quinta-feira, 4 de junho de 2015

(Parte 35) Ambição profunda


Nesse ponto, deixamos os Dragões da Justiça para focalizarmos em outra personagem da trama. Tão importante quanto Lacktum, Thror e Arctus, suas ações distantes do grupo causaram fatos que culminariam em grandes conflitos e – obviamente – conseqüências. Deve já ter consciência de que falo da meio elfa Halphy Brown. Suas atitudes no Portal de Ixxanon a colocaram como um importante membro do exército de Sinestro e controlado por Kalic Benton II. A organização conhecida como Pacto de Guerra.
Após tudo que ocorreu aquela assassina estava pronta para obter o que queria. Um exemplo claro estava na dedicação ao grupo que adentrou. Parecia querer mostrar que sua ação ousada a tornaria única herdeira do Último Dragão de Esmeralda. Seu sangue, dele pelo menos era. De todas as formas possíveis e imagináveis, alguns diriam. Será que todo esse segredo sua mãe conhecia? Tantas coisas que poderia saber ou não. Muitas vezes os pais nos falam certos fatos para nos proteger. Consideramos isso como mentiras. Mas existem aqueles que nunca perguntam nada sobre o seu próprio passado, e ficam tristes quando envelhecem. Qual o direito de uma pessoa que nunca se interessou sobre sua própria vida, reclamar sobre ela?
Saber sobre sua infância é algo duro. Necessário às vezes para se saber quem é. Obrigatório para se definir quem é.
Mesmo assim Halphy estava disposta a aprender o ofício de matar. Já permanecia no castelo há alguns dias[1]. Aprendeu costumes e técnicas daqueles que matam, não por liberdade, não por serem forçados, não por lucro, mas pelo prazer de obter a vida e morte de alguém em suas mãos.
Aprendeu com alquimistas como cobrir sua arma de veneno. Com ladinos mais experientes, a como usar as sombras para um manto sombrio lhe defender. Os necromantes lhe ensinaram a Arte, sem a necessidade de ser pura ou magia negra, contudo criada para o subterfúgio, engodo ou ilusão. Suas habilidades físicas também foram ampliadas para que estivesse preparada. Um corpo saudável seria perfeito para o uso da magia, ela dizia. Talvez, por magos necessitarem de uma grande força de vontade. Dedicação que não enxergava nos arcanos que conhecia.
Certa vez, Halphy despertou no quarto que lhe concederam com um ânimo muito maior que o comum. Nele, havia todas as comodidades concedidas a uma princesa. Queijo de ótima qualidade, pão que parecia ter vindo do oriente, uvas vindo da parreira mais frondosa, leite morno, pedaços de carne finamente preparados com ervas temperos, entre tantas coisas em um refinado café da manhã.
O quarto estava bem trabalhado, pelo menos, ao que ela imaginava. Era cheio de detalhes que só Halphy não gostava. Mesmo assim ele era só dela, ela dizia, e de mais ninguém. Pois só ela poderia adentrar o lugar. Até a comida era deixada na frente do aposento, ao qual saqueava com cuidado – com medo de falharem as medidas.
Eis que alguns momentos após o desjejum o som oco da madeira surgiu. Era a porta de seu quarto ecoando tal perturbação aos seus ouvidos.
-Quem é que me acorda e não teme ser fulminado pelos meus poderes? – disse com tom de voz, tentando imitar Kalic Benton II.
-Kalic Benton – respondeu o mago de certo modo irritado.
Ela saltou de assombro. Nos poucos dias em que esteve ali, era a primeira vez em que o mago se dirigia à assassina. Não sabia como deveria se sentir: emocionada, aliviada, triste, preocupada ou com medo? Sim. Definitivamente era medo.
Abriu a porta com delicadeza e certo ar de ironia. Piscou de modo a deixar Kalic irritado. Nunca tinha certeza se suas provocações haviam obtido o resultado esperado, por conta da máscara que ele portava. Melhor assim. Esqueceu-se de que o mago tinha um rosto deformado, uma face morta.
-O que quer? – perguntou cinicamente aquela jovem.
-Por acaso se esqueceu? Hoje será um dia importante para você mulher.
-Ah sim, sim! Sinestro irá despertar.
Kalic alterou o tom de sua voz finalmente. Estava agora visivelmente irritado. Seus intentos funcionaram, pensou Halphy. Ele falava de forma áspera.
-Sabe muito bem, tanto quanto eu, que não é só isso. Deve estar preparada. O ritual para você já esta pronto.
Halphy estranhou tudo aquilo. De onde surgiu tal história? Ritual? Para ela? Que maldição era aquilo? Por enquanto continuaria naquele jogo. Afinal, se estava naquela situação, foi porque quis. E enquanto estivesse ali teria que a aturar. Pelo menos enquanto ela não pudesse escapar da influência de Sinestro. Mal sabia ela que não seria fácil.

Depois de trocar a roupa adequadamente, Halphy seguiu Kalic. Não sem antes ela fazer uma piada com o mago dizendo que o arcano era um depravado. Mesmo por baixo da mascara era possível notar os olhos dele revirando com raiva da brincadeira. Não ligava para acordar uma dama como ela. Para ele, não havia nenhuma ali.
Ela havia mudado o traje. Deixava bem a mostra o busto. Também mostrava bem a coxa esquerda, tratada com pétalas de rosas brancas e óleos orientais, além de fragrâncias raríssimas. Fez isso por todo o corpo. Suas mãos eram protegidas por luvas de couro preparadas para a tarefa de um ladino. Também serviriam para alguns propósitos de uma assassina. Ela prendeu Vampira de Almas nas costas com uma tira do mesmo material das luvas. Andava com uma mão sobre ela – como se estivesse preste a sacá-la – e a outra livre. Além lógico de tentar deixar evidente sua pele macia de forma a atrair olhares. Não era algo que obtinha muito ali, afinal, todos se concentravam demais em seus afazeres.
Certa vez, ela querendo provocar um dos jovens necromantes causou uma confusão. O que só não acabou com a morte do mago que lidava com a Arte sobre a vida e a morte, pela própria intervenção de Halphy. Ela gostava de ver quando os homens se sentiam atrapalhados perto dela.
Caminhavam pelos corredores frios do gigantesco castelo. Por fora, uma pessoa comum enxergava as ruínas de um castelo antigo, devastado por uma guerra talvez. Poderia até ser uma construção da época em que os romanos invadiram a ilha. Só por dentro – e se a pessoa soubesse a palavra mágica certa ou possuísse poder arcano ou divino – veriam a estrutura do lugar: duas torres com tijolos negros como a noite, ligadas por uma passarela. Cada uma das estruturas tinha sua finalidade. Enquanto na edificação ao sul ficavam os dormitórios, além da sala onde estava o espírito de Sinestro, ao norte permaneciam os aposentos onde ocorriam experimentos, celas e lugares para rituais. O único modo de sair de lá era através da estrutura com os quartos.
Chegaram a uma sala ao qual estava pronta para algo. Provavelmente um rito. Havia signos por toda parte. Todos simbolizavam forças antigas que só dragões conheciam. Apesar de não conhecer o significado, Halphy sabia serem de origem dracônica. Também era possível enxergar no chão uma espécie de pentáculo. Nele estavam pedaços de alguma coisa que já teria sido um invólucro. Um ovo mais precisamente. Só que eram cascas diferentes das de uma ave ou serpente. Parecia que aqueles pedaços, no entanto, estavam cheio de escamas e não lisos como qualquer outro. Por último, cada fração daqueles resquícios de começo de uma vida estava marcada por uma tinta verde com escritos.
-Et ascendebatur ad solium, et quem superare... Et... Furore procella dissipet funebribus... Gladis et aquilae do in holocaustum, et in funebribus... Chorus draconum. Mas que praga é essa? Kalic me responda.
-Nem eu sei exatamente. Um rito ao qual Sinestro pediu que você passasse. Tive que usar as cascas de um ovo que encontramos.
-De dragão?
-Sim.
Halphy se virou na direção do mago. Estava com uma face surpresa.
-Como obteve a casca de ovo de um dragão? Esse aqui parece ser de um...
-Monte Etna onde estaria aprisionado Tífon[2]. Dever ser mesmo a morada final dele, já que havia na Era Mitológica, um índice de dragões das tempestades. Aquele gênero de cor azulada conhece?
-Kalic, nunca teria encontrado um dragão de perto até encontrar Daehim.
-Imaginei – falou em tom de deboche o mago mascarado.
-O que quer? – perguntou a assassina meio elfa.
-Tire suas vestes e deite-se entre os pedaços do ovo de dragão.
Pensou em fazer uma piada, porém, estava vendo que Benton não estava para brincadeira. Que intento ele teria para isso tudo? Ninguém, além dos dois, estava ali. Poderia ser qualquer coisa.
Tirou as vestes calmamente, quase como um ritual. Um processo lento, deitando no chão, frio. E olhava para tudo com cautela. Algo raro, já que sentia medo que aquilo lhe matasse. Apostou, no entanto, que Kalic necessitava dela viva para Sinestro.
Kalic Benton proferiu palavras. Arcanas. Negras. Demoníacas. De dragões.
Em seguida, cada pedaço daquele ovo de dragão das tempestades se elevou. Com poderosa magia. Força antiga, ritual nunca visto por homens mortais. E ela se lembrou do que leu nos fragmentos.
-Eu subirei no trono. Superarei a fúria dos reis. Destruirei qualquer tormenta de espadas. Os abutres farão um festim – e proferiu com força a última parte daquela oração profana e mística – Com a dança macabra dos dragões!
Nesse instante, as cascas giravam ao redor de Halphy, cada vez mais rápidas. Até parar de modo rústico. Único. Lentamente eles cobriram seu corpo. E a cor azulada sumiu, deixando lugar para uma casca verde. Verde esmeralda.
Dentro do ovo era quente, aquecedor. Como a força de um colo materno. Cheio de vida. Poder acolhedor e gentil. Bondade dentro de uma mãe. Para doar vida. Criar vida. Dom divino quase.
Seu corpo começou a se contorcer cheio de poder agora. Quase se tornasse um vício. Nem parecia que estava dentro de um ovo. Tinha uma impressão de vôo, como se fosse uma ave, um morcego ou até, sim, um dragão. Um magnífico espécime reptiliano alado. Poderoso e cheio de força.
Foi quando olhou ao seu redor, que notou as letras derreterem e tocarem sua pele. Linhas vermelhas naquele espaço fechado, que se tornou o seu mundo, cobriam cada pequeno espaço de seu corpo. Então, houve a transformação.
A magia que percorreu todo o seu ser em forma de letras, agora sumia deixando outra coisa no lugar. Escamas. Duras de tom verde brotavam do que era sua pele. O que lhe deixou apavorada. Nem tanto, comparado com o que viria a seguir.
Ela sentiu os dentes que usou tantas vezes para mastigar, tornaram-se presas. Rompiam no lugar da antiga mandíbula com uma nova fileira, até certo ponto da boca.
Começou a sentir dores terríveis na costa. Isso a fez tossir sangue. Praticamente, entre as costelas, brotavam dois pares de asas da mesma cor. Verde, como uma folha de árvore, verde como certas pedras preciosas. Uma esmeralda.
Surgindo as asas, a casca se partiu. Brown se viu sentada com as mãos entre as pernas, e o rosto acima do joelho. As asas pareciam tremulas, ainda se enchendo com o ar. Como as de um filhote. Respirava com dificuldade, notando ao seu redor certo líquido de aparência gosmenta. O ovo foi se partindo lentamente, como quando um ser nasce. Mas ali renasceria.
Ela levantou daquela posição de modo magnífico. Só suas asas que ainda não a obedeciam totalmente, se mexendo e contorcendo contra a vontade ainda.
Era uma forma entre mulher e dragão. Uma nova Halphy havia surgido.
-Por Jotuheim, o que Sinestro fez para você?
Halphy um pouco de dor na nuca, mas ignorou. Arrumou como pode seu cabelo. Usou as recém adquiridas asas para cobrir suas partes de modo rápido. Finalmente começava a controlar suas asas. Ela nunca notaria um símbolo em sua nuca.
-Se acalme Kalic Benton II. Meu corpo parece tão poderoso. Nem lembro à esquelética Halphy de antes. Tanto física quanto mentalmente. Essa forma parece definitiva. Não me entristeço com isso, entretanto. Pare de olhar assim com espanto. Sinestro só que me vestir adequadamente para nosso novo encontro.

A jovem Brown usou o mesmo tipo de roupa de antes, com toque mais escuros e mais escuros e sinistros. Sem deixar de lado a sensualidade que priorizou antes. Ela realmente queria matar os homens com seus contornos generosos, ou com uma adaga no peito. O que fosse mais útil a ela.
Ela andava com Kalic em direção ao salão principal. Onde estava o espelho contendo o espírito de Sinestro.
-A magia que sente dentro de você deve ser a força bruta do mana dracônico.
-Como assim?
Kalic então começou a explicar:
-Cada cor e tipo de dragão têm sua ligação natural a um elemento. Os de sangue[3] controlam o fogo. Os de esmeralda[4] já possuem controle sobre o som. Os das tempestades[5] manipulam o poder do trovão e do relâmpago. Os das trevas soltam jatos de fogo negro, energia profana e corrosiva. Cada um com seus devidos dons magníficos e respectivos.
-Por que não falou dos dourados[6]?
-Os odeio.
-Imagino que sim – pensou reflexiva a, agora, meio dragão, sobre aquele assunto. Necromante e mortos sem descanso são os alvos da maior fúria dessa espécie. Sabe-se que se um ser desses estiver próximo do seu covil, o caçam com unhas e dentes. No caso, garras e presas.
Finalmente, o tão esperado encontro. Chegaram ao salão.
Havia uma corte praticamente formada ali. De um lado ficariam Lyon Coração Solar, Mallmor, Diogo Fernandez e Kalic Benton II. Já do outro estavam Matadouro, Daehim e um ser que parecia um sacerdote. Todos estavam ajoelhados.
Lyon tinha cabelos castanhos, quase pareciam loiros. Usava uma armadura de cor prateada com símbolos dos nórdicos. Poderoso, parecia carregar uma lança nas costas. Manoplas fortes e cheias de poder arcano. Olhos castanhos, com o aspecto de casca de algumas árvores.
Mallmor portava a mesma armadura de quando ele invadiu a torre de Azerov. O manto que usava por cima dela tinha o símbolo da Rosa dos Ventos. Tanto machado  quando o martelo que portava estavam colocados a sua frente.
            Diogo Fernandez, cavaleiro com roupas extremamente formais. Diferente da enorme couraça com a qual Halphy encontrou em Van Sirian. Cobria o rosto, sem motivo aparente.
Kalic deixou Halphy e ficou junto aos líderes das Alianças. Ajoelhado, assim como todos os outros. Antes, pediu a que a jovem caminhasse em direção ao espelho onde estava aprisionado aquele poderoso espírito.
Agora olhava para o lado contrário, enquanto caminhava.
Matadouro estava ali, cheio de força arcana profana. Sua musculatura denotava o seu poder também. Visto que havia parte do seu corpo com runas arcanas, brilhantes em dourado. Contrastando com sua pele quase azul.
O dragão Daehim assumiu sua forma de elfo negro como no Vale das Esmeraldas. Só possuía manoplas de metal sobre o robe roxo e preto. Seus dentes ainda pareciam uma ponta de montanha altamente escarpada.
Por último, o homem com vestes de sacerdotes. Parte da roupa era vermelha e a outra negra. Na cintura carregava o que era o símbolo de Hades. A cabeça de um bode negro. O maior problema era a sensação de desconforto que a jovem sentia. Algo opressivo, esmagador, sufocante, angustiante e terrivelmente perigoso. Nenhum exemplo seria possível definir a sensação da assassina, sobre aquele homem.
Os olhares se cruzaram como uma presa e caçador
Ela subiu, enfim, as escadas. No fim delas, o espelho onde a alma de Sinestro residia.
-Ah, Halphy Brown! Vejo que voltou a me visitar... Parece que teme a minha presença.
-Sua voz mudou – disse a jovem, ignorando o espírito dracônico.
-Os poderes que irão me ressuscitar, fortalecem-me mais. E consigo controlar certos aspectos do meu ser. Entre eles, minha poderosa voz. E até meu corpo. Vejo que esta muito bem trajada, com a pele de um marduk de espectro esmeralda como eu havia planejado.
-Espere! – disse uma confusa Halphy – Corpo? Quer disser...
-Não minha cara. Ainda não alcancei a plenitude de minhas forças. E obter meu corpo só quando conseguirmos as peças que faltam dos conjuntos do Desalmado e do Cavaleiro de Platina. Trouxe um deles para mim, além da Fim-dos-Dragões, não é?
Ela abaixou a cabeça em afirmativa. Em seguida, um mago surgiu com as peças antes citadas dentro de uma caixa finamente ornamentada e selada magicamente.
Aberta, era possível ver os dois itens: uma máscara com tom de pele humana e um lamina poderosa e antiga com inscrições dracônicas.
Dentro do espelho, o aspecto espiritual se remexia. Cheio de mana, fúria e jubilo.
-Tenho tudo praticamente para vencer! Obter a força para alterar esse mundo podre. Mas antes tenho algo a lhe contar.
Halphy sentou na escada, como uma criança atenta. Ficaria assim, pois escutaria uma história. E não é preciso ser um sábio para descobrir que quando um dragão fala, é bom ouvir.

Um dia, os dragões assim como os deuses, tocaram o chão dessa terra tão sofrida. Sem se preocupar com a caça ou morte, muito menos com o amanhã. Essa era, dourada para eles, foi denominada Mitológica.
Não existe um registro correto desse período, pois foi nela que os homens tiveram que encontrar forças para superar os demônios, mortos famintos, harpias, gigantes, duendes, trolls, serpentes marinhas, krakens, sereias, animais colossais e lendários, gênios e entidades. Nesse período, surgiu o termo herói.
Quando a maior desgraça caiu sobre os dragões, foi que eles notaram que a humanidade representava um perigo iminente. A primeira história de um suposto mortal matando um dragão.
Pouco se sabemos sobre isso. Talvez a história fale de Marduk ou Hércules. Quem sabe não se referisse ao simples humano Siegfried? Ou até um poderoso guerreiro do oriente, onde os dragões eram lordes e deuses? O que realmente importava era que fez com que dragões pela primeira vez temessem as armas dos homens – fossem constituídos de mera carne ou possuidores do sangue de uma divindade.
E essa Era deve seu fim quando uma grande maioria dos dragões deixou Gaya para sempre. Um êxodo dos dragões desse plano.

Quando essa era ainda podia ser chamada de nova, alguns ovos eclodiram, concedendo a vida para seis dragões. Um deles, o mais novo, possuía força e velocidade acima de tudo e todos. Sua mãe o chamou de Brilho de Orvalho, pois quando suas escamas reluziam, lembravam as gotas de águas refletidas nas folhas dessa planta.
Cresceu para ser mais poderoso ainda. Apesar de manter-se nos caminhos da magia bruta que só dragões obtêm, o seu forte era o dom sobre as mentes. Conseguia manipular, dominar e controlar qualquer ser vivo mais fraco que ele. Haviam o denominado Coração Gélido, pois seus poderes superavam o brilho de suas escamas. Agora usava outras criaturas como suas marionetes.
Porém, ele mesmo havia encontrado um nome mais forte. Um título de nobreza como costumava chamar. Algo para trazer respeito aos corações dos aliados e temor aos inimigos. Nem Coração Gélido, nem Brilho de Orvalho. Sinestro, o Manipulador, de asas brilhantes como esmeraldas, mas com o coração frio como o mais puro aço moldado.

Essa parte da história se refere ao período em que Sinestro deveria possui não mais que dois séculos de vida. Quando isso ocorreu, não podemos precisar. Visto que éons podem ser calculados com a velocidade em que uma estrela se movimenta ou em que uma vida se esvai. Nunca podemos ter plena certeza sobre isso.
Era uma tarde de verão – ele se lembrava perfeitamente disso – quando viu algo que não era comum: existem histórias, que relatam sobre a força da Morte. Visto que um grande desastre ocorre, ou uma criatura de grande importância definha, as lendas relatam que nenhum ceifador surgirá. O próprio aspecto virá. E era isso que o Manipulador enxergava.
Ele estava vendo Morte. A Dama Pálida. E ele se apaixonou perdidamente naquele instante.

Existem certas coisas que nunca, realmente, existiram. Impossível, incrível, invencível, invulnerável ou imbatível. Essas palavras nada mais são do que isso, palavras. Nem mais, nem menos. Pois no mundo, criamos essas palavras para nos referir ao que não é possível, ao que não acreditamos algo que não podemos vencer, quando sentimos que não podemos ser feridos ou detidos. Nunca existirá um ser assim, contudo. Pois essas palavras foram criadas pelos próprios homens com a finalidade de limitá-los. Porém, elementos, força e vontade são aspectos do mundo que realmente existem. Entre eles a morte. E a Morte é poderosa.
Um grande poder, que era algo que o dragão respeitava. Dizem que os aspectos sim são eternos. Dragões e deuses até podem morrer, mas enquanto os humanos se fixarem em aspectos de sua vida, estes seres perpétuos nunca acabarão. Assim era com a Dama Pálida.
Confundiu admiração com amor e cortejou Morte. Visto de quem se tratava, ela não alterou. Ignorou o dragão.
Isso fez dele um enlouquecido, como todo o homem obcecado. Pois lembrava mais um mortal naquele tempo. Uma pessoa cheia de medo de não alcançar sua musa inspiradora, a dama que faziam o seu coração gélido aquecer.
Um plano estava para surgir. Foi quando Hades encontrou com Sinestro.
Este lhe propôs em segredo que obtivesse a Lanterna dos Condenados como um modo de subornar sua amada. De qualquer forma, obteve sucesso em capturar o item, mas fatores acima de seu controle com que ficasse, literalmente, preso em Gaya[7].
Quando o famoso êxodo ocorreu, Sinestro não pode partir desse mundo. Na verdade, ele não sabia que seu curso de história o faria perder muito mais que companhia de seus irmãos dracônicos.
Voltou sua mente em como obter, uma vez, o afeto de sua amada. Mesmo com a posse da Lanterna dos Éons, como muitos sábios a chamavam, era impossível controle pleno sobre tal artefato. Elaborou mais uma vez seu plano profano e sem saber o mundo iria correr mais uma vez perigo.
Inicialmente usou Ilianiel – nome que mais tarde seria trocado por Iliana Brown – para um ritual frustrado por dois dos mais fortes heróis de Gaya. Seus intentos nunca concretizados o fizeram desgostoso de tudo e todos. Adormeceu[8] e só despertou quando fossem passados milênios. O destino, este eterno brincalhão, fez seu truque mais conhecido: mexeu com várias vidas.
Em certo período, com a influência do dragão e sua magia bruta, homens lagartos se sentiram atraídos para a área onde a fera repousava. Já grupos de humanos chegavam à região por conta das esmeraldas que Sinestro produzia, mesmo estando completamente desacordado.
Poucos sabem, mas a permanência de um dragão pode alterar a estrutura de certas regiões. Até mesmo criando jazidas em alguns lugares de certos minérios e pedras preciosas.
Nessa época, apareceu Galran Coração Prateado. Ele entrou no covil do temível ser sozinho e enfrentou um poderoso dragão... Ou o que ele acreditava ser um. Na verdade, se tratava de Kiloch, um ser da raça de lagartos que unificou os que viviam a paz para o Vale das Esmeraldas.
Com todos os ruídos provocados pelos humanos, Sinestro despertou. Mais uma vez Galran foi contra a nova ameaça com o machado forjado usando sangue de seu antigo oponente. O resultado não foi o mesmo. A única marca do Coração Prateado que foi deixada foi seu filho, Galtran.
O jovem de cabelos vermelhos jurou vingança contra o dragão. Com o auxilio de seus irmãos de armas, virou mestre no combate com dois machados. Ao completar a idade adulta levou seus aliados dos Imortais Esquecidos até o covil da fera. Com o auxilio dos aliados, não o derrotou, mas a fez sair de seu covil. O que não impediu que o monstro fosse pelo menos duas vezes ferido.[9]
Desperto completamente, o dragão se fixou em seus desafetos: Hades, o arcano que invadiu o Além com ele, o Cavaleiro de Platina e o Desalmado. Fobos nunca lhe fez nenhum mal, na verdade o considerava mais que fora traído. Iliana não era mais que uma pedra, que talvez lidasse mais a frente. E os Imortais, na época em que acordou nada mais eram do que formigas.
Então quis obter o poder máximo que os mortais alcançaram, mas que os dragões rejeitaram. Era um modo de se tornar um morto sem descanso.

O destino pode ser extremamente cruel e caprichoso. Prova disso esta em como Sinestro obteve o poder que desejava. Encontrou em suas buscas um homem, um cavaleiro que desonrou a ordem que servia. Seu nome era Kalic Benton, o primeiro.
Ele havia usurpado dois itens de grande importância da Ordem da Orquidea Negra. Eram um grimório com a capa moldada a ouro – assim como suas páginas – e uma espada com poderes arcanos próprios provenientes de outro plano, ao que tudo indicava. Chamavam-se, respectivamente, Tomo dos Lordes Segredos e a Lâmina das Tormentas.
O Lorde Sombrio, como Kalic benton I era conhecido, recebeu uma proposta indecoros. Sinestro receberia o Tomo e em troca entregaria uma profecia antiga a qual poderia controlar o destino do mundo, ao que tudo indicava. Sua resposta foi afirmativa.
Não foi difícil para o dragão obter a tal profecia.
Com o grimório, Sinestro concretizou o ritual ao qual se tornava um morto sem descanso. E assim, seu alvo se tornou Hades. O único que sabia como lidar.

Durantes os conflitos em que o Portal Infernal foi liberado, os planos do dragão esmeralda se concretizariam. Pretendia enfrentar o deus ctoniano com a energia absorvida do plano demoníaco. Porém foi interrompido. Primeiramente pelos Imortais Esquecidos, que acreditaram o ter derrotado. Em seguida, qual não foi sua grata surpresa quando encaro os homens que junto a Iliana o fizeram adormecer. Esse combate culminou com a perda de seu corpo[10].
E o resto é só parte do que as lendas contam.

Halphy ouvia a todos os detalhes com cuidado e precaução. Sabia que naquelas palavras existia verdade, porém, nem toda ela.
Levantou-se e perguntou qual o motivo que guiava o dragão agora. Ela queria saber exatamente os intentos daquele ser extraordinário.
-O Pacto de Guerra irá obter força para trazer paz de uma vez por todas no plano caótico de Gaya. Onde os deuses falharam, nós triunfaremos. Pois fiquei farto de que minhas forças foram suprimidas pelas entidades chamadas bondosa. Vamos alterar esse plano, com toda a nossa força. Usando as três Alianças como nossas armas e prova de vitória.
-Então – disse a assassina ajeitando os cabelos – sua paz será a força. É isso?
-Sim. O Pacto de Guerra conquistará isso!
Todos ali, com exceção de Halphy e Kalic se levantaram e gritaram, de forma poderosa. Como os bárbaros dos povos antigos, urravam feitos os animais poderosos que as canções ancestrais de Atlântida ou Mu falavam.
De qualquer modo, o grupo dos membros daquela profana união iriam se apresentar formalmente. Todos indo a frente.
Mallmor colocou seu manto de lado e usava o martelo como apoio. Abaixou a cabeça e proferiu:
-Mestre da Aliança dos Mestres do Martelo, Mallmor. A seu dispor.
Assim que terminou, o antigo lorde anão saiu da frente do espelho com humildade. Parecia cansado, notou Brown. Deveria ter estado em combate recentemente.
Em seguida, com o elmo abaixo do braço, Lyon Coração Solar se ajoelhou. Com a cabeça abaixada o cavaleiro disse rapidamente:
-Mestre da Aliança dos Mortos Despertos. Minha lâmina esta a sua disposição.
Ao falar isso, piscou para a jovem. Ele era um verdadeiro galanteador. Porém, a jovem com pele de dragão sabia lidar com isso. Bem por sinal.
Após o flerte, foi vez de um homem que não fez nenhuma referência física. Debaixo do capacete proferiu secamente:
-Mestre da Aliança dos Imortais, Diogo Fernandez.
Ao falar isso, sacou a espada, colocando-a na frente do seu corpo. Como um enorme obelisco.
Alguns acharam até que fosse um ataque do cavaleiro.
Sinestro, dentro do espelho, gargalhava por dentro do vidro. Como os homens são fracos pensou o espírito.
Era só seu sinal de respeito
-Além destes, que são meus homens de confiança, temos as tropas especiais – disse o dragão, depois de deter seu riso histérico – Matadouro, ogro mago, rei de sangue dos ogros. Daehim, patriarca dos marduks e qualquer ser com sangue dracônico. E Zacharias, o sacerdote, mestre dos ritualistas. Seus conselhos nas sombras nos forneceram o poder necessário até agora para nossa luta.
Finalmente, soube quem era o estranho careca. Talvez a outra maior presença dentro daquele recinto era do seu ancestral, Sinestro. O que dizia que ele deveria ser no mínimo mais perigoso que um dragão.
Dentes que pareciam serrados como os de um predador. Olhos de águia ou de uma assombração. Não sabiam ao certo. Fazia um silêncio mórbido, como de um demônio que visa uma alma pura e limpa, cheia de esperança antiga.
-Onde estão os membros daquela tal guilda?
O espírito não compreendeu inicialmente, quando se conscientizou do que era tratado.
-O Bando do Tigre Demoníaco? Em missão a caça de um artefato. Deixe de se fixar nisso. Agora é o momento de Sinestro mais uma vez, obter um corpo.
Com isso dito, magos trouxeram lentamente um sarcófago que Halphy conhecia. Há seis meses ela se lembra ter visto os símbolos em uma tumba antiga na já esquecida vila de Starten. Então no fim, aquele corpo nunca foi o verdadeiro. Sinestro estava poderoso naquele momento. O que foi depositado ali nunca foi seu invólucro original. Então o que seria? O pensamento foi interrompido. A tampa do tumulo foi partida ao meio.

Mais uma vez, um arrepio subiu na espinha de Halphy. E não só ela teve essa sensação. Era visível que aqueles sem o toque da Canção dos Condenados sentiam isso, com exceção de Matadouro. Algo súbito e sinistro.
Uma parte da tampa esmagou um dos magos que a carregava. Fazendo imediatamente o sarcófago cair, sendo que os outros arcanos se sentiram acuados.
Era outro medo, era outro perigo. Não foi como quando encarou Zacharias. A sensação não era a mesma. Quase como quando se sabe que em determinado quarto existe uma cobra. Com o sacerdote não se saberia coisa alguma. De um modo ou outro, o animal não deixa de trazer perigo.
Finalmente, o conteúdo daquele caixão de pedra era visível: um corpo quase petrificado, com características de homem e dragão. Cheio de força e poder, os olhos daquele ser pareciam transbordar necroplasma. Ali, a Canção dos Condenados falava por ele.
Sombras saiam de todas as partes daquela criatura. Como a força de um demônio que acabará de fugir do Inferno. O que não estava longe da verdade.
Levantou-se vagarosamente como uma lua cheia sangrenta flutuando sobre um massacre.
Com um estrondo, levantou-se. Havia fúria em seu olhar reptiliano, cheio de força e poder. Com a mesma velocidade que se levantou, pulou na direção do espelho. Halphy iria impedir aquele monstro, quando ouviu de seu novo mestre:
-Não o detenha! Preciso disso!
Foi quando o ser – parte homem, parte réptil e parte morta – atravessou o espelho com seu punho esquerdo. Fez estilhaçar aquele objeto o fragmentando em pequenas estrelas negras se desprendendo de um céu noturno. Todos pensavam que algo horrível ocorreu. Só não era o que imaginavam.
O ser ria. Finalmente, falava algo em vez de grunhir. Ria freneticamente. De maneira tão sinistra quanto... Sinestro.
-Limpem essa bagunça no meu salão.
Todos ao redor estavam estarrecidos. Seria aquela a nova forma do dragão de esmeralda? Uma nova casca do ser que guiava o Pacto de Guerra? Virou-se calmamente para Halhy e disse:
-Aqui estou jovem Brown.
Eis que faíscas circularam aquele corpo. Concentraram-se na ponta de seu dedo indicador e este apontou de forma simples para o teto. Feito isso o raio disparou até aquela estrutura ruir, abrindo um imenso buraco. Surgiu – e sua fonte era o próprio Sinestro – um pilar forte e tão poderoso que atravessava o céu nublado. O preenchendo não só com aquela faixa de energia, mas com relâmpago e trovões.
Halphy sentia o poder proveniente do ser. Sentia medo, mas também excitação. Aquele turbilhão de sentimentos profanos só demonstrava que ela acertou ao se unir ao Pacto de Guerra. As únicas pessoas que sorriram com aquele baile profano de poder era ela e Zacharias.



[1] Os trechos a seguir, falando sobre Halphy, se alinham com os citados no Capítulo Um: Depois da escuridão do Livro V: Eu desejo um anjo.
[2] Monstro criado por Gaia que teria braços poderosos, cem cabeças de serpente e olhos que expeliam fogo. De cada uma das cabeças saiam sons terríveis. A titã teria sido auxiliada por Tártaro, outro deus da primeira geração.
[3] Dragões com escamas vermelhas
[4] Dragões com escamas verdes
[5] Dragões com escamas azuis
[6] Dragões com escamas douradas
[7] Livro V: Eu desejo um anjo – Capítulo II: Para o outro lado das paredes da Morte.
[8] Livro V: Eu desejo um anjo – Capítulo I: Depois da escuridão.
[9] Fato citado rapidamente no Livro IV: Mestre das Marionetes – Capítulo I: Coração sangrando.
[10] Livro I: Através das colinas e muito mais além – Livro: VII: Escuridão do desconhecido.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Fragmentos de Contos - O Homem Santo


Ele estava cansado carregando uma espada. Corria com toda a força de suas pequenas pernas. Um anão nunca foi treinado para correr. A forja, combate, defesa, alvenaria, ourivesaria, e tantas outras habilidades são dos pequenos elementais de terra. Os passos dele, no entanto não foram feitos para uma carreira como aquela. Aquela neve caia mais forte por todo o lugar. As árvores não concediam nenhuma cobertura – nem para um eventual combate, nem para se refugiar. A noite caia com seu manto sombrio igual a uma mortalha, de forma bem conveniente.
            Para os padrões de sua raça era um jovem. Só tinha noventa anos e sua barba mal alcançava sua cintura. Ainda tinha a juventude nos olhos. Diferente dos que conheceu, há muito tempo nas terras daqueles chamados Lordes Anões da Rosa dos Ventos. Cheios de problemas entre si, em como seus itens e riqueza tinham que ser maiores do que seus irmãos.  E o que interessava tudo aquilo, naquele momento? Primeiro tinha que lembrar que se tratava de um bando de pederastas, já que preferiram o calor do ouro ao das batalhas. Além disso, estava em uma situação perigosa.
            Enquanto descia a colina nevada era possível notar aquela massa branca dificultando cada passo seu. A respiração, mesmo a de um ser como ele, parecia falhar. Isso sem contar os cortes e golpes em seu corpo. Mesmo usando as diversas camadas de couro e peles de animais diversos. E atrapalha mais ainda, seu movimento. Pior seria sem elas. Tentava se esconder para não sofrer um novo ataque. Estava cheio de dor por adagas de goblins.
            Os pequenos duendes verdes usavam, naquela região, facas com pedra criada na própria Jotunheim. Com o mal da traição existente nos corações de gigantes do gelo. Aqueles mais agourentos muitas vezes, falam que na verdade, aqueles itens eram presentes de Loki as criaturas das trevas.  Chamam-nas de facas frigidas.
            Perseguidores menores, porém mortais quando queriam. Fediam como carne podre de um rato gordo. E eram mais feio que estes animais. Olhos grandes cheios de malícia e um sorriso amarelo pelo podre de carne em seus dentes. Quase sempre de animais pequenos ou resto de homens. Sim, pois a carne dos humanos era uma iguaria rara. Ainda assim, muito apreciada por aqueles pequeninos monstros. Sua armadura era uma mistura de pequenos pedaços de cotas de malha com um arremedo de escudos pequenos. Lembravam mais tartarugas de pé, por conta da pele verde e verruguenta.
            Ainda assim, os quatro pequenos seres, eram só batedores. A verdadeira ameaça era um morto faminto.
            Estes seres que surgiam do mal, muitas vezes conseguiam vida própria. Uma lenda diz se tratar de almas, que voltam aos seus corpos devido a assuntos não resolvidos em vida. Esse mito não esta errado, só não eram toda a verdade. Alguns magos, conhecidos por necromantes – que brincam com a força da vida para impedir a morte – muitas vezes, criam servos de esqueletos e corpos pútridos de mortos. Animais ou humanóides, para seus intentos tanto fazia. E esses arcanos profanadores de túmulos, também queriam impedir que seus corpos alcançassem a vida. Para isso, obtinham meios de prolongar sua existência. Para isso, se tornavam seres com uma vida atormentada. Que devoravam sangue, carne e qualquer fluido existente em um ser que esteja vivo. Chamados também de mortos sem descanso, o canibalismo era algo comum. Se é que eles poderiam ser colocados no mesmo patamar de qualquer raça.
            O jovem Deenar carregava a última lâmina que sobrou do comboio em que participava. Como um símbolo sagrado. Aquele maldito ser apodrecido era um perigoso mago. Destruiu cada item de metal que servia como uma arma. Seu pai havia lhe concedido uma lâmina mágica, o que explicava só aquele pequeno artefato continuar inteiro. Em seguida, os goblins fizeram seu ataque terrível e cheio de maldade. Muitos pensam que anões, mesmo sem armas, deveriam lidar bem com esses seres. Só que os duendes cruéis estavam armados com facas frigidas e estavam acostumados com o frio do norte.
            Quando ainda vivia no reino que os mortais mais tarde chamariam como Inglaterra, o jovem anão nunca esteve tanto tempo em um lugar tão frio. Já passou por problemas assim, mas não em tal temperatura. Chegaram naquele lugar no pior inverno de todos os tempos. Maldito tenha sido o momento, em que Mallmor matou lorde Daigon, mestre do Noroeste. Temendo que uma guerra surgisse, Drinar, pai de Deenar, juntou alguns homens consigo para longe do território antigo de seu povo. Ele temia que algo nas sombras conspirasse contra todas as raças sobre a face da terra. Pena que nunca mais poderia confirmar seu temor. Já que um dos pequeninos monstros cortou seu pescoço.
            Aquela imagem lhe voltava a sua mente, como um duro e cruel chicote farpado. Nada pode fazer se não correr. Um ato de covardia em sua raça, porém, a arma precisava ficar longe do inimigo. Pouco antes do massacre de seus irmãos de combate e seu pai, aquele líder cruel e sem alma exigia uma lâmina. Deveria ser o item que agora carregava. Por isso seu pai deixou aquela arma com ele. Ela o protegeu. Maldita tenha sido essa decisão, bendito seja o coração dos progenitores benevolentes.
            Deenar estava em uma das pedras da colina. Sem querer encontrou um buraco abaixo dele. Talvez fosse a antiga toca de um animal. Agora, era o lugar onde poderia sobreviver. Fugir. O corpo dolorido. Não revidar. Era algo incomum na sua raça. E isso deixava sua honra manchada. Deve até de colocar a mão em sua boca para impedir que o ar frio saísse de sua boca, podendo denunciar sua localização atual.
            Pensamentos confusos, cheios de raiva e humilhação. Foram cortados por passos e sons dos seus perseguidores.
            -O pequeno deve ter descido por aqui – foi o que ouviu da voz que parecia ser de um dos goblins. Parecia pequena e esganiçada. Com certeza não estava muito longe. Sabia que era um deles, pois seu som de cansado lembrava as risadas medonhas no combate anterior.
            -Será que já chegou ao pé desse morro? – outra criatura falou. Era possível escutar seus passos na pedra. Com certeza estava acima da pedra.
            -O mestre não vai gostar se ele conseguir fugir com a espada – já era a terceira voz que escutava. Mais fraca entre todas.
            -Vamos descer desse lugar – dizia o primeiro – Precisamos daquilo para a Senhora do Frio Eterno.
            Que título era aquele pensou Deenar. Nunca ouviu que, naquele lugar, que já foi berço de grandes guerreiros vikings existisse tal ser. Nem lendas, nem acontecimentos estranhos. Será que o pai havia trocado os supostos problemas nas terras de seu povo por um demônio pior ainda? Antes de tudo, teria que sobreviver aquela perseguição.
            -Devemos então descer – disse umas das vozes que escutou. Considerava ser do segundo goblin. Menos mal, visto que era ele quem estava acima da pedra.
            Após isso, só ouviu o debandar daquelas asquerosas formas de vida, para baixo daquele lugar. Na direção do pé daquele pequeno morro. Eles pareciam algum tipo de animal atrás de carniça. Só que mesmo isso estando somente em pensamento, o anão corrigiu completamente. Nem uma fera, seria tão sádica quanto aqueles seres.
            Cada vez estavam mais distantes aqueles barulhos dos diminutos. Guinchos e chios terríveis, cheios de frenesi e malícia. Deveriam ter se deliciado ao fazer a todos os membros, da comitiva de anões, morrer com suas armas. Acrobatas malditos, carniceiros piores ainda. Ainda dentro da caverna improvisada, se lembra quando um deles pulou em um salto nas costas do pobre Narnor. Parecia que um sapo grudou em suas costas, e sacou uma adaga. E com ela perfurou sua garganta. Várias vezes.
            Enfim, o som daqueles repugnantes monstros cessou. Ao conseguir notar isso Deenar, encostou de forma mais calma na parede da toca. Viu que era até reconfortante o lugar, se não fosse tão apertado. Mesmo aos padrões de um anão. Respirou com alívio, finalmente.
            Seu maior erro naquele momento.
            Sem nenhum aviso uma cabeça surge na abertura do buraco. Era um dos goblins de ponta cabeça naquele lugar. Era claro que Deenar se esqueceu que havia quatro deles. E pior, era o melhor rastreador com certeza. Já que conseguiu ouvir até o barulho do anão debaixo daquela pedra.
            -Escorpião! Escamoso! Gélido! Voltem aqui! – disse aquele ser. Em seguida, com seus braços longos ele o puxou para fora. Estava com dificuldades, até alguns pares de braços lhe auxiliarem. Não poderia arriscar usar aquela arma, pois se caísse nas mãos deles... Algum de ruim poderia acontecer.
            Depois de uma grande dificuldade os goblins finalmente o fizeram sair. Com isso, sem querer, o rolaram abaixo daquele morro. Era horrível. Quando a neve não cobria seus olhos, Deenar tinha que ver cada uma daquelas figuras purulentas lhe perseguindo. Parecendo cães do inferno que os seres humanos sempre mencionavam. Em um dos giros que sofreu, notou uma pedra. Agarrou-se a ela como sua única salvação.
            Ergueu seu corpo já ferido e coberto por neve pesada. Estava tonto. Um dos seus algozes pulou em sua direção. Só estendeu seu braço, o enrijeceu e bateu bem na garganta da criatura. Isso fez ele se afogar com sua própria saliva e cair. Ainda assim, não o matou. Pena, pensou o anão acuado. Os outros três já o cercavam.
            Notou que quase nada os diferenciava. Com exceção de seus olhos. Aquele que havia feito cair, tinha olhos de cor cinza. E acreditava se tratar do mesmo que o tirou do refúgio improvisado. Bem feito então. Havia ainda os outros. Cada um com tons nos olhos, completamente diferentes uns dos outros. Os outros tinham amarelo, verde e azul em sua área de visão. Não que o guerreiro ligasse para isso. Eram assassinos. Atrás do item que seu pai lhe confiou.
            -Não vão obter o que querem! Sumam criaturas das trevas!
            -Por qual motivo não usa a espada anão? – disse o de olhos amarelados.
            O guerreiro notou aquele intento sinistro do duende. Viu um dos homens que servia ao seu pai sendo pego nesse truque. Assim como Deenar, Gainar usava uma espada mágica. Ao qual não foi afetada pela magia sombria do mestre daquelas criaturas. Contudo, aqueles pequenos eram habilidosos no desarme em combate. Tática suja, mas que funcionava bem em qualquer campo de batalha.
            -Não irá me ludibriar pequeno monstro! A lâmina confiada por meu pai não será tomada por você ou seu mentor!
            -Você quem sabe – falou isso o mesmo goblin saltando com uma adaga. Parecia uma aranha quando o fez.
            Dessa vez, o pequeno elemental de terra se agachou e notou em que direção estava vindo o oponente. Quando viu corretamente, como se o tempo desacelerasse, levantou seu punho cerrado exatamente contra o queixo de seu inimigo. Um golpe preciso, que fez os dentes podres voarem como aves ao por do sol.
            O problema é que esse incauto adversário tinha parceiros. Dois se prenderam aos braços de Deenar, enquanto o outro prendeu suas pernas ao redor do pescoço. Ao fazer isso, golpes seguidos do punho do goblin fizeram o anão cair para trás. Dessa vez sem rolar, já que os covardes seguravam seu corpo. Estava preso.
            -Bem, agora que tivemos sua atenção. Nosso mestre vai querer falar com você – disse aquele que pulou em seu pescoço. Era o com olhos azuis.
            -Me deixa cortar ele Gélido! – exigiu o de olhos amarelos.
            -Calma Escorpião! Vamos brincar. Sei que os anões sentem grande orgulho por suas barbas. Que tal arrancar um naco por vez desses pêlos sujos... – quem falou isso era aquele de olho cinza.
            -Isso mesmo Fumaça Fétida! – disse o com olhos verdes e que erguia sua arma. Como uma sentença.
            -Desgraçados! Eu irei... – repreendia Deenar, antes de ser interrompido por uma voz sombria.
            -Silêncio, ser ignorante! E vocês meus lacaios... Levantem-no e me tragam sua lâmina. Preciso averiguar isso...
            Ao erguerem ele, o fizeram com malícia. Colocaram suas unhas nas feridas do ombro esquerdo e do pulso direito. Isso fez ajoelhar pelos golpes sofridos no corpo. Um grito de dor surgiu, mas foi logo abafado por um golpe poderoso do tal Gélido. O mesmo, em seguida, sacou sua lâmina na bochecha do torturado.
            -Grita de novo e lhe arranco a carne e os olhos... Porco anão! – em seguida cuspiu no rosto de Deenar.
            -Boa Gélido! – disse rindo o com olhos dourados.
            -Escorpião – disse aquela voz na direção daquele goblin sorridente – Pare de graça e me traga logo a espada nas costas desse anão podre.
            Finalmente, mais uma vez, Deenar vislumbrou a face da criatura que controlava aquele bando. O mesmo que comandou aquele massacre momentos atrás. Suas vestimentas lembravam uma cota de malha completamente destruída. Pouco lembrava uma defesa. Agora o corpo era um detalhe a parte. Esta criatura trazia a sua memória vagamente a imagem de um cadáver humanóide. Seus olhos cruéis e famintos ardiam com o fogo das trevas. A carne ressecada e esticada, até grande parte dos ossos cobria seu corpo. Andava com certa dificuldade, devido a forma defeituosa de suas pernas. Por último, a boca lembrava qualquer coisa, menos um humano. Já que sua fileira de dentes, nem coberta por lábios era. Uma abominação.
            O goblin, chamado Escorpião, foi até as costas do guerreiro e dele tirou um embrulho. Com certeza era o item desejado. Em seguida, caminhou até o morto sem descanso, entregando a lâmina de forma servil.
            Ao desembrulhar aquele item, a criatura sorriu com sua bocarra maligna. Lembrava um pesadelo com forma maligna. Ainda mais com aquela felicidade macabra.
            -Minha caçada obteve sucesso. A mestra irá ficar feliz. Finalmente obteve a Espada do Amanhecer. Ao que parece veio de outras terras. Aquela que foi forjada pelo anão Martelo de Rocha Rúnir. Dada de presente para o herói Knot. Os boatos falam de uma força dentro desse metal, que pode eliminar qualquer ser que fez um pacto das trevas – e ao terminar te falar aquilo sorriu na direção de sua, até então, caça guerreira – Obrigado anão. Minha mestra não irá temer mais ninguém. Terá uma morte rápida... Mas a vocês, meus pequenos lacaios eu lhes concedo a chance de dividir sua carne. Divirtam-se.
            O medo surgiu no coração de Deenar. Ainda que isso lhe viesse ao coração como uma adaga gélida, não se deixou abater:
            -Eu juro pelo nome de meu pai, Drinar, que ainda essa noite sua existência será apagada da face desse mundo!
            -Drinar deveria ter lhe falado que nunca deveria fazer juras, que não pode cumprir – disse Fumaça Fétida.
            Enquanto seu mestre subia a encosta do morro, um dos goblins notou uma figura sombria surgindo. Um homem que carregava uma variedade de peles pesadas, tanto de lobos, quanto de ursos. Evidente esse fato pelos olhos, dentes e orelhas das feras o recobrindo. Seus movimentos eram tortos e sem coordenação. Todos ali imaginavam que estavam vendo um bêbado a sua frente. Porém, sues olhos, mesmo entorpecidos diziam muito mais. E os cabelos e barba negros se confundiam com a noite sem estrelas atrás dele. Estendeu sua mão coberta por uma luva negra, com certa delicadeza. Em seguida proferiu enquanto fechava os olhos:
            -Por Kanglor, senhor da ira, que meus inimigos sejam revelados com meu olhar. Que eu enxergue a semente do mal em seus corações.
            Logo em seguida, o homem parou por alguns momentos. Os goblins até pensaram em atacar, mas foram repreendidos por seu mestre.
            O homem levantou seu olho na direção de todos.
            -Deixem o anão ir. É só isso que digo – suas palavras lembravam as de um rei exigindo algo. Como se tivesse um grande direito sobre tudo aquilo ao seu redor. Nenhum deles entendia como um mero humano com aspecto debilitado pela bebida tinha aquela aura de poder? Os esmagava sem sequer mexer qualquer parte do corpo que não fosse sua boca. Pior que um monstro, alguns ali pensavam.
            Arrogante, Fumaça Fétida grita:
            -E se recusarmos? Quer que o soltemos e nos poupará? – disse em um tom quase de zombaria. Mesmo que o medo lhe falasse mais alto na alma.
            O homem mexeu sem pressa em seus cabelos. Encarou com fúria aquele que soltou as palavras tolas.
            -O anão não cometeu nenhum pecado. Por isso estou aqui. Mas vocês... Fedem ao mal. Nunca os pouparia. Só quis deixar que tivessem feito algo de bom nessa vida. Porém...
            Nesse mesmo instante ele saltou. A distância entre ele e os goblins era imensa. Ainda assim, seu salto foi preciso. Como um relâmpago. Ignorou a abominação que os liderava e ficou de frente ao anão. Nem sequer fantasmas seriam tão aterrorizadores, quanto essa aparição repentina.
            Após seu surgimento, o estranho com cabelos negros, pegou na cabeça do goblin que segurava o braço esquerdo de Deenar. Em seguida, com toda a força de seus punhos enfiou o crânio de sua vítima na neve. De maneira tão bruta que chegou a terra. E de modo mais violento fez isso várias vezes seguidas. Ao ponto que só se ouviu barulhos de dor e agonia muito rápidos. Além de ser possível notar um esguicho de sangue caindo na face do humano. Cena tão aterradora que fez os outros duendes tremerem de medo.
            -Escamoso! – gritou aquele que chamavam Fumaça Fétida.
            Todos os outros três colocaram suas armas a mão. O pavor surgiu em seus corações. Enquanto em Deenar, uma chama de esperança se acendeu. Mesmo com um salvador tão brutal, sua alma sentia alívio de encontrar aquele homem. E o morto sem descanso ficou paralisado. Se um ser como esse tivesse sentimentos, muitos poderiam falar que era medo. Puro e simples.
            -Atacar! – disse Escorpião entrando em investida contra seu novo inimigo.
            Cada um dos três atacou ao mesmo tempo seu alvo grande. Ainda assim, conseguiu lidar com cada um em poucos instantes.
            Pegou um deles no ar, puxando próximo de si. Foi golpeado no peito. Era possível ouvir os estalos dos ossos partidos e até as costas do diminuto ser envergando. Ainda assim ele distribuiu mais cinco murros na criatura pequena. Os olhos saltaram de suas órbitas. Jogou aquele corpo para longe.
            Duas lâminas se aproximaram dele. Foi quando eles atacaram o oponente, que notaram a habilidade seu inimigo na defesa. Pois em um giro rápido do corpo o estranho girou sua perna fazendo aquele golpe ser ineficaz. A outra tentativa também falhou, mas por pouco não atingia com eficácia. Iria pegar a perna esquerda. O goblin ao fazer isso, nota algo que existe abaixo daquelas peles todas. Uma armadura completa.
            Como um homem conseguiria se movimentar tão bem usando todo aquele peso? Não poderia ser comum. Qualquer se sentiria esmagado por tudo aquilo.
            Esse simples pensamento fez com que perdesse o foco da batalha. Isso foi suficiente para ser atingido. Dessa vez não foi um golpe físico. Era algo mais arcano. Uma magia.
            Sem nem pronunciar uma frase completa, da palma daquela mão esquerda brotou a rajada poderosa de energia. Queimando a pele completamente de aquele ser pequenino. E enfim, caiu de barriga para cima. Estático, sem movimento algum.
            -Não servem nem para alimentar os porcos... Cheiro podre. Esse deve ser o que ouvi chamarem de Fumaça Fétida. E você... – falou aquele homem apontando para o goblin remanescente – Fuja agora. Faça logo enquanto me sinto benevolente.
            A baixa criatura titubeou um pouco. Ainda assim, ficou de costas e correu como nunca fez antes. Ao que parecia pelo menos. Era como se tivesse visto um demônio. Porém, era bem pior que isso. Foi o que Deenar notou.
            Aquele anão, mesmo com dificuldade, apoiou-se em seu joelho. Com certa dificuldade. Olhou para o semblante daquele que foi seu herói.
            Era finalmente a vez de aquela abominação atacar, porém, ele tinha que eliminar o goblin fugitivo antes. Em um gesto rápido com a sua mão uma lança negra surgiu nela, e a fez ser lançada na direção do desafeto. Atravessou o pescoço de forma mortal. Não havia mais nenhum daqueles humanóides pequeninos vivos naquele morro. Só Deenar, o estranho e o morto sem descanso.
            -Matou seu próprio aliado? – gritou inconformado o anão.
            -Calado ser inferior! Isso é entre os seres de grande poder – exigiu o morto vivo, em seguida se virando ao humano misterioso – E você... Por acaso acredito se tratar do tal Homem Santo mencionado por tantas criaturas nos últimos tempos nessas terras. Sim. Talvez seja aquele que veio pouco depois do ano mil até aqui. Protege os humanos e aqueles em dificuldades. Posso lhe ser bom. Tome... Esta arma! Minha mestra a quer para se proteger de criaturas perigosas. Como o tal Deus Cristo do qual, tanto ouvimos falar. Ouvi que recitou uma oração ao deus atlante da fúria. Kanglor, não é? Que tal eu lhe entregar isso como sinal de boa fé entre nossas crenças?
            Ao falar isso, jogou aquela lâmina que Deenar guardava antes no chão, próximo do rapaz. Ele a ignorou completamente.
            -Não sei quem é pior: os goblins, por atacarem como um bando abutres carniceiros, ou você, por ser tão covarde para nem sequer valorizar aqueles que antes o serviam.
            Nesse instante, a abominação riu mais uma vez. Não havia palavras na mente do anão Deenar, para definir a visão de aquele ser sorrindo tão insanamente. Mesmo sabendo que talvez fosse destruído, gargalhava de forma demoníaca.
            -Só por ser um arcano também, acha que eu irei lhe poupar? Uma criatura como eu possui habilidades brutas similares a magia. Forças antigas, como essa!
            Após dizer isso, aquela criatura maligna abriu a bocarra. Dela sons terríveis brotavam. Aqueles que escutassem sentiriam a idéia de blasfêmias. Nem demônios suportariam tais profanações em forma de palavras. Os deuses nunca ensinariam tais coisas aos mortais, se não quisessem que o mal se propagasse. Estava cheia de malícia e crueldade em cada silaba.
            Depois dessa dança sinistra com sua fala, o ser maligno se regozijou de seus poderes. Já o humano se mantinha estático. Talvez, morto. Deenar não foi afetado, pois desde o começo não era alvo daquele diabólico poder.
            -Que tal mortal? Se sente bem? Acredito que não! Visto que tanto quis se sentir superior, mas seu corpo não suportou...
            -Agora já sei.
            Deenar e a abominação se espantaram. Vinha do humano aquela frase. Ele ainda estava vivo.
            -Como se mantêm vivo? Nunca nenhum mortal sobreviveu a meus ataques.
            Ignorando aquele espanto, o homem continuou:
            -Você é o pior estrume dessas terras. Por Kanglor, juro que responderá por esse ataque. Oh, senhor da ira. Lâmina que se erguerá no momento certo. A fúria deve ser usada em um instante perfeito. Cheio punição. Nunca com vingança. Venha a mim deu atlante! Venha a mim Kanglor! – e enquanto falava, apontava seu braço esquerdo na direção do monstro.
            Em alguns instantes, uma luz purificadora surgiu naquele lugar. Com tanta força benigna, que reconfortaria até o corpo mais ferido. E sem que o monstro pudesse resistir àquela energia começou a queimá-lo. Fazendo aquele ser sumir lentamente no ar.
            -Como pode? Pensei que fosse um mago! Mas são dons divinos! – disse a abominação sendo queimada aos poucos.
            -Que só um sacerdote ou um paladino conseguem utilizar. Correto. E eu sou o segundo. Um que viveu em uma ilha onde Artur Pendragon foi rei. Na época em que ele ainda estava nela.
            Uma face de espanto surgiu na abominação. Antes de sumir, eliminada pelas chamas sagradas despejou:
            -Já sei de quem se trata! É um dos Imortais Esquecidos! O paladino de Kanglor! Um deus esquecido pelos homens! Não! Não pode ser!
            E após essa revelação, o monstro sumiu da existência.
            O recém descoberto paladino desceu na direção do anão. Este se mantinha de pé com dificuldade. Aquele humano pegou a espada para Deenar.
            -Use-a, como apoio por enquanto.
            -Grato senhor. Qual é o nome de meu salvador?
            -Não trago mais um nome. Pois não mereço ter um nome novamente. Trate-me como os das vilas me chamam se quiser. Homem Santo. Apesar de que isso não faz sentido para mim. Além do mais, se chegasse mais cedo, seus amigos estariam vivos.
            -Se ao menos tivéssemos alcançado Barad-Strongor...
            -É muito longe jovem mestre anão – e ao falar isso, aquele estranho sentou ao lado de Deenar – Nunca alcançariam tal lugar. Não em segurança.
            -Compreendo... Ainda assim... Não tenho mais ninguém. Meu pai e irmãos de combate se foram. Para sempre. E estarão ao lado do Supremo Imperador. Enquanto eu vivo nessas terras frias. Minha única chance de entrar em Barad era meu pai.
            -Não te reconheceriam mesmo com essa lâmina?
            -Meu pai furtou isso do tesouro imperial. Antes de sairmos das nossas terras natais, devido a Guerra do Arco e do Machado. Fugíamos dela.
            -Ah! A Guerra Secreta – depois de falar isso, o paladino tirou – não se sabe de onde – uma garrafa de vinho. Deenar recusou
            O dia estava raiando. E os dois ali, fitavam aquele sol que cauterizava as feridas emocionais. Não sabiam como isso ocorria, mas aquela luz trazia paz aos espíritos. Foi quando o anão finalmente sentiu o bafo de bebida vindo de seu salvador. Pois ele falou:
            -Sei como é perder alguém. Não ter onde colocar suas raízes. Sei bem o que isso significa. Apesar de que tenho filhos e eles são mais crescidos... Só que nem mais querem saber de história comigo. Por isso vim até aqui. Eu necessito de um aliado, já que não tenho mais ninguém. Mas preciso de um escudeiro... Um aprendiz. Quer me seguir na proteção dessa terra?
            Nesse momento, Deenar colocou a mão em seu rosto. Era duro admitir que aquele paladino, era realmente um homem bondoso. Pois lhe salvou duas vezes. As palavras não eram corretas. Pedras choravam.
            Nos dias que passaram, aquele anão se tornou um poderoso clérigo. Servo de um paladino. Treinou muitas coisas boas e habilidade divinas. Todas com o olhar atento de seu mentor espiritual James Gawain. Descobriu o verdadeiro nome de seu salvador depois de certo tempo. Porém, nunca pronunciou isso a ele. Respeito pelo que fez naquela noite fatídica. Que ainda assim criou uma nova vida para o jovem elemental da terra.
            Alguns anos se passariam, e a lenda do Homem Santo se propagou naquela terra. Estranho fato, visto que antes, aquele território cheio de pessoas que adoravam a Odin... Atribuíssem um nome tão cristão aquele paladino. Apesar de que, convenientemente, esse título tinha grande significado a ele. Visto seu altruísmo em relação aos mais necessitados.
            Deenar descobriu que ele era membro de um grupo de heróis lendários, chamado Imortais Esquecidos. O estranho residia no fato de quase não haver dados sobre seus feitos. Mesmo aqueles tratados como mitos. Até mesmo pelo meio oral. Quase que por encanto suas ações eram esquecidas pelos mais simples, percebeu Deenar. Isso ao menos, em partes, explicava a falta de conhecimento do povo sobre este herói.
            Então, houve um dia em que mestre e aprendiz tiveram que se separar. Devido ao encontro com aventureiros, James finalmente retomou seu nome. O Lobo Sagrado, o Cão Branco dos Gawain. Era quase como se fosse um funeral, pois o tom de voz era triste e melancólico. Quase igual à de um homem que sabe ser portador de doença incurável. Seja como for, aquele foi o último momento em que um se viu pelos restos de suas vidas. Cada um pediu em seu coração, que sua divindade patrona protegesse um ao outro.
            E o anão cumpriu sua função como aprendiz, pois ele assumiu o manto de Homem Santo. Ajudou os feridos do massacre a Barad-Strongor. Atacou os homens que traíram os cristãos. Destruiu o último dragão nas terras do norte. Quando o momento chegou de partir desse mundo, ele passou esse manto a outro discípulo. Pois é isso que se faz com um legado. Não importa como ele seja. A tradição se faz assim. Com laços verdadeiros de amizade.