segunda-feira, 2 de março de 2015

(Parte 30) Para o outro lado das paredes da Morte


Eles se mantinham naquele lugar e os treinos se tornavam exaustivos. Todos os dias e noites aumentavam cada vez mais as dores nos corpos. Eram exauridos, mas nunca admitiam que não quisessem levantar mais. Parecia nunca terem treinado tão arduamente, mesmo os que já eram combatentes. Esses ainda deitavam sem reclamar tanto em comparação aos que usavam mais a mente do que os músculos.
Lacktum comentou algumas coisas sobre o que viu e ouviu no casebre da elfa aos colegas, mas não certos fatos. Não falou sobre o tal Portal da Verdade, mas comentou que precisavam tirar Halphy o mais rápido possível das mãos do inimigo. Além de não ter citado que Iliana e o dragão já foram amantes.
Nem tinha muito tempo para comentar. Os demônios eram mais bem tratados no Inferno do que eles naquele lugar.
Mas um dia chegou que Lacktum e Thror conversavam um com o outro, até quase dormirem. O estado do lugar era sombrio. Por enquanto ao menos, havia se tornado algo entre um lar e sala de tortura. De noite até de manhã, dormiam como crianças – mesmo que fossem nos estábulos. De dia era como se estivessem em um campo de guerra, como dizia o grego.
Isso é lógico, se fosse grego mesmo. Há meses atrás, eles teriam chegado a uma vila onde se questionaram sobre a terra de origem dele. Se não fosse de origem helênica, seria de onde aquele estranho marcado na cabeça? Só que não era somente isso: sua cicatriz na parte mais alta de seu corpo mataria qualquer um. Já sabemos que ele não era um homem comum, pois entrava em combates como se estivesse acostumado possivelmente. Bem, acostumado da forma de Thror. Isso sem falar quando ele parecia ter surtos de memória, ou melhor, de conhecimento e sabedoria. Ele era uma incógnita para Lacktum.
Quando deitavam, próximos ao casebre, notaram um movimento na mata. Parecia ser um homem. Não se escondia, nem andava devagar demais.
Eles se levantaram prontamente, por saber que não era qualquer um alcançava aquele casebre. Quase ninguém da vila chegava até Iliana, por tratarem a ela como uma bruxa[1]. Então os dois já estavam prontos para um combate contra um servo de Kalice Sinestro.
-Onde esta sua espada Thror? – perguntou rápido e baixo o mago, acreditando que poderia se tratar de um inimigo.
-No estábulo – falou preocupado o guerreiro – E o seu livro?
-Esta fazendo companhia a sua arma. Mas se acalme, pois decorei algumas magias...
-Algumas? – soltou Thror extremamente preocupado. Lacktum olhou para o guerreiro com uma face de medo.
-Nunca imaginei que teríamos problemas aqui.
Eis que de repente, foi surgindo um homem com uma armadura completa, com tom de sangue, cheia de runas douradas e sem nenhuma arma. Isso não significa que o desconhecido não fosse perigoso. Poderia usar habilidades arcanas ou qualquer outra coisa. E poderia ter uma arma escondida.
O homem possuía cabelos negros e olhos sombrios. Lacktum notou que sua descrição lembrava um homem de quem Halphy havia falado certa vez. Em Starten.
-Quem é você estranho? – gritou autoritário o mago.
Ele olhou para os dois aventureiros com desdém.
-Qual entre vocês é chamado como Thror.

E então, foi que os dois se entreolharam. Por qual motivo ele queria saber do guerreiro? Em meses juntos, é a primeira vez que alguém buscava por ele. Era estranho e novo aquilo. Talvez ele não fosse do Pacto de Guerra. Nunca era bom apostar nisso, mesmo acreditando que não seria perigoso.
Poderia até ser que esse homem conheça algo de Thror. Não ele, já que não reconhece o grego a sua frente. Uma pessoa que esta atrás dele até uma ilha tão longe da Grécia – a suposta terra natal de Thror – sem pistas concretas. E por que motivos o procuram?
Thror agiu como sempre. Sem nem sequer pensar.
-Eu sou Thror.
O estranho girou sua cabeça de modo quase travada na direção dele.
-Atual forma, Thror Tzorv, filho adotivo Orfeu. Antiga forma, Fobos. Teus crimes na vida passada terão julgamentos no território que chamam de Além. Siga-me em paz ou terei que usar a força.
-Espere um pouco... – falou Lacktum. Mas foi interrompido por Iliana. Ela saia de sua casa já que notou algo muito estranho. Uma força de Ordem.
-É isso mesmo Lacktum. Ele vem além das paredes da Vida. Uma coisa que vem do plano em que as almas são extirpadas de todo o pecado em vida. O lugar que possui vários nomes em diversas culturas, mas quase todos chamaram de Além, as terras da entidade suprema Morte.
O estranho homem, mais uma vez, gira sua cabeça em direção a Iliana, quase de forma mecanizada.
-Do que fala? Por quer o Thror? Explique ou não vai nem tocar nele.
A criatura não mudou sua reação em nenhum momento. Parecia sempre sério, o tempo todo. Não pode se segurar, mas por sério demais.
-Seu amigo, em uma vida passada, cometeu um crime contra uma entidade mais poderosa que um deus.
Era algo bizarro, pensou Lacktum. Como Thror terá cometido tal crime? E em sua mente, uma torrente de memórias do guerreiro que estava com ele por um bom tempo lhe surgiu. Talvez, ele realmente pudesse ter feito algo errado. Porém, de maneira tão elevada? Como?

-Vou levar o senhor Tzorv, algo contra? – falou o estranho.
Quando Lacktum iria falar, novamente a elfa o interrompeu:
-Pode sim. Leve-o. Afinal, é só um peso aqui – falou sem nem pensar, mas logo alterou o tom da conversa – Esse careca não sabe se defender sozinho quando o assunto se trata de usar a língua, a não ser ofender. E mesmo assim, muito mau.
-É isso mesmo. Ei! – falou Thror só percebendo a ironia depois.
Iliana riu e continuou:
-Leve o outro também. Mas o deixe se arrumar como o mago que é. Ele defenderá seu amigo diante o Tribunal das Almas. Compreende?
-Certo. Então ande mortal.
Lacktum se sentiu apavorado. Enquanto voltava ao estábulo buscando seus itens, pensou na palavra do estranho. Ele o tratou por mortal. Não era como os elfos. Ele nem era dessa raça. O termo tinha um sentido estranho, ao qual temia, dependendo de quem o falava. E que crime era esse que Thror teria cometido? Atingindo os deuses? Ou melhor, algo pior que eles? Vida passada? Fobos? Agora Lacktum finalmente teria respondido as dúvidas sobre o guerreiro Thror. Boas ou más, nem ele imaginava. Para a segurança de todos, lembrando o que Syrus falou, esperava que fossem boas.

Estava mais arrumado, assim como Thror. Ironicamente o arcano parecia mais nervoso. Algo naquilo estava fora dos limites de sua sabedoria e conhecimento. O Além e as paredes da Vida. Isso trazia medo, mas também o excitava. Um lugar onde o saber sobre o pós-vida poderia se tornar maior ainda. Não que ele soubesse muito já que quase sempre isso seria mais conhecido pelos sacerdotes eremitas. Dificilmente um deles seria tolo de entregar suas palavras a um mago. Pois, o que é do divino é do divino. O que é do arcano é do arcano. Qualquer um sabia disso, dentre os sacerdotes que detinham poderes antigos.
Já Lacktum era diferente.
De qualquer modo, estavam prontos. Quando notou que tudo estava acertado, o mago inglês olhou para a elfa, dizendo:
-Voltaremos logo.
-Já sei disso. Proteja-o.
-Com minha vida se for necessário.
Thror mantinha sua cabeça baixa. Ele estava reflexivo, coisa rara para ele. Já Lacktum encarou o homem.
-Podemos ir.
Nesse momento, o usuário da armadura vermelha estendeu o braço para o norte. Abriu a mão e se ouviu uma explosão tão forte, que lançou o guerreiro e o mago para longe. Iliana e o homem desconhecido nem sequer se mexeram. Era visível a diferença do poder entre eles, mas não podiam se deixar amedrontar.
Do ponto onde o tal homem apontou com a mão, surgiu uma forte e incandescente luz, quase que em forma de túnel. Ela resplandecia como a força das asas de um anjo, se os dois mortais acreditassem nisso.
Puxando pelo braço Thror, o homem entrou na luz. Ele o arrastava como um prisioneiro ou um escravo. E atrás deles, corria o arcano, indo onde não havia nenhuma alma viva. A luz sumiu. Como uma estrela cadente.

Quando o arcano de Van Sirian piscou, estava em um lugar totalmente diferente.
Havia nuvens ao seu redor, mas cobriam qualquer céu que existisse ali. Era como se o mundo natural fosse paralisado. Tivessem visto tantas coisas diferentes e bizarras, aquilo era estranho demais. Não era pela imagem, era pela sensação única. Como quando se sente um corte que entorpece nossa alma e nem se percebe o sangue deixar o corpo para sempre. E Lacktum já sentiu isso.
Foram tantas e tantas vezes em que a morte esteve tão perto do mago. Fosse à época em que era um jovem nobre de Van Sirian, fosse desde que se uniu ao grupo. O momento em que caiu diante dos mortos famintos em que Halphy o salvou, quando quase foi morto pelo veneno de Augustus, o ataque dos anões de Mallmor, o combate contra Daehim nas minas, a emboscada no Portal de Ixxanon ou o ataque que fez com que Lacktum tivesse a vontade de virar um mago. Realmente estava nas terras da morte final.
Em seus pés, havia um mármore quase de tom cinza. Era mais forte e firme que qualquer outro material que tenha visto ou sentido. E mesmo sendo acinzentado, era possível ver seu próprio reflexo. Como se alguém sempre limpasse o lugar. Deveria ser um pequeno efeito que havia por todo o lugar. Não que isso importasse dada a grande magnitude de tudo.
Ao seu redor, havia várias colunas que não sustentavam teto nenhum. Todas com lindos desenhos de diversas culturas e povos. Algumas, Lacktum conhecia, outras que nunca ouviu falar em nenhum de seus estudos. Nesse momento, se sentiu tão pequeno em relação ao universo que o cercava. Eram como estelas funerárias com cenas de combates da Era Mitológica.
Acima de tudo isso estava aquele ser único. Na verdade, mais de um.
Pareciam que era um monte de farrapos que flutuavam no ar sem ajuda de força alguma. Mas eles não ficavam parados e eram impulsionados e com vento algum. Era sua própria vontade que os locomovia, achava ele. Quando se olhava dentro daqueles trapos, era possível notar figuras translúcidas e espectrais, perto do que seria uma caveira talvez. Deveriam ser espíritos e almas levados por um deles, os anjos da morte, valquírias, servos de Anúbis e deuses da morte: mais simplesmente conhecidos como os ceifadores.
Não importa onde os corpos estejam, são eles que irão buscar as almas. Onde quer que se encontrem. Sua função era coletar esses espíritos e os trazer até Além, onde suas almas seriam julgadas e sentenciadas de acordo com sua vida. Que também limpam e retiram as impurezas de seu passado mais sofrido. Isso ocorre para então enviá-las de acordo com sua natureza, cultura e fé. Muitas vezes, nem tanto pela religião que seguia em vida, mas por algo em relação aos seus antepassados.
Quando Lacktm iria continuar contemplando o local, notou que o estranho homem segurava seu braço com força. Ele, o mago, iria ofender o homem de armadura vermelha quando ouviu:
-Olhe para trás!
Foi quando Lacktum finalmente notou que não havia nada atrás de si. Era um precipício para lugar nenhum. O mármore em que estavam flutuava nesse vazio. Aquilo assustou o mago que pensou nunca se surpreender. Errou redondamente.
-O que é aquilo lá embaixo? Aquele branco.
-Aquilo é o Nada – soltou áspero o homem de feições duras.

Depois de tudo que ocorreu, o homem pediu que Thror estendesse os braços. Nesse momento, surgiu uma luz dourada e que depois ficou prateada entre seus pulsos. E então, as mãos do guerreiro pareciam retidas.
-O que fez com ele? – perguntou furioso o mago.
-Foi uma ordem superior. Ele não poderá ficar solto até a sentença ser decidida.
-Tudo bem – consentiu Thror de um modo como nunca havia feito antes. Nem parecia um guerreiro destemido que o acompanhou onde ninguém quis ir. Um cachorro com o rabo entre as pernas seria mais destemido do que ele. Algo errado acontecia no peito do grego.
Eles caminharam bastante entre os imensos pilares. Em certos momentos, o arcano tinha a impressão de que dias se passaram. E talvez fosse, mas o ser que os trouxe até ali não era muito comunicativo, o que deixava Lacktum receoso em relação a uma pergunta.
Depois de tanto caminhar, ver os ceifadores passando por suas cabeças e ter a sensação que o universo parou os três chegaram a uma estrutura estranha. Parecia quase um templo.
O lugar tinha traços de culturas orientais e ocidentais. Símbolos arcanos ou religiosos de morte. Ideogramas, palavras, runas, marcas hieróglifos e pictogramas que simbolizavam tudo que surgia após a vida. No centro, havia um espaço em que surgia um símbolo maior. Parecia representar toda a força do grande momento de qual todo ser vivo participa. Um verdadeiro obelisco.







                Acima desse símbolo, ficava um ceifador que parecia bem maior que qualquer um. Seu poderio era notável mesmo na pouca expressão física. Seus olhos, ou algo parecido, faiscavam com força sobrenatural. Era claro o que iria ocorrer.
-Isso é um julgamento mesmo – falou Lacktum mais para si mesmo.
Foi com isso que um vento sinistro surgiu. Um homem – o arcano tinha quase certeza que era um homem – surgiu do nada. Usava manto e capuz, além de um jeito bem defensivo.
-Que vento todo é esse? – perguntou Thror.
-Não é o vento – constatou Lacktum – mas a voz dos mortos.

O ser espectral, que ficava no seu espaço único começou a falar:
-Thror Tzorv, anteriormente chamado de Fobos, será julgado pelos crimes em sua atual vida. Isso graças ao que fez anteriormente. Os seus poderes chegaram a um ponto que nosso perseguidor  conseguiu encontrar, enfim. O julgamento irá começar.
Lacktum se colocou a frente, interrompendo o processo todo.
-Podem me perdoar, mas sou aquele que vai defender Tzorv. Preciso me familiarizar com o que ele fez. Antes e depois de sua antiga vida. Poderiam me falar?
O ceifador e o homem de manto se entreolharam. E então o juiz pronunciou:
-Que seja feito seu desejo. Mas não falaremos. Que se revele o passado do julgado.
Com isso, uma luz dourada surgiu do corpo do guerreiro. Por um instante tudo mudou de tom e cor. Até as construções mudaram. Estavam em um lugar estranho para muitos. Inconscientemente sabiam onde estavam, mas não queriam acreditar. Pelo menos Lacktum e Thror nunca iriam querer estar ali.
-Uma grande arena, de proporções colossais. Poderia falar épicas? Os seres que estão vendo tudo ao redor – falava Lacktum para eles, lembrando de figuras toscas de livros cheios de pó sobre a antiguidade – suas formas e vestes... Aquele jovem com tom de bronze[2]... A jovem de roupas rústicas, carregando um arco e uma espada[3]... Aquela mulher imponente com elmo, cetro e armadura[4]. Ela sim eu conheço bem. Vi nos livros de mitos antigos. Mas temo que estejamos... Sim com ele tenho certeza.
-Com ele quem? Certeza de que? – falou bem apreensivo Thror.
-Isso é uma visão do passado. Seu passado Thror! Não seremos afetados de forma alguma, mas temo que estejamos vendo coisas bizarras. O homem no trono ali – disse apontando para um lugar em especial – o do centro, com barba branca e alguns louros... É Zeus! Estamos em alguma parte do Olimpo! O Olimpo, lar dos deuses gregos.
Nesse instante, surgiu de uma das pontas de arena um homem carregando duas espadas. E nada mais, a não ser um tecido cobrindo suas partes intimas. Elas faiscavam com grande força arcana. Possuía cabelos loiros, mas curtos.
-Me chamo Fobos, filho do grande Ares! Gladiador para trazer glória a meu pai! Trarei a vós um espetáculo digno do Olimpo! Longa vida a Zeus, Ares e todos os grandes deuses nessa arena!

Aquilo foi um choque para o mago. Fobos era um dos filhos mais conhecidos de Ares. Visto que os deuses gregos conseguiam ter vários filhos com humanas, ninfas e deusas. Eram dois irmãos pelo que se lembra: o que se pronunciava na arena e Deimos. Os que simbolizavam o medo e o pavor. Grande deveria ser o fardo sobre Thror. Sua responsabilidade deve ser tão grande quanto seus poderes. O que ele fez então? O que causou no plano do Olimpo para se ter se tornado um humano? Pois com certeza foi à punição do homem que conhece. Mesmo que ele se lembre, vez ou outra, do seu passado, com certeza seus poderes não voltaram. Sejam quais forem. Era uma dedução do mago. Talvez mal feita, mas foi o que conseguiu imaginar.
Esses pensamentos lhe vieram como um relâmpago na mente. Mas não podia se deixar enganar. Sua meta era salvar o amigo, não refletir sobre isso! A vida dele estava em risco.
Continuou prestando atenção nas visões do passado segredo de Thror.
O guerreiro e divindade Fobos, foi ao meio da arena. E nesse instante, surgiu do meio da arena, debaixo da areia, uma forma bizarra e terrível.
Parecia um enorme verme de proporções colossais, com uma espécie de bocarra que culminava em pinças. Pareciam com dentes pontiagudos e serrados – como se preparados para causar dor – e terminavam em quatro partes cortantes. Seu corpo era nojento, mas brilhante. Seus movimentos eram ferozes, que causavam pequenos terremotos. Os sons que ele soltava pareciam o de uma fera selvagem poderosa. Tão forte, que meros humanos teriam seus ouvidos estourados. Nada ocorria.
Fobos caminhava. Seus passos simulavam trovões. As espadas tocavam a areia do chão como se purificassem as lâminas. Eis que de repente ele salta, como uma cobra que ataca um único oponente maior multiplicado cem vezes. O tornando ainda mais perigoso.
As divindades ali reunidas se regozijavam de seu espetáculo único. Para eles, derrotar tal ser era tão fácil como respirar, mas gostavam de ver os jovens lutando. Testar seus limites.
Houve um salto.
Nesse meio tempo entre o salto e deleite do público, houve o golpe de Fobos. Ele acertou a espada curta próximo das enormes pinças. Elas jorravam um líquido verde e vermelho que não lembrava em nada sangue. Parecia mais com fluídos que surgiam das mais antigas cavernas conhecidas. De qualquer forma, a força vital dele saltou como em uma erupção vulcânica de magnitudes épicas.
A espada de lâmina longa era usada para subir mais na enorme carapaça da criatura. Sua meta era alcançar o arremedo de boca que ele possuía. E quando obteve êxito, pulou em direção a ela.
Todos se espantaram com a ousadia e estupidez. Mesmo Lacktum, com uma quase certeza de que a deidade fugiria daquela situação, soltou um idiota.
Só que a criatura continuava forte, agitada, agressiva e selvagem. Nada havia ocorrido. O arcano que estava vendo o passado temeu estar errado. Poderia não ser como ele cogitou. Sua mente não o enganou, no entanto, pois logo em seguida, de dentro daquele surgiu uma explosão tão devastadora, que partiu a carapaça em dois.
Das entranhas, literalmente surgiu um homem erguendo uma espada curta e longa em sinal de vitória, quase que formando um y.
Os deuses, ninfas e sátiros aplaudiram como força incomensurável. Era um momento de pura glória.
Só que isso quase se tornou sua perdição. Suas costas desprotegidas ficaram abertas para o que restava ainda vivo do enorme verme. Se não fosse uma lança infundida com o poder de um deus antigo ele teria sido atacado.
Na arena, surgiam mais duas figuras. Uma se parecia um pouco com Fobos, mas além de estar vestindo túnicas, era mais magro e alto, além de careca. Já a outra, era um homem de porte físico extremo e perfeito, portava sandálias tão gastas quanto o vento. Segurava consigo uma lança que surgia de novo em sua mão, vestindo uma armadura típica do período helênico. Ainda por cima, tinha a pele de um leopardo em seu ombro esquerdo.
Nesse momento, os dois andavam, mas só homem de armadura falou:
-Tu és digno do meu legado. Alerto-te, no entanto, ainda te faltam discernimento e compreensão em campo de batalha. Afinal, tua lenda não será só ser a progênie de Ares, Deus da Guerra.
Nesse momento, o outro abraçou Fobos com extrema força.
-Venha irmão. Tome um pouco de ambrósia conosco!
-Pare de me amolar Deimos. Pai, eu quero lhe pedir algo.
De dentro do elmo de Ares, seus olhos faiscaram. Não era estranha a visão daqueles olhos para os observadores no Além. Foi quando tudo fez sentido. A cor de seus olhos tom de oliva faiscando, o poder, a raiva. Aquele foi o mesmo homem que os confrontou depois da batalha contra o lobo na Grécia.
-Realmente, os deuses são caprichosos – falou Lacktum para si mesmo.

A visão continuava.
Fobos pedia algo ao seu pai.
-Oh pai. Senhor da guerra de todos os mortais e de todos aqueles que cruzarem o caminho de teu povo escolhido. Permita que meus desafios exaltem tua glória. Sou teu gladiador, teu soldado. Conceda-me um desafio digno.
Por alguns momentos, parecia que O Que Se Deleita Com Batalhas seria piedoso. Mas seu outro nome era O Deus Impiedoso.
-Ignore tuas vontades! Torne-se mais atento em batalhas! Guie-se pelos teus instintos, não pela glória que pretende obter. Quando fizer o que te mando, irá obter o que almeja! Vá filho meu. Aproveite para se regozijar agora. É teu dia.
E os três saíram da arena.
A visão continuava ligada ao local. Não no centro da arena. Enquanto andava, Fobos iria entrar por um corredor, quando foi interrompido por pequeno imp[5]. Ele disse ao combatente que seu mestre poderia lhe conceder poder e um desafio digno de um herói. Algo que ninguém jamais viu.
Fobos então perguntou quem era o mestre do pequeno diabrete. Este apontou para uma sombra não muito distante.
Um homem extremamente alto e imponente saiu das sombras. Usava túnica escura com detalhes em dourado vivo que mostravam que era uma poderosa divindade de alto nível. Seus cabelos encaracolados estavam jogados para trás, presos por uma tiara de ébano. A pele era de um tom cinza que lembrava um corpo já sem vida. Seus olhos eram mais negros do que uma noite sem luar. No ombro esquerdo, tinha a pele de um carneiro negro.
Ele se aproximou de Fobos lentamente. Seus movimentos, mesmo sendo lentos, pareciam velozes. Como um tigre que se movimenta para um bote preciso.
Seu hálito e presença maligna pareciam o de um demônio, o que não estava tão longe da verdade. O mago inglês parecia achar que sabia que divindade era aquela. Talvez um deus ctoniano, um dos que reinava no subterrâneo e na terra dos mortos. Que controlava a vida e a morte, os espíritos dos mortos entre os gregos. Seu poder o tornava um dos Três Imperadores do Olimpo como alguns os chamavam. E seu reino era o limite ente muitos outros, além de selar os antigos e poderosos titãs que surgiram no começo da Era Mitológica. Seu nome era também o do domínio que controlava: Hades.

A cena mudava. Não mais se concentrava na arena. Parecia outro lugar mais sombrio.
Era uma paisagem escura, como uma caverna, mas não possuía paredes de qualquer tipo. Havia nuvens tempestuosas e fortes no lugar. Tinham tanto poder quanto se estivessem em pleno mar. Um pequeno monte com dois tronos, ambos de ébano e ônix. Um deles, ocupado por Hades. O outro vazio.
A sua frente estavam três figuras distintas.
Um dragão de pele esmeralda, ao qual era fácil reconhecer como Sinestro. Sua forma parecia um pouco mais nova do que a da visão de Iliana. O mago começava a ter um maior conhecimento sobre certos aspectos de muitas criaturas.
Já o segundo era Fobos trajando uma toga que mal escondia sua tremenda musculatura. Parecia ansioso pelo seu rosto.
O último trajava roupas escuras e mantos de mesmo tom. Não era possível ver seu rosto, muito menos algum aspecto de seu ser. De certa forma, lembrava muito o Oráculo de Delfos. Talvez fosse só todo esse contato com aquela cultura antiga e tão vasta.
Nesse instante, Hades falou. E parecia o ressoar de um trovão.
-O que irei propor a vos nunca antes foi ousado ser feito por alma alguma. Seja mortal ou não. As façanhas desse feito podem nunca ser citadas. Mas se não obtiverem sucesso não merecerão glória em teus nomes.
O dragão, mesmo sendo mortal, se zangou com o deus.
-Tu bem sabes que não desejo glória. Só o amor de uma única mulher...
-Teus desejos serão realizados em breve! Compadeço-me de ti e de teu infortúnio. Bendito é o amante que ainda ama, e não se entrega a tolos desejos carnais.
Nesse momento, Sinestro se calou. Parecia se lembrar de algo. Como se soubesse de um fato de extrema importância. Lacktum adoraria saber o que fez seu inimigo parar. Ali havia uma pista dos motivos de Hades até então.
Foi vez de Fobos.
-Diga-nos, que ato tão hediondo será esse, mas tão glorificante que se o cumprir... Serei lembrado até o fim dos tempos?
Hades os fitou e disse:
-Iremos invadir o único reino ao qual até um deus teme. As terras de Morte, o Além. E dela iremos tirar seu maior tesouro, a Lanterna dos Éons. Chamada por muitos como a Lanterna dos Condenados. Um dos itens mais antigos já criados. Um artefato com poderes que superam até os deuses mais ancestrais. Força acima do comum. Compreendem o que digo?
Fobos riu de satisfação. Sinestro abaixou a cabeça em referência. O terceiro membro desse grupo se manteve quieto e firme. Quase como uma rocha antiga, dura e praticamente inquebrável. Parecendo não se abalar com essas palavras. Talvez, só parecendo mesmo.
Mais uma vez a cena mudou. Parecia com o lugar em que os dois Dragões estavam. Era o Além. Os três seres estavam no domínio da Morte, para perpetrar os planos de Hades.

Eles combatiam os ceifadores. Eram muitos. Tantos que mais pareciam uma revoada dos infernos. Mas se fosse isso seria menos mal. Demônios eram mais fracos e menos sanguinários.
Fobos mesmo usando apenas duas armas ao mesmo tempo, parecia lidar tão bem com as centenas de espíritos que lhe cercavam. Os golpes formavam sombras, cada uma bloqueava e esfaqueava seus oponentes, tais como uma arma que corta o ar. Eles se tornavam um furacão, uma força incontrolável.
Sinestro, que se mantinha a grande distância, soltava guinchos estridentes e poderosos. Não ensurdecia, mas lançava os ceifadores para longe naquele lugar nublado e sombrio. Quando algum conseguia atravessar as rajadas de sons bizarros, as garras em forma de cristal afiado concediam novo obstáculo. Isso quando asas não atravessavam seus minúsculos inimigos ou magias não faziam o serviço final.
O terceiro sim parecia bem à vontade. Ele saltava, girava e até mesmo brincava com muitos daqueles seres espectrais etéreos. Seus poderes mal eram vistos. Lacktum tinha quase certeza que ele superava até mesmo Iliana e – quem sabe – Gibraltan D’Asgard. Pois ele via relances de manas, como respingos de água que mal atingem o tecido de roupa de um pescador experiente chegando até ele. Poderia até ser um humano, mas com certeza não era alguém comum. De onde seria? Seria de Gaya mesmo? Ou de outro plano de existência. As conjecturas de Lacktum sobre ele eram tantas, só que não havia tempo.
O mago inglês finalmente estava próximo de obter seu intento. Era óbvio que ele roubou a Lanterna dos Condenados, mas o que exatamente ocorreu para ter sido condenado? Até então, Fobos lidava bem com tudo aquilo.

O dragão conseguiu se aproximar de um pilar. Essa estrutura possuía muitas runas e escritos mágicos que o cercavam. Mas acima de todos eles, estava um item arcano que transbordava imenso poder e força, a Lanterna dos Condenados. Sua aura exalava uma névoa tão grande e sufocante que quase nenhum ser daquele plano a tocava. Diziam lendas, ao qual Lacktum saberia mais tarde, que o artefato era mais que um item de controle sobre almas. Ele era feito de eóns. Modo de calcular o tempo na concepção que só divindades discerniam, se é que isso era necessário para tal magnífico ser. Um eón não teria como ser calculado pelo mais brilhante mago, matemático ou alquimista, fosse mortal ou não. Dele muito surgiu e muito sumiu.
De qualquer forma Sinestro fez o que ninguém ali deve a ousadia de fazer até então. Após golpes contra os seus anjos da morte[6] e quebrar com suas garras as defesas arcanas co lugar, o item que obteve era uma lanterna de luz azul incandescente.
-Eu consegui meus aliados! – falou triunfante, enquanto erguia o item.
Nesse mesmo instante o dragão saltou com um rasante tão grande, poderoso e devastador, que mesmo os seres espectrais se espantavam com força colossal de suas asas. Qualquer ser mortal perderia o sentido da audição, se houvesse algum ali. Não havia nenhum ser no local que não fosse uma alma errante, ser de corpo imortal ou de espírito superior. E nesses dois últimos quesitos se encaixavam Fobos e o estranho encapuzado.
O vôo foi interceptado por uma avalanche de ceifadores que se prenderam no corpo de Sinestro. Mesmo sendo de tamanho tão magnífico, o número de criaturas em cima do corpo dele era o triplo de sua magnitude. Mesmo assim, ele deve tempo o suficiente para jogar o item que acabou de conquistar na direção de Fobos.
Este por sua vez, pegou a lanterna em pleno ar, se aproveitando de sua espada maior para impulsioná-lo.
Quando caiu, fixou os dois pés com tremenda força que trincou de uma só vez o chão daquela estrutura flutuante. Isso só seria o começo. Uma nova força de anjos da morte surgia contra ele. Mais parecia um bando de abutres em cima de corpo recém falecido.
Eles o golpeavam. O jovem, mas imortal ser, resistia segurando os inimigos com suas espadas. Cada uma de suas armas valia por cem: cinqüenta golpes defendiam e outros cinqüenta golpes atacavam. Parecia ser um furacão contra árvores, uma criança contra meras formigas.
Mordia a lanterna enquanto lutava, já que não queria deixar de dispor de ambas as mãos que estavam livres para segurá-la. Abriu o meio daquele campo de batalha com o golpe forte e trovejante de sua espada longa. Com a espada curta, mantinha uma abertura no pandemônio de seres. Ele gostava daquela situação. O perigo, a destruição, inimigos que não caiam com dois golpes – talvez nem caíssem – aliados que já sabiam o que era um combate de verdade. Era uma sensação tão boa e reconfortante. Simples, mas bom demais naquele momento. Algo único. Raro.
Mesmo assim era difícil se manter em pé após sucessivos golpes. O que não diminuía a felicidade de Fobos. O poder, força e energia acabavam pouco a pouco. Era como enfrentar a força da própria natureza, da própria Gaya. E não era algo que ele não estava acostumado. Era novo e até assustador... Espere! Não havia como ele sentir medo, pavor, susto ou até temer algo. Ele era a personificação de tudo aquilo.
Em um rompante de força e fúria, Fobos lançou vários deles para longe a distâncias inimagináveis. Alguns até tentaram se salvar, porém, muitos caíram no Nada. Era impossível que tal ser não vencesse.
Porém, ele perderia.
Eis que como sombras surgem brumas que mais pareciam um monstro. Um ser que deveria estar acima do bem e do mal, do divino e do profano. Algo que supera os poderes das entidades conhecidas e desconhecidas onde estivessem. Poder antigo que supera até o imortal, pois tudo que existe um dia irá conhecer o toque dela. Magias, conhecidas como necromânticas, tentam simular seus dons, mas certos tipos de controle são destinados aos seres de aspectos superiores. Encantamentos, força física e nem o auxilio de divindades conseguem a vencer quando ela chega. Quando seu toque nos alcança, nada a impede. Morte era seu nome. E seu poder.
Fobos colocou as espadas para trás, enquanto olhava com ar de satisfação. Finalmente, um combate definitivo para as lâminas das armas poderosas do Medo.

Era como se tocassem trombetas de anjos ou demônios em plena guerra. Os golpes daquele jovem divino causavam novos terremotos por todo o plano de existência. Enquanto a forma sombria destruía tudo ao redor. O guerreiro olímpico se negava a desistir e crer que aquela era a Morte. Só que tinha que admitir ver sua força vital se esvaindo lentamente. O poder era incomensurável. Nada poderia aplacar sua fúria. Mas ele sabia o que sabia poderia ter tirar o foco do ser perpétuo.
-Ei! Mago! Pegue! – nesse momento, Fobos lançou o item na direção do aliado que o pegou rapidamente.
O jovem estava finalmente satisfeito. Conseguiu entregar o item ao companheiro. E logo ele seria entregue a Hades. Então, Fobos viu um sorriso no rosto do encapuzado. Nenhum dos seres se mexeu. Havia uma traição entre os três. E agora o homem com sangue de deuses estava irado.

Houve então um clarão na mão vazia do encapuzado. Luz essa que abriu uma pequena brecha no espaço e no tempo. Era uma magia de transporte. Em seguida, ele jogou a Lanterna pelo pequeno portal improvisado.
-Desgraçado! Traidor! Quando tiver minhas mãos em teu pescoço... – mas quando seria proferido o nome do arcano, um raio atingiu o chão de Além. Não era um raio comum.
Ajoelhado, tirando o relâmpago em forma de lança do chão, o deus que lidera o Olimpo, olhava com raiva para Fobos. Já os outros dois olhavam com imponência.
Um deles era Hades. Trajava consigo uma armadura de bronze reluzente agora. Carregava uma espada curta com lâmina branca brilhante. Possuía também um saiote negro que escondia um par de sandálias surradas. Seu semblante era sério, não demonstrava que ele era o causador de toda aquela situação. Erguia a espada em direção a Sinestro e ao filho de Ares. Saiam sombras cobrindo o item, e elas tornavam o tamanho dele duas vezes maior. Pareciam soltar barulhos demoníacos e terríveis que o mago reconheceu como Canção dos Condenados, com efeitos duas vezes maiores e três vezes mais perturbadores.
Já o terceiro, possuía um tridente cheio de perolas e pequenas ostras que era o dobro do tamanho de seu dono. Usava toga azul da cor do mar, literalmente. Possuía braceletes e um medalhão prateados. Havia símbolos e figuras que lembravam o oceano em cada um deles. Uma onda de água trançava sua outra mão como um animal parecido com uma cobra... Ou arma.
Fobos temia o que estava por vir e pensou que iria conseguir lidar com tudo aquilo. Enquanto isso, o encapuzado se ajoelha e fala como se tivesse planejado tudo desde o começo. Sinestro se aproveita dessa distração amaldiçoando o terceiro membro daquele grupo, para criar um portal. Um portal para os planos dos mortais. Agora o jovem filho de Ares estava sozinho.

Agora a cena se concentrava em uma montanha. Parecia que Thror se lembrava de alguns fatos sobre Fobos, afinal, tinha certeza que ali não era o Olimpo. Mas era o lugar que se julgava os desafetos do panteão.
Lá estava no ponto mais alto o jovem de cabeça baixa e olhar melancólico, cheio de suplica. Enquanto os deuses flutuavam ao seu redor com olhos punitivos. Afinal, era um julgamento.
-O Olimpo lhe condena a seguinte sentença: a de possuir uma existência mortal. Sem memória de quaisquer resquícios da tua vida passada. Com o corpo patético de um homem com vinte anos de vida. Tu tens algo para falar em tua defesa? – proclamou o Senhor do Olimpo.
O réu se calou.
Nesse mesmo momento, Zeus criou um raio de energia cinzento. Ele se preparava para usá-lo, quando Ares, o Impiedoso, parou seu líder e pai.
-Me conceda a chance de punir minha prole insolente, como tu havias punido teu pai ou qualquer filho ingrato. Imploro-lhe.
Com isso, o líder do Olimpo entregou o raio punitivo na mão do deus da guerra. Sua mão crepitava com fúria, dor e vingança. Em um salto, digno do mais feroz dos felinos ele enfiou a projeção energética no ponto mais alto do corpo de Fobos. Seus cabelos caíram e sua consciência sumiu quase que instantaneamente. No lugar, ficou um corte quase trespassou o crânio. Tinha forma de X.
Com golpe seguinte, um chute contra o corpo desfalecido de seu filho, ele o lançou até o mundo mortal usando força extrema. Como uma estrela que rasga o céu. Como uma divindade que perde seus poderes.
Quando ele caiu, seu corpo adormeceu por séculos, disse um dos ceifadores que observava o caso ao lado dos dois Dragões da Justiça. Ele caiu na região de bárbaros chamados de dórios[7]. Pelo poder que Fobos possuía, quando ainda era divindade, esses guerreiros foram inspirados pelos resíduos da força daquele ser. Conquistariam territórios como a península do Peloponeso, e seriam chamados depois de anos ou séculos de espartanos.

Lacktum achou que já tinha visto coisas muito estranhas. O fato de ter alcançado um plano como o Além já é uma grande conquista – lógico, quando nos referimos a alguém vivo – mas descobrir que seu companheiro de meses já foi um deus o fez repensar sobre isso. Como crer naquilo?
Agora ele sabia o que tinha a fazer. Defender o companheiro fosse como fosse.
As cenas finalmente acabaram.
O juiz falou que agora novas cenas surgiriam. Elas mostrariam o que Thror fez em sua atual vida. Lacktum então iria proteger seus respectivos pontos de vista protegendo seu companheiro.
Foi quando um atento um atento mago inglês ouviu um choro fraco. Era Thror. O arcano se aproximou do amigo.
-Não sei como esta seu coração. Mas lhe juro que vou fazer o possível meu amigo, para que esteja a salvo.
O guerreiro grego olhou para o amigo e disse:
-Não sei se mereço tanto...
-Merece. Você realmente não mereceria se fosse Fobos. Irei ganhar essa história, pois você merece.
-E se não ganhar?
O mago ruivo se calou e se aproximou de onde se colocava o ceifador. Temia que o amigo se rebaixasse diante dos que observavam tudo aquilo. E ele necessitava do amigo Thror no momento certo.
Com tudo pronto, o ser que se mantinha acima do símbolo da morte começou a mostrar cenas do passado do guerreiro que um dia foi um deus.

Lacktum estava preparado para o que surgisse, afinal, sempre esteve ao lado do homem da cicatriz. A única exceção se referia ao que ocorreu na Vila dos Meio Sangue. Mas teria que contornar tudo aquilo, se surgisse é lógico.
O que surgiu foi uma cena de muito tempo atrás em que para se alimentar Thror teria matado um lobo. Esse animal cuidava sozinho de seus filhotes que morreriam dias depois. Nesse momento o líder dos Dragões conseguiu somar os fatos: em certo ponto, enquanto viajavam, tiveram que enfrentar um lobo demoníaco. Ele conhecia o guerreiro. De alguma forma, a criatura entregou a alma para algum ser das trevas. Só que Lacktum já sabia como se proteger.
-E então acusação? O que tem a dizer sobre isso?
O ser encapuzado se movimentou em direção a estrutura do Além. Quase que parecia um obelisco, notava agora o mago.
-Não há o que se falar só o que se reiterar. Veja a cena do combate entre ele e o lobo. Não digo que a vingança seja algo justo, mas vejam que esse homem nunca se deixou perder por emoções boas. Se alimentar por um lado é certo, por outro, mesmo um caçador sabe que nunca matar antes do momento adequado. Estamos diante de um assassino sem escrúpulos, um mecanismo que só sabe cortar e eliminar quem lhe for incomodo. Ou não! Pode ser pior! Só o fazer por prazer! Vejam seu rosto de satisfação! Lembra até mesmo sua outra vida, Fobos.
Com isso, é possível notar a face do guerreiro contra o lupino na batalha decisiva sendo exibida.
-Não tenho mais nada a falar.
O encapuzado olhou em direção de Lacktum. Como se quisesse lhe conceder a vez da palavra. Este, não se deixou enganar, seguiu em defesa do aliado.
-Bem, devo comentar que o homem da acusação... Espero que seja um homem... Não notou o mais grave. A vingança não é algo bom – ele falou quase rindo de suas próprias palavras, incluindo a de vingança que por tanto tempo foi seu mote – pois ela nos cega. Envenena-nos. E graças a isso, o lobo poderia ter machucado inocentes nesse combate se Thror não interferisse. Agora me diga o que acha disso caro juiz? Talvez não saibam, mas é impossível que um homem mortal não se sinta bem quando isso ocorre. Pois se não ocorresse ele morreria! A morte não é algo que podemos permitir. Para nós e para outros. No caso de Thror existe um problema sim, um que todos devíamos ter. Ele não fez tudo para salvar os que ele conhecia. Ele o fez pela vila! Por desconhecidos que quis poupar! Pois é um herói!
Lacktum queria que fosse aplaudido, ofendido, aclamado, vaiado ou outra coisa devido a sua tão forte apresentação. Nada, silêncio. Só as imagens de vários ceifadores que juntavam. Como corvos atrás de sua presa.
-Muito bem. Suas palavras serão refletidas e teremos a resposta no fim do julgamento.
Refletidas, pensou Lacktum. Por quem? Os ceifadores eram seres sem mentes aparentemente, então, o que afinal faria tal coisa? Houve uma conjectura que o arcano preferiu esquecer por enquanto. Era perigoso demais pensar naquilo ali.

-Verão agora imagens de outro caso envolvendo o guerreiro. Esta bem para os dois lados?
O encapuzado aceitou. O arcano inglês, antes de fazer isso, observou o colega. Tzorv manteve a cabeça baixa diante de tudo o que via e ouvia. Era como se perdesse muito da antiga força do grego. Lacktum então, também consentiu.
A imagem seguinte foi nas terras do Oriente, quando houve muito mais que uma discussão. Algo que levou a morte de alguém que o auxiliava.
-Federick! – falou com peso no coração o grego.
As imagens mostravam a briga entre o guerreiro grego e o príncipe paladino. A mesma discussão que causou a desgraça do segundo. Da morte desde pelo guardião dos corpos dos Imortais Esquecidos.
Após mostrar todo o ocorrido, até com detalhes que os outros nem conheciam, as imagens cessaram.
-Acusação, é sua chance. O que tem a disser?
Mais uma vez, o homem se colocou a frente. Parecia inspirado pelo que foi visto antes.
-Ora meus caros, não notam o que esta bem na frente dos seus olhos? As vontades do ser diante de vocês ditam suas ações. Como um animal cheio de raiva e fome. Esqueçam a parte da fome. Esqueçam até mesmo a parte do animal. O que existe aqui é um monstro com forma mortal, que não se importa em guerrear e matar. Nem que seja contra seus aliados. Não duvido, que se o guerreiro sagrado não tombasse perante os poderes do guardião da tumba... Tombaria diante do frio gélido da lâmina desse homem. Podem ter certeza, ele usaria seus dons de combatente contra o antigo colega se esse o irritasse. Vejam - disse o encapuzado apontando para Thror – que tipo de pessoa é essa que não sacrifica seu orgulho e honra para auxiliar seus amigos? Eu lhes respondo uma criatura sem piedade, sem amor ao próximo. Uma pessoa sem o coração, sem a vontade de ser alguém melhor. Eu nunca abandonaria um companheiro em qualquer caso relacionado nas viagens que participei. Muito menos pelo ódio e raiva que muitas vezes me cegaria.
A primeira pista sobre o encapuzado. Ele deve ter sido aventureiro. No mínimo. Suas atitudes são iguais aos de uma pessoa inconformada com algo que ocorreria consigo. Isso deveria ser deixado para outro momento por enquanto.
Naquele instante, o mago tinha que proteger seu amigo e aliado. Mas ainda não tinha certeza de como faria isso. O caso de Federick era mais complicado do que um caso envolvendo lobos. Afinal, era um antigo membro de sua equipe, não uma criatura prestes a machucar inocentes. E o Além não era um lugar onde era fácil concentrar-se em seus próprios pensamentos.
Todo o lugar exaltava com o que lidava. A morte. Lacktum se lembrava de diversos momentos em que quase pereceu. Em que as mãos frias de um ceifador poderiam estar perto dele. Pare com isso mago, pensou ele, quando se deu conta que tinha que lidar com a vida de um grande amigo!
Ele começou:
-Eu, como membro dos Dragões da Justiça, me sinto indignado com as atitudes desse homem. Diante de vocês, mesmo assim, lhes peço clemência. Tenham piedade de seus atos pelo calor do momento. Mostrem misericórdia por suas atitudes no calor de suas emoções. O que acham de suas tolas, idiotas e insignificantes ações? Nada! Pois os únicos que poderiam se irritar com isso, seriam os membros de meu grupo. Compreendam.
Novamente, nenhum som. Não que ele quisesse aplausos. Agora tinha certeza fez algo que não merecia aplausos. Algo ridículo, em sua concepção.
-Muito bem. Novamente suas palavras serão refletidas e teremos a resposta no fim do julgamento.

Depois de tudo, o espectro da morte mostrou o que seriam as últimas cenas. A última chance de salvar Thror.
Elas começaram.
Referia-se ao anão Rufgar, na grande terra inglesa. Lá mostrava sempre as cenas em que Thror anunciava que se fosse por ele, eliminaria o diminuto homem. Mesmo não oferecendo resistência.
Além disso, o mago viu que o mesmo Rufgar teria salvado a vida de um de seus captores.
Às vezes o ruivo tinha uma idéia que salvava o dia, mas naquele momento era decisivo, pois Lacktum temia que algo pior ocorresse.
-Então acusação, mais alguma coisa a falar? Essa é a última chance de atingir o acusado.
Pela primeira vez, o arcano enxergava os olhos de seu oponente em diálogo. Eram azuis. Mas algo neles lembrava Thror, porém não acreditava que fosse uma divindade. Caso fosse, ele não teria a menor chance de vitória. Foi então que Lacktum pensou em um plano. Mas ele deveria obter a ajuda inconsciente de seu aliado dos Dragões.
O encapuzado começou, enquanto o mago tramava:
-Ora, notasse que este ser só pensa em si mesmo! Não pensa em um animal que perdeu sua ninhada, assim como a vida diante de uma arma impiedosa! Não pensa em um aliado e amigo que se preocupava com todos ao seu redor! Muito menos vai pensar em um ser que sacrifica sua vida para proteger seus raptores! Quando esse caso começou, eu já tinha consciência que Thror foi uma divindade em outra vida. Mas não poderia deixar de mostrar minha indignação. Pois os deuses estão aqui para nos proteger. Se um deles se voltou contra nós, devemos estar preparados, pois outros podem se voltar contra a humanidade ou qualquer força no universo! Isso mesmo se refere a nós humanos, o Além, e várias outras coisas que existem em todo vastidão desde a Era Mitológica! Vamos o levar para a sua punição!
Finalmente o encapuzado fitava o mago de cabelos vermelhos. Ele estava com a cabeça abaixada, não parecia pensativo como antes. Parecia conformado com tudo. Sabia que isso poderia ser um golpe: uma serpente sem veneno continua sendo perigosa. Foi quando o jovem levantou e que era possível ver sua face que notou, o arcano tinha um plano.
O Van Kristen se aproximou da estrutura do Além. Respirou fundo.
-Eu poderia saber qual a pena se Thror não for absolvido das acusações?  Seu defensor tem esse direito. Ou não tenho?
O encapuzado temia aquilo. Parecia que o mago tinha realmente um plano.
-A pena – disse o ceifador juiz – é a sua partida para o Nada.
-Se perder o caso, o defensor irá assumir o lugar dele.
O encapuzado se assombrou e riu. Não havia mais como perder o caso. O próprio defensor tinha desistido de seu suposto colega. Mal sabia que essa tinha sido a aposta mais alta que o jovem mago fez. Um plano que contava com a fúria de Thror, que parecia adormecida até então.

O ceifador que pairava sobre o símbolo disse que o mago realmente podia fazer aquilo Que poderia assumir o lugar de seu amigo.
Em instantes o guerreiro levantou e disse  baixo para o homem que o trouxe até o Além:
-Solte-me...
-Você só será solto quando e se for absolvido.
-Eu quero que me solte... – nesse instante o grego se levantou rápido e certeiro. Foi espantoso, pois o guerreiro conseguiu, como um relâmpago, partir as amarras de energia!
O guarda do Além tentou segurar seu prisioneiro. Foi inútil. Com um rápido golpe de seus fortes braços, Thror entortou os punhos do seu oponente estranho. E foi com tal força, que de seu pulso surgiram faíscas. Grandes.
Com isso, enfim a forma de raptor extraplanar era revelada: um ser humanóide ainda, mas sem olhos. Uma boca cheia de mecanismos e ainda havia muito mais no que seria seu maxilar. Sua cabeça não tinha cabelos e sua pele prateada, além de ser feito do mesmo material de seu tom. A armadura não reluzia tanto quanto a suposta pele. De suas costas brotavam, literalmente, correntes de prata pura e que se sujaria com o sangue de Thror. Não ocorreu.
Sem pensar, como o antigo deus, enfia rapidamente um... Dois... Três... Quatro golpes contra a cabeça do ser metálico! Sua força parecia um décimo da de Fobo, mas mais limpa. Pois não era mais um homem, não era mais um deus, era algo acima disso. Pois agora sabia pelo que lutava. Combatia pelo que era justo. Havia propósito em sua luta. Ele ao menos sabia disso.
Em seguida, o guerreiro se adiantou na frente do amigo. Ao que parecia, não era par protegê-lo tão somente, nem para atacar o ceifador. Era para implorar.
-Oh ser descarnado, perdoe-me! Perdoe-me que aqui... Existem! Se eu cometi erros, eu peço mil vezes mil perdões! Perdão para todo o sempre! Mas se pensarem em colocar Lacktum no meu lugar, juro que não haverá força que os protegerá nesse universo de minhas mãos.
Todos, com exceção de Lacktum se espantaram, não pelo dele pedir por seu amigo. Mas sim pelo modo como o fez. O arcano riu baixo. Algo que só foi notado pelo encapuzado. A disputa ainda continuava.
-É assim que clama por seu amigo? – disse um ceifador indignado, mas ainda mantendo plenamente a ordem no recinto – Gritando ameaças?
-Grito, pois é assim que o defenderei! Com voz, corpo e alma! E com qualquer outra coisa que arranje para fazê-lo! Pois ele não desistiu de mim. E farei o mesmo por ele – falava essas últimas palavras enquanto fitava o mago com olhos ternos.
O homem de capuz finalmente compreendeu tal plano. Lacktum usou a fúria, o orgulho e a amizade de Thror. As usou como uma arma no julgamento. Ninguém se comoveria, porém refletiriam sobre o que aconteceu. Era um golpe que poderia, na verdade, se voltar contra o arcano. Uma aposta alta, alguns diriam, que ao que tudo indica, ele se dispôs a pagar.
-Muito bem – falou o estranho acusador.
E com tudo isso o ceifador declarou:
-Agora as reflexões sobre o caso serão examinadas. Logo obterão suas respostas mortais.

O tempo não passa no Além. Mais uma vez, isso era literal. Foi descoberto pelo mago, que durante a estadia deles ali que cada instante não existia. E eles ficaram ali muito tempo. Em resumo, pelo que o mago compreendeu cada dia ou noite, semana ou ano, amanhecer ou anoitecer, nada mais são que um breve momento para os habitantes daquele mundo. Isso enquanto estivessem no plano dos mortos. Era um fato que deixou Lacktum extremamente interessado. E extremamente preocupado ao mesmo tempo.
Significava que o tempo não passava ali, podendo treinar por séculos por exemplo. E já que era o plano dos mortos, as necessidades físicas não existem ali. Fome, sede ou sono, eram só pequenas e distantes lembranças do mundo de Gaya.
O que poderia parecer ser uma benção para tantos outros, se tornava um maldição para um arcano. Qualquer mago demora uma boa noite de sono para conseguir decorar as magias de seu grimório no dia seguinte sem problemas. Caso não possa fazer isso, não poderá lançar nenhum feitiço, mágica ou encantamento. Além do que qualquer uso de magia de cura ou de força positiva – até mesmo um bálsamo tem seus efeitos alterados em outro plano – teria efeitos extremamente reduzidos. Uma verdadeira boa e má notícia, ao mesmo tempo. Boa, pois eles tinham todo o tempo para conseguir o que queriam. Má, já que se algo desse errado era certo que Lacktum perderia em combate arcano. Toda aquela estrutura de poder servia para que o ciclo da vida continuasse em Gaya.
Seus pensamentos atingiam um patamar em que acreditava que Thror poderia cair para sempre no Nada. Achava gozado, como tudo estava mudado em seus pensamentos. Antes refletiria muito bem em como todo aquele fato interferiria nas forças cósmicas do universo, no máximo. Agora tinha medo que algo ocorresse com aquele que chamava de amigo. Até mesmo antes o trataria no máximo como um aliado. Realmente, esses meses o mudaram.
Por fim, chegou o momento de saber se Thror seria poupado. Ou não.
Lacktum olhava para cima esperando que algo naquele cenário mudasse. Que a vida do guerreiro fosse poupada depois de todo o esforço. Ainda havia uma ponta do antigo arcano das terras inglesas. Essa ponta se chamava orgulho.
Agora o guerreiro observava com outros olhos aquela situação. Não mais com os pensamentos derrotistas, quando tinha sido transportado até ali e soube de sua vergonha passada. Estava confiante e pronto para enfrentar o que surgisse.
O lugar inteiro parecia paralisado. E deveria estar mesmo, pois não era só o lugar que não se movia, mas todos os outros seres que ali estavam. Isso só se tornava exceção no caso de Thror, Lacktum, o homem de capuz e o estranho mecanizado que os trouxe até ali. Ele continuava soltando faíscas. Nada para se preocupar com aquilo por enquanto. Era necessário saber qual seria a sentença.
Eis que surge, como serpente que sai de um buraco na terra, o ceifador que ficava acima do obelisco. Ele fitava o infinito daquele plano, era os dois amigos pensavam, só que nem isso era certeza visto que ele aparentemente não tinha olhos.
Ele começou a dar o veredicto.
-Cada um dos três casos foi julgado em separado. Com a devida imparcialidade. Aproxime-se Thror Tzorv, anteriormente chamado como Fobos.
Foi quando o homem com cicatriz na cabeça andou em direção daquele lugar.
-Você esteja ciente que nos casos antes citados, foram julgados por uma entidade superior. E como dito antes, isso definirá se você é inocente ou culpado. No primeiro caso, você é inocente.
Os dois Dragões da Justiça comemoraram. Era o primeiro caso dos três, e com mais um – com certeza o que pensarão – Thror estaria livre da punição. O ceifador pediu silêncio aos dois.
-A entidade compreendeu que o animal agiu de modo a querer se vingar, enquanto Thror agiu para sobreviver. Nada mais justo, vindo de um bando de meros e insignificantes humanos, e outras criaturas de um plano primário.
-Obrigado, eu acho – disse Thror.
Mas o ceifador continuou:
-Quando ao segundo caso, Thror Tzorv, você foi considerado culpado.
Não houve nenhuma reação, exceto pela do homem encapuzado. Um sorriso sarcástico, cheio de malícia. Algo típico de alguém que acredita ser superior. Ou de maior status.
-Não possuímos sentimentos. E por isso não podemos nos entregar ao raciocínio comum dos humanos. Entretanto, como o plano responsável pelas almas de todo o mundo de Gaya, devemos refletir com os mais altos padrões humanos. E um deles mostra que entre vocês é justo e correto, proteger a quem se ama. Seja da família ou não.
Lacktum refletiu consigo. Talvez tenha perdido dessa vez, pois o antigo pensamento do arcano não ligava para isso. E ele persistia na sua mente. O que não era tão diferente dos pensamentos de ceifadores. Falhou de qualquer modo.
Agora só faltava um caso. O do anão Rufgar. Esse talvez fosse o pior dos casos, já que Thror nas imagens do passado admitiu querer matar o anão. Seria um milagre se o guerreiro se salvasse. Ironicamente, milagres ocorriam muito com eles.

Os dois amigos para a imagem dos ceifadores que faziam um redemoinho ao redor do obelisco. Pareciam prontos para fazer algo. Nem era possível, já que o mais inteligente entre eles, nunca tinha visto em nenhum livro algo que tratasse sobre o mundo dos mortos. Alias Lacktum nunca ouviu falar de alguma obra tratasse sobre aquele plano. Nem lendas, ou uma pequena nota de rodapé em um pergaminho, nada falava sobre Além. Só ouviu uma vez, que nenhum ser vivo comenta sobre esse mundo, ou fosse lá aquilo onde estavam. Só ouviu uma vez, não se lembra aonde, que muitos temiam falar sobre lá, já que poderiam voltar a ele antes do tempo.
A roda de anjos da morte terminou. A última sentença seria concedida.
Thror suava frio. Lacktum era cheio de medo que nunca sentiu antes, mas mantinha seu jeito forte. E então, foi quando a decisão foi tomada.
-Ao terceiro caso... O declaramos inocente.
O guerreiro caiu no chão exausto, enquanto o mago levantou os braços em um sinal de vitória mal feito, mas verdadeiro. Os seres estavam começando a dispersar daquele lugar. O encapuzado não se deixava se abater. Os dois amigos até achavam que ele estava contente, quando olharam corretamente para ele.
O estranho parecia se deliciar com o que ocorreu ali.
Finalmente, retirou aquele capuz de sua cabeça. Tinha cabelos castanhos e algumas tranças em sua vasta rede de fios. Havia uma barba bem trabalhada em seu rosto. Ela parecia ser bem cuidada, mesmo com o estranho aparentemente, não apreciar cuidados estéticos. O mago inglês perguntou a Thror se o conhecia, talvez através de um resquício de memória. O guerreiro fez com a cabeça que não.
Lacktum foi ter com ele uma prosa.
-Com licença, mas por acaso...
Ele viu o arcano se aproximando para lhe perguntar lago e deu um pequeno sorriso genuíno.
-Antes de tudo, diga-me, quem é você? Parece ter um ódio mortal e indescritível por meu colega. Por acaso o conhecia... Em sua antiga forma? Por acaso é uma divindade?
O homem riu primeiro, depois gargalhou. Parecia ter ouvido a melhor piada do mundo. Talvez tivesse.
-Nunca serei, acredito. Falta-me discernimento e poder. Desculpem-me. Empenhem-me tanto em acusar seu amigo pelos crimes de sua nova vida que esqueci as boas maneiras. Permitam que me apresente. Sou Odisseu, rei de Itaca, aliada fiel a Grécia. Desculpem os maus modos.
Foi algo que os deixou surpresos. Nem tanto quanto das outras vezes pelo menos. Começavam, realmente a se acostumar com o inesperado. Se já andaram lado a lado com um ser imortal e um dragão, além de estarem onde as almas humanas eram julgadas, isso não os faria espantá-los de estarem diante de um herói da Grécia antiga.
-O Odisseu das amazonas? Dos monstros antigos? O mesmo Odisseu que derrotou o ciclope filho de Poseidon, dizendo a ele que era Ninguém? É isso mesmo? Esse Odisseu? – disse empolgado Lacktum.
Os dois jovens estranharam o fato de, novamente, aquele ser ter rido. Não sabia se o fazia por achar dois patéticos ou por talvez por ser louco. O jovem arcano já tinha outras idéias na cabeça e sabia que o tal deveria estar são.
-Todos se lembram ou aprendem sobre os menos importantes. Poucos se lembram do que usei para invadir Tróia. Será que em milênios ainda lembrarão isso? Ou serei o único a me ater a tal fato?
Agora foi Lacktum que riu do que ocorria. Tudo parecia ser orquestrado por alguém, sendo que muitos poderosos se preocupavam com coisas pequenas. Não que o cavalo de Tróia deixasse de ser importante, mas em comparação ao fim do mundo conhecido, não parecia ter o mesmo valor.
-De qualquer forma, - disse o poderoso Odisseu – que vocês tenham dias maravilhosos adiante.
-Sim, sim. Muito grato – continuou o mago com uma pergunta já formulada na língua – Poderia ao menos nos falar se conhecia Fobos, ao qual antes era a antiga forma de Thror?
O homem, que ainda se cobria com mantos, respondeu:
-Nunca vi a deidade Fobos. Se quiser saber a verdade, vim aqui a pedido da única mulher ou deusa para a qual abaixei minha cabeça. A deusa da sabedoria Atena.
-Atena? – soltam Thror e Lacktum. Era fato consumado que a divindade que concedia seu nome a uma das mais importantes cidades gregas da antiguidade odiava Ares. E o contrário era verdade. Era conhecida a rixa entre espartanos e atenienses.
O arcano e o guerreiro olharam aquilo com desconfiança.
-Explique isso – pediu o mago.
-Ares, querendo testar seu filho insolente, fez o impensável. Ele pediu para a única deusa das batalhas que nunca amou um favor. Para isso, requisitou o maior campeão dela. Que no caso, sem me gabar, sou eu.
-Faz sentido.
-Para mim não! – disse Thror – Como o meu deus protetor faria isso?
Odisseu olhou para Thror com raiva. Sabia que o guerreiro era tolo, mas nem tanto.
-Primeiro, ele é mais do que apenas seu deus patrono. Ele é seu pai, seu genitor. Segundo, se não quer a proteção dele... O descarte, como fez em boa parte de sua vida com tudo e todos. A decisão é só sua.
Thror se calou. Como isso, o mago sorriu. O herói de Itaca em resposta a esse sorriso fez um gesto rápido com a mão, fazendo surgir um novo túnel através dos planos. Novamente uma forte e incandescente luz se fazia aparece atrás dele. Resplandecente, ela guiava os dois companheiros para os planos dos homens.
O grego queria perguntar sobre seu pai, e mesmo que soubesse disso, o pai com certeza ofensas seriam proferidas. Calou-se sobre esse assunto.
Odisseu só uma última coisa. Que quando pronto Thror seria testado novamente por Ares. E dessa vez, seria pelo seu maior campeão. O mais poderoso homem que serviu ao Deus Impiedoso. Nem o herói de Atenas sabia quem seria.

Em questão de instantes, deixaram o Além. Estavam diante da bruxa velha, como carinhosamente chamavam Iliana.
-Ora essa! Saudades de nós Brown? Ficou nos esperando? – disse Lacktum triunfante.
Ela levantou a sobrancelha, estranhando a atitude do mago pelo jeito.
-Meu nome não é lavagem para estar na boca de porcos. E vocês estiveram no Além, onde o tempo não se movimenta. Pensei que tivessem entendido isso já. Garoto idiota.
Os dois colegas se entreolharam. Era engraçado ver que Lacktum, mesmo se achando tão sábio, às vezes cometia erros. Iliana ignorou isso. Pensava que era necessário se proteger e aos discípulos. Já que logo teria que os deixar partir. Eles enfrentariam as forças de Sinestro. Não importasse o custo. Será?


[1] Uma bruxa pode ser tratada de duas maneiras: como uma conjuradora divina ou arcana OU um ser sombrio que aparece nas lendas, quase sempre fazendo sacrifícios para poderes malignos e se aliam a seres das trevas. Uma concepção mais católica essa última. Aqui o tratamento é dos homens mais humildes, por não saberem o que Iliana é (ou seja a segunda).
[2] Apolo, deus do sol, da verdade e das profecias.
[3] Artemis, deusa da caça e dos animais selvagens.
[4] Atena, deusa da sabedoria e patrona da cidade que possui seu nome.
[5] Imp é um ser mitológico semelhante a uma fada ou demônio.  Os ajudantes de forças das trevas às vezes são descritos como imps. Geralmente são descritos com pequena estatura e cheios de energia.
[6] Aqui, se refere aos ceifadores, mas entendam: esse é um dos nomes usados por essas criaturas. Em geral a chamaremos de ceifadores. Outra coisa que deve ficar explicita é que mudam de forma de acordo com a cultura da alma que estarão levando consigo.
[7] Doze séculos antes de Cristo já havia povos nômades em expansão. Os dórios vieram da região central dos Balcãs e destruíram a avançada civilização micênica. Pouco se sabe sobre os dórios, mas indícios cada vez mais fortes parecem comprovar a teoria de que esses homens incultos e rudes teriam sido os ancestrais dos espartanos. O uso deles nessa história teria sido como um modo de mostrar como o território espartano surgiu.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

(Parte 29) Depois da escuridão


Depois de alguns dias, os Dragões mais pareciam um bando de lagartixas, como diria Thror sobre todo o estado dos companheiros. Os treinos se tornavam um pequeno Inferno. Às vezes, ela colocava alguns mais fracos fisicamente para enfrentar os mais fortes, como o mago e o guerreiro. Muitos até queriam fugir dela, mas Lacktum os impedia.
Comentava sobre os poderes dela. Não sabia como, mas quando saíram da Inglaterra ainda era inverno. Só que nessa ilha que ficava ao lado de sua terra natal, pelo menos nas proximidades não caia um floco de neve sequer. Além disso, nas ilhas próximas havia gigantes cinzentos chamados fomores[1]. Seus poderes e forças são temidos por representarem as forças das trevas.
 Realmente, um inverno sombrio se abatia sobre os jovens aventureiros. Mas eles tinham que continuar firmes contra o Pacto de Guerra. Com sua nova força física poderiam suportar os castigos de um combate ferrenho e perigoso como contra Matadouro, Yue Khan e Augustus. Agora eles precisam vencer os inimigos a todo custo.
Halphy estava ao lado do Pacto de Guerra agora.
Ela estava pronta para destruir os antigos companheiros. A prova esta no que ocorreu no Portal de Ixxanon. Ela os deixou para morrer, praticamente criou a armadilha. Se não foi ela que o fez! Sem o surgimento de Nico – ou Ikkanon – o grupo teria tombado. Não poderiam contar sempre com o auxílio de seu anjo da guarda, ou dragão no caso.
Alias o que Nico e Halphy estariam fazendo? O dragão sempre foi misterioso, mas era um dourado, conhecidos por serem extremamente justos. Além de possuírem vasta sabedoria e servirem como juízes em sua própria espécie. Com certeza deveria estar tentando obter a paz em algum lugar. E a meio elfa sempre foi uma serpente. Mas usando uma comparação de Lacktum, antes ela só enrolava agora ela tem veneno.
Lacktum estava triste mesmo assim. Não queria ter a ladina como inimiga. Não por ser perigosa em diversos pontos, mas sim por ter se afeiçoado a ela. Era como ter alguém com talentos únicos e iguais aos seus, além de um laço familiar.
Mas agora ele tinha perguntas a serem respondidas. Entrou no casebre depois de um dia exaustivo de treino. Viu uma casa humana por fora, decorada ao estilo dos elfos por dentro: uma mistura das casas celtas com uma árvore no seu centro enrolada em si mesma, servindo de pilar. Havia peles de animais nas paredes e um chão de areia. Isso era novo para ele!
Ele não via muito como era lá dentro, pois a bruxa guerreira odiava que eles entrassem lá. Todos dormiam atrás da casa, no estábulo. Só havia um cavalo, mas como fedia.
Quando Iliana o viu entrar, gritou:
-Espero que você tenha um bom motivo para morrer! – enquanto, era bem visível, preparava uma magia de gelo em seu punho.
-Calma! – falava isso, enquanto estendia os braços para a mulher, tentando a impedir – Tenho que lhe perguntar algo sobre você e sua família.
Ela encerrou a magia[2], enquanto olhava com desconfiança. Mesmo assim, pediu que o mago inglês sentasse no banco de madeira. Ela fez o mesmo enquanto suspirava. De raiva, talvez, ela cuspiu no chão. Lacktum fez uma cara estranha, vendo uma mulher fazendo tal ato, mas já se acostumou com os jeitos dela.
Ela apontou para onde havia cuspido e disse:
-Traga água e jogue sobre aquilo.
-Sobre seu cuspe?
Ela lhe deu um golpe forte no rosto causando nele a vontade que corresse até o quarto onde estaria a água. A bruxa apontou para o lugar com uma jarra. Jogou um pouco de água sobre o lugar onde ela havia pedido. Ainda se sentia mal por ter levado um tapa de uma mulher, mas não admitiria na frente dela.
Logo em seguida, ela tocou a água girando a pequena poça. Com aquilo, surgiram imagens naquele local. Figuras que pareciam vir de algum lugar distante. Apesar de não ser tão bom com relação a alguns aspectos de Avalon, parecia ser a ilha há muitos anos, séculos até. Isso, na mente de Lacktum, surgia como algo do passado. O mago entendeu, pois ela trazia através de suas memórias cenas do passado como um reflexo na água de um lago... Só que um tanto diferente. Não era como o Oráculo de Delfos, em que ele mostrou tempo e espaço em que não esteve. Era óbvio que ela não era tão poderosa quanto o homem nas terras gregas, mas seus dons extraordinários eram o suficiente. Não foi a toa que foram enviados até ela. Só com fortes se aprende a ser fortes, era algo que seu pai sempre dizia. Mas ignoraria tudo isso por enquanto.
Tinha certeza que aquilo era do passado.
Viu surgir uma casa de elfos nobres, onde estava Iliana. Parecia um outono muito distante naquelas terras arcanas. E até seu jeito de vestir e agir parecia menos com a bruxa que conhecia. Parecia chorar enquanto cruzava um jardim cheio de flores lindas e maravilhosas. Algumas que nenhum homem mortal teria visto fora da ilha. Mas antes que atravessasse todo o lugar uma elfa gritou:
-Ilianel! Não faça isso!
-Fique calada Aluniel.
Nesse momento, Lacktum se agitou. Realmente, o destino é um só como diria Azerov.

As duas garotas tentavam persuadir uma a outra. Ilianel queria fugir com um estranho de terras nunca antes conhecidas. Enquanto Aluniel tentava convencer sua prima. Tinham parentesco distante, mas se amavam como irmãs. E até mais. Uma protegendo a outra dos males, mas Iliana sempre se interessou pelo mundo humano e suas inconseqüências. Assim, como ela mesma admitiria mais tarde, era inconseqüente.
-Será que nada do que fale irá mudar sua cabeça sobre isso? – disse Aluniel sem mais argumentos após um longo discurso.
-Eu o amo. E sinto que ele me ama.
-Como tem certeza disso?
-No amor só existe uma certeza. E eu vou provar ela.
-Tudo bem então minha prima. Que os ventos de Avalon sempre soprem para você[3]...  E voltar até mim.
-Grato minha querida prima.
A cena se esvanece, enquanto é possível ver que outra surge. Nesta nova imagem, aparecem Iliana e o elfo que ela citou antes. Cabelos longos, com uma tez tão clara que parecia nunca ter sido tocada pelo sol. Era um elfo com belas roupas verdes e um sorriso malicioso e convidativo.
Ele a abraçou com força como se encontrasse seu maior e verdadeiro amor. Mas era mentira.
-Oh meu querido Sinestro!
-Venha comigo meu amor...
E nesse momento, Van Kristen saltou. Ele fitou a bruxa. Será que isso tem haver com Halphy? Será que ela e Sinestro tem algum parentesco? Isso ficava cada vez pior.

Mais uma vez, a imagem na água mudou com uma girada do dedo de Iliana. Ela não expressava nenhum sentimento. Talvez tenha sido Sinestro o culpado pela elfa agir assim. Muitas questões estariam para surgir e finalmente serem respondidas.
Nessa nova cena, Iliana estava em uma casa. Aonde quer que fosse ela sofria muito, pois estava grávida e prestes a dar a luz. Suas dores eram muito maiores que uma elfa teria, pelo menos que ela lembrava. Em seu espírito sentia. Seu corpo não agüentava, mesmo sendo uma criatura mágica. Seus dentes rangiam, seu corpo estremecia e nada parava sua aflição. Ela sempre havia visto outras em Avalon tendo filhos e nunca foi tão difícil. Qual o motivo agora disso com ela então?
Ela estava sozinha quando deu a luz a uma singela garota. Tom claro de pele, sem nenhuma maldade, pura em todos os sentidos. Apesar de mão ser uma elfa completamente, era linda. Ela era tudo que Iliana sonhava e muito mais. Seu choro fazia sua mãe jorrar mais lágrimas ainda. Isso tudo sendo agraciada com um milagre que só os deuses nos concedem.
Esse talvez fosse seu último dia de felicidade.
A porta da casa foi aberta com um potente chute. Em seguida era possível notar a silhueta de Sinestro, e um vento sombrio que apagou as velas do casebre. Foi quando ele caminhou até a mãe, que com dificuldade, alcançou sua filha para segurá-la. Ela que sozinha batalhou para sua filha viver.
O suposto elfo segurou a filha com um jeito paternal, mas maligno. Deve ter sido assim que o mal surgiu.
-Querido... Ela não é uma elfa... Puramente... Mas lhe juro... Nunca lhe trai – disse ela, com medo e preocupação – Os deuses estão sendo caprichosos...
-Ora Iliana. Não se lamente, nem se desculpe. Sei que nunca me traiu. Afinal, fui eu que te trai. Muito mais do que imagina. E de uma maneira muito pior do que jamais sonhou.
-Como assim? Do que fala? – disse ela em tom de desespero.
-Vou lhe revelar que busco um dos Portais da Verdade. Aquilo que só os mestres ascensos[4] obtiveram. A fonte de maior poder em toda Gaya. E você me concederá isso hoje!
-Do que fala? Não entendo... Devolva-me minha filha! Por favor! – gritava e esperneava a elfa. Era triste ver a mulher gritar após um parto tão duro. Se houvesse um ser vivo com o mínimo de consideração em seu coração naquele lugar, faria de tudo para entregar a criança para sua mãe. Mas mesmo Sinestro ainda estando vivo, seu coração era tão podre que mesmo os apelos da mais correta das mulheres não abalavam seu jeito cruel e poderoso. O mal tinha desejos, não compaixão.
-Ela estará bem. Será uma bela filha de dragão.
-Como? Oh forças antigas...
-Sim! Ela será uma filha do dragão!
E nesse momento só a sombra era possível ser vista, mas como um relâmpago, surgiu nela à forma de um dragão. Pela noite e com a visão nublada de Iliana, não pode ver sua forma completa. Entretanto era possível que enquanto voava a criatura tinha um brilho esverdeado e olhos vermelhos como os de um rubi. Além de soltar um som devastador que finalmente acordou a criança. O bebê ficava entre os vãos da garra do monstro, sem nenhum dano a recém nascida. Era como se finalmente sentisse então o destino cruel que estava reservado para ela.
-Adeus Iliana. Será poupada, por enquanto... Não me faça mudar de idéia.
Enquanto falava isso o ser crescia, quebrando o teto da casa. Com isso as paredes da construção humilde caiam ao chão e até as portas voaram com a força das asas dele. Como um demônio que queria levar uma alma pura para o Inferno. O ser do mal parecia sorrir com tudo aquilo que criou: um caos na vida da elfa. E ele não deixou nenhum dos escombros caírem sobre ela de propósito. Como quisesse que ela vivesse com aquele sofrimento nos dias que estavam por vir.
Nesse momento surgiram dois homens. Um deles era um cavaleiro que portava uma armadura de tom prateado... Quase que de platina. O outro tinha roupas esfarrapadas. Estava com um manto, luvas com símbolos arcanos e um cetro com um crânio na ponta. Lacktum não enxergava seus rostos, mas sabia quem eram. Sua jornada até pouco tempo atrás se devia a eles.
-O Cavaleiro de Platina e o Desalmado.

Os dois se colocaram na frente da elfa, formando uma proteção contra o dragão. O arcano obscuro preparava a magia, enquanto o paladino gritava o nome de seu deus. Mas não foi rápido o bastante, pois o ser alado fugiu.
A dupla parou suas ações. O cavaleiro sagrado com tom prateado acudia a elfa. Já o outro olhava em direção ao horizonte. Estavam em um lugar muito distante de qualquer vila conhecida. Em um precipício próximo do mar, que poderia ser lindo naquele momento. Isso se não fosse aquela situação.
-O perdemos – disse o mago.
Amanhecia, enquanto a imagem mudava lentamente. A água mostrou uma caverna em que os Dragões já estiveram. Era a mina do Vale das Esmeraldas.
Lá estava Sinestro em sua forma verdadeira. Ele se encontrava em um pentagrama cheio de símbolos e runas. Brilhavam com força arcana e poder antigo. Abaixo, uma criança de dez anos enlouquecia de medo, gritando. Vestindo somente trapos que já foram brancos.
O dragão cintilava em tons esmeraldas, especialmente em seus chifres, garras e as pontas das asas. Ele parecia muito mais ágil que qualquer outro ser arcano que conheceu até então. Seu ar de nobreza exalava com muita força e com certo tom de infantilidade.
Com o ser reptiliano acionando as runas, não deixou de notar as sombras que surgiam ao seu redor. Ele as confrontou.
-Saiam de onde estiveram. São três e um dentre vocês é minha antiga amante Iliana. Acreditar que podem esconder-se de mim só mostra que são tão loucos quanto aqueles que pretendem me derrotar.
Eram o cavaleiro e o bruxo que saíram primeiro. Envelheceram como qualquer humano em quinze anos passados. A última saindo das sombras era Iliana. Caminhava bem lentamente. Não era mais a presa. Estava caçando.
Sua feição mudou. Estava mais parecida com o jeito que Lacktum conhecia tão bem: nervosa, sombria e seria. Só suas roupas que combinavam, os trajes de feiticeiro e um guerreiro. Ela estava pronta para matar ou ser morta por Sinestro. Custasse o que custasse.
Ela apontava sua arma em direção ao dragão. Seus olhos eram negros.
-Devolva-me minha filha, seu lagarto cheio de pus! Quer essa espada enfiada na sua garganta?
Nesse momento Sinestro riu. O som mais parecia um terremoto para os dois homens e a elfa, mas isso não os abalou. Os três se posicionavam, mas somente a guerreira arcana saltou em um bote quase suicida.
-Tu queres morrer tanto que abdica da vida, como se fosse uma oferenda a um deus? Tente penetrar minha couraça com tua agulha de encantos menores – falou o dragão, zombando da elfa que se agarrou a uma das escamas verdes do dragão.
Enquanto isso Iliana gastava vários e cada vez mais precisos golpes contra o imenso ser. Inúteis. Ela parou sorrindo com tudo aquilo.
-Ora veja, o seqüestrador de bebês tem uma fala eloqüente. Não é a toa que o que pesquisei estava certo em tudo. Tão antigo quanto lendas recitam, Sinestro. Ou deveria chamá-lo de Brilho de Orvalho?
Sinestro parou de fazer tremer o lugar com os sons de sua bocarra. Mas ainda esboçava um sorriso de satisfação.
-Ah vasculhou sobre lendas referentes a meu ser. Quanta honra para tão misero ser – nesse momento, ele estufou o peito. Revelando que não havia sofrido um dano sequer em sua poderosa pele de dragão.
-É. Um dos dragões mais novos na Era Mitológica, antes de sumirem no misterioso Êxodo dos Dragões. Mas seus talentos eram superiores ao de qualquer um. Especialmente por ser fisicamente poderoso e seus dons mentais serem potentes. Mas caiu no plano de Gaya por motivos sombrios. Fiz várias descobertas sobre você.
-Então deve saber que com teus poderes atuais não irão conseguir me ferir. Assim como seus aliados.
-E quem disse que quero te matar? Agora!
Com isso, o arcano sombrio que a seguia recita:
Das torres saiu o tempo
Impeça esse inimigo
Venha a esse mundo parar
Proteja nosso destino
Nesse momento, o dragão deixa seu corpo cair. Parecia mais pesado que o natural. Sabia de quem era a culpa daquela sensação que jamais havia sentido antes.
-Teu mago esta me fazendo hibernar... Maldita, mas muito sabia.
Iliana aproveitou e pegou sua filha, que estava paralisada de medo ou por magia. O paladino protegia tanto Iliana quanto a filha dela que se livrou do ritual. A criança chorava com medo da situação toda. Pouco se sabia do que ocorreu por todo esse tempo. Mas a menina parecia muito sofrida, tanto física, como mentalmente. O mago se protegia com um forte feitiço.
-Ora essa... Conseguiram me deter... Por enquanto. Mas eu vou me proteger de vós... Melhor me divertir com vós. Que tenham uma sina tão horrível quanto o meu poder. A ti mago, lhe condeno a odiar o único homem em que realmente deveria confiar... A ti cavaleiro, lhe condeno a não morrer pelas mãos de um inimigo, mas pelas de um aliado... Um amigo...
E antes que caísse, o dragão falou a elfa:
-E a ti, minha antiga amante... Condenarei a nunca mais ver tua filha... Assim... Feito...
Falando isso, o dragão caiu perante todos e adormeceria por anos. Era o que haviam conquistado. Paz.
-Se acalme Iliana – disse o mago – Tudo acabou, estamos livres dessa praga.
A água no chão da casa de Iliana secou.

Lacktum ficou pensativo. As cenas eram algo que superava suas pesquisas. Até onde soube alguém do clã Coração Prateado havia despertado o dragão Sinestro anos depois pelos seus cálculos. O que fez com que o problema se tornasse algo de importância aos Imortais Esquecidos. Isso havia ocorrido no inicio da formação do grupo. E ele seria destruído, quando houvesse poderes e forças, o suficiente para erradicá-lo. O mago inglês temia pelo futuro do seu grupo.
Mas uma perguntava continuava.
-O que ele queria com sua filha?
Iliana suspirou.
-Até hoje não sei, mas seja lá o que fosse, quer fazer o mesmo com a filha dela. O máximo que fiquei sabendo que crianças destinadas a tais poderes e habilidades quanto elas são chamadas de Maktub.
-Maktub? – estranhou o mago – Pelo que me lembro isso significa  esta escrito ou esta destinado. Em uma língua distante daqui, alias.
-Exato. Pelo que soube seriam seres que mudaram o mundo diversas vezes em nome de sua fé ou suas crenças. Como Jesus Cristo para alguns judeus... E boa parte do atual território dessas terras.
-Espere! Primeiro nunca fui de acreditar em coisas desses cristãos. Segundo, você disse várias vezes? – o jovem ruivo levantou – Esses fanáticos religiosos podem ter mudado o mundo duas ou três vezes. Não mais que isso. Isso se o fizeram através desse tal messias.
Ela colocou a mão no joelho esquerdo, em pose de desafio.
-Você não compreende. Alguns desses seres, também chamados de mestres ascensos, nem sempre tem seu nome registrado na história. Você que aprendeu o mínimo do mundo arcano, como um abridor, sabe sobre o Paradoxo.
-O que aprendi nesses últimos tempos, lendo e de forma natural, é que o Paradoxo é a força maior que rege todo o universo arcano. Que concede e detém qualquer magia. Sua força impede que um mago supere as forças da natureza de Gaya. Tais feitos são concedidos somente para os deuses.
-Sim, mas devo lhe afirmar uma coisa. O Paradoxo não é a maior força. De qualquer modo irá aprender sozinha. Voltando ao assunto, esses mestres conseguem acessar o que chamamos de Portal da Verdade. Não sei o que é, mas possui grande importância para alguns seres ancestrais e de outros planos.
-E Sinestro queria controlar um deles. Através de você? É isso?
-Exato! Ao que parece, existe uma profecia ao qual eu seria responsável pelo nascimento uma mulher. Essa mulher teria o poder de abrir o portal. Pois esse é o momento que Sinestro pretende alcançar, já que dizem que um Maktub consegue superar o Paradoxo.
O mago se espantou. Superar a Linha Maior da Realidade, como alguns chamam, era inadmissível. Quem poderia fazer algo assim? Lacktum começou a sentir como se atravessasse uma linha tênue. Não era poderoso ou perigoso, como Iliana, mas sentia suas forças crescerem.
-O que fala, exatamente, essa profecia? – questionou o mago.
-Não sei. Quase ninguém sabe. Talvez, um dragão saiba. Mas isso é por ser fato referente aos atlantes.
-Muito antiga então. Era mitológica.
-Exatamente.
-Com certeza algo que veio dos deuses como Kanglor[5] ou Jade[6]. Talvez mais da segunda.
-Nem isso talvez. Pode ter sido um presente dos Anciãos. Um povo antigo que ensinou como ler as estrelas. Seja lá quem fossem, superavam os poderes divinos.
-O que me faz pensar, que se Sinestro pegou Halphy... Ou melhor, a fez se filiar a ele... E já que nunca conseguiu o que queria, ou seja, sua filha... Ele quer a sua neta para acessar o Portal da Verdade! Quer acessar o portal! Através de Halphy!.
-Ora essa, e não que o cabelo vermelho às vezes consegue pensar – disse ela irônica.
-E então o que faremos?
Nesse mesmo momento, Thror abriu a porta com força. Parecia assustado demais, como se tivesse visto um fantasma.
-Vocês estão fazendo o que ai? Não viram o que esta no céu.

Arctus, Gustavo, Thror, Lacktum e Iliana olhavam para o alto. O mago e a bruxa guerreira fitavam um céu nublado, cheio de luzes relampejantes. Mas de algum lugar, mas de algum lugar surgia um pilar de luz com força, cortando as nuvens. Parecia sair do território inglês.
De repente, Iliana sentiu o poder que vinha daquele lugar. Era como um turbilhão de sentimentos profanos e malignos. Arctus, Seton e Lackum também sentiam aquela força oprimindo seu peito. Parecia que o mundo havia se tornado tão pequeno, como quando encararam Daehim, mas mil vezes pior. Os que não eram versados nas artes místicas só continham o medo. Mas ele estava estampado em seus rostos para sempre. Como feridas que nunca cicatrizam e mesmo quando melhoram, não são fáceis de ocultar. Aquilo surgiu de onde e como isso trouxe tanto medo a eles? O que era aquilo?
Valente e Rec subiram nos ombros de Lacktum. Olhavam com estranheza.
-O que é aquilo? – perguntou o suricate.
Iliana se voltou para a pequena criatura e disse:
-Aquilo é o fim dos tempos. Sinestro despertou uma pequena parte de seu poder.
Lacktum tomou uma feição mais seria e pensativa. Era o momento para deter o dragão e quem fosse que estivesse do lado dele. O problema mesmo seria Kalic Benton II, ou melhor, Lucian.




[1] Eles surgem nas lendas celtas e eslavas. Eles viviam nas ilhas próximas a Irlanda (Eire) e representavam caos e as forças obscuras.
[2] Magos podem encerrar magias, antes de as conjura-las e se não exigir muita concentração.
[3] Frase como “de desejo boa sorte” típica de Avalon.
[4] Sábios, santos e profetas do mundo que realizaram seu objetivo na vida terrena e ascenderam. Quase sempre instruindo a humanidade em conquistar a evolução espiritual. Surgem em várias religiões de diversos tipos, e apesar de não propagarem a mesma fé, seus conceitos muitas vezes se assemelham.
[5] Kanglor: Deus da fúria e da luta justa.
[6] Jade: Deusa da verdade, sinceridade e adivinhação.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

(Parte 28) Introdução

Voltando a ativa depois de meses sem publicar nada de Contos, eu os delicio com a introdução de O Tribunal das Almas, o terceiro volume da série. Confiram!


Quando alguns homens se entregam aos seus sentimentos, eles fazem tolices ou os atos mais glorificados pela história. As provas estão por toda a parte.
Mas seria realmente tolice o ataque de Aquiles a Tróia? Assim como o rapto de Helena pelo príncipe Paris? Quem poderia fazer atos impensados como os de Beowulf ou Siegfried nas lendas germânicas? Ou as façanhas que são citadas nos livros que vem do extremo Oriente? Poucos alguns diriam, mas que esses erros nos trouxeram as mais belas e comoventes histórias que existem na história da humanidade, não há como negar.
Sem o ataque de Aquiles, Tróia nunca cairia, muito menos teríamos o nome de tal herói registrado nas lendas. E o mesmo ocorre com Paris, que causou esse conflito conhecido por todos, através do amor. E o que disser das lendas das terras onde os heróis adoravam deuses como Thor e Loki? Nada, não ser magnífico. Contos e histórias tão surpreendentes que nos fazem sobre sua veracidade em nossas almas. Pois desejamos que fossem verdadeiros.
Um homem, mesmo quando este possui sangue de deuses ou demônios, pode cometer os mais grosseiros erros. Erros amorosos, por tesouros, poderes, forças do destino ou mera tolice sempre ocorreram nas histórias antigas.
Mas antes delas serem esquecidas, suas histórias percorreram todo o mundo conhecido. Como as pequenas e maravilhosas lendas ou poderosos e maravilhosos épicos, dignos de Homero. Só que todos esses contos surgiram de erros cometidos por alguém. Fossem de humanos ou semi-divindades.
E então, será que um deus faria a tolice de cometer o maior erro de todo o universo? Bem, devemos pensar se isso é possível e se alguns consideram atos divinos como caprichos ou tolices. Nos tempos que antecedem até mesmo o surgimento do homem sobre a face da terra, existe uma frase que diz que um deu nunca erra. Mas existe outra que fala da sabedoria de compreender seus próprios erros, não importando se um plebeu, um soldado, um homem da fé ou um rei. Isso não serviria para uma entidade, um ser superior?
Não há como ter certeza. Muitos poucos diriam que sim, uma divindade comete erros. Quase sempre se deve a raiva, ao ódio ou alegria que surgem nos corações de vários seres vivos, devido às dádivas ou maldições que os deuses criaram.
Como não ofender a divindade que controla os céus e os raios, quando uma tempestade devasta a colheita? Ou quando um deus da magia amaldiçoa o homem sem cultura, que não sabia o reverenciar, ou que não sabia que certas palavras seriam consideradas blasfêmias diante de um templo, sendo que elas estavam em seu coração? Ou ainda, quando um fiel reza para a cruz do Redentor, pedindo que a pessoa que ama seja salva e mesmo assim, ele a leva. Se fosse você ficaria inerte, sem querer revidar a isso de algum modo? Mesmo que fosse só praguejar?
E então me diga: deuses não erram?

Como alguns se preocupam com deuses e panteões, outros olham para dentro de si.  Esses olham para sua alma.
A alma é o recipiente dos sentimentos. Traz consigo tudo de bom ou ruim, triste ou alegre. Aqueles que possuem muita bondade ou que são extremamente imaculados têm quase sempre a alcunha de alma pura. Mas dificilmente nos tempos em que esses contos se passam, uma alma é pura. Isso se deve ao sofrimento que se passa no período dessa história. A preocupação dos reis não era seu povo e sim a fortuna obtida do Oriente. O que causava nos plebeus, raiva e ódio, mesmo não podendo se revoltar contra os reis. Afinal eles eram mestres de todas as vidas que estavam sob sua coroa.
E as almas dos guerreiros, plebeus, nobres, aristocratas, padres, sacerdotes, bárbaros, ladinos e arcanos são transformadas em terríveis forças. A prova disso é a quantidade de atos vis na história. Os seres humanos como outras criaturas, são afetados por outros de hierarquia maior – seja no plano físico ou arcano.
O que me lembra de uma pequena história que escutei uma vez de um amigo.
Certa vez, um mercador que possuía uma linda mulher, deve que se ausentar de sua vila por meses. Ele trabalhava com alimentos e os vendia por todos os cantos do mundo conhecido. Quando voltou, encontrou sua amada adoentada e fraca sem nem poder se levantar. Nenhum curandeiro, padre ou sacerdote de deuses pagãos sabia como lidar com aquela doença. Poderia ser uma doença mundana ou profana, mas nenhum homem conseguia tratá-la.
Mesmo sendo humilde e inculto buscou até onde conseguia com seu esforço. Quando não conseguiu o que queria buscou muito mais além, em reinos e terras que nem imaginava que existiam. Gastou cada moeda que tinha e obteve, para trazer a saúde da mulher de volta. Até sua pequena fazenda foi usada para uma troca, mas nada o suficiente a vida da esposa.
Por fim o pobre sujeito voltou para casa – o único bem que não vendeu ou trocou – derrotado e chorando ao lado da cama. Sua amada mulher febril dormia na frente do homem, que se desesperava. Nesse momento surgiu uma sombra no quarto com capuz e manto, ao qual não era possível enxergar o rosto. Inicialmente, pensou se tratar da morte que levaria sua amada, mas o estranho acalmou seu animo. Essa aparição falou com aquele pobre coitado sobre um modo de ver curada a esposa: um pacto.
Se o mercador prometesse cumprir um trato com o ser debaixo do manto, este salvaria a mulher. Não pensando nas conseqüências, o trato foi aceito imediatamente. Quando isso ocorreu, os dois apertaram as mãos e sangue escorreu. Estava tudo pronto para o pacto.
Um milagre ocorreria. Na manhã seguinte, ele viu com espanto a mulher acordada ao seu lado sem nenhum traço do mal que a afligia antes. Não tinha mais a febre que possuía por meses antes, ainda com um rosto pálido. Era a benção que o estranho lhes tinha concedido. Naquele momento, não havia homem mais feliz no mundo, pois seu amor estava livre da doença que nenhum ser mortal conseguia curar. Isso fez o mercador pensar que o encapuzado fosse um anjo.
Uma semana se passou e o comerciante viajou para uma cidade próxima, enquanto deixou sua amada cuidando de seus negócios, que conseguiu reerguer por milagre. Quando voltou a noite, viu uma comoção ocorrendo próximo de onde ficava sua tenda de comércio. Uma carroça teria atropelado a jovem que havia se recuperado uma semana antes.
Alguns dizem que havia um homem encapuzado perto dos portões da vila, no mesmo dia do ocorrido.
Ninguém sabe se esse homem misterioso era um anjo ou um demônio, ou até mesmo um ceifador. Mas essa lenda se torna um aviso a todos: nunca aceite tratos com estranhos.
Ah, o pagamento do tal pacto era a alma do mercador.

Passaram-se dias. Nem Lacktum se lembrava de quanto tempo. Iliana era um terror. Seus métodos traziam muita dor física aos jovens combatentes. No começo de um dia comum, fazia com que trouxessem quatro baldes de água por um caminho a qual sabia estar repleto de espinhos. Quando o sol chegava ao seu ponto máximo no céu, os forçava a correr com as roupas de baixo, enquanto os chicoteava. Isso era feito pelo tempo que a satisfaria. E com a noite caindo, ela esmurrava os piores como sacos de trigo. Às vezes pensavam se era uma mulher mesmo. Outras se ela era realmente uma elfa.
Ela os chamava de fracos e sem forças. Sempre quando podia, lançava alguma magia sobre o corpo de algum dos jovens. Desde as mais simples até as mais complexas, passando por aquelas que duram dias. E eram muitas.
Em certo dia, Lacktum sentou de frente cabana da bruxa, como chamavam Iliana. Mais por ofensa do que por seus dons arcanos. Eis que surge Arctus completamente exausto, sentando em cima de um monte de cogumelos.
-E então sacerdote? Exausto? – disse Lacktum enxugando o suor.
-Vou te contar direito sobre isso quando parar de ofegar.
-Acha que isso vai ser bom para nós?
-Bem foi à própria rainha das fadas que quis que treinássemos assim. Não foi isso que a bruxa louca disse?
-É algo que Madely... Digo, Vossa Majestade faria. Tudo bem.
-Estranho que só ela nos ajude. O rei e regente Arda, deveria nos apoiar.
-Elfos são muito reservados, e seu orgulho fala mais alto que o perigo que corremos. Humanos é carne de segunda para ele.
-Mesmo assim... E é um parente de Halphy, a garota que nos traiu!
-Eu sei. E que tolice foi crer que Thror era o traidor.
-O esquecido e tolo Tzorv? Por que ele.
Lacktum riu com o pensamento.
-Já ouviu na história do Cavalo de Tróia? Além disso, algo que ninguém se lembra é do que foi dito por Syrus.
-Ah sim! O demônio que supostamente profetizou um grande mal em Thror. Pode ter sido um estratagema. O tal Syrus pode ter feito algo para ter contatado alguém.
-Difícil. Fiquei sabendo por um mago de Avalon que a barreira foi feita por três dos Imortais Esquecidos: Gibraltan, que faz parte dos maiores arcanos de Avalon; Meg clériga de Kanglor, o deus da ira; e James, paladino do mesmo deus de Meg. Não seria tão fácil dele se comunicar além daquela barreira.
-É. Mas é possível... Mas onde estão os outros? Digo James e Meg?
-Bem, até onde sei ninguém imagina o paradeiro do paladino. Mas a sacerdotisa vive como errante pelo Sacro Império Germânico.
-É algo até incomum...
Eis que surgem de repente, como um lampejo, Thror, Seton e Gustavo gritando:
-A bruxa esta atrás de nós! Corram para as colinas!
Lacktum e Arctus saltaram correndo como loucos. Atrás deles com chicote surgia Iliana Brown. Nem parecia a simpática moça que achavam ter encontrado há tempos atrás. Mas sabiam que aquilo era necessário. Para enfrentar o Pacto e todos os inimigos que eles possuíam. Incluindo aqueles que já foram seus aliados.
Enquanto os outros corriam, Valente passou calmamente onde o padre e o mago conversavam.
-Humanos malucos... Bem, melhor assim! Sobram mais cogumelos pra mim!
E ele foi coletando cada um como se estivesse em uma horta. Com isso feito, foi para um lugar mais escuro.

As ruínas do castelo possuíam duas torres. Na maior ficava a sala onde Kalic Benton II se recolhia. Uma sala escura e tenebrosa que em tempos, não tão antigos, serviu para algum arcano sombrio. Não que houvesse alguma diferença agora.
Kalic estava à frente de um espelho. Ao seu lado havia duas enormes tochas, que crepitavam com força. Uma pequena escada o colocava em um ponto mais alto no salão.
Abaixo estava Halphy com os braços cruzados. Ela esperava algo que não sabia o que era. Preferia que fosse poder. Itens de um tesouro não valeriam tanto, pelo menos não por agora. Com suas forças potencializadas, a jovem conseguiria que queria. Fosse o que fosse.
Já o mago morto temia a jovem. Mesmo não sendo tão poderosa ainda, ela tinha mente sagaz. Além de força no combate e seus dons arcanos que cresciam em uma quantidade alarmante. Os deuses a favoreciam por algum motivo. Se ele não agisse tanto por vingança talvez o contemplassem.
Ela não entendia como funcionava a mente do arcano que já deveria ter morrido. Lembrou-se o que leu em um dos livros de Azerov o nome do tomo era Codex Necro[1] e continha palavras sobre os mortos. Aqueles que são erguidos de seu repouso com os corpos já em decomposição, sem suas mentes e almas, seja por uma magia ou fonte de mana, chamaram de mortos famintos. Aquelas almas atormentadas que se mantêm nas trevas de sua vida passada são chamados de espíritos famintos. E os que possuem um corpo, se lembram de suas vidas passadas, que não possuem seu espírito e que escolheram esse caminho por livre e espontânea vontade, são chamado de mortos sem descanso. Estes últimos são tão perigosos que lendas relatam sobre um único ser ou criatura, saindo do Além e matando vários humanos, quase sempre é relacionado a eles. Assim, deveria ser Kalic, ela achava.
Kalic estendeu a mão diante do espelho. Em sinal de respeito proferiu:
-Liberte o que jamais foi encarcerado! Os mortos cantam seus próprios acalantos!
Nesse momento, do espelho, surgiu uma imagem. Parecia com uma enorme face não humana. Na verdade, quase lembrava uma serpente ou algo pior. Não tinha um aspecto muito bem definido, devido a nevoas que surgiam ao seu redor. Estranhamente, se parecia como quando se joga uma pedra num lago sereno. Uma onda que parecia aumentar cada vez mais.
-O que é isso Kalic? – perguntou a ladina feiticeira, temendo a resposta.
O mago se virou de frente apontando para o espelho.
-Minha cara Halphy, dentro dele... Desse espelho, reside a alma de Sinestro. Aquele que você tanto buscava em busca de poder.
Nesse momento ela se ajoelhou como se estivesse diante de um rei ou divindade. Ou do tesouro mais inconcebível – e profano – aos homens. Benton reparou um pequeno sorriso surgindo na face dela. Ele notava que era como uma cobra que se agita antes do bote.
Muito prazer Halphy Brown.



[1] Livros como esses seriam escritos por sacerdotes egípcios para catalogar e atingir os pontos fracos dessas criaturas. Porém, muitos necromantes os usavam para buscar maior conhecimento sobre os mortos e controle da vida.