segunda-feira, 26 de novembro de 2012

(Parte 7) Capítulo Sete: Escuridão do desconhecido



Todos olharam em direção ao famigerado Oráculo. Muitos queriam matar aquela criatura a qualquer custo agora. Mas ele simplesmente fez com que todos o seguissem, mesmo com Lacktum esbravejando de fúria contra o homem encapuzado. Até mesmo Thror deve que ser contido por Richard em insistentes gritos.
-Me deixe separar a cabeça dele desse corpo moribundo! – gritou Thror com fúria nos olhos – Me deixe fazer isso!
-Grego! – gritou Richard como se fosse palavra de comando para o guerreiro enquanto o segurava – Precisamos dele para descobrir onde estão os artefatos. Já se esqueceu?
-Ah é mesmo não é? – foi então que ele se deu conta de que estavam ali só pela Pele do Dragão de Platina e as Vestes do Desalmado.
E com isso todos voltaram ao salão onde estava a enorme fogueira. Viram então Gor, do lado de uma coluna, sofrendo de terríveis dores. Gemia com expressões de um terrível mal. Mal esse que afligia seu corpo, como uma agonia diferente, como algo que nenhum ser vivo sentiu.
Quando Lacktum e Federick foram o acudir, notaram que ele se afastava o máximo possível do Oráculo. Ele sentia algo único em relação ao adivinho.
-Que mal fez a ele seu bruxo? – gritou Federick quase sacando a espada.
Lacktum colocou a mão sobre o cabo da espada, impedindo o paladino de atacar, enquanto tentava conversar com Gor.
-Se acalmem. O que foi Gor? – perguntou Lacktum, que demonstrava também estar aterrorizado com a dor no companheiro. Temia que aquilo fosse magia poderosa demais para lidar com ela – Qual o motivo de sua dor?
-Eu sou o culpado dessa dor, - começou o Oráculo – meu caro Van Kristen. Ele, como eu, foi peça fundamental para uma antiga batalha que remonta o período em que Arthur caminhava nas terras que por direito são dele. Algo que se relaciona aos Imortais Esquecidos e ao próprio deus Hades, mestre e senhor do submundo grego. Devido ao meu tempo como um explorador... Assim como vocês...
-Mas pensei que nunca tivesse saído desse templo Oráculo, não é? – indagou Halphy se mostrando perspicaz.
-Muito atenta você minha jovem. Não sou o Oráculo de Delfos original. Eu venho das terras onde se venerava o Deus e a Deusa, onde os homens-gamo vivem ou viveram. De onde o rei comanda com punhos firmes, mas que não estará preparado para o que virá. E que um dia terá como soberano o Rei das Feras, e a espada firme como os dentes de um dragão. Seu amigo pode não se lembrar de mim, mas eu me lembro dele. Assim como de seus amigos.
Gor tremeu. Uma pergunta parecia surgir em seu espírito, mais forte do que a dor que sentia em seu corpo.
-Quem é você de verdade, homem que consegue contemplar o futuro e o passado dos homens?
-Essa pergunta não terá uma resposta para o futuro. Só irá mostrar um passado do qual, nem eu, nem você nos orgulhamos. Mas saber sobre o presente é o que todos deveriam querer saber... Afinal, é nele em que vivem não é?

-Não é necessário que falemos o que queremos? – perguntou Thror.
-Se não soubesse o motivo que os trouxe até aqui, não seria um bom adivinho – respondeu prontamente o Oráculo.
Thror se calou.
Os jovens estavam ao redor da fogueira para ouvir as palavras sobre o seu futuro, os artefatos malditos, aqueles que amaram ou amavam e se eles teriam algo a esperar. E por incrível que pareça, queriam saber mais sobre si, do que sobre o que os aguardava no futuro próximo. Todos sentavam nas escadas, olhando para o Oráculo que jogava, ervas e especiarias raras que deveriam vir das terras do Oriente, notou Halphy, na fogueira. Prestavam extrema atenção, com exceção de Lacktum que desdenhava dos poderes do Oráculo e Gor que ignorou a ajuda para se sentar e se mantinha de pé ficando apoiado em uma das colunas, tentando mais firme do que realmente estava. As dores pareciam cessar um pouco. A maioria acreditava que os deuses iriam mostrar o que era necessário para compreender o futuro.
Foi quando as chamas cresceram novamente, criando imagens que mostravam o futuro de suas viagens. Enquanto isso, o estranho homem de Delfos falava o que se desdobrava no futuro.
-O que vocês procuram no futuro esta dividido em oito partes: três que surgiram em um poderoso arcano, cinco que vieram de um justo paladino. Boa parte esta dividida pelo Ocidente todo. Sendo que vocês passaram por dois itens. Um do Desalmado e outro do Dragão de Platina. Eles estavam na ilha em que encontraram a bruxa Angélica.
-Como? – esbravejou furioso o arcano ruivo – Quer dizer que poderíamos ter encontrado dois dos itens antes de chegarmos aqui? Ora que praga maldita em que nos encontramos!
-SIIILÊÊÊNCIO!
-Todos olharam atônitos para a figura esquálida, com medo de suas próximas ações ou palavras. Mesmo com todo aquele ar de decaído, o homem conseguia trazer medo só com as palavras
-Vocês ainda não sabeee neeem metade do que o futuro lhes reserva. E queeerem sabeeer maisss do que um oráculo? Se siiiiilenciem para ouvir o que tenho para dizer...
Houve silêncio.
-Além dos dois pedaços que estão na ilha da bruxa, restam mais seis outros itens a serem achados. Um se encontra nas terras do Oriente, após o Mediterrâneo, aonde os lideres eram faraós e tinham o poder de seus deuses em suas decisões. Mais um deles se encontra na Inglaterra, onde os Imortais Esquecidos tiveram seu inicio. Outro pedaço esta nas terras de onde saíram, ou seja, nas terras sem um rei. Existe um que já esta nas mãos do inimigo, trazendo grande perigo, a todos os simples de corpo e alma. Nas terras onde estão existem dois itens dessa empreitada que estão fazendo. Um deles, esta a três dias de viagem desse lugar, bem próximo a uma cidade, em uma colina cercada de ruínas estranhas paras essas terras. O ultimo se encontra nas terras onde antes havia Esparta, berço dos mais esplendidos guerreiros. Estará na posse de um mago sábio.
Todos olhavam com estranheza e espanto para o observador do tempo. E eles então perguntaram como poderiam ter certeza sobre o que ouviam dele, enquanto as chamas crepitavam com força atrás da figura encapuzada. Foi então que ele falou sobre o duende verde Zas, e do que estava por vir. Por qual motivo alguém saberia sobre Zas, um ser que vivia em um lugar tão distante? Nem mesmo um palpite poderia ter sido tão certeiro. Ele realmente sabia muitas coisas.
O orador misterioso continuou a falar sobre o que sabia
-O Desalmado e o Cavaleiro da Pele de Platina eram companheiros. Amigos inseparáveis de antes da abertura, pela segunda vez dos Portais Infernais. É necessário dizer – falou isso o Oráculo, com o dedo indicador, tal qual um mentor que explica sabiamente aos seus alunos – que os Portais Infernais só foram abertos duas vezes. Uma para a tentativa de Hades de tomar o poder sobre a humanidade. A outra foi rapidamente feita no ano trinta e três depois de Cristo.
-Espere! Então significa... – começou Halphy, com um olhar perplexo por se lembrar dos poucos costumes religiosos que sabia.
-Significa – completou o Oráculo, terminando sua explicação – que os Portais Infernais são uma passagem que foi usada nesse mesmo ano por Jesus de Nazaré, o Cristo, para levar da face desse mundo, os pecados e demônios que nos assolavam. Como os próprios sacerdotes falam, levar todos os pecados desse mundo. Mas um pouco antes desse portal de tamanha magnitude se abrir pela segunda vez, os dois heróis chegaram até eles, depois do conflito dos Imortais Esquecidos com uma terrível criatura. Inicialmente sua missão era trancar o portal definitivamente. Mas seus corações não eram mais os mesmo de quando começaram sua jornada. O Desalmado se tornou tão frio e maligno quando seu título sugeria. Afinal, ele estava desprovido de sua alma. Um antigo inimigo o capturou. Torturado daquele modo os resquícios de seu espírito só viam o ódio que sentia por seu antigo companheiro, que o havia deixado refém de um inimigo tão poderoso e cruel. Ele já nem mais acreditava que o cavaleiro o procurava com todas as forças de seu bravo coração. Oh não... A dor e o sofrimento o fizeram enlouquecer tanto, que não distinguia tempo de espaço, nem a impossibilidade de ajudar de uma terrível traição. Enquanto isso, o cavaleiro vivia procurando um modo de encontrar seu parceiro de aventuras. Conheceu pessoas, visitou terras inóspitas e viveu varias alegrias, as quais seu companheiro fora privado pelo mal de um oponente. Foi quando depois de meses, o cavaleiro encontrou seu amigo. Já nesse período, o arcano não via mais uma imagem de amizade no guerreiro. Ele só continha ódio ao homem que era chamado Cavaleiro da Pele de Platina, e este não suspeitava de nada.

O escrito, aqui nessas linhas, só foi visto pelos homens e a mulher daquele grupo de aventureiros.
As chamas crepitavam sobre as mãos do Oráculo. Elas ondulavam como dançarinas coordenadas por uma poderosa força invisível. As cinzas voavam ao céu e se uniam em pleno ar formando imagens. Primeiro tremulas como a fumaça da fogueira e depois, extremamente definidas. Eram imagens de um passado distante e sombrio. De um dos momentos mais negros da humanidade e que ninguém se lembrava.
O lugar que viam era tomado de areia por todos os lados. Não havia um céu claro ou uma noite sem nuvens, mas sim uma tempestade de proporções épicas que manchava o espaço negro. Do sudeste, se projetava o arco de um colossal portão. Tão grande, que mesmo o maior dos dragões das lendas antigas atingiria metade de sua altura completa.
Todo o cenário ao redor demonstrava que antes havia acontecido um imenso combate. Não por conta de um exercito, mas sim, devido a um grupo de combatentes e arcanos dos mais diversos tipos e portes. Doze homens e mulheres, vestido para combater. Só havia duas figuras vivas ali, mas elas saiam do campo de batalha com várias feridas pelo corpo.
Os portões começavam a se fechar lentamente. Tão lentamente que quem observava aquela cena teria muito medo. Tragavam coisas físicas e espirituais, que pareciam ter vida ou não.
No meio desse caos de seres demoníacos, uma carcaça de um ser terrível surgia. Muitos não acreditariam, mas era claro pelas lendas que todos ouviram quando crianças que se tratava de um esqueleto de dragão. Havia pequenos pedaços de esmeraldas que jaziam em sua forma definhada. Ela estava próximo aos portões.
Os aventureiros começaram a sentir em seus corações um grande mal surgindo dele. E então compreenderam que aquele era o mal que queriam deter.
Então, vindo do nada, dois homens corriam apressadamente pelas areias escaldantes em direção ao ser do além. Eles corriam com vontade, como se o universo fosse acabar naquele dia. E isso poderia acontecer realmente.
O arcano vestia um manto marrom escuro com desenhos arcanos, uma luva grande com detalhes em metal e uma máscara que parodiava o que foi um rosto humano. Com certeza servia para cobrir as feridas na época de tortura
Já o cavaleiro usava uma armadura de batalha completa. Segurava uma espada bastarda na mão esquerda e um escudo grande no outro braço. Seus pés eram cobertos por um par de grevas que pareciam extremamente pesadas, mas ele conseguia andar sem nenhuma dificuldade aparente, pelo menos, por aquela areia quente. Sua cabeça era protegida por um elmo que demonstrava ser de um nobre.
Os dois possuíam símbolos draconianos, o que significava grande poder.
Quando chegaram aos restos do dragão de esmeralda, este se ergueu das areias do deserto. Ele se levantou com fúria em suas orbitas cheias de necroplasma verde, como se tentasse, como se tentasse mostrar a cada ser vivo naquelas terras perdidas que ainda existia uma vida profana naqueles ossos. Suas asas se abriram como duas mãos enormes no ar tempestuoso. A criatura sabia que graças a seu imenso poder, não seria puxado para dentro do Portal dos Pecados. E os dois homens se preparavam para derrotar o ser sinistro.
Ao menos era isso que um acreditava.
Foi quando ocorreu a traição. O Desalmado atacou seu antigo companheiro cavaleiro com uma adaga nas costas, quando este enfrentava o esqueleto de dragão.
O cavaleiro caiu ao chão, com a espada fincada na areia quente. E isso ocorria no mesmo momento em que o mago passava por cima do guerreiro sagrado. Ao que parecia, o arcano queria a gloria de derrotar tão terrível ameaça sozinho. Se houvesse testemunhas naquele dia e local, notariam o sorriso contorcido do abridor por debaixo da mascara.
A adaga tinha sido banhada com um veneno raro, que provinha de outra dimensão. Tão poderoso, que magia alguma do nosso mundo seria o bastante para poupar sua vida.
Foi então que cheio de ódio, que o cavaleiro cortou sua mão na própria arma. Com a palma da mão ensangüentada, ele então se levantou com ela na direção do antigo companheiro. O ar se encheu do sangue do justo.
Correu na direção do Desalmado – que enfrentava com certa dificuldade o dragão imortal - e o golpeou no rosto, tirando a máscara, expondo o rosto que estava em pura carne viva. O mago então gritou de ódio pela mascara lhe ter sido arrancada, pelo cavaleiro estar ainda vivo e pelo sangue que havia caído em sua face.
O cavaleiro então recitou varias preces em élfico. Um brilho verde transcorreu de suas mãos.
Ele então pronunciou a palavra em latim, signature.
E foi então que os corpos começaram a brilhar. Suas peles continham um dom dourado forte, tão poderoso, que poderia cegar ao serem vistas. Se não fossem aquelas imagens feitas por magia, os aventureiros poderiam ter perdido a visão.
Os dois homens então queimavam com a força de dois sóis. Enquanto isso o dragão de esmeralda começava a ser arrastado na areia, como se tivesse perdido todas as forças que antes tinha. O brilho do necroplasma[1] se esvaia, enquanto a criatura draconiana se debatia inutilmente na areia do deserto. Até ele parecia pequeno perto do poder que estava contido nos dois homens. Ele foi então selado entre o vão dos Portais Infernais.
Enquanto eles ardiam, pela chama divina evocada pelo paladino, eles se seguravam e lutavam com força. O paladino jogava o arcano contra o chão, que tentava uma débil resistência. E então quando tudo parecia estar estático ao redor deles, houve uma explosão. Tão grande e imensa que poderia ser vista através de reinos, de terras sem leis, de mares e até mesmo oceanos.
E por fim os portais se fecharam.
-Enquanto os portais permanecerem fechados, o dragão imortal de escamas esmeraldas não se levantará. E nem trará o mal que ele contém.

As cinzas se dissiparam na frente dos aventureiros. Então todos se levantaram com assombro, prontos a questionar sobre aquelas visões.
Lacktum foi em direção ao Oráculo.
-Qual o nome do Desalmado e do Dragão de Platina?
-Você talvez um dia saiba... Quem sabe? Talvez um dia.
Halphy interrompeu a conversa dos dois perguntando ao Oráculo se ele poderia lhe falar sobre um determinado item.
-Que item? Poderia ser mais especifica? Local? Ou quem sabe um nome? Já serviria... – falou sarcástico o Oráculo.
 A ladina entendeu que ele já sabia de quem se tratava e qual era o item.
-Tudo bem – falou Halphy conformada – Tudo bem. Eu estou atrás de um item que foi criado por Sinestro, um poderoso elfo de Avalon.
Ninguém prestou a atenção devida na conversa de Halphy quando ela citou o motivo de estar nessa jornada. Mas o jovem gravou muito bem na memória aquelas palavras. Como as de agora. Sinestro deveria se um conhecido dela ou da família.
-Você encontrará o colar quando Sinestro estiver pronto para entregar. Ele sabe sobre suas dificuldades até agora. Até lá escolha sabiamente seu futuro e se mantenha no grupo até quando for necessário. Você saberá o momento, sozinha.
Lacktum iria interromper as palavras do Oráculo, quando Federick o fez antes.
-Preciso saber, ô Sábio de Todos os Tempos, se sabe algo sobre Diogo Fernandez. Cavaleiro que serviu a mim e a minha família durante vários anos. Sabe algo sobre ele?
-Não existe nenhum Diogo Fernandez vivo sob a face do mundo atual, - e quando Federick achava que a busca teria acabado o Oráculo continuou – mas quando o encontrar novamente ele será outra pessoa.
-Como assim?
O Oráculo ignorou o paladino. E cruzou o salão até o grego.
-Estranho – falou o sábio, passando as mãos onde deveriam ser os lábios debaixo daquele manto, enquanto observava atentamente o grego – extremamente estranho.
-O que? – disse o confuso guerreiro.
-Eu não consigo ver o seu futuro. Na verdade, as três Irmãs não me permitem ver sequer uma fração de toda a sua vida.

Os mais simplórios não compreenderam o que isso significava. Os mais atentos como Lacktum e Halphy, compreenderam o que significava tudo aquilo. Alguém ou alguma coisa muito poderosa estava interferindo com os poderes de visão do Oráculo.
Mas o que em todo mundo poderia interferir nas visões de um oráculo? O Oráculo de Delfos? Pela pouca experiência dos aventureiros, nada. Mas Gor sabia que não era assim. Ele sentiu medo por todos naquele salão.
Foi quando se levantou.
-Quem poderia querer interferir em sua visão?
-Eu não sei... Mas sei que ela foi fechada com intervenção divina direta. Como se os deuses não quisessem que soubéssemos. Como se um segredo nas memórias desse jovem fossem algo que pudesse mudar os destinos de incontáveis vidas.
Os olhos de Thror se encheram de tristeza. Nem o homem que via tudo poderia ver seu passado. Então quem poderia? Que poder conseguiria superar as forças do tempo e espaço para lhe revelar o que tanto queria? Foi então que o Oráculo proferiu:
-Um deus. Quando você tiver a chance de encontrar um ser superior a um deus, saberá o que te espera no passado.
Nenhum deles entendeu sequer uma palavra daquela frase. Mas Thror, por algum motivo, sentiu seu coração aliviado. Mesmo não havendo nenhum motivo para isso.

Lacktum queria saber sobre os itens. Se eles tinham poderes específicos, se poderia ser mais consistente sobre onde exatamente estavam os itens dos heróis, se eles tinham alguma terrível maldição e como eles seriam usados para deter o dragão de esmeralda.
O Oráculo falou que cada um dos conjuntos tinha poderes relativos personalidade de seus donos originais. Ele também disse que se Lacktum realmente acreditava na força do destino, encontraria os artefatos de qualquer modo. Se houvesse alguma maldição, seria algo que só os criadores dos itens saberiam sobre eles. Por fim, disse que eles serviriam como uma forma de selar o portal, caso o pior ocorresse.
Lacktum perguntava como se abriria o portal, mas então notou que ele se calou justamente nessa pergunta. Foi quando o Oráculo notou, que diferente dos outros, o mago não perguntava coisas sobre seu passado e futuro.
-Teme pelo seu futuro Van Kristen. E por isso nada pergunta?
-Você deve saber a resposta para essa pergunta. Afinal você é o Oráculo – falava o jovem inglês ruivo, enfrentando o adivinho com sua face.
-Ora se é tão sábio Van Kristen, - começou enquanto mexia os braços o Oráculo – que tal veeer isto?
Nesse momento, a mão do sábio encontrou a face do mago. E foi através disso que Lacktum começou a contemplar coisas que nunca vemos.

Lacktum se viu em um deserto enorme. Tão grande e vasto quanto o que viu anteriormente na visão do passado. Pois na verdade se tratava do mesmo deserto. E novamente, nesse deserto havia um espaço sem estrelas e um céu escuro como o coração de um demônio.
Acima de tudo, vindo do sudeste, se projetava a luz de uma força tremenda. Agora era possível ver claramente o portal mais de perto. E ele faria qualquer um se sentir tão pequeno, quanto uma formiga diante de um humano. Ele conseguia ver um vulto enorme diante dos portões. Mas não era isso que o incomodava.
Ele observava outra sombra sinistra. Essa carregava consigo uma lanterna estranha, cheia de detalhes e runas em seu contorno. Dentro do item queimava uma chama única, de tom azulado, que ainda mantinha uma força débil. Como um animal que se debate após terem ferido seus membros. Mas seu brilho ainda era forte o bastante para Lacktum notar os estranhos motivos do home em sua frente.
Nesse vulto era possível ver um robe negro com aspecto magnífico e poderoso. Também possuía um cetro em sua mão. Ele segurava na outra mão, uma máscara que parecia acabar de retirar. O seu rosto começava a aparecer para Lacktum. Era magro e pálido, cheio de feridas e pústulas. Seus olhos demoníacos demonstravam insanidade e seu cabelo castanho era atingido pelo vento daquelas areias sombrias.
E com isso o homem simplesmente mirou com seu dedo pútrido para o jovem mago Lacktum e disse:
-O que vai ser? Minha alma ou a dela?
Os portões ainda estavam fechados. A visão acabou.

Lacktum jazia no chão, exausto, como alguém que presenciasse um fato único e terrível de sua vida, mas não soubesse o que significava. Thror o havia amparado e ajudou o mago a levantar.
-Aquilo foi o... – balbuciou Lacktum – o futuro?
-Sim.
-E o que farei com essa visão?
-Mantenha sua alma viva, até que ela aconteça de verdade meu jovem arcano, e tente se tornar senhor do seu destino.
-Como?
-Se simplesmente me encontrar resolvesse tudo, não acha que haveria mais pessoas nessas terras? Buscando por mim? O Oráculo de Delfos é o ultimo recurso para encontrar o que querem saber ou ter. E mesmo ele, não garante o futuro, pois a Moiras gostam de brincar com o que acreditamos estar completamente certo. O Oráculo pode trazer um futuro afortunado ou a danação eterna. Mas isso só será garantido se estiverem vivos e prontos para tudo. A decisão será tomada somente se o seu destino for forte. Forte como todos devem ser. E prontos para sacrificar o que for necessário. Pois o destino deve ser controlado por aqueles dispostos a tudo pelo que desejam. Mas é melhor irem embora, pois os corações estão cheios de pressa assim como seus inimigos. Ah, antes que me perguntem, não irei citar sobre eles, pois isso é algo que devem saber por conta própria. Mas mesmo com a escuridão na frente de todos vocês, a coragem louca e intrépida de vocês fala alta em seus espíritos. Então partam, e iluminem o caminho com a chama de suas perguntas.
Nesse momento um pequeno pedaço da areia daquele templo deslizou por um buraco, mostrando uma passagem subterrânea. Dela era possível ver escadas de pedra bem grande e um sátiro surgindo da escuridão da passagem.
-Esse sátiro lhes mostrará o caminho para fora daqui. E antes que perguntem, sim, respondi todas as suas perguntas. Mesmo que não pareça.
Os aventureiros começaram a descer aquelas escadas. Insatisfeitos, pois todos os homens são fracos perante o destino e o que se desconhece. Mas a escuridão do futuro poderá ser iluminada. E é nisso que alguns homens acreditam.

Eles desceram até o fundo das escadas e chegaram a uma gruta. Nela, ficaram sem visão por algum tempo, mas a luz do dia e a água de um riacho estavam próximas deles. A abertura da gruta mostrou a eles uma paisagem linda, toda gramada e cheia de runas dos tempos antigos. Era como um pequeno salão circular que era rodeado por colunas quebradas e que era usada contra a entrada de invasores. Alguns esqueletos ao redor demonstravam isso.
Ela concedia acesso a uma estrada ampla ao qual o sátiro dizia chegar a uma vila. Lá teriam informações de como chegar a tal cidade que ficaria a três dali.
O sátiro sumiu. Então os aventureiros foram embora. Atrás de seus destinos.

Por alguns instantes, o Oráculo estava sozinho, mas no outro o sátiro apareceu diante dele. E como se nunca tivesse existido tal criatura ali, a figura começou a tomar forma de um homem.
Esse homem tinha cabelos grandes e negros, um chapéu com ponta fina na frente e uma linda pluma. Usava um manto marrom enegrecido e por baixo, tinha uma armadura de batalha negra digna de um rei. Era extremamente escura, diferente da espada brilhante e azul. Ele andava pesadamente até a direção do oráculo.
Um oráculo servia para aconselhamento, com a finalidade de decidir o futuro ou impedir o infortúnio das pessoas. Na Grécia, em tempos áureos e antigos, um homem desses era um sacerdote que presidia consultas únicas sobre o que era necessário. Mas no fim, o oráculo sempre serviu para compreendermos a nós mesmo. Mostrando nossos medos e anseios. E isso cria opções e ações.
Mas quem temia a opção errada agora era o Oráculo de Delfos. Ele temia o guerreiro de armadura negra mais do que tudo no mundo. Mesmo sabendo o futuro
-Eeeee eeeeentão Kalidooor? O que achaaa?
-Acho que eles são um bando de tolos. Mas com uma pequena chance de vencer.
-Como fala com tanta certeza?
-Não é necessário ser o Oráculo de Delfos para imaginar isso...
-Certo... E eu senti que você quer enfrentar o paladino. Quer ver se os ensinamentos da família Gawain aos mais jovens ainda servem para épocas de guerra?
-Não seja infantil, - disse o guerreiro de armadura negra nervoso com aquela afirmação e depois começou com um pequeno riso – afinal ele treinou um estilo totalmente diferente do meu. E eu sou mestre do Vento Abissal, O Barão do Lobo Negro, eu sou Kalidor Hein Hagen, um dos três lideres dos Imortais Esquecidos.



[1] Seria uma variedade do mana e também estaria inerentes nos mortos famintos e almas desencarnadas. É fonte de poder para os necromantes.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

(Parte 6) Capítulo Seis: Se lembre



O navio havia atracado em um pequeno porto. Esse porto ficava perto de Delfos, antiga cidade que havia se unido com Esparta muitos séculos atrás na famosa Liga do Peloponeso, contra a Confederação de Delos. Mas não era isso que fazia o grupo ter chegado até aquele lugar.
Várias são as lendas que ditam sobre um homem em Delfos – ou algo parecido com um homem – que podia ouvir as Moiras e as tramas que elas faziam com o destino a seu bel prazer, com a finalidade de conceder um lampejo do futuro. Futuro quase sempre incerto ou com um mal incrustado.
Mas naquele momento, não era hora de pensar no futuro, mas sim momento para despedidas.
-Bem, - começou Joseph Boas Línguas com um rosto pesaroso – acho que isso é um até logo, não é?
-É – disse Halphy que demorou a continuar a frase, caçando as palavras – Acho que nos separamos até que o destino resolva nos unir novamente.
-Espero mesmo que o destino nos uma Halphy, - completou Gor – mas que nunca mais passemos novamente por aquela ilha. Perdão. Ah e tome seu pagamento – foi então que o inglês concedeu mais cinco gemas vermelhas, como aquela que concedeu ao capitão nas docas.
-Vocês que devem me perdoar. Mas saibam que se eu pudesse... Também não passaria naquela ilha. De qualquer forma... Au revoir!
E então, Joseph colocando os pequenos mais valiosos rubis no seu casaco de capitão, se virou em direção ao navio. Sua imagem em nenhum momento pareceu ser de um homem mórbido, pensaram os membros do grupo. Mais parecia alguém muito justo que se via forçado a uma situação que nunca quis estar. Por isso, pensaram os jovens, que talvez fosse o motivo de se sujeitar a aqueles ritos macabros.
Após tudo que passaram, chegariam à pequena vila costeira. No porto, estavam Gor, Halphy, Federick e Hugo. Thror tinha se adiantado por algum motivo. E Lacktum demorou a se unir ao grupo com um rosto de poucos amigos. Parecia não estar bem desde ontem, graças a um pesadelo que foi audível por todo o navio. Ele não sabia, nem foi comentado por bondade dos membros do grupo que gritava enquanto sonhava. Não havia muito que qualquer um dentro da embarcação poderia fazer por ele.
Lacktum tremia muito como se tivesse presenciado cenas terríveis, o que não estava longe da verdade. Mas querendo ignorar tudo da noite anterior, se manteve firme na direção dos companheiros.
-Onde esta Thror? – disse Lacktum, querendo parecer melhor.

Thror olhava em direção a uma colina, que nunca tinha visto, pensava ele. Porém, foi como em Starten. Ao mesmo tempo em que ele achava que não conhecia o lugar, algo em sua alma o trazia memórias fracas que logo desapareciam. Como nuvens de chuva. Era como, lembrar de algo, sem nem ao menos ter vivido aquilo.
A colina era íngreme, e árdua seria a escalada. Mas o grego acreditava que para si, não deveria ser difícil subir. Por incrível que parecesse, ele acreditava saber o que esperar. Ou ao menos achava.
Lá deveria estar o Oráculo de Delfos.
Os companheiros perguntavam na vila, se alguém sabia do Oráculo. A iniciativa foi de Federick. Lacktum iria começar a rir das atitudes do paladino, quando houve uma resposta positiva de uma mulher no meio daquela vila pequena. Ele sabia falar grego.
Federick era o único que sabia falar aquele idioma, além de Thror é lógico. Por isso mesmo, Gor perguntou o que a mulher falava.
-Ela disse que naquela colina fica o Oráculo. Mas é perigoso pelo que sabe. Afinal, ninguém nunca voltou de lá.
-Não deve ser tão perigoso, - comentou Gor – se comparado ao que sofremos em combates até agora.
-Bem, ela só quis avisar.
-Observem - disse Hugo apontando na direção da colina – Thror realmente se adiantou.
Olhavam um Thror atônito, que se fixava com o olhar na direção da colina. Ele tremia como uma caça diante seu predador fitando seus olhos sem compaixão, mas com extrema fome. Mas se Thror era o caçado, quem era o caçador?
Richard se aproximou, acolhendo em um abraço o guerreiro.
-Pode me dizer, o que te aflige grego?
-Eu não sei...
Federick, que passava por eles, ignorou as palavras de Thror, achando que aquilo poderia ser um medo infantil de alturas. E medo não era algo proveniente na alma de um servo de Cernunnos.

Os aventureiros, próximos a colina se encontravam e começaram a subir. Era mais íngreme do que imaginavam. Mas mesmo com esses problemas, conseguiam subir o lugar. Haviam vários espaços, feitos na parede, que foram usados para subir o enorme paredão que surgia diante deles. Com certeza, feitos por aventureiros anteriores.
Gor subiu primeiro, sem nenhuma armadura. Sabia como escalar aquelas formações muito bem, apesar de falar que não treinava escalar fazia muito tempo. O que muitos notavam era a felicidade do guerreiro subindo o lugar. Os outros tentavam subir com dificuldade, seguindo seus passos na formação rochosa. Mas era difícil. Gor se movimentava com rapidez como uma aranha fixada em uma parede. Enquanto isso, o teimoso Thror insistia em subir de armadura todo o paredão. Era engraçado ver as tentativas do grego sendo frustradas pelo peso da proteção que carregava nas costas e pelas pedras que se soltavam. Os outros eram auxiliados por Gor, que dizia que pelo menos o resto do grupo não era tão teimoso. Ainda assim, a dificuldade persistia.
Em certo momento, Federick quase caiu de uma boa altura. Mas então Gor estendeu sua mão esquerda, sendo que com a direita, segurava firmemente a corda.
-Arggh! Peguei – disse Gor usando sua força para segurar Federick – Mas fique atento. Não vou estar aqui o tempo todo.
Federick tentou se colocar ao lado de Gor no paredão de pedra que havia se tornado aquele lugar. Apoiado nas pedras, o paladino se segurou e pediu desculpas ao guerreiro inglês.
-Não sou acostumado – disse o cavaleiro sacro – Isso não é função de um paladino.
-É melhor se acostumar. Se lembre que muitas pessoas dependem do que faremos no topo dessa colina.
Gor então voltou a subir com a mesma facilidade de antes. Deveria ser muito experiente, pensou Federick, para reagir daquele modo, naquela situação. Não sabia muito pelo que seu mestre comentou, sobre ele. Queria ser, pensou o paladino, um pouco parecido com ele.
Enquanto todos subiam, o guerreiro grego esperava o auxilio. Depois de tantas tentativas, ele decidiu tirar a armadura. Ele enfim notou que era pesada demais. Mas até então, se machucou muito.
Por fim, o grupo se encontrava finalmente no topo da colina. Lá eles contemplavam o local onde se encontrava o Oráculo de Delfos.
 
Era bonito todo o lugar que viam. Várias colunas de mármore sustentavam uma estrutura de mesmo material. As colunas são bem espaçadas entre si e no centro da construção, no que seria o teto, havia um buraco de forma retangular que permitia a visão do céu. Havia escadas que desciam ao centro do lugar, que terminava em um terreno arenoso no qual havia uma enorme fogueira bem preparada, que crepitava e atingia as nuvens daquele dia nublado, com sua fumaça, brasas, labaredas e cinzas. Era possível sentir que a Arte era forte naquele lugar.
Lacktum moveu os braços em forma circular, arrastando linhas arcanas como se limpasse algo no ar. Ele então proferiu, calmamente, palavras mágicas:
-Show me the truth here. I reveal the Art in the air.
Nesse momento, Lacktum sentiu que o local emanava uma aura de adivinhação, tão forte, que ele mal agüentou a força que exalava. Sua concentração foi logo quebrada e a magia dissipada.
-Esse local, emana muito mana[1]! Demais para ser sincero...
-Bem nada vai acontecer – começou Thror – se ficarmos parados aqui.
Eles desceram os degraus e viram mais de perto a fogueira. E o grupo descendo as escadas, extasiado por toda a magnitude do lugar, ninguém notava que Gor dores que o faziam o andar com dificuldade. Ele notara aquilo precocemente: conhecia aquela sensação, como se sua cabeça quisesse mostrar que alguém estava ali. Alguém conhecido.

As lendas antigas contam sobre esses homens. Os oráculos. Homens que através dos deuses mais poderosos das antiguidades conseguiam os verdadeiros o tempo e espaço. Tão poderosos que superavam os poderes dos deuses comuns. Mas normalmente são tratados como mulheres. Para nós mortais, são conhecidas como Passado, Presente e Futuro. Em cada cultura eram nomeadas de outras maneiras. Elas eram chamadas de Moiras, Parcas, Nornas, Bruxas, Fúrias, Irmãs, Tecelãs do Destino, Juizas, entre outros nomes. E em algumas culturas possuem até nomes. Os gregos concediam os nomes de Cloto, Láquesis e Átropos. Entre os nórdicos eram chamadas de Urd, Verdandi e Skuld. E mesmo sendo de culturas diferentes elas representam praticamente a mesma coisa: passado, presente e futuro.
Alguns homens que se entregavam a contemplar as forças astrais se tornavam poderosos oráculos para guiar os homens em seus caminhos de vida. Entre alguns nomes estavam Tiresias, o adivinho cego, ou Calcas, o homem que morreu de tanto rir. Mas um dos mais famosos se chamava o Oráculo de Delfos. Tão poderoso que influenciou figuras das lendas e histórias gregas como Alcmeón, Ino, Tiestes, Hércules, Psiquê e Sócrates. Sua sabedoria era como uma chama que iluminava o mundo. O seu poder poderia contemplar uma fração do que as Tecelãs do Destino criavam para o mundo. E na frente do local onde o Oráculo se mantinha estava escrito uma das maiores verdades do mundo: conhece-te a ti mesmo.
E era isso que eles teriam que fazer ali.

Quando se aproximavam da fogueira notaram uma sombra se projetando de uma das colunas. Essa sombra possuía um manto negro com as bordas em dourado, estava cheio de runas estranhas. De dentro do tecido surgia um par de mãos pálidas e esquálidas. Era possível notar que estava nu debaixo do manto, mesmo que não fosse possível ver direito sua forma pela escuridão do lugar. Seus pés eram grandes e pareciam garras com a mesma brancura das mãos. Ele andava arqueado, porém parecia medir dois metros facilmente. Não era uma figura que se gostaria de encontrar sozinho.
Ele falou com a voz rouca como se uma faca atravessasse sua garganta:
-Bem vindos, Federick de Salles, homem do trono de terras distantes, Thror Tzorv, guerreiro e artífice da poli onde nasciam os espartanos, Halphy Brown, ladina ardilosa e arcana de sangue sidhe, Hugo Capeto, feiticeiro das terras romanas, Richard Naara, sacerdote das divindades celtas, Lacktum Van Kristen, filho de nobres que busca vingança, e Gor, grande guerreiro inglês que participou de varias guerras. Bem vindos.
Todos notaram o tom do sarcasmo que o homem usava para eles. Mas não era momento para enfrentamentos. Eram necessárias respostas.
-Quem é você? – inquiriu Federick sem medo, como de costume.
-Ora, não sou eu a quem tanto procuram? Não foi por mim que se deslocaram de Starten, no Reino da França, até Delfos? Sou o homem que fala com as Bruxas do Tempo, as Senhoras Negras do Destino. Sou o Oráculo de Delfos.
Ninguém falou ou gesticulou um movimento. As chamas então crepitaram com força como as chamas de um dragão. Ele continuou:
-Me acompanhem ao outro salão. Lá observarão algo que irá criar uma noção do futuro.
-Mas... – tentou falar Lacktum.
-Me acompanheeem – disse com a voz arrastada e seria o Oráculo.
Ele se arrastava , assim como sua voz, até o outro salão. Lá, além do chão cheio de areia, havia seis estruturas esféricas apoiadas por duas pernas de madeiras no solo. Havia ainda nelas molduras, e no seu centro, algo que conseguia refletir as imagens de quem passava próximo delas. Quando mais próximo das figuras, maior elas ficavam.
Lacktum já notara o que era.
-Já ouvi falar sobre isso. É um material criado pelos sarracenos, feito a partir de areia. O chamam de vidro.
Enquanto todos adentravam o salão, com a finalidade de observar os itens orientais, o Oráculo parecia se regozijar com algo inexplicável. Ria sem motivos, era o que pensava boa parte do grupo.
-Também já ouvi falar, - Halphy completou, ignorando a bizarra risada – e na verdade é uma substância solida. Ela possui a propriedade de refletir e expandir imagens.
Do alto da escada via todos. Lacktum ignorava o próprio reflexo, enquanto Halphy se olhava com prazer. Thror e Federick discutiam sobre o tal material: o grego dizia que aquilo era magia antiga, enquanto o paladino afirmava que não passava de uma criação de sarracenos com extrema perícia como Lacktum acabará de explicar. E Richard e Hugo olhavam atentamente a tudo.
Os companheiros de viagem nem notaram a falta de Gor no salão.
Foi então que Lacktum voltando ao seu habitual tom de superioridade – que havia sumido devido ao pesadelo – gritou ao Oráculo.
-Qual o motivo de estarmos aqui? Por acaso esses objetos nos revelarão o futuro? Não usei nenhuma magia de detecção nesse salão, mas tenho quase certeza que aqui não reside nenhuma magia de adivinhação.     
-Silêêênciooooo arcaaano! – gritou furioso o Oráculo de Delfos – Se fosse tão sááábio saberia que esse lugaaaar não possui nenhuma magia de adivinhação, mas sim de conjuração.
Foi então que Lacktum se deu conta. Olhou em direção aos objetos esféricos e se deu conta de que a magia que foi colocada neles poderia ser outra. Mas o que seria. Nesse instante colocou a mão no queixo pensativo. Ele então notou coisas que o deixaram alarmado. Primeiro, viu runas nas molduras que significavam duplicata e segundo, o reflexo no espelho não colocou a mão no queixo.
-Vocêês passarão por um desafio antes de constaaatarem o futuro.
-Saiam da frente dessas coisas seus tolos! – gritou furioso e preocupado o arcano, sem nem notar que ele mesmo passara na frente de um – Há magias preparadas neles!
Era tarde demais. Os tais espelhos começavam a vibrar como se fossem as ondas de um rio ou de um mar bravio. Lacktum viu sua mão atravessando as ondas do espelho. A mão de um Lacktum, igual em todos os detalhes físicos.
 
Halphy que se olhava atentamente tomou um susto que quase a fez cair para trás. Em um momento, olhava o próprio rosto refletido no espelho, em outro, a imagem de si mesma a encarava com ar de seria.
Federick e Thror se entreolharam por um instante, quando viram seus rostos em outros seres que não eram eles... Exatamente.
Hugo e Richard, mais atentos se preparavam como uma dupla de amigos que, até então, se mostravam ser. Enquanto Hugo ficava na frente, estendo as mãos em concentração mágica para os reflexos, Richard preparava a assistência no combate.
Os reflexos portavam os mesmo itens que os aventureiros. Tinham as mesmas armas e pareciam manejar elas tão bem quanto seus donos originais. Sendo reflexos era possível notar pequenas diferenças entre eles e os jovens: em sua pele, eles tinham um tom acinzentado que contrastava com os originais; seus modos e atitudes pareciam ser diametralmente opostos aos originais. Até mesmo os rostos parecidos sempre mostravam suas diferenças em sentimentos.
Enquanto Halphy mostrava um sorriso malicioso – mesmo surpresa – e maligno, seu reflexo demonstrava seriedade e confiança ao apontar a besta de mão. O mesmo ocorria com todos os outros.
O reflexo de Halphy atacou com sua besta. Dois virotes chegaram próximo do pescoço. O que seria morte certa se tivesse a acertado. Porém, Halphy nunca foi alguém de se entregar pelo susto e também usou a besta de mão que possuía. Com isso acertou a perna de seu alvo.
O guerreiro grego foi um dos primeiros a sacar a espada. Mal o oponente atacou e o sangue jorrou do falso Thror. O oponente riu de satisfação do golpe, quase que com um mórbido prazer. E sacando a espada gritou:
-Por Ares, sangue será derramado!
-É! – concordou Thror – E ele será seu por usar o nome de meu deus em vão! Ele guia só os fortes e rígidos!
E desviando do ataque que vinha do alto feito pelo seu reflexo, Thror aproveitou a brecha na luta e enfiou a espada na barriga do oponente. O reflexo gemeu de dor e caiu ao chão, se tornando pó.
Já Lacktum, estava com olhos cheios de fúria. Preparava uma magia se afastando do reflexo, quando este soltou:
-Create a great deal of energy! Fiery enough get a life!
Com isso surgiu um raio de energia, como um chicote, na direção de Lacktum. O golpe arcano não acertou em cheio o mago, mas mesmo assim o feriu gravemente. Como uma resposta ao ataque, Lacktum soltou então sua magia:
-That art becomes weapon for my victory. May your strength give me the real power.
O golpe acertou seu alvo, mas não foi fatal. Pois da palma da mão de Lacktum, saltou uma pequena seta de pura energia metamágica. E como uma pequena faca lançada no ar, atravessou o peito do inimigo, explodindo em uma nuvem de energia.
Seu reflexo parecia que tinha olhos menos vingativos. Pareciam ser bons, justos e sem raiva. Como se nunca tivessem sido corrompidos pelo mal do passado de um Van Kristen. Tudo aquilo que o jovem arcano perdeu.
-Van Kristen! – disse a replica – Não prossiga com sua vingança! Isso trará mais do que imagina...
-Eu vim de muito longe para voltar atrás! E se você realmente possuir parte de minhas memórias, como parece, sabe muito bem disso! Nem eu mesmo poderei parar o que esta para acontecer!
Enquanto isso, Hugo e Richard tinham tudo sob controle. O primeiro preparava uma magia cuidadosamente, enquanto o segundo já conjurou uma coruja para atrapalhar os oponentes refletidos. E quando estes os reflexos se viram livres do animal voador, viram o ar ser riscado por uma faixa de luz arcana.
-Saia da frente Richard!  Cio che emerge dalle me mie mani magiche. Come un fiamma viva.
A chama tomou conta das mãos de Richard e preencheram o espaço de suas cópias. Elas queimaram então com facilidade, sendo reduzido a pó.
Federick era o mais aflito entre todos. Afinal, não derrotou seu reflexo rapidamente como Thror ou poderia ser tão engenhoso como Hugo e Richard. Ele estava com problemas em relação ao seu combate com o reflexo e já havia sido ferido.
-Então príncipe – começou a falar rindo reflexo de Federick – o que vai fazer? Desistir de combater? Vamos Federick... Não banque o bravo... Não para mim... Ou já se esqueceu de seu irmãozinho?
Federick então segurou com tamanha firmeza sua espada, que homem algum poderia lhe tirar a arma. Recitou então as seguintes palavras:
-Minha espada é a ruína do inimigo! Os demônios perecem sob seu fio! Em nome de Cernunnos e Ceridween volte ao mundo que lhe pertence criatura do mal!
Foi quando a lamina do paladino se encheu do brilho de sua alma. Um brilho azul cálido e vibrante, como pequenas fadas na empunhadura da arma cobriam toda ela. E então esse brilho riscou o corpo refletido, o acertando em pleno ar.
O reflexo gritou. Sua dor era angustiante, mas ele parecia possuir uma vitalidade única. Vitalidade essa, que fez a copia sobreviver ao golpe destrutivo.
Halphy conseguiu enganar seu reflexo. No momento em que ele viu a ladina original vindo em sua direção, se abaixou prontamente para não sofrer o ataque preciso. Mas com um salto, a ladina obteve as costas de sua inimiga livres para um golpe certeiro. Um golpe extremamente letal.
-Argh! – gritou o reflexo pela dor tremenda causada pelo virote que Halphy segurava contra o seu pescoço – Não faça isso. Você ainda se arrependerá de estar trilhando esse caminho.
-Quem se arrepende é fraco – falado isso, mais um deles se tornou nada mais do que parte do chão do lugar – Bem mais um se foi. Faltam dois.
E era isso que Lacktum estava prestes a resolver. O arcano se colocava numa pose de superioridade contra sua copia, apesar dos ferimentos. Esfregando as mãos novamente preparava uma nova seta de energia, quando ouviu seu reflexo recitar.
-Come to me under the salamander. Powers of the elementals of fire defend me.
Então se viu surgir chamas das palmas do falso Lacktum. Uma pequena chama que se tornou fogo vivo, na forma de um tufão que cobria uma boa parte do salão. Quase atingindo outros no lugar. Mas diferente do arcano ruivo ele se preocupava com a vida de seus companheiros. O reflexo foi bem sucedido em termos, já que Lacktum foi realmente atingido, mas a língua de fogo só acertou sua perna, o que significava que ainda tinha condições de lutar. O reflexo então bateu as mãos como gesto para a magia cessar. Assim todas as chamas sumiram, como se uma vela que acabou de se apagar.
Quando a luz do lugar diminuiu, o reflexo constatou como tinha sido tolo. Ele não quis afetar os companheiros de Lacktum, mas acabou por não reparar que o jovem mago preparava um ataque com a besta. O original tinha satisfação no olhar.
-Te vejo no Inferno!
Novamente um virote zuniu pelo lugar. O peito da copia havia sido trespassado pela seta, assim como uma espada atravessa tecido fino. Lacktum viu seu reflexo cai ao chão se espatifando em vários pedaços e depois se tornando pó puro. Então ele pode reparar na dor que afligia sua perna. Parte do tecido havia se fixado na perna do arcano a devido alta temperatura da magia. Ardia demais aquele golpe de fogo também.
-Maldito! – falava enraivecido o jovem enquanto colocava a mão na queimadura.
Agora Thror iria ajudar Federick. O paladino continuava com dificuldade em derrotar o oponente, pois o golpe que sofreu sangrava muito e o deixava cada vez mais fraco. Quando o reflexo se preparava para golpear o guerreiro sacro, sentiu o aço cortando em forma vertical, entre o ombro e a cabeça. Quando isso ocorreu, foi possível ver que eles não tinham órgãos. Eles eram puro reflexo, puro vidro.
Foi então que algo ocorreu: as criaturas refletidas começaram a se esvanecer. Como se nunca estivessem estado ali. Mesmo aqueles que se tornaram pequenos montes, como foi o caso da copia de Thror.
Quando o bater de armas terminou, os jovens aventureiros puderam respirar aliviados. Todos colocavam suas armas em suas bainhas ou aljavas, e reparavam o dano sofrido no combate. Foi realmente difícil uma batalha contra eles mesmos.
O paladino Salles então foi agradecer ao grego Tzorv:
-Muito grato guerreiro! Nunca pensei que viria em meu auxilio. Pensei que tivesse algum tipo de desavença comigo. Apesar de sermos diferentes, como o reconheceu tão rápido?
-Hein!? – esbravejou o grego em uma careta mal feita – Hã! Acho que foi pura sorte mesmo.
Federick se lembrou que não lidava com um espírito comum. Era uma criatura que tinha na batalha seu maior prazer. Saiu de perto de Thror em seguida. Ele ignorou o guerreiro da cicatriz por um bom depois disso.




[1] Energia usada nas magias. Podem ser de origem arcana (que provém o poder através de sua vontade) ou de origem divina (que é a energia cedida pelos deuses).

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

(Parte 5) Capítulo Cinco: Pesadelo



No navio, Thror e Gor treinavam com pedaços de madeira. Assim não se feririam de verdade. Mas mesmo assim, ambos precisavam mostra um ao outro toda a força de seus corpos. Os homens apostavam em qual dos dois e Halphy recolhia o dinheiro, é claro.
Após muita lutar, Gor venceu. E Halphy ganhou uma boa grana com isso.
Os dois então se colocaram na beirada do navio suando como dois cães que são atirados ao mar. Eles riam, como se ao invés de estarem treinando, estarem passeando por um belo lugar. A ladina só pensou consigo mesmo, que aquilo só poderia ser coisa de homens.
O guerreiro inglês então olhou para a cicatriz na cabeça de Thror e perguntou:
-Onde arranjou essa marca homem?
-Não sei... Mas nunca pude reclamar dela. Pelo menos não dói.
-Só por não se lembrar de como a obteve não significa que seja uma boa coisa. Feridas nunca são. Talvez quando você souber o motivo dessa marca vai doer mais do que imagina.
-Mas pelo que meu pai me disse era boa sim.
-Seu pai?
-Sim, meu pai adotivo.
-Que coisa... E qual é seu nome?
-Orfeu.
-Como das antigas historias gregas – Gor ficou de costas para o mar e continuou a falar – Você sabe que ele perdeu tudo que amava.
-Pensei que ele tivesse perdido só a mulher.
-Mas era isso que ele perdeu – se aproximando do grego, Gor falou para ele – Algumas vezes, é bom não se lembrar de certas dores, e de onde elas vieram.
Então, o inglês foi andando calmamente em direção ao seu quarto. Halphy foi em direção do grego.
-Sabe que até que ele tem razão Tzorv. Se você não se lembra do que ocorreu com você não ficará triste com as dores passadas. Viu só? Não é de todo mal não ter memória de seu passado.
Thror se colocou na frente da jovem em um salto só. Parecia ameaçador. Mesmo não sendo tão serio quando precisava.
-Se você tivesse um filho... Ou uma mãe que amasse muito... E nunca soubesse dele ou dela... Até ser tarde demais, você se sentiria bem assim?
A jovem se calou imediatamente.

O mago de sangue nórdico já estava acostumado ao navio, e o seu vai-e-vem não incomodava mais seu estomago. Foi se deitar em sua cama improvisada com a finalidade de assim ter uma boa noite de sono. Não foi o que houve.
Ele nunca esteve ali, mas reconhecia muito bem aquele lugar. Era um devaneio que sua mente criava, pois, não era realmente seu castelo. Fragmentos de uma memória corrompida. A dor e o sofrimento criaram aquela paisagem ilusória que lhe trazia tanto jubilo... E trevas.
Era um dia que ele conhecia bem. Um dia nublado, cheio de nuvens negras. Nuvens que pressagiavam o fim dos tempos. Tempos felizes para Lacktum. Tempos em sua casa e terra natal. Cada nuvem criava um temor no coração, pois ocorreu naquele chão, que escorreu o sangue de inocentes.
Ele se lembra de sentir a agonia no coração quando acordou. Como se alguém atravessasse uma lâmina em seu peito, sem que ninguém tivesse adentrado o seu quarto. E essa arma dilacerou seu coração como se acertasse os seus sentimentos por seu pai, por sua mãe, sua irmã e sua amada. Aquilo que muitos chamavam de uma, agonia no coração, mas que muito atendemos tarde demais.
Mesmo assim, despertou pensando em ir até a casa de Lirah Lugarao’Céu. Colocou uma roupa bem simples de passeio, com suas botas de couro surradas e o cinto que ganhou de presente de seu pai. Parecia tão feliz, mas a agonia no coração o consumia. Seus pais estavam bem: ele os havia visto a mesa de café. Quando passou por eles, sua mãe soltou, com um sorriso resplandecente como o sol. Perguntou ao filho apressado, aonde iria. Verei minha amada hoje e comerei em sua casa foi sua resposta enquanto passava correndo pela sala. Enquanto isso, os pais riam pela atitude frenética e feliz dos jovens amantes.

Era só sua alma tentando lhe pregar uma peça. Seu mau agouro, sua agonia, não seriam nada. Ele se espantava demais com historias de magos e bruxas, presságios e oráculos. Seus pais estavam bem e com certeza veria o sorriso de sua amada rindo de seus temores tolos.
Ele cantava enquanto caminhava sobre a neve e a grama. O inverno estava se fortalecendo naquelas terras, mas era primavera no coração de Lacktum. Seus pés amassavam a neve, como crianças que correm fugindo das outras, como parte de uma brincadeira. Seu rosto mal sentia o frio daquele lugar, enquanto atravessava o campo. Ele cantava:

Oh, linda! Minha menina,
me dê a sua direção
Oh, linda! Minha pequenina,
me dê o seu coração

O sorriso da garota fazia o sorriso dele dobrar o tamanho. Nem mesmo uma ninfa o faria esquecer aquele rosto. Mesmo quando ela reclamava da franja natural em seu cabelo, ou quando ele se emaranhava criando pequenos chofres em sua cabeça. Era como se ele visse uma beleza natural, tal como um cavalo de pele branca saindo de um bosque ou as águas límpidas e claras de um rio. Em seu coração só havia primavera, trazida pela presença dela nesse mundo.
O campo já tinha sido atravessado. Faltava pouco até encontrar Lirah. Ela não tinha grandes posses, mas não se importava com isso. Menos ainda seus pais, amigos da família dela. O que importava era acabar com a agonia em seu coração. O temor tolo que os amantes sentem por puro amor.
Ele teria que subir a colina e poderia ver a casa de sua amada. Aquela que trouxe primavera ao coração do jovem nobre. Com dificuldade – mesmo para um rapaz – ele subiu a colina com esforço, pensando em como seria recepcionado por Lirah.
Quando ele chegou ao topo da colina... Seu coração se tornou inverno.

 Sua visão mudou. Como sempre no mundo onírico, nossa mente muda drasticamente. Com isso, nossa consciência dos fatos, de forma aleatória. E por aqueles instantes, mesmo que seja algo real ou ficção, um fragmento do passado ou criação bizarra da alma, é possível crer que esses fatos são reais. E Lacktum odiava aquele pesadelo mais do que tudo na vida.
Ele viu o castelo, agora em chamas. As nuvens negras lambiam o céu, com tons vermelhos e amarelos provenientes do fogo que parecia vir das torres, mas para o jovem, vinham direto do Inferno. Os casebres eram destruídos e consumidos bem mais rápido que as torres do castelo. Surgiam gritos de crianças no meio das chamas, clamando por piedade que não surgia.
Quem foi o demônio que começou aquelas atrocidades? Qual o motivo de tantas mortes? Ele não recebia respostas. Lacktum estava preso no meio do turbilhão que era o centro daquela chacina.
As mulheres clamavam que não tocassem em seus filhos. Elas eram ignoradas e além de terem seus rebentos mortos, ou tomados de suas mãos, tinham seus corpos abusados pelos saqueadores. Os velhos clamavam por suas famílias, ou suas vidas, em esforço inútil. Mesmo os soldados não conseguiam enfrentar a força sobrenatural do inimigo, esmigalhando as esperanças do jovem.
Lacktum estava amarrado a um pedaço de madeira, de maneira a parecer crucificado. Suas pernas foram feridas, o forçando a ajoelhar na neve que acabara de cair. Seu cabelo cobria sua visão parcialmente, mas não impedia nem um pouco de ouvir os gritos e o barulho ao seu redor. Ele preferia a morte ao invés daquilo.
Ele ouviu passos calmos se aproximando. Pensou que poderia ser um anjo querendo o levar para o além, mas descobriu que era o demônio que perpetrou tudo aquilo. O homem jogou ao chão um volume esférico embrulhado em um saco de couro. Puxando o cabelo de Lacktum, forçando a cabeça dele para trás, ele cochichou no ouvido do pobre sofredor que o saco continha a cabeça de seu pai.
O rapaz não achou que fosse verdade. Mas então notou que mesmo dentro do saco, vazava um liquido negro sobre a neve. Ele notou que aquilo era sangue quando viu que não era negro o tom na neve... Era vermelho escuro. Vermelho sangue.
Ele não agüentava mais os gritos ensurdecedores de dor e sofrimento. Não conseguia mais olhar as cenas demoníacas que foram forjadas ali.
Foi então que homens trouxeram a mãe de Lacktum – cada um segurando os braços da jovem senhora – completamente desacordada. Lacktum não achou que iriam o torturar tanto assim. Arrastando a pobre mulher como um saco de batatas ele pedia clemência por ela.
Foi quando notou que o homem iria cochichar novamente. Lacktum sentiu medo e ódio de ouvir aquelas palavras que eram:
-Você é aquele quer irá sofrer mais entre todos os do sangue Van Kristen, orgulhosos de seu poder! Afinal, eu matei seu pai, torturarei sua mãe e irmã, mas você... Você viverá para lembrar e sofrer.

Lacktum desperta no navio. Ele é forçado a acordar, depois de um terrível pesadelo que remontava ao seu passado.
Foi quando segurou a adaga que recebeu de seu pai, próxima ao peito, como se fosse uma lembrança boa. Engraçado como uma arma pode remontar a um passado tão bom. Aquela arma foi um presente de seu pai para se proteger, assim como seu brinco. Ele uma vez disse a Lacktum que quanto um homem o matasse, a adaga iria brilhar como a luz de uma estrela, quando este se aproximasse dele. Na época, Lacktum achava que seu pai era invencível. Como pensamos, quando somos crianças.
Ele então colocou sob seus olhos, querendo impedir as lagrimas. Então se lembrou rapidamente do dia em que a primavera se tornou inverno. O inverno sumiu, mas deixou somente a escuridão que pairava sobre suas lembranças.
O jovem mago se levantou. Chegou ao convés do navio. Olhando para a costa grega que surgia na sua frente, recitou:

-Oh linda! Minha menina...

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

(Parte 4) Capítulo Quatro: "Eu sou um passageiro..."



O pirata Joseph era conhecido por ser detentor de um talento único com línguas. Por isso muitos o chamavam de Boas Línguas. O problema é que muitos acreditavam que ele era um assassino terrível que tirava a língua de suas vítimas. Por isso muitos acreditavam que ele era a mais terrível criatura do mar mediterrâneo.
Mas existem lendas que falam sobre outras das habilidades do navegador. Dizem que ele teria o poder de navegar muito mais rápido que qualquer ser vivo pelas ondas do oceano através de magia negra. Alguns contam que ele teria feito um pacto com uma entidade demoníaca que existia abaixo do mar, outros, que ele encontrou a poção da vida eterna. O que poucos sabiam é que na verdade Joseph havia feito sim um pacto, com uma temível bruxa que vivia numa ilha pouco conhecida pelos humanos comuns.
Onde ela o conheceu, ou como se desenrolou isso não cabe a essa história contar. Só saibam que esse pirata terá um papel importante na vida desses heróis, pelo menos mais uma vez antes dela terminar.

Os dias em um navio eram bem diferentes do comum para boa parte deles. Com raras exceções, como certo grego, muitos não se acostumaram bem com a vida no mar. E ele gostava daqueles dias cheios de vida e cantorias. Tanto que o próprio Thror gostava de cantar uma determinada canção:
Eu sempre serei um passageiro
Sempre serei aventureiro
Quem não quiser viajar
Nunca verá o mar
Eu sempre serei um passageiro
Sempre serei guerreiro
Quem não quiser navegar
Nunca saberá o que é amar
E muitos que o ouviam, queriam saber de onde ele escutou aquela música. E Thror dizia de um navio antigo com um desenho de um olha a sua frente. E uma palavra surge com isso na cabeça de Thror. Argos[1].

Eles nunca haviam subido num navio; ao menos alguns deles. Halphy estava acostumada a viajar pelos mais diversos lugares, enquanto Thror, não se lembrava de muita coisa a não ser que era de um parente distante dos espartanos – mas sabia que viajar também estava em seu sangue. Richard e Hugo se uniam em conversas longas sobre como era lindo o mar e que criaturas viviam abaixo daquelas mágicas e misteriosas águas. Já Lacktum passara mal nos primeiros dias e soltava constantemente o conteúdo de seu estomago no mar.
Lacktum tinha raízes nórdicas. Seu ancestral, Guilherme era saxão, mas sua mulher era uma filha de viking. Portanto, acreditava que seu sangue de marinheiro ressaltaria no mar. Ledo engano...
No navio os membros do grupo passaram cerca de três dias procurando por um vislumbre do litoral. Sabiam que isso demoraria a acontecer, mas não perdiam as esperanças que alguma coisa boa estava por vir. O grupo também cometeu um ledo engano.
Em uma manhã, todos despertaram pelo barulho no convés. Federick foi o primeiro, mesmo não sendo o único a despertar, chegando ao topo das escadas mais rápido. Lacktum correu em seguida notando o movimento no navio. Os outros foram despertando aos poucos, como se despertos de sonhos bons.
Ao chegar próximo de Joseph, o paladino Federick, iria perguntar o motivo do rebuliço quando notou no imenso mar azul, uma mancha vermelha escura tão grande, que se poderia ver a léguas de distância.
-Pelos chifres de Cernunnos! – disse um espantado Federick – De onde surgiu isso? É sangue não é?
-Calma lá, – disse Joseph, olhando de canto de olho para Federick – estrangeiro louco! Não sabemos se é sangue mesmo! – Joseph então dava voz de comando para que o navio contornasse a mancha, mas se aproximando o bastante para verificar.
Pouco depois, o navio chegou ás bordas da mancha vermelha. Joseph pediu uma bacia. Pegou uma corda, que achou no convés e amarrou na pequena bacia que lhe cederam. Jogou em direção a mancha. Quando notou que estava cheio, ergue sem ajuda alguma o pesado recipiente.
O mago inglês era o único que não olhava o fato com temor. Ele mal conseguia olhar o fato, para dizer a verdade. Ele ainda vomitava vez ou outra.
-Se fosse mulher - disse Halphy com um sorriso malicioso – poderia imaginar algumas besteiras sobre você...
Os piratas ao redor riram, apesar da situação tensa em que se encontravam
-Hã? – grunhiu o mago que acabara de soltar parte de seu café da manhã ao mar.
Thror então inquiriu Joseph:
-O que isso capitão!
-Diga, isso é sangue ou não? – perguntou Federick aflito.
Joseph ignorou as perguntas, afundando a mão na bacia e sorvendo um pouco daquela água avermelhada na boca. Era possível sentir um gosto quase metálico na boca ao tomar daquela água. Olhou para os homens do navio e os aventureiros, pronto para lhes dar o parecer sobre aquilo.
-Mexam esse navio – disse o capitão – o mais rápido possível. Seja lá o que tenha causado isso, fez sangrar muitas pessoas ao ponto de colocar uma mancha de sangue em pleno mar!
Com as palavras do capitão, os homens tomaram suas posições como se tivessem fugindo de um lugar, onde acabaram de encontrar o demônio em pessoa. Todos se espantavam com o ocorrido, mas só sete figuras se mantinham olhando aquelas manchas.
-O que teria feito isso? – disse Halphy com a mão direita sobre o próprio pescoço, como se tentasse desamarrar um nó invisível.
-Já ouvi lendas – começou Hugo a dizer – sobre serpentes marinhas e terrores submersos na água, esperando para destruir navios que se atrevem a navegar em seus territórios, ou quando, simplesmente se enfurecem com algo. Ou até mesmo, os monstros criados pelas poderosas divindades que controlam o mar e as águas. Dizem até que esse é o motivo de nenhum homem conhecido cruzar os mares que ficam a Oeste.
Gor se senta como puxando lembranças de sua mente embaralhada.
-Poucas vezes – disse em tom melancólico – sai de meu reino natal. Muito menos, sai em alto mar. Isso era coisa de James e Galtran. Será que já enfrentaram tal mal em suas vidas?
Todos estranhavam as palavras de Gor. Ele falava sobre as pessoas que eles nunca ouviram antes. Mas já estavam se acostumando com os pequenos devaneios do guerreiro inglês.
-Mas afinal, o que teria causado isso? Disse Federick voltando ao assunto.
Todos se olharam com rostos de interrogação e medo. Foi então que Lacktum falou algo que não tinham notado. Depois do último vômito, claro.
-Bem – disse se recompondo o mago – vocês repararam que apesar da imensa mancha de sangue, não havia um corpo sequer na água? Pior que isso – continuou com um tom um pouco mais forte – aquele sangue em pleno mar era de pessoas em um navio grande. Onde esta o tal navio? Acho que o medo do feiticeiro sobre males antigos no mar é justificado.
Ninguém se pronunciou sobre o que achava daquilo.

-Olhe – disse o jovem feiticeiro, dias depois – uma ilha capitão!
-Se preparem para sermos abordados – disse Joseph comandando seu navio.
-O que quer dizer com isso? – perguntou Halphy estranhando as palavras do capitão.
-É isso mesmo capitão... Qual o problema?
Lacktum só conseguiu soltar um grunhido de vômito.
-Vocês logo vão saber.
Foi então que Halphy notou, ao lado do navio, um estranho fluxo na água. Inicialmente, achou que fossem golfinhos. Já viajou de navios e conhecia esses animais lindo que muitos achavam que fossem monstros. Mas foi então que notou como eram desajeitados e granes as criaturas para serem seres do mar.
Com um simples salto, os estranhos saltaram para dentro do navio. Cada um em partes diferentes, como se fosse um ataque no navio Salva Ventos. Mas não era.
As criaturas eram grandes e brutais. A pele de cada um estava cheia de verrugas escuras e nojentas. Suas roupas que eram feitas de algas e conchas sujas, traziam um ar de maresia. Seus cabelos negros eram desgrenhados e sebosos. Cada um tinha uma lança que colocavam ao lado de seu corpo. Eles olhavam muito bem ao seu redor.
Os companheiros que se uniram para essa viagem olhavam já se preparavam, aos atos dos quatro seres. Lacktum e Halphy olhavam atentamente os ogros.
Já ouviram falar em ogros. Criaturas dos contos infantis, quase sempre simbolizavam maus costumes ou a crueldade inerente nos homens. O que todos sabiam, é que ogros possuíam um instinto tribal. Gostavam de matar e pilhar por diversão. E estranhamente esses ogros não atacaram, simplesmente abordaram o navio.
Os marinheiros não esboçaram seque um sinal de agressividade contra os suposto invasores. Mas sim estavam preocupados com o que estava para acontecer.
Os guerreiros Thror e Federick, já estavam preparando para sacar suas espadas. Lacktum começava a conjurar uma magia com as mãos estendidas. Halphy se agitava com a adaga nas costas.
-Não ataquem – esbravejou Joseph aos aventureiros, estendendo a mão que antes estava no timão – essas criaturas vieram vigiar o navio até a ilha! Não se preocupem garotos!
Um dos ogros chegou até Joseph e começou a falar em uma língua incompreensível. Os dois discutiram um tempo que parecia durar uma eternidade. Por final, o primeiro pulou sozinho no mar.
Após isso, Joseph fez o navio atracar na ilha, num improvisado cais de madeira.
A madeira era fraca, mas por algum motivo, agüentava os grandes e pesados ogros em cima de seus alicerces. Uma ponte bem feita, apesar de tudo. Era possível notar que a ilha pequena: do tamanho de um pequeno feudo ou castelo. Possuía uma colina que terminava num arremedo de morro ou montanha. Era possível ver um casebre naquela direção. E uma fumaça verde saindo de sua chaminé.
Isso era possível ver corretamente por todos, exceto o paladino Federick e o druida élfico Richard. Estes foram impedidos de sair do navio, sem nem ao menos explicar. Eles foram impedidos de adentrar a ilha, sem a companhia de seus amigos por especificação de Joseph. Os dois se recusavam a deixar seus amigos adentrar a ilha, sem a companhia deles. Foi então que o capitão pirata pediu a Thror que convencesse os amigos a permanecer no navio. Mas o motivo era uma incógnita ainda.
-Eles não devem ver – começou Boas Línguas – o que a ilha pede para aqueles que a descobrem.
Thror então, com uma ajuda providencial de Lacktum, convenceu seus dois companheiros a se manterem no navio. Então, todos se dirigiram a ilha, exceto o paladino e o druida.

Havia uma vasta vegetação até chegarem ao casebre. Porém, quando se aproximavam da única construção visível da ilha, notaram um pequeno altar no que seria um toco de árvore. Porém o centro do toco tinha inúmeras manchas de sangue. Ele era velho e apodrecido, com um tom macabro, como se fosse criar pernas a qualquer momento. A vegetação ali era mais rala, tinha um tom verde escuro e não possuía flores.
Do casebre surgia uma figura negra coberta por um manto preto com detalhes nas mangas em um dourado fraco. Mau era possível ver seu rosto, quanto mais suas mãos. Já seus pés eram visivelmente deformados: longos e grandes, pareciam constituídos por escamas. Era possível confundir aqueles pés com as patas dianteiras de algum lagarto de grande porte. Ela aproximava com um cheiro de maresia, e de seu manto, surgia água que escorria em direção do solo.
A figura negra começou a falar mais como um guincho do que uma voz de verdade.
-Tragam o sacrifício adequado, homens de Joseph.
Quando Halphy e Lacktum ouviram sobre o sacrifício, seus rostos mostraram que captaram o motivo de deixar o druida e o paladino no navio. Aquela mulher devia se uma bruxa, e como as lendas contam para conceder um favor elas exigem em compensação um tributo, um sacrifício. Mas que sacrifício seria concedido a essa bruxa marinha pelo pacto que fizeram? E que favor foi feito para Joseph para ter de sacrificar – fosse o que fosse – naquela maldita ilha?
Foi então que todos viram que os marinheiros traziam uma caixa que se balançava muito, e de seu interior surgia um gemido de um animal. O som parecia aumentar cada vez que se aproximava do profano altar. Thror já tinha noção que se tratava de um bode, quando a estrutura de madeira chegou aos pés da bruxa. O grego só não tinha certeza se o bode gritava por medo do lugar, ou talvez, que a pobre criatura já tenha se conscientizado o que iria acontecer.
A caixa aberta mostrava o pobre animal se debatendo contra a força excessiva dos marinheiros. O pobre bode gemia, mas era inútil para os ouvidos e corações dos homens do mar. Ele seria a oferenda de um sacrifício.
Todos olhavam com expectativa. Enquanto Halphy colocava as mãos sobre os olhos, Thror olhava com indignação o ato vil para com o animal. Gor fitava a cena com raiva, colocando a mão na arma, como se impedindo que a lâmina, encontrasse o pescoço da figura encapuzada. Só Hugo e Lacktum permaneciam impassíveis a cena, como se acostumados. Realmente, não estavam confortáveis com aquilo, mas já conhecia os ritos das religiões pagãs. Sangue e vísceras eram cenas comuns entres os pagãos sem cultura, pensavam eles.
O arremedo de mulher segurou a cabeça do animal com uma força tremendo, mesmo para uma criatura tão curvada, e aparentemente, velha como ela. Em seguida, como se quebrasse um graveto velho e fraco, ela desloca o pescoço do pobre animal com a força de um único punho. Continuando seu rito profano, a figura arrasta o pequeno corpo no altar, como se joga um saco de alimentos ou bugigangas, deixando seu pescoço dependurado sobre a mesa do holocausto. Por último, com suas mãos com dedos que lembravam lâminas, cortava a carne do bode e consumia os fluidos internos da pobre criatura. Era como se bebesse de uma fonte de água límpida. Mas aquilo era sangue.
Ela então fitou rapidamente, Joseph.
-Você já cumpriu seu dever dessa vez Joseph – disse a figura, retirando seu capuz. Foi então possível ver que ela não era velha, como esperavam. Na verdade era uma jovem moça. Ao menos simulava ser nova, alguns pensavam, parecendo beirar seus vinte verões de vida, no máximo.
-Muito bem – disse Joseph com tom baixo, quase triste – nosso acordo esta cumprido por esse ano.
-Uma noite se passará e encontrará as costas gregas em segurança.
Thror ficou confuso. Navegavam pelo mar do norte da França, e mesmo que estivessem em grande velocidade e não soubesse muito sobre navegação, tinha certeza que demoraria mais que um dia para chegarem até as terras dos deuses olímpicos.
-Que a Arte[2] obscura o acompanhe, Boas Línguas – disse a jovem bruxa.
Gor notou então que Joseph virava as costas com pressa, como se quisesse fugir da ilha o mais rápido possível. Ele não queria ver mais o corpo do animal estendido no altar de madeira. Muito menos, a agora, jovem bruxa.
Diga Joseph – perguntou o jovem Lacktum intrigado – afinal, para que serviu tudo aquilo? Quem é a aquela bruxa? Qual o motivo de viver aqui, isolada? Qual sua ligação com ela? E afinal, que ilha é essa?
-Bem – o capitão tentava trazer a tona varias memórias – aquele foi o rito daquela mulher macabra que ajudo a cumprir todo o ano. O nome dela é Angélica, e ela é denominada como uma bruxa do mar; criaturas que entregam seus espíritos aos demônios ou senhores das águas e dos oceanos. Essa ilha já foi morada de um poderoso cavaleiro caído. Kalic Benton, se me lembro bem do nome dele. Toda ela emana energia negativa que pode ser usada para controlar uma pequena fração do tempo e espaço, por isso, amanhã de manhã estaremos no litoral grego. Eu descobri a ilha... Por acidente... Pelas minhas navegações! A bruxa me concede a habilidade de viajar mais rápido com meu navio desde que eu sacrifique um animal que ela me pede. Normalmente esta em lugares difíceis de chegar e que ela exige que sejam exatamente aqueles! E – por fim – fazendo esse sacrifício ela obtém algo que ela chama de mana, que nunca compreendi direito, mas a ajuda ficar jovem novamente.
Lacktum compreendeu tudo. E até mesmo que Joseph se negou a responder uma das perguntas: qual a ligação do capitão com a bruxa do mar, Angélica. Parecia haver algo a mais nessa história. Apesar de que, o vinculo poderia ser qualquer um. Mas fosse o que fosse não seria algo bom.
Mal sabiam que aquela ilha seria uma peça do destino deles. Mas por enquanto, o druida e o paladino esperavam o grupo no navio. Halphy olhava em direção do mar, tentando esquecer por instantes o que vira minutos antes e o resto do grupo acompanhava o capitão, junto dos marinheiros.
Lacktum se perguntava se veria novamente a ilha. Ele iria preferir ver, se soubesse o que aconteceria. Parte de seu futuro estava nela.


[1] Existiria nas lendas gregas dois Argos: um deles era um monstro com cem olhos que servia a Hera. O outro seria a embarcação ao qual Teseu se lançou ao mar com seus companheiros atrás do Velocino de Ouro. Havia vários heróis presentes no navio, entre eles o próprio Hercules. Por conta do nome do navio os seus ocupantes eram chamados de Argonautas.

[2] Esta referindo a magia com a Arte. Arte obscura seria referente a magia negra.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

(Parte 3) Capítulo Três: Uma nova saga começa



Todos estavam exaustos, mas Gor não. Isso se devia ao fato que ele era um experiente soldado, pelo que dizia. Mas mesmo assim, ninguém compreendia como ele se tornava uma verdadeira tocha de esperança entre os jovens. Lacktum olhava para ele com certo escárnio. Já Thror conseguiu uma amizade instantânea com o guerreiro, mas ele de um jeito ou de outro fazia amizades com qualquer um. Prova disso era a amizade que ele conseguiu com o mago ruivo. Mais isso pelo grego do que pelo próprio mago. E no final, Lacktum pensou que isso seria até que bom. Afinal, um mago sempre precisa de uma boa proteção física.
Eles passavam por uma região cheia de árvores e montanhas. Havia lendas que essa região era cheia de criaturas, monstros e fadas. Ninguém sabia como elas eram, nem como atacavam, mas o grupo pensando sobre isso não acreditavam muito que existiam tais seres. Portanto começaram a caminhar em direção a região montanhosa e de mata fechada. Pois mesmo que os encontrassem, uma boa lâmina ou uma magia bem colocada seria o necessário para acabar com qualquer ser que colocasse no caminho deles.
O grupo inteiro caminhou por muito tempo por toda aquela região. Isso fazia com que todos conversassem um pouco sobre si. Richard sempre falava muito sobre si, mostrando um grande carisma para todos. Era clara a atenção que Hugo e Halphy cediam às palavras do druida. Conseguia ser mais carismático que o próprio feiticeiro, que deveria ser mais fluente em se comunicar com os outros. Afinal, seus poderes provinham de seu autoconhecimento e sua vontade de compreender os mistérios dos outros. Alguns diziam que isso vinha de sua herança dracônica, alguns acreditavam. Outros diziam que provinham de forças celestes. E alguns poucos, acreditavam surgiam das fossas infernais.
E então depois de tanto caminhar, decidiram acampar no meio da mata.
Enquanto Thror e Gor pegavam a comida – que poderia ser toda a sorte de animal ou fruta que encontrassem – Halphy, Federick e Richard preparavam as coisas para assar. Já Hugo e Lacktum foram convidados a ajudar a montar as barracas. Convidados, pois não queriam saber de fazer nada naquele acampamento improvisado pelo que diziam. Mas as mãos de Gor poderiam ser mais mágicas do que as dos arcanos, quando se tratava de convencer as pessoas.
            Depois de um bom tempo Gor e Thror voltaram, exatamente quando a madeira estava pronta para assar os alimentos. Eles traziam um pequeno javali com eles. Thror se gabava de ter capturado a criatura, enquanto Gor a assustava. Mas nada difícil para caçadores experientes.
            -Tão experientes que demoraram tanto para voltar até aqui – soltou as farpas o mago ruivo.
            -Veja se consegue terminar essa tenda – falou apontando para o mago Gor.
            -E o que eu ganho com isso?
            -Não leva um soco meu...
            -Não me convenceu...
            Quando falou isso, Lacktum pegou e saiu de perto da barraca que estava montando. Sentou em uma pequena pedra e ficou mexendo em seu grimório. O tomo parecia estar surrado por tanto tempo que estava com o mago inglês. Halphy chegou até o soldado inglês.
            -Calma... – soltou Halphy – Ele é naturalmente chato. Afinal ele é inglês!
            -Com sangue nórdico – gritou Lacktum.
            Enquanto havia essa pequena rusga, Thror fixou o olho em Gor. Richard notou isso rapidamente. E então chegou até o guerreiro grego e começou:
            -Qual o motivo de olhar tanto para Gor? Acha que ele possa estar mentindo para nós quando a estar aqui em nome da Inglaterra?
            -Não é isso... É que eu jurava que o javali tinha ferido o braço dele. Mas agora não tem marca nenhuma.

            Em determinado momento, o mago estava lendo seu livro de magias, se preparando para a manhã seguinte, quando foi interrompido pela ladina:
            -Mago.
            -O que foi ladina? – falou um nervoso Lacktum;
            -Não se esqueça.
            -Esquecer do que? – disse ainda mais irritado.
            -Esquecer da divida.
            -Ora sua... – então o arcano se recolheu um pouco mais.
            Halphy riu do jovem de cabelos cor de fogo. Se o garoto ficava nervoso era por ser orgulhoso demais. E orgulho não servia para nada. Na concepção da ladina, pelo menos.

            Todos estavam sentados na frente da fogueira. Bem perto da chama, exceto o mago que se mostrou até agora, alguém sem vontade nenhuma de criar laços de amizade. Especialmente depois da atitude de Halphy. Mas o resto do grupo, apesar dos terríveis acontecimentos em Starten, aproveitava esses momentos. O que se notava, era que muitos se interessavam pela vida de cada um. Novamente, com exceção do arcano ruivo inglês.
            -Halphy – começou a falar o druida – estava em Starten por quais motivos?
            -Eu? Nada em especial.
            -É mesmo... O que uma moça como você faz em um grupo como esse cheio de homens. Aliás, você não parece ter se espantado com os arcanos e o druida aqui – soltou Gor.
            -E você também não é inglês?
            -Mas eu sou um soldado de longa data!
            -Já entendi! Já entendi! Bem... Além de ser uma artista da vida...
-Uma ladra você quer dizer – soltou Federick imediatamente.
Halphy olhou com uma pequena fúria. Seus olhos denunciaram que sentiu raiva pelo termo usado. Mas não tinha como retrucar, pois o paladino falará a verdade.
-Certo... Uma ladina... Que conviveu muito com magia. Afinal, minha mãe era uma feiticeira.
-Sério? – soltou Hugo, sabendo desse fato.
-Sim. E á pouco tempo, sai de casa, pois minha mãe me pediu para buscar um item de meu ancestral. Um poderoso medalhão que esta em nossa família a gerações. E por isso busco lugares onde existam perigos nesse reino onde possa encontrar desafios dignos do medalhão.
-Muito interessante soltou Gor.
Não era muito bem isso que tinha ocorrido para Halphy estar naquele lugar. Sua mãe era realmente uma feiticeira, mas o modo como soube sobre o item foi completamente diferente do que descreveu. Há certo tempo atrás, ela foi visitada por um poderoso ser em seus sonhos. Esse ser era seu ancestral, um poderoso elfo. Ele lhe contou sobre um item que concederia ao seu detentor, poder para dominar qualquer ser vivo. O que fez com que ela enfrentasse tudo e todos, até sua mãe. Mas ela não iria contar tudo isso aos companheiros.

-Mas me diga então Thror, qual é o seu passado? – aproveitou a garota para falar ao grego.
-Nada – soltou Thror.
-Pare com isso fale algo sobre você! – pediu o paladino.
-Mas não tem nada para contar – disse com olhos bem firmes o guerreiro da cicatriz – não me lembro nada de minha vida. Se é que tive algo em minha vida. Fui treinado pelo meu mestre e pai adotivo Orfeu. Só sei que sou grego, pois vivi sempre naquelas terras que ficaram conhecidas pelos espartanos.
-Esparta? – soltou Gor – Quanta glória os espartano tiveram. Nunca pude conhecer um pessoalmente apesar de viver á tanto tempo.
-Acho que mesmo que quisesse não encontraria um deles – soltou novamente o mago das farpas afiadas – afinal, eles sumiram á séculos atrás. Não há relatos sobre esse povo depois de Cristo.
-Ah é lógico... – soltou rapidamente Gor. Ele não parecia constrangido pela atitude do mago. Parecia que havia ficado constrangido por outro motivo.
-Bem, além disso, sou muito bom com forjas – se gabou Thror - Sou muito bom na criação de armas e armaduras. Posso disser que ninguém se compara a mim nessas terras.
-Sabe forjar anéis? – soltou o isolado mago.
-Não isso é muito fresco para uma pessoa como eu.
-Ahh! – soltou em repreensão o ruivo.
Poucos entenderam o motivo daquilo. Hugo e Halphy entenderam, pois com um forjador no grupo, poderiam ser desenvolvidos itens poderosos. O forjador criava um item e o mago iria imbuir poderes nele. Mas isso era comum entre magos jovens e ambiciosos.
-E você, Hugo e Richard me digam por qual motivos estão aqui? – aproveitou a deixa o paladino Federick.
-Não sei quando ao Richard aqui, - começou Hugo – mas eu vim a essas terras por conta de me aperfeiçoar na Arte. E assim me transformar em alguém que possa ter controle sobre meu próprio destino!
-É mais ou menos isso também – falou Richard bem lentamente – tirando a parte meio exagerada sobre controlar meu próprio destino do Hugo.
Alguns começaram a rir. Parecia que todos começavam a criar uma grande confraternização entre eles, naquele lugar escuro e inóspito. Só notaram isso depois que todas as risadas cessaram. Mas foi então que perguntaram sobre a vida de Federick.
-Bem talvez não acreditem em mim... – falou meio constrangido o paladino.
-Ah! Fale logo homem! – falou Gor
-Ninguém vai estranhar o que irá disser – soltou Hugo.
-Talvez não estranhem, mas talvez riam – disse isso enquanto olhava para fogueira.
-Como assim? – muitos perguntaram.
-Eu sou um príncipe.
Alguns olharam espantados, outros riram. O único que não demonstrou nada foi o mago, novamente.
Em resumo, Federick era um de quatro irmãos que seriam príncipes de terras ao extremo leste de onde estavam. Na verdade sabia falar corretamente onde ficava seu reino. Mas o que interessava era o surgimento de uma briga entre os irmãos, que causou a morte de um deles pela mão do paladino. Algo lamentável, que não entrou em detalhes. Ele então, para se redimir quanto a esse pecado, entrou numa cruzada própria para curar as feridas de seu coração pelo seu crime. Para isso, encontrou uma sacerdotisa de Cernunnos que o treinou. Quando parecia pronto para partir, ela lhe disse sobre um imenso perigo que surgia no reino da França.
Nesse momento, nem todos acreditaram, mas todos respeitaram suas palavras. Ele era bem confiável e transmitia uma aura de paz, apesar de ser um guerreiro. Isso demonstrava que era realmente mais que isso: um verdadeiro guerreiro a serviços dos deuses.

Todos iriam parar de conversar, até que alguém olhou para Lacktum.
-Oh ruivo! – perguntou Thror inconseqüente - O que tem para contar de sua vida?
-Nada de mais... – começou Lacktum como se puxasse de sua mente memórias tão terríveis como facas que perfuram o coração – a cerca de um ano vivia num baronato junto a minha família. Meu pai era o dono dessas terras. Todos nós vivíamos felizes: eu, meu pai, minha mãe e minha querida irmã.
-É meio difícil crer que já tenho sido feliz algum dia... – soltou Hugo querendo zombar do jovem de cabelos escarlates.
-Porém, o meu pai foi desafiado por um arcano mascarado – e nesse momento, o mago ruivo tomou um ar sombrio em sua voz, com olhos que quase pareciam querer soltar lágrimas - esse mago enfrentou, não somente ele, mas todo o seu exército sozinho. Ele fez tudo isso, mesmo com um grupo de homens bem armados ao seu lado. Um exército de homens terríveis que invadiu minhas terras. Mas acima de tudo esse estranho queria torturar meu pai, pois ele acabou com minhas terras de forma terrível. Eu me lembro de quando ele deve suas entranhas espalhadas pelas terras que por toda a vida defendeu. Minha irmã e minha mãe tiveram uma morte terrível também. Foram esquartejadas diante de mim enquanto todos destruíam o baronato. Com o fogo crepitando e tudo que eu amava destruído pensei que nada poderia ser pior que aquilo. Ledo engano: ele me falou, enquanto acabava com minhas últimas forças, que deixou o melhor por último. Que não se esqueceu de mim. Que iria me afetar mais do que qualquer um. Ele simplesmente falou que iria capturar minha amada Lirah, minha noiva e acabar com sua vida do modo mais cruel possível. Nunca a encontrei... Tive pistas que ela estaria em Starten, mas pelo que vi eram falsas. Preferiria que fosse viva, mas não alimento vãs esperanças. Mas voltando ao assunto, após ter sido torturado e quase morto, eu consegui fugir. Não me lembro como nem quando. Só consigo me lembrar das dores que senti, assim como das minhas pernas ardendo pelo frio que senti em cada ferida do meu corpo. Essas feridas não chegavam perto do que minha memória forçava a me lembrar. Não me lembro de todos os detalhes, mas sei que inocentes gritavam, fossem homens, mulheres, anciões ou crianças. Ergui-me, no frio daquele inverno moribundo praticamente... Parecendo com um daqueles mortos famintos que enfrentamos na vila de Starten. E após isso, fui encontrado por um velho mago das antigas tradições. Nunca poderei deixar de ser grato por tudo que obtive com ele. Além de conseguir sobreviver aquele período de dificuldades e tratar minhas feridas, o velho me ensinou a como preparar e lançar magias. E então notei que através daquele mago que me ensinou o básico dos caminhos da Arte, eu teria a chave de minha vingança – então, os olhos do jovem ruivo perderam o tom triste e começaram a ter uma força sinistra e louca, um tom maligno – pois onde meu pai falhou, eu venceria. A arma que o mago mascarado possuía meu pai nunca acreditou: magia, mana ou Arte. Era mais mortal que qualquer espada, machado, martelo, clava, lança, maça, adaga, punho ou qualquer coisa que o homem comum jamais desenvolveu. Para enfrentar um oponente de igual para igual, meu pai disse certa vez que o primeiro passo é usar a mesma arma. Assim, um dia vou obter minha vingança!
Quando notaram, Lacktum estava de pé mostrando um ar de loucura único. Todos olhavam com terror para o mago. Mas Gor, que não parecia se abalar com tudo isso olhou na direção do jovem e disse:
-Se me permite só obter poder para se vingar é só parte do que você pretende. Você deve ter uma meta. Por acaso pretende o que?
-Me tornar um mestre do destino.
Muitos ficaram sem entender, entre eles Federick, Thror e Richard. Porém, novamente o feiticeiro e a ladina compreenderam e se espantaram. O que ele pretendia era alcançar um grau de magia que pudesse alterar a ordem de fatos e acontecimentos. Em resumo, algo que os magos quase sempre queriam era dominar o tempo, o espaço e o destino. Ele simplesmente queria dominar o destino de um ser humano. E com certeza serviria para derrotar o tal mago mascarado que ele citou em sua história. Ou quem sabe fazer algo ainda mais ousado. De um modo ou de outro, todos estavam sem vontade de conversar mais.
Quando notaram, todos se cumprimentaram rapidamente para então dormir. Todos exceto o mago ruivo que dormiu como uma pedra e o soldado inglês Gor, que se mantinha desperto. Ele olhou em direção ao caminho que iriam fazer na manhã seguinte. Ele olhava com certo medo do que aqueles jovens poderiam encontrar mais a frente. Algo que talvez não estejam prontos para enfrentar. Mas ele tinha que os levar diante o seu destino, especialmente que sabia o que estavam prestes a encontrar. Desafios que iriam tornar eles em pessoas mais fortes e certas de seu destino... Ou os tornar uma lenda. Fosse vencendo ou perdendo.
-Oh James e Galtran... Como queria que estivessem ainda aqui guiando eles. E a mim. Sinto saudades das discussões entre vocês e a velha Agness Idisamir. Ou das constantes gritarias da boa Meg. Ou quem sabe as idéias sarcásticas de Demetrios D’London. Isso tudo que um grupo possui. Eu reparo que esse grupo tem tudo isso... Mas aquele tempo parece que nunca voltara. Onde estiverem, espero que o Kalidor cuide bem de todos... Se ainda estiverem unidos. Os Imortais nunca serão separados... É isso que falavam as lendas não é? Imortais Esquecidos nunca se separam, mas isso não ocorreu comigo – nesse instante, Gor soltou uma lágrima de tristeza – e quantas lendas surgiram entre vocês. Mas um dia sei que ainda irei encontrar todos novamente. Como daquela vez... Como daquela vez... Como naquela época... Estou velho demais para certas coisas de hoje em dia. Mas qual o motivo de estar rezando para pessoas ainda vivas? Realmente faz muito tempo que estou nas terras desse mundo. Mesmo assim, por Lotar... Sinto muito a falta de vocês. É melhor eu dormir para me esquecer disso.
E enquanto deitava para dormir, se Gor tivesse notado ao seu redor saberia que entre o grupo recém formado, havia alguém que não dormiu. A jovem e astuta, meio elfa, que não compreendeu bem as falas do inglês, mas sabia que poderiam ser de grande utilidade no momento certo. Mas por enquanto eram mais nada que palavras sem nenhum uso prático. Só deveriam ser guardadas para uma nova oportunidade. Uma coisa ao menos á deixava confusa: ela leu muito livros de feitiços e lendas antigas e o nome Agness Idisamir, apareceu sobre algumas lendas que se referiam a alguns confrontos que teriam ocorrido na Inglaterra a cerca de mais de quinhentos anos. Sua intuição acreditava que a linhagem materna de sua família deveria saber algo sobre todos aqueles fatos. Pena tanto ela como sua mãe serem excluídas da corte sidhe. Se não fosse por sua avó, ela teria tudo que sempre quis
Todos então dormiram.

A manhã chegava. Gor se levantou primeiro e enquanto fritava a refeição matutina, cantava uma velha canção em palavras nórdicas. Parecia tão triste, que apesar dos olhos de felicidade do guerreiro, trazia um ar fúnebre logo de manhã. O único interessado na canção mórbida era Lacktum.
-Me diga – falou Lacktum com a mão no queixo – o que você fala nessa canção? Parece uma das letras fúnebres dos vikings.
Sem nem mudar os olhos dos ovos que preparava começou a recitar em latim, o idioma que todos entendiam.
-No alto vejo meu pai. No alto vejo minha mãe. No alto vejo meus irmãos e irmãs. Vejo todos que antecederam a mim e a eles, desde o inicio. Pedem que assuma meu lugar no salão dos guerreiros de Odin, onde tomamos o hidromel dos deuses e viveremos para sempre.
-Vou me lembrar disso um dia.
-Quando estiver próximo de morrer.
-Mas ninguém que esteja para morrer iria cantar algo para sua morte. Isso significaria medo da morte.
-Um velho amigo meu, de nome Kalidor, dizia que isso não era por medo. Mas sim, por respeito á morte. Se você não tem medo da morte você a respeita? Pois não a temer pode significar que você não acredita nela. Mas ela acredita em tudo que pode tocar. E ela toca a tudo que existiu, existira ou existe.
Enquanto vários arrumavam as coisas para desarmar o acampamento, Lacktum olhava para onde Gor estava indo. Por alguns segundos o mago desejou seguir as vontades do pai e se tornar um cavaleiro, pois então compreenderia como um guerreiro de verdade, pensa e age. Mas ele não poderia pensar muito nisso agora. Tinha que obter mais poder o mais rápido possível. Nem que isso custasse tudo o que possuía. E como estava agora não seria muito que deveria pagar.

Chegaram à cidade portuária logo pela manhã. Era cheia de vida, mostrando várias pessoas que trabalhavam ativamente em diferentes funções. Enquanto os aventureiros a cruzavam podiam notar várias profissões e ofícios que havia ali. Era possível ver surgir padeiros, tecelões, ferreiros, comerciantes, marinheiros, pescadores, escultores e até mesmo poetas naquela pequena, mas ativa cidade. Cruzavam cada a um, de seu modo na frente dos aventureiros.
Os padeiros ofereciam não só pães como vários alimentos como queijo, vinho e cereais. Já os tecelões começavam mostra tecidos que vinham das terras orientais, mas aos quais Halphy tinha certeza vinha da Inglaterra. Os ferreiros ficavam só gritando o tempo todo sobre armas maravilhosas. Sempre era necessário pegar Thror pelo braço, pois ficava conversando com os homens que forjavam sobre técnicas novas sobre o ofício. Os comerciantes eram um caso hilário a parte para Lacktum. Diziam alguns que estavam vendendo itens mágicos do Oriente ou itens sagrados do período de quando Cristo andava entre os homens e o ruivo fazia questão de incendiar ou quebrava sempre que possível.
-Não era mágico? – perguntava debochado o mago – Então como pode ter se quebrado tão facilmente?
Isso irritava a todos. Inclusive, aqueles que eram de seu grupo. Todos tinham o direito à ignorância. Não importava como.
Mas passando pela área dos pescadores estava a verdadeira intenção deles. Havia marinheiros sim, mas numa taverna que ficava nas docas estaria o bando pirata que necessitavam para a missão de chegar ao Oráculo de Delfos: Joseph Boas Línguas. Pelo menos era isso que Gor dizia sobre o dito cujo.
-Será que ele é tão bom quando dizem? – perguntou Richard ao guerreiro Gor.
-Ao menos é o que me contaram – disse o inglês apaziguando o jovem – mas não se preocupe, mesmo que não consigamos a ajuda dele vamos chegar lá. Nem que tenhamos que ir a pé.
-A pé? Ah não! – soltou revoltada Halphy.
-Que isso Halphy – falou em contrapartida Hugo – seria um bom exercício não é? E não foi na Grécia que surgiu os jogos Olímpicos? Podemos parecer com aquele atleta que correu até Olimpia! Que tal?
Thror riu das palavras de Hugo.
De repente, Halphy parou e olhou com tamanha raiva para o feiticeiro, que se ele pudesse se esconder com sua magia o faria naquele instante. Em vez disso, somente se calou o mais rápido que pode.
Quando Gor iria iniciar novo dialogo, foi possível ver um corpo passando por trás dele, quebrando a janela da tal taverna que eles iriam adentrar. Era um homem completamente bêbado que caia ao chão com a mão no rosto. Da taverna era possível ver o punho furioso de outro homem com um saiote vermelho e um tapa-olho. Sua camisa era aberta, mostrando pouco físico, mas extrema habilidade em combate com várias cicatrizes no peito. Seu cabelo era loiro e extremamente bagunçado. E enquanto gritava com o sujeito caído, tomava três goles de rum que ficava em sua mão direita.
-Olha aqui seu maldito cão de água doce, da próxima vez que tentar usurpar o rum de algum homem, tenha certeza que ele já o bebeu todo, ou que ele não é um pirata. Entendeu? – e então voltou para dentro do estabelecimento.
Todos os arcanos e o druida do grupo ficaram horrorizados com aquela cena de brutalidade pura. Já o primeiro ímpeto de Gor foi olhar para Halphy e disse:
-Não vá me roubar nada ouviu?
-Mas eu nem... - tentou argumentar, a ladina, mas Gor atravessou logo em direção a porta do estabelecimento.

Quando entraram naquela taverna, tinham certeza que alguém morreu lá dentro. Porém, Gor disse que sabia distinguir muito bem o cheiro de um bando de bêbados para o de um corpo. Foi então que os jovens aventureiros quiseram estar novamente em Starten. Os mortos fediam menos.
Lacktum fingia não se incomodar com o cheiro, mas sem sucesso. Ele viveu confortavelmente, e sempre deve do bom e do melhor próximo a pessoas que disfarçavam seu odores com óleo ou perfumes aromatizantes. Todo aquele cheiro de carniça, pensava ele, estava longe de um lar dos Van Kristen. Mas quando se esta entre bárbaros trate a eles como bárbaros, solucionou ele.
-Quem é o tal Joseph? Aquele que socou o bêbado? – sugeriu Lacktum apresado.
-Não, mas pelo que sei – falou Gor se lembrando do que conhecia sobre o pirata – aquele era seu imediato, Iohan. Parece que é um mago.
-Um mago tão forte e com um tapa-olho? – perguntou Richard?
-Ora isso não significa nada meu caro druida... – respondeu enquanto atravessava a taverna o guerreiro inglês.
Havia vários outros homens e mulheres com rostos nem um pouco convidativos. Mas nada que os músculos de Gor e Thror não intimidassem, ou o olhar de Lacktum não conseguisse criar um ar de mistério forte para deixar os clientes da taverna com receio de se aproximar. Enquanto isso, Richard e Hugo paravam a ladina quando ela tentava furtar qualquer item na taverna. Federick preferiu não entrar num lugar como aquele.
Quando notaram estavam na frente de um homem com seus vinte verões mais ou menos, com uma barba digna de um anão, sentado com seus pés sobre uma mesa. Possuía uma faixa na cabeça e uma espada em cima da mesa. Sua camisa estava rasgada e completamente aberta. Era difícil distinguir aquela camisa de trapos. Este era Joseph Boas Línguas.
Ao lado dele estava o homem que esmurrou o bêbado de pé observando atentamente a todos.
-O que querem de mim seu bando de cães sarnentos de água doce? – exigiu o homem barbado.
-Eles parecem ter um sério problema com relação à água doce, não é Lacktum? Será por não se banharem? – soltou o feiticeiro.
-Calado Hugo! Ou quer que consigamos sair daqui, em pedaços? - falou o mago aflito.
-Esta bem...
-Então? Digam logo!
-Estamos aqui – começou a falar Gor - já que precisamos de um navio extremamente rápido. O nosso grupo precisa chegar á costa grega o mais rápido possível. Pagamos bem, mas queremos usar o seu meio único de viagem se é que me entende?
-O quanto podem pagar? - perguntou logo Joseph.
De repente, Gor retirou um pequeno, mas extraordinário rubi de dentro de sua luva. Era vermelho como sangue e era tão bonito que Halphy gritou:
-Qual o motivo de você ter escondido essa preciosidade de mim?
-Pois você iria me roubar...
-Bom argumento – soltou o feiticeiro italiano.
-Calados! – exigiu o soldado e líder do grupo – E então podemos contar com o seu auxílio meu caro Joseph?
Falando isso, Gor jogou a pedra para o pirata.  E este, olhou com um ar de espanto. Aquela pedra era tão vermelha quanto o sangue! E tão bem trabalhada que poderia ser realmente considerada uma obra de arte. Mesmo não sendo um artista, Joseph apreciava uma bela arte, especialmente quando se tratava de dinheiro. Quando se dizia dinheiro, ele queria disser dinheiro o bastante para parar de viver na vida de um ladrão do mar. Algo que não faria com facilidade. Gostava da vida de pirata. Apesar de não tão cruel quanto os outros que conheceu em suas jornadas.
Todos do grupo olhavam com medo. Se eles não conseguissem aquele transporte perderiam um dos meios mais rápidos de chegar ao seu destino. Eles não poderiam perder isso. Lacktum até pensou em usar suas magias contra o capitão pirata, mas sabia que o tal Iohan poderia o atrapalhar. Só sobrava confiar na lábia de Gor.
-De onde veio essa, podem vir mais algumas.
-Eu tenho uma tripulação agora, vocês um navio. Meu nome é Joseph Boas Línguas, capitão do navio Salva Ventos! Bem vindos a bordo.