – Ele sempre me falou que eu era seu único filho. Eu até perguntei se já tinha outro filho, outra família. E de repente, me surge essa porcaria escrita? Que eu tenho uma meio irmã? Uma pivete de doze anos?
-Esqueça isso. Não tem motivo para todo esse barulho.
-Não tem? Por acaso sabia de toda essa merda?
Quando falou isso, o jovem pegou o papel de forma a amassá-lo. Com a raiva segurava fortemente o conteúdo da carta. Como uma tocha ou qualquer outra coisa. Menos um papel escrito. Ele apertava aquilo com vigor suficiente para fazer seu punho sangrar. Quando estava prestes a falar algo se virou para o seu quarto feito um trovão.
Arrumou-se como de costume. Quando iria sair normalmente, com pressa. Trocou o short preto por uma calça jeans. Colocou a jaqueta por cima da camisa preta do Iron Maiden – que estava quase cinza – para não passar frio. Isso visto que era Julho agora.
Benedita ficou curiosa. Vendo que ele se trocava tão rapidamente, sem tomar banho. Já se acostumou com isso.
-Vai sair? Aonde vai Edgar?
-Vou atrás dele, oras!
-Como assim?
Depois de amarrar o cadarço ele pegou o envelope que havia deixado no criado mudo. Em cima desse cômodo estavam várias coisas: cartas antigas, recado de ex-namoradas, lições de casa, CDs velhos e virgens, tranqueiras em geral e toda a sorte de coisas inúteis e fúteis. Ele nem sabia mais o que tinha ali. Só que naquele momento nem pensava mais sobre aquilo de tanto ficar com a cabeça quente.
-Aqui tem o endereço dele. Deve estar morando na cidade pelo que eu vi. Eu vou ter uma conversa com o “Senhor de Filho Único”. Uma conversa com a minha mão fechada na cara dele.
-Mas o que tem isso? Você vai mesmo? – disse a mãe com a mão no coração depois daquelas duras palavras.
-Sim, vou até ele. E jogar na cara dele que não presta para criar um filho... Quem dirá uma filha! E em qualquer caso, quebro a cara do imbecil em dois. Nem preciso de desculpa para isso.
-Amor, esse endereço eu acho que sei aonde é. Não seria uma...
-Aonde é? – interrompeu o garoto.
-Depois do ginásio... – depois dela falar isso, Edgar atravessou a casa com velocidade, chegando até a porta. Dali em diante foi até a rua rapidamente. Igual a um vento veloz.
Descia o morro com uma velocidade fenomenal. Parecia uma bala disparada de um revolver. E como uma, queria causar estrago enorme de preferência. Com força e peso para ver a cara daquele idiota que um dia ele deve a infeliz idéia te chamar de pai.
Queria chegar até ele o mais rápido possível. Alcançar o miserável que o abandonou. O deixou para trás como um pacote enorme de lixo a anos atrás. Alguém que nunca sentiu falta dele em todo esse tempo. Que preferiu ignorar completamente sua existência.
Agora tinha o disparate te lhe mandar uma carta confessando que possuía uma filha? Ah! Não iria ficar assim não. Ou ele achava que iria? No mínimo quebrar o rosto do corno. Com dois pés no peito dele se pudesse.
Pegar e arrebentar a cara dele era só uma parte. Espancá-lo com toda a força dos seus punhos fracos. Sempre apanhava, mas agora iria fazer o que pudesse. Aprendeu que enquanto estivesse em uma briga teria que ao menos deixar um olho roxo na cara do idiota da frente. Deixar sua marca. Em especial se estivesse cercado. Pegar um deles e esperar sobreviver aos outros. Golpes, chutes, canos, pés de cabra, pedaços de madeira velha, ferro de concreto, tijolos. Tudo já foi usado contra ele. E ele sobreviveu. Era jovem e forte. Digo forte para resistir.
Nunca ganhou uma briga. Desde moleque só apanhava. E apanhava de maneira única. Quase uma ciência.
Apanhou certa vez de dois rapazes quando tinha quinze anos. Os dois estavam no terceiro colegial e, com certeza, deveriam ter dezoito anos ou mais. Ele levou vários socos na barriga da seguinte forma: um segurava os braços de Edgar, enquanto o outro golpeava. Vez ou outra, os golpes levantavam, acertando o rosto, ou desciam acertando sua parte intima. Deixando ele jogado e levado pelo amigo depois que levou uma surra também. O motivo para atacarem Edgar? Por não terem ido com a cara dele. O motivo de atacarem seu amigo? Por ter tentado ajudar.
Esse é um dos motivos te ter afastado as pessoas. Com isso, as pessoas não se machucavam. Longe dele qualquer um poderia se sentir finalmente seguro. Nada de socos, pontapés ou quaisquer agressividades. Não teria o dedo apontado mais do que já tinha todos os dias. Não seria mais chamado de estranho na sua frente, só pelas costas. Ele já estava acostumado com essa vida.
Agora o motivo de sua descida era pegar aquele desgraçado.
O barulho dos cães parecia um zunido, um som chato cheio de interferências. Como um microfone ou guitarra que oscila fazendo distorções horríveis em um show. Isso irritava o rapaz.
Descendo com as pernas pesadas, com as costas pesando tanto quanto o mundo. Os pés eram ligeiros, cheios de força, mas talvez até essa estivesse acabando. Pois estava querendo parar de andar. Estava dolorido como um inferno. Não poderia parar, pensava ele. Já que iria causar dor para alguém que merecia.
Caramba, talvez fosse longe até o tal lugar. Não importava mais. Além do que encontrar sua intenção é o que interessava. Ou seja, seu pai.
Havia descido os dois morros de sua casa. Estava na rua do pronto-socorro, finalmente. Logo chegaria ao ginásio. Qual é o endereço mesmo? Ele havia esquecido.Pegou o envelope da jaqueta. Colocou muito sem jeito aquele papel dentro da roupa. Agora estava todo amassado. Dede que fosse possível ler, era o que importava.

Eduardo Pontes Tavares
Rua Presidente Castelo Branco, n 320
Bairro Brotas
Santa Isabel, SP
CEP 07500-000

Certo. Número trezentos e vinte. Agora, como ir até lá? Começou a procurar a tal rua e o número. Mas não encontrava. Parecia que o lugar estava em outro universo. Até que uma alma iluminada conseguiu entender o dilema.
-Ah! Deve ser o UPA! Eu já vi esse número lá.
UPA? Fazia até sentido: talvez por não possuir o endereço fixo, usou o daquele lugar. Talvez trabalhe lá. Sempre conseguia um bico quando queria, para pagar suas cachaças e bebidas. Bêbado infeliz.
Começou a andar pela rua que concedia acesso ao lugar do endereço. Quando lá chegou, finalmente pensou em como o abordar. Se o fizesse dentro do recinto médico, seria expulso imediatamente. Sem ter chance de espancar Eduardo. Pensou um pouco antes de entrar, elaborando seu plano.
Olhou mais uma vez, notando que havia um numero de quarto no envelope, imaginou que talvez fosse onde ele dormisse. Nunca foi muito brilhante. Característica herdada, muitos diriam.
Visto que não pensou em que nenhum momento que o seu velho poderia estar hospitalizado. Nem ligou para tal fato.
O que fez foi entrar e perguntar na recepção pelo número do quarto. Já que perguntar pelo nome de Eduardo seria muito fácil e perigoso não ser atendido. Então o fez. De qualquer forma, caiu na pergunta:
-É parente de alguém?
Olhava para todos ao redor. Um senhor com a perna cheia de pinos, uma mulher que parecia grávida, outro reclamando de dores de cabeça, sem falar do rapaz soltando gemidos no canto do lugar. A fila não parava neles, mas foi a que Edgar viu na sua linha de visão. Já esteve duas vezes ali, pelo que se lembra.
Só então pensou que Eduardo poderia estar ruim. Achava que não, de qualquer modo. O santo dos bêbados era forte. Doenças, machucados ou cortes passavam longe do corpo de seu pai. Era resistente como um cavalo e imortal como um diabo.
-Sim – respondeu prontamente pensando em como entrar – sou filho.
-Ah certo – falou a atendente sem prestar muita atenção no que ele acabou de falar. Em seguida apontou o caminho para os leitos – Por ali.
Às vezes o pessoal do é hospital é tão displicente.
Ele caminhou na direção que a mulher lhe mostrou. Pensava estar mais próxima do seu objetivo. Enfim, as pancadas se aproximavam.
Como retirar o sujeito lá de dentro? Se estivesse acamado seria mais complicado, mas com o devido cuidado, quebrar coisas se tornava uma arte. Ninguém sabia melhor disso do que ele. Estava acostumado com isso na escola. Não era tão diferente na vida fora daqueles muros chatos cheios de letras.
Uma idéia básica lhe veio na cabeça. Quase como seu mantra. Sempre que entrasse em uma briga, não sairia dela sem deixar um olho roxo na face do sujeito.
Passou por dois corredores e finalmente estava diante do quarto. Relembrou passo por passo do plano e começou a rir. Segurou-se. De que outra maneira deveria se sentir? Iria colocar tudo que o estava incomodando para fora. E isso seria um alívio.
Finalmente, abriu a porta daquele leito. Funcionava como os bons e básicos quartos de hospital: paredes em tons de verde limão claro, camas que se ajustavam aos problemas dos pacientes, divisórias entre elas e os soros fisiológicos, além de toda a tranqueira hospitalar. E óbvio, havia enfermos ali.
Começou a caçada por Eduardo. Olhou bem para os três enfermos ali e nenhum batia com seu pai. Um rapaz com a perna enfaixada, um senhor respirando com dificuldade e uma garota olhando pela janela. Nada dele nas proximidades, foi o que pensou.
Procurou, mesmo por debaixo das camas. Fez como um policial militar dedicado atrás de um traficante de drogas. Caçou em cada milímetro do lugar uma pista de onde estava o seu velho. Quase fez o homem de perna enfaixada cair do seu lugar. Quando notou isso, a garota na janela riu.
Edgar ficou irritado com tudo isso. Por que cargas d’água aquela protótipo de fedelho ria dele? Iria tirar a limpo aquela cena besta.
-Do que ta rindo menina?
A jovem tinha cabelos loiros, tom de cobre quase. Usava um dos famosos aventais hospitalares desses lugares. Era uma garota de dez anos ao que parecia. Tinha dentes brancos cheios de vida e inocência. Ficou sentada arcada com as pernas em cima da cama.
-Eu estou rindo de você moço. E se diz “esta rindo”. Você é o Edgar?
Foi pego de surpresa. Como aquela guria sabia quem ele era? Com certeza, o pai dele pode ter comentado. O Eduardo, no entanto nunca falava nada de seu filho pelo que sabia. A não ser que fosse estritamente necessário. Isso era muito raro.
-Sim. Sou ele.
A garota se arrumou, ajeitou o avental e desceu da cama. Com as mãos para trás fitou com alegria singela e simples o rosto do bruto rapaz de dezoito anos.
-Me chamo Laís Pontes Albuquerque. Somos filhos do mesmo pai.
Edgar rangeu os dentes e em vez de falar mal, ofender, bater ou qualquer uma de suas atitudes normais, tropeçou e caiu na divisória. Com ele fazendo tal trapalhada, acertou sem querer na perna enfaixada do rapaz. Este por sua vez soltou uma torrente de xingamentos dos mais diversos tipos e gêneros.
-Moleque tonto! Toma cuidado! Vê se pode...
-Ah, desculpa! Sério...
Ajeitou mais ou menos aquela divisória, pediu em mais uma série de palavras repetidas, desculpas ao moço. Depois, prontamente encarou a menina. Ele segurava o riso diante do rapaz grande e cheio de raiva. Parecia que tinha visto o sujeito mais engraçado do mundo. Era como um gnomo muito esperto diante do tolo gigante da montanha, alguns diriam.
Edgar cruzou os braços, forçou o olho na direção dele, erguendo a sobrancelha. Não parecia nem um pouco ameaçador mais. A garota fazia o mesmo e de repente soltava grunhidos engraçados, brincando com sua voz. O rapaz atingido pela divisória estranhou aquilo, enquanto o senhor que respirava ainda com a mesma dificuldade que ignorava tudo.
-O que você pensa que esta fazendo mina? – perguntou um Edgar estranhando a atitude dele.
-Te imitando “mino” – falou isso com tom de voz tentando parecer mais forte e engraçado – Alias, não sou “mina”, “bro”. Sou uma menina, obrigado – dito isso, agachou graciosamente como se o avental fosse um lindo vestido.
O jovem colocou a mão atrás da cabeça coçando ela em um grave sinal de confusão e constrangimento. Estranhou tudo aquilo até então.
Pegou uma cadeira e puxou para sentar, como se estivesse com sinais de cansaço. Completando essa figura, colocou os dedos entre os olhos, acima do nariz, como se usasse óculos. Parecia não querer crer no que seus olhos lhe diziam. Só poderia ser uma brincadeira. Só que aquele não era o único sentido que lhe enganava. Era a audição, o tato... Como se Deus estivesse pregando uma das maiores piadas do mundo.
Ela, em contrapartida, se apoiou com cuidado contra a cama. Parecia olhar ele cheia de graça. Deve estar me achando o palhaço particular dele. Um homem de dezoito anos sendo humilhado por uma garota de dez? Vê se pode.
-Como é? – falou revoltado o Edgar e ainda com a mão entre os olhos
-Como é o que?
-Você é minha meio irmã?
-Sim, sou sim.
-E qual o motivo de estar aqui? Não era para o imbecil de o velho estar aqui?
-Como?
Ele
-Não era para o nosso pai estar aqui? Melhor, o seu pai...
-Mas ele também não é seu pai?
-Não por minha vontade, mas é...
-Você tem falado com ele? – ela fez a pergunta com os olhos quase vibrantes e cheios de vida, ignorando a pergunta dele. Foi então que Edgar fez algo sem reparar: respondeu educadamente.
-Olha... Faz um bom tempo que não o vejo – e quando notou aquela chama de esperança fugindo do rosto de Laís – Agora me lembrei! Ele me ligou, acho que duas semanas atrás.
Mas como? Por qual motivo ele falou aquela bobagem? Das poucas vezes que seu pai ligou, e ele se lembrou, desligou na cara do sujeito antes que pudesse falar qualquer coisa. Em nada fez desmentir essa bobagem, o que a fez sorrir. Como um pouco antes, cheia de vida. Alias o que fazia ali aquela menininha? Estranhou aquilo tudo.
-Ei! O que faz aqui esquisitaça?
-Primeiro não sou “esquisitaça”. Já que nem sei se existe uma palavra como essa. Chame-me de esquisita. E se eu estou em uma Unidade de Pronto Atendimento, é por estar doente não é? Óbvio.
-Tá, entendi! Certo, certo... Bem e como você se encaixa nesse quarto? Era para o Eduardo estar aqui!
-Fui eu que escrevi essa carta. Tolinho...
-O que!? – falado isso Edgar levantou de súbito, quase batendo na divisória novamente. Não o fez por um triz. Assim mesmo levou um:
-Toma cuidado idiota! E para de gritar.
-Ah, desculpa! Sério...
Uma vez mais, a jovem disparou a metralhadora de risadas. Batia as mãos na cama como se isso fosse deter aquela cena te lhe fazer sorrir pelas trapalhadas de seu meio irmão. Ela então pegou uma simples escada para tentar alcançar a cama. Colocou a mão na parte de trás do avental para subir devagarzinho, com todo o cuidado. Sentou na beirada de modo que pode balançar seus pés descalços e que ficaram sujos, devido ter pisado no azulejo.
-Para de me fazer rir, se não passo mal – disse ela entre gargalhadas.
-Ah não exagera moleca!
-“Moleca”? De onde você tira essas palavras? Do manual de como nunca se falar e escrever? E eu to falando sério. Tenho sopro no coração.
-Tá maluca? Desde quando tem ar no coração?
Antes que ela começasse a rir, surgiu no quarto um médico de jaleco, óculos e estetoscópio no pescoço. Seu cabelo era curto e bem arrumado, típico dos médicos de todos os grupos conhecidos. Tinha uma gravata de cor neutra e bem simples, mas que trazia consigo todo o respeito da sua profissão. Os sapatos estavam sujos, mas era natural para alguém que pegou no trabalho naquele lugar o dia todo. Estava com cara de poucos amigos.
Assim mesmo, foi educado com Edgar:
-Meu jovem, é você que esta fazendo uma barulheira por aqui.
-Ah, desculpa! Sério... Por favor!
-Você não muda a vitrola hein irmãozinho? – soltou Laís e em seguida olhou para cima, quando o jovem a fitou. Como um elfo peralta das histórias de Shakespeare. E isso o deixava nervoso.
Ignorando Edgar, o médico atravessou o recinto e olhou para Laís. Começou a examinar a menina como todo o médico faz. Algo que fez aquele garoto estranhar toda a situação em que se encontrava. Uma meia irmã, um rapaz com perna enfaixada que solta palavrões para todo mundo, um homem asmático, um médico bem grande. Tudo isso em um só quarto.
-Meu rapaz, o que ela falou foi sopro no coração – explicava o médico se voltando para Edgar. E enquanto ele fazia isso, Laís fazia várias caretas com a língua e esticando a boa, irritando o jovem – Ou melhor, sopro cardíaco. É um ruído produzido pela passagem do fluxo de sangue através das estruturas do coração. Ele pode ser funcional ou fisiológico, ou patológico em decorrência de defeitos no coração. Cerca de quarenta ou cinqüenta por cento das crianças saudáveis apresentam sopros inocentes sem nenhuma outra alteração e com desenvolvimento físico absolutamente normal – Ele então se voltou para a menina.
-Olha seu doutor, eu não sei nem o que é isso. Bombei em biologia.
Viu então a menina abrindo a boca como se quisesse falar que “bombar” estava errado. O médico fez algumas perguntas a ela enquanto continuava seu discurso:
-Em resumo, para você que é leigo... Sopro no coração é um probleminha nas válvulas cardíacas.
-Sei, mas pode repetir de novo. Me perdi no leigo.
O médico bufou, com a estupidez de Edgar. Laís segurava a barriga de tanto rir enquanto batia as pernas no ar. O jovem olhava com a cara vermelha de raiva com aquela baixinha.
-Falando nisso. Você é o que da Laís aqui?
Ele iria falar, mas foi interrompido pela menina:
-É o meu irmão!
Mais uma vez, ele não sabia o motivo, mas se sentiu meio tonto. Pois aceitou as palavras dela. Nunca foi o sujeito mais correto do mundo, só que nunca foi de mentir. Fosse para uma menina ou para um médico. E desde que entrou ali naquele quarto esteve envolvido em duas mentiras. Já que em seguida, o homem perguntou se isso era verdade. No mesmo instante, balançou a cabeça em afirmativa.
Foi visto de cima a baixo.
-Para um irmão sabe pouco da vida dela não acha? São bem parecidos pelo menos. Bem aproveite a visita. E menos barulho esta bem?
Ele mais uma vez atravessou a sala em direção dos outros enfermos. O da perna enfaixada já reclamava de Edgar e foi acalmado pelo médico.
Já Edgar, quando ele deu as costas, mostrou a língua de modo desafiador. Laís riu. O jovem não pode deixar de soltar um sorriso maroto. Quando então balançou a cabeça se lembrando da frase de sua parenta pela metade.
-Como assim sou seu irmão?
-Você não é filho do meu pai?
-Sou.
-Então sou sua irmã.
-Mas não pode – falou cochichando.
-Como não pode? – perguntou inocentemente.
-Ora, pois não pode.
-E qual o motivo?
-Pois não pode. Não pode e não pode. Pronto.
-Não, não é resposta.
-Mas não pode fia de Deus.
-Filha! Ai, ai...
-Cuma?
-Não se fala “fia”. É filha. F... I... Lha! Filha.
-Eu sei como se escreve. Esta bem?
-Não parece... – dito isso falou com cara séria. Isso desarmou o jovem. Ela parecia triste. Estava com um rosto de pena, que deixaria com dó o mais duro coração. E foi assim com o meio irmão de primeira viagem.
-O que houve... Laís é isso? O que houve?
Ela sorriu um pouco quando notou que ele havia decorado o seu nome.
-Minha mãe ainda não veio. E é horário de visita.
A mãe dela. Uma mulher que como sua mãe, deu a luz a um filho de Eduardo. Uma moça, que agora pensou o jovem, deve a infelicidade de conhecer aquele bêbado. Ele pensa sobre isso, e não entende como essas duas tiveram a vida tocada por ele. Quantas vezes as pessoas não notaram o que presta? E no caso dele, o que não presta? Já viu moças se acostumando a um idiota do seu lado, o que fazia compreender esse fato estranho.
-Ela pode ter atrasado – disse o jovem, enquanto mais uma vez se sentava próximo da cama.
-Será? – aqueles olhos cheios de vida. Pareciam os olhos do Gato de Botas do Shrek, pensou ele. Não poderia deixar ela triste. Mesmo sendo uma peste em forma de pequena pessoa.
-É sim. Com certeza! Logo chega. Mas peraí. Você esta em horário de visita é?
-Sim. Lógico.
A pequena mocinha sorriu com aquilo que foi dito. Sabia que era uma mentira na cara daquele jovem. Só que preferiu continuar com a encenação. Gostava da companhia dele. Era óbvio para qualquer observador.
-Você é engraçado.
-Sou é? – falou isso de modo debochado.
-Sim, em especial quando sorri com o canto da boca. Ou fala assim com ela.
-Com o canto da boca?
-Sim. É bonito. Meigo. Meiguinho! Vou te chamar de Meiguinho.
-Mas que raio é esse de “Meiguinho”? Essa palavra nem deve existir!
-Você que fala tudo errado e acha que eu faço o mesmo? Liberdade poética, já ouviu falar?
-Sei, sei... Mas vem cá, qual é a sua idade?
-Tenho doze anos – ao falar isso tentou inutilmente mostrar isso com os dedos.
Edgar olhou com espanto para a jovem.
-Doze? Jurava que você tinha menos anos.
-“Jurava que você era mais nova”. Acho que fica mais bonito.
-Só erro.
-Sim e muito – falou isso fechando os olhos e com ar de superior.
-Sua mãe trabalha no que pivete.
-Ela é secretária, seu troglodita.
-Aonde?
-Em um dentista da cidade mesmo.
-Que legal
Agora ela o fulminava com o olhar. Era em uma parte nervosa, em outra parte cômica aquela cena.
-Você é louco!Minha mãe trabalha nas portas do Inferno de Dante! Tudo bem que eu nunca li esse... Mas é como se minha mãe fosse à recepcionista de um carrasco!
Ele agora ria, quase segurando a barriga por tamanha imaginação. Não gostava de dentista também. Nenhuma espécie de médico. O que nunca fez foi descrever o consultório de um dentista com tamanho perigo. Ela era exagerada.
-Oh menina que gosta de extrapolar que você é!
-Eu? Imagina...
Quando falou isso, os dois estouraram em risos. Era bonito ver o espaço daquele lugar preenchido com as risadas dos dois. Parecia a coisa mais bela do mundo, duas crianças conversando sobre bobagens, Do mesmo modo, eles nem pareciam ser dois desconhecidos até pouco tempo.
Foram interrompidos mais uma vez, agora por uma moça. Muito cansada por sinal. Tinha cabelos castanhos, quase chegando a um tom de preto. Usava camiseta branca e um jeans. Era baixa. O que de certa forma explicava o tamanho de Laís, pois estava na cara de que era mãe dela. Muito bonita por sinal.
-Ai, desculpa o atraso La.
-Tudo bem – falado isso, a mulher abraçou fortemente a criança, confirmando a suspeita de Edgar.
Arrumou a franja do cabelo de Laís e em seguida perguntou:
-Esta tudo bem com você? Comeu? Trataram-te bem?
-Sim. Mãe esse é o Edgar. Ele agora é o meu irmão.
-Como assim querida? – foi quando notou o rapaz na sala. Este por sua vez um “olá” tímido para a recém chegada com a mão – Ah é você de quem ela esta falando? Olá.
-Eu sou o Edgar. Filho do Eduardo. Pontes Tavares...
Viu um rosto de surpresa na face da mãe de Laís. Não de nervoso ou fúria, mas até do que conseguia acreditar ser alegria.
-Que grande você é! Passa bem do meu ombro. Só pode ser filho mesmo. Acho que só a Laís não puxou esse traço.
-Ah... Obrigado. Eu acho.
-Ele é meu irmão – repetiu Laís de modo bondoso. A moça acariciou seu rosto.
-Entendi minha filha. Bem, eu trouxe seus livros.
Falado isso, ela retirou de uma mochila bem infantil, uma boneca gorda, um tufo de folhas amassadas e uns três livros. Edgar se fixou na capa dos escritos. Notou que neles estava impresso O Hobbit, A Última Canção de Bilbo e Mestre Gil de Ham. Pareciam que eram todos do mesmo autor.
-Qual vai querer? – falou a moça segurando os três como um baralho de cartas. Laís pegou o Mestre Gil de Ham – Por que não quis O Hobbit? Você o adorava.
-O filme é chato, mãe! E esta me deixando com raiva do livro.
-Tudo bem, mas livro é livro. Filme é filme. E o livro é tão bonito. Lembra?
-Esta bem mamãe... Mas dessa vez quero esse.
As duas pareciam duas comadres tratando sobre assuntos supérfluos. Já ele mais parecia um moleque que é forçado pela mãe a assistir uma das mais chatas conversas do mundo. Mesmo assim ficou ali ouvindo tudo aquilo, até:
-Esta quase no horário de visita acabar. Amor fica com Deus – deu um beijo na testa de Laís – e a tia Raquel já vai chegar. Ai ela passa a noite com você. Esta bem?
-Certo – disse ela segurando os livros e a boneca como se fosse um filhote bem fofo.
-Bem vamos Edgar? – disse a mãe ao jovem. Este consentiu com agitando a cabeça. Nem poderia fazer muita coisa naquela situação. Onde foi se enfiar?
-Até mais baixinha.
-Olha! Ele falou direito.
Mostrou a língua para Laís sem que a mãe notasse. Levou na mesma moeda.
Enquanto saia do quarto, Edgar fitou o senhor com dificuldade para respirar. daquele mesmo modo continuava. Já o com a perna enfaixada nem o encarava mais. Na verdade o repudiava. Não ligou muito para isso.