sexta-feira, 7 de junho de 2013

(EXTRA) Arquivo Sombrio - Introdução e Capítulo 1 - O tiro nas sombras (Parte 1)

Para compensar o fato que não estou escrevendo o livro Contos do Tempo Perdido, irei publicar uma vez por mês, o livro Arquivo Sombrio. Nele, trato do estudante de história, Carlos Eduardo. Ele se vê envolvido com uma série de mortes na cidade de Guarulhos, devido a fatos que envolvem seu pai e fotos comprometedoras da época da ditadura. Mas no fim, Carlos descobrirá que ele esta mais envolvido com coisas bem mais pesadas do que os Anos de Chumbo...

Introdução
            Há um ano comecei a escrever essas linhas para talvez ficar um pouco mais calmo depois de tudo que eu passei em 2006. Isso acontecia, pois nunca imaginei no que acarretaria estudar historia. Sempre gostei de estudar essa matéria pelo que me lembro. Acho que isso se deva ao fato de sempre ter gostado das historias relacionadas às cruzadas, sobretudo quando se tratada sobre os templários. Mas começo a me perguntar se não deveria ter feito outro curso qualquer com menos perigos. Sei lá... Talvez administração ou letras que são cursos mais chatos.
            Mas antes de falar sobre os fatos devo salientar duas coisas: quem sou eu e alguns fatos históricos que me envolveram nesse ano.
            Bem, meu nome é Carlos Eduardo Oliveira. Sou um dos filhos de dona Sandra Souza, atualmente dona de casa. Meu irmão mais novo se chama Claudio e é um verdadeiro idiota, mas não nos fixemos nele. Meu pai morreu há muito tempo atrás. Possuo três tios: Roberto, Conceição e Benedita. Tenho só três primos de primeiro grau devido ao meu tio Roberto e a mulher dele, Aparecida. Os nomes são Robson, Ramon e João Paulo. Atualmente estudo na UnG, fazendo curso de história e trabalho a tarde como operador de maquina de xerox. Chique não é?
            Gosto de comer todo tipo de massas e comidas japonesas, especialmente apimentadas. Odeio verduras. Tenho como hobbys tocar bateria, ficar mexendo em meu computador e escutar rock. Se bem que também tenho uma guitarra, mas a toco mais para descontrair.
            Os fatos importantes até agora são que eu sou um estudante de historia e a morte de meu pai. Sempre fui um ótimo estudante de historia, mas nunca o mais brilhante. É que sempre gostei das historias da Idade Média. Sabe, historia de cavaleiros errantes que lutavam contra exércitos. Coisa de garoto mesmo. Tudo bem que aqui no Brasil os garotos só pensam em futebol, mas eu pensava nisso. História.
            Meu pai já é um caso diferente: com oito anos de idade meu pai havia morrido. Foi o máximo que minha mãe falou sobre ele. Nunca soube nenhum dado sobre a vida dele, além do que consta no meu sobrenome. Família paterna, vida fora de casa, nada. Mesmo assim nunca gostei dele. Nunca estava em casa para ajudar minha mãe, então eu aprendi a trabalhar desde cedo. Havia vezes em que chegava bêbado da rua. E espancava qualquer um que estivesse na sua frente. Qualquer um mesmo. Sempre o odiei. Bem qual filho não odeia um de seus pais?
            De qualquer modo, eu sei que os meus problemas esse ano começaram por conta dele e da ditadura militar.
            Ai esta o outro fato que ferrou minha vida. Como um estudante de história estudo vários períodos da historia nacional e internacional, e devo confessar que um dos mais importantes são os chamados, anos de chumbo. Um período conturbado que pega de 1965 a 1985 na historia do nosso país. Ironicamente nasci em 1985. Pouco depois que ela acabou.
            O ano era 1964. O até então presidente, Jango, se recusou a tentar enfrentar uma resistência armada ao movimento militar que começou um golpe de Estado. No começo, se dizia que seria uma intervenção passageira devida “aos desmandos provocados pela infiltração esquerdistas no país”. As Forças Armadas teriam uma função patriarcal quase. Os tolos jornais da época saudavam isso como uma vitoria do movimento democrático, acreditando que quando tudo estivesse bem haveria votação e um presidente seria escolhido. Bobinhos...
            Havia muitas coisas para serem feitas, entre elas – principalmente - reorganizar o país. O Brasil necessitava de um Poder Executivo forte, além de formar um novo governo a partir das alianças da UDN e PSD, das lideranças militares e dos diversos empresariados.
            Mas houve então em 09 de Abril de 1964, o Comando Supremo da Revolução, uma junta militar que assumiu de fato o poder do país, promulgou um conjunto de regras políticas denominadas Ato Institucional número 1, mais conhecido como AI-1. Esse Ato fortalecia o Poder Executivo e concedia ao presidente poderes para suspender direitos políticos, cassar mandatos e exonerar funcionários públicos.
            Antecipando a Constituição, que previa eleições pelo Congresso Nacional 30 dias após a declaração de vacância dos cargos de presidente e vice-presidente, foram escolhidos o general Humberto de Alencar Castelo Branco como presidente, e o político do PSD mineiro, José Maria Alkmin como seu vice.
            Deveria haver eleições em Outubro de 1965, sendo que entre alguns dos principais candidatos a eleição estava o ex-presidente Juscelino Kubitschek. Porém, pressões dos udenistas levaram o governo a o incluir na lista de cassações políticas, acusado de corrupção em Junho de 1964.
            Um mês depois foi aprovada uma emenda constitucional que adiando a eleição para 1966 e que prorrogava o mandato de Castelo até 1967. Era a institucionalização do Regime Militar.
            Esse período trouxe varias mudanças no cenário social, cultural e especialmente político de onde vivemos. Houve repressão: foi criado o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e outras coisas que pareciam vir direto da “Segunda Guerra Mundial”, mídias como jornais e rádios tinham que tomar cuidado para não falar nada contra o regime, um milagre financeiro que foi seguido de uma crise, repressão aos estudantes e professores de faculdades que eram sempre declarados como subversivos. Isso sem contar com as outras ditaduras militares que ocorriam nos países latino-americanos como a Guatemala, Chile, Argentina e Peru.
            Era uma verdadeira Era das Trevas, onde algumas pessoas perderam filhos, pais, irmãos, sobrinhos, netos e amigos... E que nunca tiveram a chance de enterrar seus entes queridos. Mas o que sempre me deixou mais revoltado é que em vários dos países em que ocorreram essas ditaduras houve a punição dos responsáveis por esses massacres. No nosso, alguns ainda estão no poder.
             E qual o motivo disso? Bem, digamos simplesmente que os relatos a seguir tratam sobre revelações incríveis sobre o período dos Anos de Chumbo e mais ainda, sobre meu pai.

                        Capítulo 1 – O tiro nas sombras
            Voltei de mais um dia de trabalho escravo na Casa de Xerox do Dennis. E quando digo escravo, não estou me referindo aos escravos da antiguidade entre os egípcios ou gregos mais bem tratados, mas estou me referindo aos que existiram aqui antes da abolição da escravidão. Era um saco, ao quais os únicos que me faziam companhia eram as máquinas e o “Imperador das Máquinas Sith do Mal” Dennis. Um apelido carinhoso que estava acostumado a falara para ele. Ele nunca entendeu isso. Agora sei por que Little Richards falava “wobombiluba biloubombum”.
            Em casa temos um portão tão grande que deixaria qualquer ladrão com medo de ultrapassar. Sou o único que possui um emprego, já que minha mãe vivia doente. Meu irmão? Que bom seria se ele tivesse emprego, mas assim como Deus não deu asas às cobras, ele não deu força de vontade para o Claudio procurar um serviço. Ainda penso que cobras merecem mais as asas do que o meu irmão dinheiro.
            Abri o portão e logo em seguida – pois não vi o que havia ali - cai em um monte de caixas de papelão que antes recheavam um dos quartos ao fundo da nossa casa. Depois de me recuperar da queda, ainda deitado gritei a plenos pulmões quem era o causador daquela zona. Já imaginava que só poderia ter sido uma pessoa.
            Claudio mostrou a cabeça pela janela e então começou a rir da situação em que me viu. Logo em seguida soltou:
            -O que foi Du? Cansou-se de dormir no nosso quarto e agora vai dormir no quintal mesmo?
            Como não tínhamos muito dinheiro, meu irmão e eu dividíamos um quarto. Pelo menos não dormíamos em um beliche.
            -O seu otário, a mãe nunca te falou que não era pra mexer nessas coisas?
            -Mas foi à mãe mesmo quem disse para retirar essas coisas lá do quarto babaca.
            Foi então que levantei, e calmamente, soltei palavras comuns a qualquer moço que estivesse nervoso com a situação:
            -Oh mãe! Que merda é essa que o Claudio tá falando aqui?
            E fui entrando na cozinha, onde minha mãe era soberana. Estranho como mães tem uma força maior dentro da cozinha. Já repararam. Ela me olhou com seus olhos cheios de inconformismo querendo que me retratasse de lago que nem eu sabia.
            -Quem te ensinou a falar isso mocinho? Eu que não fui! Ficar falando essas coisas feias.
            -Ah ta. Não quer que eu fale merda?
            -Isso mesmo.
            -Tá legal. Que porra é essa que o Claudio falou? A senhora vai jogar aquelas coisas fora?
             Ela olhou mais nervosa do que inconformada com o fato de eu estar perguntando sobre as caixas. Enfim, depois de suspirar, pois sabia que perderia em uma conversa contra mim ela começou a cortar uma carne para o jantar.
            -Estou me livrando daquelas coisas para arranjar um quarto para um de vocês dois. Pensei que ficaria contente.
            -O atual quarto é meu! – soltou rapidamente da sala o enxerido do meu irmão.
            -Que se dane! – soltei em retribuição, e continuei a conversa com minha mãe – Mãe lá pode ter coisas importantes pra gente e relacionadas ao... Você sabe quem.
            -Nunca demonstrou interesse sobre algo relacionado ao seu pai meu querido? Por que agora?
             -Não é interesse. Só que pode haver documentos importantes e outras coisas de valor lá dentro. Pretende levar aquilo pra onde.
            -Nenhum lugar. Vão é pro lixo meu filho.
            -Lixo? Deixa eu olhar o que tem primeiro.
            -Filho... Eu não quero que você olhe...
            Nessa hora, peguei as mãos dela e olhei fundo nos olhos.
            -Eu sei que não sou o melhor filho do mundo, mas mereço saber um pouco sobre o pai. Mesmo que seja para ter mais raiva dele ou não. Eu sempre respeitei a senhora e nunca mexi naquelas caixas. Já o Claudio...
            -Eu tô ouvindo seu veado! – disse o infeliz outro filho de minha mãe.
            Minha mãe me olhou de um jeito meigo, como quando sabe que estou certo de algo. Colocou a mão sobre minha cabeça, com dificuldade, já que sou visivelmente mais alto fazendo um carinho que só ela poderia fazer.
            -Tudo bem filho. Mas faça isso hoje à noite, pois amanhã é dia do lixo passar aqui, ouviu?
            -Sim.
            Após ouvir minha resposta, ela deu de costas para mexer em outras coisas para o jantar. Não queria saber sobre meu pai, mas poderia ter uma família que nunca conheci por conta das atitudes inconseqüentes de meu pai. Além disso, realmente poderia haver dados importantes e documentos ali nas caixas.
            -É mano – falou meu irmão, que surgiu feito um fantasma das minhas costas – acho que você conseguiu chatear a mamãe. Coisa feia
            -Ah cala a boca seu otário – falado isso, dei um tapa em sua cabeça.
...
            Enquanto isso, fora da USP, um homem corria. Os relatos das câmeras mostravam um, sobretudo esfarrapado. Ele carregava consigo um monte de livros e papeis e parecia estar fugindo de algo ou alguém. Os que olhavam na rua achavam se tratar de um bêbado, afinal, cara ele tinha. Mas seu jeito mostrava ser um professor de faculdade. Talvez um professor bêbado.
            As câmeras que registraram esses fatos foram das lojas de carros próximas. Já que eram carros, a maioria pelo menos de marcas internacionais. E convenhamos: a USP não esta nem um pouco preocupada com a segurança de seus alunos.
            Mal sabia eu que minha vida cruzaria com a dele. Não necessariamente vivo.
...
            Subi para a UnG pois estava quase atrasado para aula. Quando disse quase, quis disser, completamente. Cheguei ao final da primeira aula. Engraçado ser uma pessoa que mora próximo da universidade, mas que sempre me atraso por uma coisa ou outra.
            Talvez eu devesse cortar meu cabelo como minha mãe pediu dias atrás. Uso cabelos que mais parecem à juba de um leão de tão grande. De longe pareço o Dave Mustaine. Já de perto pareço um headbanger qualquer. Mas tenho estilo. Adoro Sepultura, então ando pra cima e pra baixo com a camiseta com o símbolo deles. Tenho um rosto comum fora isso. Pelo menos é o que me dizem meus amigos.
            Uso tênis de marcas simples. Nada extravagante. Tipo um Neebok. Cópias piratas? Com certeza. Mas às vezes são mais confortáveis do que os originais. O que me ajuda a subir o morro.
            Terminada a primeira aula saímos para o intervalo. Não havia muitas pessoas com quem conversar a não ser Gabriela, Douglas e Joseane. Eles eram meus amigos desde o começo do curso. Talvez porque muitos nos viam como estranhos nos padrões da maioria, o que eu sinceramente odiava. Gabriela usava uma cadeira de rodas, não uma melancia no pescoço. Algumas pessoas pensam que um cadeirante é sem pernas. Douglas era diferente. Era mais novo do que eu, mesmo assim tinha uma mente mais aberta e era um líder nato. Bem diferente do que eu jamais seria. Por ultimo, havia a Josiane, que só por seu modo de vestir as pessoas a comparavam com uma gótica. Bando de idiotas que não tem muita idéia do que seja uma pessoa com visual próprio. Éramos um grupo único na UnG.
            Foi quando sai por ultimo, pois peguei as coisas do dia com um colega meu, que eu cheguei ao refeitório para ver uma cena única. Estava a Gabriela tomando Mupy, o Douglas terminando um livro e a Joseane vendo mensagens do namorado no celular. Todos sentados ao redor de uma das mesas do lugar. A cena seria até comum, se não fosse à amiga deles. Lá estava a Cibila, a bruxa.
            Nunca entendi muitas coisas sobre magia, já que toda a minha vida foi extremamente cética. Ela sempre me olha como se quisesse atravessar minha alma. E pelo que sei, ela segue uma linha de magia que lida com a previsão do futuro. Posso não acreditar nisso, mas eu tenho medo dela. Oh se tenho.
            O pessoal me pediu pra sentar. A Joseane largou o celular e partiu para me abraçar loucamente como só ela poderia fazer.
            -Josi... – apelido que arranjei pra ela – larga meu pescoço... Tá me enforcando...
            -Ah tá bem Du! – respondeu ela voltando ao lugar – Du a Cibila viu meu futuro!
            -Ah viu é? – olhei para Cibila. Não sei por que, mas acho que até devia saber a previsão. Sempre é, “tome cuidado com isso”, mas “sua vida vai ser repleta de felicidade”.
            -Você deveria ver seu futuro Carlos – falou Douglas com os olhos por sobre o livro. Ele estava lendo O Príncipe de Maquiavel – Pelo menos pior não pode ficar.
            Eu olhei para ele com ódio. Não de verdade, pois era um ótimo amigo, mas daquele modo que só amigos podiam olhar para outro.
            -Já que é assim faça você primeiro isso Douglas... Nada contra Cibila, mas não acredito nisso. Sem querer ofender – respondi me achando o sábio.
            -Não ofendeu – novamente os olhos dela me dissecavam. Eu pensei que talvez ela estivesse afim de mim, mas logo descartei essa idéia.
            -Já viu o meu – Doug respondeu enquanto colocava o livro na mesa – Descemos mais cedo, pois a aula do Everaldo tava chata.
            Então, Gabriela soltou a frase que eu nunca queria ter ouvido:
            -O que foi Carlos? Tá com medo.
            Até hoje me arrependo de não ter tapado os ouvidos. Muita gente chega pra mim dizendo que era o destino. Que eu tinha que escutar aquelas palavras. Mas a verdade é que eu nunca queria saber de ter escutado aquilo que Cibila dizia ser o futuro. Isso se deve ao fato ela falou no final da previsão, coincidentemente, ter realmente ocorrido. Eu sempre achei essas bruxas como charlatãs. Se tiverem como ver o futuro por que não ficam milionárias? Bem, de um jeito ou de outro respondi:
            -Tá legal! Tá legal! Olha logo essa mão pro povo parar de me encher...
   ...
            A polícia disse que o tal homem teria se aproximado de minha casa e encontrado um rapaz que pichava uma parede. Não havia câmeras no local. Então a única coisa que sabiam com certeza era o que garoto havia contado sobre o fato.
            Estaria pichando atrás de um mercado, quando esse homem chegou – todo desengonçado - para ele e falando que pagaria duzentos reais se entregasse para ele o spray. Qualquer um faria isso. O que havia incomodado o jovem era que logo em seguida o homem pediu que ele corresse o mais rápido possível.
            Tudo nesse caso era estranho: o senhor então começou a pichar a parede do mercado, com algo que o jovem não sabia o que estava escrito. Quando já estava na esquina, o tal homem teria jogado vários pacotes de lixo para cobrir a parede.
            Notava que com o homem, havia vários documentos. Parecia um professor de universidade ou no mínimo trabalhava para um escritório.
            O garoto no final não se afastou tanto e ficou pensando se deveria voltar. Era estranho, mas pensou que o senhor estava sendo seguido. Quando então chegou a pensar realmente voltar para lá, era tarde demais. Aquele senhor estava morto com certeza. Um tiro no peito.
...
            -Hum, interessante.
            -É? – disse eu sendo sarcástico – Enquanto ela olhava a palma de minha mão.
            -Carlos, quieto! – exigiu Joseane.
            -Esta bem! – respondi. Porém, continuei – O que esta vendo ai?
            -A dor de uma separação recente.
            -Ela é boa não é? – disse Josi com um sorriso. Eu retribuo para ela com uma cara de tédio.
            -A Carla me dispensou recentemente. Todo mundo aqui da faculdade sabe.
            -Ah para Du... – disse Gabriela tentando proteger a vidente Cibila.
            -Ela terminou no refeitório ali de baixo! Na frente da UnG inteira! Até os professores sabem disso.
            -Não é pra tanto... – disse Doug tentando contornar.
            -O professor Carlos tava me consolando! Eu entrei em fossa por um mês!
            Cibila exigiu silêncio. Ela ainda tentava ver o futuro através de minhas mãos. Eu tava estranhamente achando que ela queria fazer carinho. Aprendi desde cedo que mulher nenhuma tinha interesse por mim. Esforços eu fazia para me tornar interessante. Cortei até mesmo meu cabelo, mas parecia que não agradava em nenhuma área. Vai se entender isso. Por isso teorizei: todo o homem é burro, toda a mulher é louca! Essa era minha máxima para explicar meu estado de solteiro perpetuo.
            Por fim, depois de alguns acertos e erros, Cibila disse:
            -Alguém do passado vai surgir para você essa noite.
            -Alguém do meu passado? Quem? Meus tios de Itaim? Eles são legais.
            -Não do seu – disse ela, agora com olhos preocupados, assim como a voz – Do seu pai.
            Fiquei realmente bravo. Não gostava do meu pai mas colocar meu pai no meio era jogo sujo.
            -Olha meu pai...
            -Eu sei que ele esta morto. Vi nas linhas de seu passado.  Mas é alguém que não sabe disso. Que não poderia saber disso. Pois ele traz consigo um peso muito grande. Vejo grilhões.
            -Grilhões? – soltou Douglas.
            -E flashs. Como se fossem danças profanas. Danças do demônio.
            -Tudo isso você vê na minha mão? – começava a achar que minha mão deveria ser uma verdadeira televisão pra ela ver tudo aquilo. Direi a mão rapidamente.
            -Qual o motivo de estar tão nervoso comigo? – ela perguntou.
            -O pai dele morreu em 1993 – falou Douglas em resposta.
            Fui saindo. Levantei-me em um rompante de raiva. Putz, o pessoal sabia que não gostava dessas coisas de magia e vidência. Mas não, eles tinham que insistir com aquilo. O pessoal começou a pedir desculpas
            Cibila ainda queria falar comigo, o que o próprio Douglas impediu. Mesmo assim ela tentava falar comigo.
            -Vai. Pode a deixar falar... – pensei eu. Pior não poderia ficar.
            -Só me faça um favor. Tome cuidado com a palavra Aran.
            Eu não entendi o que aquilo significava, mas senti verdade nas palavras dela. Mesmo assim, subi pra sala. Pedi que o pessoal ficasse, pois não queria ser atrapalhado por ninguém. Iria pensar um pouco.
            Imaginava até que poderia ser verdade o que ela falou. Pois sempre quis conhecer minha família paterna.
            -Isso é besteira – disse isso sozinho enquanto olhava pela janela do segundo andar do prédio de história, para o Shopping Internacional de Guarulhos.
...

            Voltava da aula, após os acontecimentos maravilhosos do refeitório – para quem não sabe isso foi sarcasmo. De qualquer modo passei por um lugar onde havia uma grande movimentação de curiosos. Com certeza se devia a alguma morte, desova de corpo, estupro, acidente de moto ou – no melhor dos casos – roubo. Mas como era atrás do mercado tinha certeza que só poderia se tratar de morte. Lá já foi morta uma porrada de gente. Bem, nem quis saber e fui direto para casa.

terça-feira, 21 de maio de 2013

(EXTRA) O que é RPG?

Bem, como há muitos que não sabem o que significa isso, e sendo a principal fonte de inspiração a vocês, mostro a vocês o RPG.
O que é um jogo de RPG?
Talvez seja a pergunta mais feita por uma pessoa que não conheça esse hobby, ou não se interessa por ele. Mas qual seria a resposta mais apropriada? Bem, nas próximas linhas tentarei explicar quais suas funções, suas aplicações - tanto de diversão como acadêmicas - e alguns conceitos.




1 - O que é exatamente um jogo de RPG?
RPG é a abreviação de Role Playing Game, e sua tradução mais conhecida e aceita seria "Jogo de Interpretação de Papéis ou Personagens". Se deve ao fato que cada participante possui um personagm que interpreta, como em uma peça de teatro ou cenas de um filme.
Basicamente é um jogo de contar histórias. Usando um exemplo grosseiro, podemos chamar de um "jogo de faz-de-contas mais elaborado", já que possui regras.
Muitas pessoas observam e acreditam que por tratar de um jogo, existe uma meta de ganhar. Não existe vencer ou perder quando se vê uma obra de Shakespeare, ou se lê uma obra de J.R.R. Tolkien ou C.S. Lewis (autores de O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia, respectivamente), só a vontade de se entreter a simples satisfação. É por pura diversão que se joga.

2 - Como é o funcionamento de um jogo?
O jogo transcorre da seguinte maneira: um grupo de amigos, conhecidos ou até mesmo desconhecidos, que se uniram por um gosto em comum, se unem em determinado lugar. Um deles, quase sempre o com maior disposição e vontade de ler, é denominado como narrador ou mestre. Ele é um jogador, que cria e elabora o "mundo" do jogo, assim como um roteirista ou escritor faria com seu trabalho. Ele pode controlar outros personagens como aliados, inimigos, heróis e amigos. O narrador não é melhor que os outros, só necessário como um arbitro de futebol. Mas ele também se diverte a seu modo.
Pensando que o narrador é um arbitro ou diretor, os outros jogadores são o foco dessas histórias, seus personagens principais.
Existem dois termos no RPG que chamamos de aventuras e campanhas.
Em uma aventura, os jogadores atuam como os protagonistas, tentando alcançar uma meta estipulada pelo mestre ou por si mesmo, seja fazendo isso em grupo ou sozinho. De certa maneira funciona como um episódio de seriado americano em que uma história acaba nele, podendo ter consequências nos próximos. Já em uma campanha, podemos citar ela como uma sucessão de aventuras, envolvendo os mesmos jogadores. Voltando ao exemplo de um seriado, é só imaginar que os vários episódios formam uma trama única que conduz os personagens a um "grande confronto" ou uma "grande revelação", como um temporada.
Os jogadores reunidos criam fichas de personagens. Servem para anotar as características, equipamentos, qualidade e defeitos deles. Lembrando que os jogos possuem regras a serem seguidas. Normalmente, uma ficha é criada em comum acordo entre o narrador e os jogadores, usando especificações de um livro de RPG.
Para simular a aleatoriedade de alguns acontecimentos, ou simplesmente o sucesso ou falha de uma ação, são jogados dados.
Normalmente, um jogo de RPG usa dados de seis lados, e regras que dizem quais suas chance de sucesso. O termo que usamos normalmente é D6. Alguns jogos tem sistemas diferentes e usam dados especiais de 4, 8, 10, 12 e 20 lados (ou faces). Esses dados são vendidos em lojas especializadas. E como antes, RPG não tem haver com jogos de azar, portanto não envolvem apostas de qualquer tipo

3 - Como funciona um livro de RPG?
Para jogar, se lê um livro com todo o conteúdo de jogo. Ele possui regras de construção de personagens, as rolagens dos dados e a parte ficcional, o que traz todos elementos desse hobby. Muitas vezes, essas obras são chamadas como módulos básicos, e só um deles é necessário para uma partida.
Além do módulo básico, que é necessário para os jogos, também é possível comprar livros com material extra chamados suplementos. Tanto que eles não são exigidos para começar uma partida do jogo.

4 - A história do RPG
Os primeiros jogos não vieram de uma área tão interpretativa. Surgiram com os wargames (assim como as damas que vieram do xadrez, e este é inspirado em batalhas).
Um grupo de colegas que se entretinha com esses jogos de tabuleiro e estratégias, quase sempre os mudava e melhorava as regras. Com isso eles criaram um jogo inspirado especialmente nas obras de fantasia de O Senhor dos Anéis e Conan. Esses foram os primórdios do primeiro RPG que seria conhecido como Dungeons & Dragons (Masmorras e Dragões)
Em 1974, a diversão se tornou algo mais comercial e criou um sucesso de tal magnitude, que o grupo de amigos entre eles Gary Gygax e Dave Arneson) tornaram-se uma editora, a TSR, Tactical Studies Rules. O D&D se tornou símbolo de cultura nerd, com referências em filmes como E.T. de Spielberg, em desenhos como Os Simpsons e Futurama, de Matt Groening, animações como Shrek 3 e até seriados como The Big Bang Theory.
-Curiosidades:
*No brasil um dos desenhos mais reprisados na TV tem seu titulo original como Dungeons & Dragons. Isso ocorre pois realmente é baseado no jogo de RPG: heróis enfrentando mistérios e combatendo o mal, enquanto tentam voltar para casa. A maioria o conhece por Caverna do Dragão. Tanto que tinha até o dedo de Gary Gigax nele.
*Até mesmo os quadrinhos e animações japonesas se renderam ao RPG. Uma das obras mais famosas é Record of Lodoss War. Criada por Ryo Mizuno, produzida em 1991, é assumidamente baseada e produzida em D&D.









5 - Gêneros dos jogos de RPG
Assim como peças de teatros, filmes, livros e jogos esportivos, existem vários temas, gêneros e gostos no RPG.
Os livros usam sistemas e temas próprios. Variando desde os mais clássicos até os mais modernos:
-Fantasia medieval
-Ficção científica
-Super-heróis
-Cyberpunk
-Terror
-Histórico
-Animes
-Steampunk
entre outros
Existem alguns mais conhecidos:
*Dungeons & Dragons é o mais conhecido e antigo dos RPGs. Envolve heróis medievais contra dragões, monstros e vilões. Histórias clássicas de combates de bem contra o mal.
*GURPS, Generic Universal Role Play System. É um jogo, literalmente, genêrico. O que faz com que consiga abranger vários temas.
*O Senhor dos Anéis RPG é um jogo oficial baseado na obra máxima de J.R.R. Tolkien, que inspirou o conceito de aventura em D&D e várias obras de fantasia medieval.
*3D&T e Mini GURPS são aqueles que possuem as regras mais simples e preço mais acessível, excelente para iniciantes. O primeiro é mais apropriado para os fãs de animes, mangás, videogames e quadrinhos americanos.

6 - O RPG como modo de aprendizado
Professores, psicólogos e pedagogos já descobriram o potencial educativo do RPG para os mais jovens. É possível através desses jogos, que jovens possam aprender história, sociologia, geografia e outros temas.
Muitos livros são baseados em fatos, lugares e pessoas reais, como GURPS Descobrimento do Brasil. Outros, baseados em ficção científica, apesar de serem fantasiosos, possuem um teor fundamentado em algumas teorias reais.
Muitas vezes jogadores começam a ler incentivados pelas partidas de RPG. Algumas vezes, se deve ao fato de se interessar pelas regras do jogo, como rolagem de dados e caracteríticas de alguns personagens. Outras vezes, é a fantasia que atrai os jogadores.
Entre os livros e obras que normalmente os jogadores leem estão obras escritas ou inspiradas em Tolkie e Robert E. Howard (escritor de Conan, Rei Kull e Solomon Kane). Mas os próprios jogadores de RPG criam sua literatura fantástica. Veja alguns exemplos:
*O Inimigo do Mundo, baseado no universo dos livros de jogos Tormenta.
*Dragões do Crepúsculo de Outono, Dragões da Noite de Inverno e Dragões da Alvorada da Primavera, baseado no universo dos livros de jogo Dragonlance
*A Estilha de Cristal e Rios de Prata, baseado no universo dos livros de jogo de Forgotten Realms


7 - Live-action: Um modo diferente de RPG
Um live-action, ou só live, é um modo diferente de jogar RPG. É algo que mistura jogo, festa a fantasia e teatro. Em vez de usar dados sobre a mesa, os jogadores se vestem, agem e falam como seus personagens.
Quase sempre fazem certos sinais de mão para simular as regras de jogo. E com isso, quase sempre participam de grandes eventos onde existem confraternizações entre pessoas de diferentes estilos, mas que gostam desse hobby. Alguns desses jogos criam muita curiosidade e atraem outros RPGistas.
O live-action é um jogo tremendamente criativo, que exige muito da interpretação de seus participantes. E é isso que torna essa atividade um pouco mais difícil
Os live-actions também inspiraram as batalhas campais. Elas consistem em grupos de conhecidos ou amigos, que entram em competições e duelos inspirados nas histórias medieviais de cavalaria. Se vestem com roupas baseadas na Idade Média e usam armas feitas de espuma para os combates.

8 - MMORPG: Jogos online
Os MMOs (Massive Multiplayer Online) são um tipo de jogo eletrônico que mais cresce nos últimos anos. Talvez sejam mais famosos que os RPGs de mesa, e algumas vezes, são os primeiros passos para os fãs desse gênero.
Todos os MMOs são diferentes mas sempre possuem uma mesma base que consiste em criar personagens, explorar o mundo do jogo virtual, enfrentar criatras, fazer quests, (missões) entre outras coisas
Entre alguns jogos que existem na Internet estam:
*Everquest
*World of Warcraft
*Star Wars - Knights of Old Republic
*D&D Online
*Lineage
*Ragnarok
*MU Online
*Lineage II
*DC Universe
*Final Fantasy XIII
*Cabal

Com isso termino essas linhas esperando que tenha sanado suas dúvidas com relação a esse jogos que já alcançou tantas pessoas em diversos países.



segunda-feira, 29 de abril de 2013

(EXTRA) 10 perguntas de James Gawain para: Luis Eduardo, o escritor de Contos do Tempo Perdido!


Bem como louco de plantão, e escritor nos momentos raros de sanidade, começo a publicar alguns dos extras dos Contos do Tempo Perdido! Nesse entrevistaremos, o meu, o seu, o nosso, o grande, o colossal, o maravilhoso, o fodástico... EU! Sim parece que preciso de uma camisa de força, mas não é bem por ai... Gosto de rir e fazer rir. Se o pessoal curtir, ótimo. Se não, corto isso do blog do Contos! Tudo bem? Então "let's go!"

1-Como surgiu a idéia para escrever os Contos do Tempo Perdido? De onde vem esse nome?
Já falei isso até para uma amiga minha, a Simone: surgiu da música Tempo perdido do Legião Urbana. Todo mundo vê essa música de uma forma, e eu então aproveitei olhei para ela com outros olhos. "Sempre em frente, não temos tempo a perder / Nosso suor sagrado / É bem mais belo que este sangue amargo". Quando peguei, e estava em casa sem nada para fazer, escutando ela, tornei a letra um campo de batalha. Ai surgiu o nome! Contos do Tempo Perdido. Na verdade, existe um segundo motivo... Mas isso, vocês vão ter que ler para saber.

2-O livro é baseado em partidas de RPG? Como foi isso?
Sim. Com as partidas já prontas, com coisas como o vilão principal, os aliados, por onde eles passariam e coisas menores, pensei que seria mais interessante colocar os personagens do jogo (e dos livros) nas mão dos meus amigos. Isso tornaria a história bem mais livre. Mas devo admitir que até hoje, tento controlar mais o jogo. Muitas vezes é complicado mestrar, pois os jogadores tem vontades bem estranhas. Como a te se separar do grupo por motivos tolos! As vezes é realmente necessário, mas sinceramente... Atrapalha a vida do narrador. O jogo em si foi ótimo.

3-Quem foram os jogadores dessa campanha? Quantos eram?
Meus bons e maravilhosos amigos, não só por participarem do jogo, mas por realmente agirem junto a mim com o projeto dos Contos do Tempo Perdido. Sempre pude contar com eles durante o jogo e até mesmo fora dele. Cito 4 em especial: Lucas Toledo, Antônio, Maria Isabel e Diego Macedo. Desde que começaram a jogar, não pararam de participar... Salvo vez ou outra! Além deles tinhamos meu primo Ricardo, meus amigos, Jeferson, Rafael, Carlos, Tiago "Ratão", Wyktor, Thales e Renan entre outros. Todos colaboraram com essa história tão rica. Não gosto de enumerar ^^


4-Quais foram suas principais inspirações para a história em si?
Sou um fã de cultura japonesa, maravilhosa na minha opinião. Tanto a pop, como a normal. Em resumo, sou um otaku, fã de animes e cultura pop japonesa. Então, muitas das coisas que aprendi para escrever nesses livros se resumem a combates, não somente para vencer um oponente mas também pela honra OU pelo prazer de vencer. Mas até isso pode ser pouco... Bem, no caso de animes, tive como influências desenhos como Naruto, Berserk, Full Metal Alchemist, Darker Than Black e Akira (só coisa boa!). Além de livros como O Senhor dos Anéis e a série baseada nos jogos de Assassin Creed. Mas confesso que nos últimos tempos, Game of  Thrones me cativou! Os personagens que mais gostos são Jon Snow, Tyrion Lannister e a Khalessi. Maravilhosos!
Um detalhe: além disso, coloco trechos de modo discreto de seriados clássico como Chaves (vejam no capítulo Homem solitário no segundo volume dos Contos).

5-Qual o motivo de tanta demora?
Quando comecei o livro nem tinha PC. Tanto que uma amiga Daiane, foi a primeira a ver trechos dele. Ai comprei um que quando você usa, depois de 10 minutos trava! Então comecei a escrever no note de meu amigo Lucas ou no computador do Diego. Mas enfim, esse ano, irei pegar um que funciona... Ai finalmente não perderei noites com a minha mãe assistindo Ratinho! kkkkkkkkkk É a vida moçada!

6-Você faz o que da vida rapaz?
Bem, sou professor eventual e até mesmo faço uns bicos como desenhista... Engano bem, como costumo disser.

7-Quem foram suas inspirações literárias?
Bem esta bem claro alguns mas vou listar: George R. Martin (Game of Thrones), C.S. Lewis (As Crônicas de Nárnia), Robert E. Howard (Conan, Rei Kull e Solomon Kane), Stephen King (O Iluminado e tantos outros livros de terror) e por último - mas não menos importante - o filólogo e professor por excelência, J.R.R. Tolkien! Ele simplesmente foi aquele que me fez inspirar e pensar "se quero um personagem amado, tenho que faze-lo de modo que seja algo que me agrade também!"



8-Qual vai ser o maior segredo sobre os Contos?
Segredo!

9-Quem é o vilão principal?
Também segredo, mas adianto uma coisa... Vocês o viram, de forma rápida no livro mas ele voltará logo. Só no último livro ele se revelará mesmo!

10-Quando livros estão previstos?
5 rapaz! Não tá vendo o blog não? kkkkkkkkk Já tenho dois digitados e um sendo escrito a mão! Se prepara mundo!

Muito grato Luis...
Eu é o que agradeço

E aqui disponibilizo um link para o Clube dos Autores, logo me cadastrarei! Esperem boas notícias!

sexta-feira, 5 de abril de 2013

(EXTRA) Trecho de "A progênie do dragão dourado"

Muito grato a todos que me acompanharam até aqui. Os contos do Tempo Perdido irão continuar, mas por enquanto, estarei parando de escrever por alguns meses. Isso faço, pois a lenda desses personagens será contada com mais riqueza de detalhes em breve. Mas não se preocupem, pois continuarei postando alguns extras. Talvez até mini contos. Se preparem mas por hora... Fiquem com um trecho de "A Progênie do Dragão Dourado".


"A criatura foi afetada pelo relâmpago pelo arcano ruivo. Mas nem tanto quanto o jovem queria. Ela não se abalou pelo golpe de energia. Na verdade, era até possível comparar o dano recebido um pequeno corte na pele. E não a explosão de energia que surgiu subitamente com a magia.
O que a criatura não contava, era com o poderoso golpe da espada de Thror, pelas costas, enquanto segurava o elmo. Era como se estivesse segurando a cabeça de um inimigo, ele tombou diante das botas do grego.
-Thror... – iria começar a falar o mago.
-Não precisa se preocupar em me agradecer! Notei que este saiu de perto do clérigo...
-Não iria agradecer! – disse Lacktum contrariado – Só queria saber o motivo de continuar a segurar o elmo com a mão do escudo.
Foi então que o homem da cicatriz olhou para o elmo. Então, o jogou no chão com receio que ganhasse vida de novo.
Seton ainda tinha dificuldades em enfrentar o seu oponente, pois além de ter se afastado de seus aliados, ficou encarregado do anão Rufgar. Ele não poderia largar o prisioneiro que poderia delatar o grupo. Foi nesse tempo, que o revenant se aproximou o bastante para fazer golpe perfeito. Mas foi interrompido pelo corpo do anão, que saltou servindo como escudo.
-Vai druida!
Foi como em um piscar de olhos: a foice atravessando o revenant, enquanto o anão caia de dor. O construto também caiu.
-Ei barbudo, esta bem? – soltou o aflito druida.
-Não acha... Que uma espada curta irá me matar, não é?
Seton sorriu e começou os procedimentos mágicos de cura no peito do anão.

Todos foram até o anão. Exceto Lacktum que parecia querer contemplar a vitória. Viu Halphy ajudando o padre.  Também viu o jovem Gustavo cumprimentando Thror pelos excelentes golpes desferidos. Viu a raiva de Valente por não participar do combate, enquanto Caça Trufas se sentia aliviado. Alexander e Fiel estavam alegres, só pelo fato, de todos estarem bem. E como todos se reuniram ao redor de Rufgar para saber se ele estava bem.
O que ele não viu, foi o golpe de uma adaga em suas costas.
-Mestres Hazik e Kalic Benton II mandam lembranças... Disse uma voz.
Lacktum então ouviu o metal se afastando do corpo. Ele colocou a mão nas costas e tentou olhar a palma da mão. Não houve tempo. Caiu inconsciente no chão.
-Ruivo! – gritou Thror.
-Lacktum! – gritou Halphy.
-Mas o... – e antes que Arctus terminasse a frase, entendeu o que foi dito pelos companheiros. Ele conseguia ver, próximo do corpo inconsciente do mago. Lacktum, um homem de vestes negras, capa vermelha e usava um capuz para esconder sua face. Segurava uma adaga grande cheia de um líquido vermelho e negro que escorria de sua lâmina. Apontando para o grupo, saltou:
-Meus mestres querem os itens do Desalmado e do Cavaleiro de Platina! Com isso seu colega poderá viver! Estarei naquela direção – disse apontando para um morro -  e quero que cheguem antes do anoitecer... Se não...
E nesse instante, o assassino fantasmagórico sumiu com a mesma velocidade que surgiu. Com a ajuda da neve naquele lugar. E a cada momento ela ficava maior, quase cobrindo o corpo do mago.
Todos foram até seu líder caído. Ele foi erguido pela jovem Halphy de todo aquele branco. Ela o virou procurando a ferida. Arctus e Seton não entendiam o motivo da ladina querer ver o golpe no corpo do mago antes deles. Alguma coisa a intrincava.
Foi quando a jovem encontrou a ferida. Notou que ao redor dela, havia uma substância esverdeada. Temeu que sua conclusão estivesse certa. Cheirou e então a fala do estranho. Ela sabia o que era aquilo.
-Praga! Vamos encontrar um lugar seguro para deixar Lacktum! Isso é veneno de quimera[1]! Temos que achar uma cura ou ele não sobreviverá!"


[1] O veneno da quimera é duas vezes mais potente que qualquer elixir, mineral ou veneno proveniente direto da natureza.

(Parte 14) Capítulo Sete: "Matarei em nome de Mallmor"



O feudalismo se formou por meio de um processo que combinou elementos de origem romana, como o colonato, com outros, de origem germânica, comitatus.
Com a divisão do Império Carolíngio, houve o enfraquecimento do poder do rei. Quando os vikings, árabes e húngaros invadiram a Europa, nos séculos IX e X, os reis carolíngios pediram ajuda militar aos nobres e doar a eles um feudo.
Assim, enquanto os reis carolíngios perdiam poder, os nobres foram se fortalecendo, e o feudalismo se consolidou. Aquele que doava um feudo era chamado de suserano ou senhor, e o que recebia era chamado de vassalo. Com o feudo, o vassalo recebia o direito sobre a população que ali vivia e trabalhava. A doação do feudo se dava por meio de um juramento de fidelidade, pelo qual um nobre se comprometia a proteger e auxiliar o outro militarmente.
Mas sem que os homens soubessem, elfos, anões, e todo tipo de criatura mágica já usava um sistema similar ao deles. Em alguns pontos até melhor.
Nas terras élficas, como em Avalon, os lordes dessa raça não são os donos das terras. Quase sempre possuem pequenas propriedades, controladas pelos membros da corte ou até mesmo pelo rei. Já os elfos livres têm o poder de decisão sobre os lordes, jurando aliança por um ano. Caso o sidhe livre não fique satisfeito com a proteção do lorde, ele poderá escolher outro. Um sistema mais avançado que o feudal humano.
Mas entre os anões não existia um líder máximo há muito tempo, só os lordes. Cada um representando um dos pontos cardeais da Rosa dos Ventos. Esse conjunto de lordes se reunia sempre para tomar decisões sobre sua raça. Esse evento era chamado como o Levante dos Escudos, pois os mestres dos anões levantavam suas proteções com as duas mãos como sinal de paz e boa fé.
E foi durante um desses eventos que houve a maior traição entre os anões: a morte de um lorde por outro. O Lorde do Norte, Mallmor, matou e roubou o Lorde do Noroeste, Daigon.
Era ele quem liderava o ataque contra a torre de Azerov.

Vários anões, bem equipados, cercavam a torre. Todos com escudos cheios de desenhos rúnicos. Eles queriam simbolizar fidelidade ao Príncipe Negro dos anões. E até seu grito demonstravam sua devoção.
-Mataremos em nome de Mallmor!
Os ecos dos gritos de adoração se tornavam cada vez maiores. Como os gritos espartanos que um dia estivera naquelas terras. Mas aquilo era diferente. Lacktum olhou para Thror. Os dois se encaravam com medo, notando o que estava para acontecer. Eles iriam invadir a torre.
-Temos que ir para o andar inferior. Gor, - Lacktum começando a guiar os passos do grupo – fique protegendo Azerov.
-Não seria melhor eu ir com vocês? – perguntou o guerreiro inglês.
-Não sabemos se eles possuem magia, - respondeu o mago – pode ser perigoso deixar ele sozinho. E você é o mais velho e experiente entre nós. Bem experiente, para falar a verdade.
Foi quando Gor notou que a palavra do mago tinha total razão. Azerov era o único que podia salvar a todos. E apesar de poderoso, já era velho para suportar um ataque enquanto estivesse conjurando a magia. Gor então consentiu com a idéia.
Eles desceram a escada, como pequenos trovões, entrando na sala do segundo andar. Enquanto cruzavam o quarto, observavam Azerov concentrando as energias arcanas dentro da pedra de Ixxanon. Assim como feito antes, ele preparava o transporte para todos. De repente, Nico segurou o braço direito de Lacktum, fitando os olhos do jovem mago.
-O que escolhe: eu parto contigo ou fico com o velho? – perguntou o feiticeiro.
-Mas do que esta... – antes que terminasse a frase, Nico continuou.
-O nosso destino é um só. E só nós o controlamos.
Foi então que Lacktum entendeu que as coisas estavam mudando para ele. E não era por Azerov, nem Gor, muito menos Nico. Talvez ele não notasse, mas era o amor que sentia por todos que o fazia querer proteger a todos. E se ele tivesse que tomar uma decisão agora, isso influenciaria no destino do grupo. Parecia que os olhos do mago fossem uma encruzilhada, fazendo com que Lacktum tivesse que tomar uma decisão. E foi então que ele tomou uma decisão.
-Fique – foi respondido pelo mago.
E naquele momento, Lacktum se desvencilhou do aperto de Nico. Por alguns momentos, Lacktum não focava na vingança. Ele pensava como proteger aqueles que confiavam nele, que se encontravam na torre.
Ele passou pela porta, se posicionando na escada. Na sua frente estavam Arctus, Seton, Hugo, Richard, Halphy, Gustavo e Thror. Pela primeira vez, eles olhavam como se esperassem algo a mais do que as palavras debochadas do ruivo. Eles esperavam um líder.
-Halphy fique do meu lado. Você é boa em acertar a longa distância, mas não agüenta muitos golpes no corpo a corpo. Seton, Hugo, Arctus e Richard, fiquem no meio auxiliando e mantendo assistência. Os nossos guerreiros serviram de escudo. Thror e Gustavo, no meio da escadaria. Mas só ataquem quando eu mandar. Quando isso ocorrer, suas espadas serão testadas. Não iremos, e eu afirmo - disse Lacktum com força na voz – permitir que eles nos vençam! Temos que fazer o possível para vencer! Eles não irão nos deter!
-É isso ai! – soltou Thror.
-Por Deus e pelo sangue de meus companheiros – disse o paladino - que morreram protegendo minha terra natal, vamos deter eles e sair daqui.
-Não precisamos, muito menos, podemos ter mais corpos que o necessário. Por isso, - disse o mago em repreensão – não ataquem sem minha ordem! Compreendem?
-Certo – respondeu Gustavo.
Foi então que Halphy o olhou, cheia de dúvida e perguntou:
-Mas o que aconteceu com você para estar agindo como nosso líder? E Gor? Onde esta ele?
-Ele vai ficar junto de Azerov. Precisa de proteção.
-Tudo bem, mas isso não me responde a outra pergunta. Qual é a razão de estar tão firme agora?
-Eu só refleti melhor sobre o grupo e o que devemos fazer. Nós estamos ligados, assim como Kalidor nos disse. E como tal devemos nos unir nos momentos de crise. Não somos só amigos, somos irmãos. No destino.
Enquanto falava isso, era nítido o semblante de determinação e crença de todos. Todos acreditavam em Lacktum antes, mas era mais pelo seu poder arcano, ao qual nem Hugo se igualava. Mas agora era diferente. Eles realmente se tornaram uma família.
Era como se um novo Lacktum surgisse depois de usar aquela máscara macabra de carne humana. Um Lacktum sereno e amoroso até, mas firme como um patriarca.
-Vamos amigos! – Lacktum esbravejou.
-Sim! – todos gritaram. E então se posicionaram. A batalha iria começar.

Os guerreiros anões se posicionavam e preparavam seus machados para estilhaçar a porta da biblioteca. Os tambores de guerras agitavam os ânimos dos soldados. Estes, por sua vez, seguravam os machados com tanta força, que chegavam a ferir os próprios punhos. Seus olhos miravam além da porta, como se imaginassem o que iriam enfrentar. Seria fácil o combate.
Foi então que houve o comando:
-Ymosod ac ny chymerant drugaredd!
E eles atacaram, como se a porta fosse um inimigo a ser destruído de uma só vez. Machado atrás de machado, cortes atrás de cortes. Tornando as fissuras em buracos, os buracos em aberturas, até que fosse possível ver o interior da sala. E quando isso ocorreu, adentravam com ferocidade a biblioteca. Apesar de tudo eles eram bem treinados e não iriam pilhar ou destruir a biblioteca, para que mais tarde, pegassem os livros do experiente mago Azerov. Eram como cães domesticados pelo mesmo dono. Cães de guerra de Mallmor.
-Mataremos em nome de Mallmor! – repetiam.
Enquanto repetiam seu mote, atravessavam a extensa sala. Eles queriam chegar até a porta, no final da escadaria.
-Mataremos em nome de Mallmor! – soltavam como uma prece.
Os refugiados de Azerov haviam colocado vários móveis na frente da porta. Eles não ligavam. Jogavam longe os pedaços inúteis de madeira, com toda a força que lhe restava.
-Mataremos em nome de Mallmor!
Os da frente pareciam cansados, mas seus golpes ainda se tornavam cada vez mais furiosos. Como um pequeno tornado, terremoto, ou qualquer outra força destrutiva da natureza.
-Mataremos em nome de Mallmor!
Os soldados partiram ao meio a porta. Como se fosse um mero obstáculo.
-Mataremos em nome de Mallmor!
Não era um exército, era praticamente uma criatura. E ela não seria derrotada.

Lacktum não tirava os olhos da direção onde ficava a porta. Ele colocou a mão direita na manopla arcana que acumulava magia. Acreditava estar pronto para usar o item que criou, mas temia errar. Não errar talvez, mas falhar com seu poder. Será que assim era o poder da liderança sobre os outros? Ele se questionava, enquanto destruíam o último fragmento da porta.
Enquanto se preparava para o ataque, notou um movimento de Thror e Gustavo, que pretendiam rechaçar os inimigos antes do comando.
-Não se movam!
A ordem veio como um relâmpago, mas não tinha surgido do mago.  A fealith foi quem ordenou que os dois parassem. Ela sabia que era necessário manter a ordem no campo de batalha. Era outra que notou que algo tinha que mudar naquele grupo. Mas Lacktum pensava se isso era realmente bom. Mas ele não poderia se concentrar nisso agora, mesmo por que, ele nunca foi um santo também. Pensando bem, havia vezes que seu instinto falava mais alto quando se referia a Halphy.
A porta ao qual surgiria a tropa inimiga havia estourado.

-Matarei em nome de Mallmor! – repetiam com mais força, enquanto subiam as escadas.
Os anões subiam com cuidado, enquanto observavam o grupo na escadaria. Pareciam acuados, mas nem um pouco fracos em seu semblante. Pareciam trazer desafio em suas faces e seguravam suas armas com vontade.
-Esta na hora de esquentar as coisas! – e quando pronunciou isso, Lacktum só acenou para Halphy, que preparava uma magia.
-That spiders may serve me! And the enemies do not live!
 De repente, uma imensa rede de uma teia pegajosa, cobriu os soldados anões. Alguns se desvencilhavam da armadilha, já outros permaneceram no truque mágico. Foi nesse momento, que do antebraço do mago, um chicote de chamas tocou o material pegajoso, uma imensa labareda atingindo todos os soldados de Mallmor naquela sala. Esses gritavam com a força ígnea da magia.
-Se mantenham firme até que o mestre vença! – gritavam os que não eram atingidos pela teia mágica.
-Quero que se mantenham firmes, - falou o mago inglês – depois que sentirem a lâmina grega! Thror! Gustavo! Agora!
Eles não puderam investir, mas como estavam numa posição superior – mesmo com as criaturas sendo menor em estatura – ficaram em vantagem contra os soldados. Quando Gustavo ficava exausto, Thror mantinha a linha de frente no combate.
 Os arcanos lançavam muitas magias de fogo para compensar a baixa participação no combate. Já os sacerdotes curavam em um revezamento improvisado, especialmente por que se perdessem os guerreiros, perderiam a batalha. Esses últimos usavam as espadas sem nenhuma falha no combate, para proteger seus companheiros a todo custo. Até mesmo Halphy, no alto da escada, lançava mão sua pequena besta, para atingir os inimigos restantes que sua magia, às vezes, não afetava.
A batalha se tornava intensa, mas controlada. O grupo parecia preparado para enfrentar qualquer perigo. Os anões pensavam ter encurralado os oponentes, mas eles estavam errados. A única preocupação do grupo era manter o segundo andar a salvo.
Já o mago, se preocupava com o velho Azerov. Ele imaginava que Gor e Nico fossem atacados pelo alto da torre, e não conseguissem conter os inimigos. Madelyne era uma moça tão frágil e Azerov tinha que se concentrar no teleporte. Se o velho morresse, o mais próximo de pai que Lacktum teve após a morte do verdadeiro. Ele não podia permitir que alguém o ferisse de modo algum. Não novamente, quando ele obteve tanto poder até agora. E esse não era o momento para aquilo.
O sacerdote Arctus temia que suas magias de cura e bálsamos acabassem, antes que eliminassem todos os inimigos. Pelo menos, os que entraram na torre. Um exército estava lá fora e eles precisavam ser fortes o bastante para conter eles por um bom tempo. Ele sabia que Thror e Gustavo eram fortes, mas não imortais muito menos imbatíveis. Ele percebia que o rosto do grego demonstrava pouco cansaço, mas ainda assim, o clérigo já via marcas exaustão em seu rosto. Já no paladino, se via esses problemas, mas sua pompa de príncipe falava mais alto.
Todos sabiam que os fatores do terreno e da experiência do grupo, favoreceram até agora eles. Os oponentes eram arremessados pelas espadas longas, enquanto outros se colocavam no lugar dos derrotados. Os anões eram fortes e resistentes. Mesmo os estavam caídos, traziam dificuldade para os aventureiros, criando obstáculos no combate. Uma vez ou outra eles acertavam o grego, o que fazia todo o grupo temer. Até agora, o guerreiro serviu como escudo. Mas se ele caísse, Gustavo não conteria os inimigos por muito tempo.
Cada instante para respirar, cada momento de alivio, parecia o ultimo. Hugo e Richard temiam já que em boa parte das últimas aventuras, não participaram ativamente. Halphy achava que nunca deveria ter ficado do lado daqueles homens, afinal, Sinestro lhe falou certa vez, que alguém descendente dele, não deveria confiar em formas inferiores de vida. Agora, ela tava razão ao ancestral.
Agora, as magias de cura do sacerdote Arctus, se concentravam no guerreiro grego. E eram as últimas magias desse tipo, naquele dia. Richard e Seton haviam acabado com todas as magias deles. Mesmo por que, a especialização deles não era as magias de cura, e sim de invocação de animais. E essas magias não serviriam de muita coisa ali. Os guerreiros anões eram experientes e meros animais não iriam deter nenhum deles.
Os cortes nas armaduras não paravam o combate. Quanto se acreditava que os aventureiros venceriam a batalha, o exército tirava forças de onde não existia nada. Mas o mesmo poderia se falar dos aventureiros. Se não fosse a bravura que seus corações continham, teriam sido dizimados pelos primeiros golpes dos machados. O tempo parecia que havia parado naquela escada.
-Azerov – gritou o jovem Lacktum – seu velho louco! A magia esta pronta? Não agüentaremos para sempre.
-Mais alguns instantes, - gritava o experiente mago em resposta e repetidas vezes – mais alguns instantes! E não me interrompa!
-Praga!
-Lacktum, - gritou Halphy aflita – uma ajuda aqui seria bem vinda!
Ele então notou ao que ela se referia. Alguns anões, preparados com machadinha leves se colocavam em posição para suas pequenas armas contra o grupo. Foi então, que ele conjurou uma pequena esfera incandescente contra os anões. Diferente do que muitos imaginavam, ela não explodiu.
Enquanto outros guerreiros anões subiam aquela escada.
-Matarei em nome de Mallmor!
-Alguém faça o favor de calar a boca desse bando de nanicos! – exigia Thror.
-Que foi amigo? Cansou o braço Thror? - perguntava o entusiasmado Gustavo.
-Cansei sim, mas foram as orelhas! Eles não mudam o sermão!
E enquanto falava isso, cortava a garganta de mais um que estava a sua frente.
O lugar mais parecia uma cena de massacre. Os jovens se perdiam em pensamentos totalmente diferentes. Aversão, piedade, ódio, compaixão, raiva e fúria. E isso influenciava no campo de batalha e sua paisagem. Os aventureiros venciam até agora, mas a que custo?
Foi quando Lacktum gritou:
-E então Azerov, essa magia...
-Esta pronta!
-Como?!
-Entrem logo e fechem a porta! A conjuração esta pronta!
Foi então que Lacktum subiu um pouco as escadas, quando o fez, recitou as seguintes palavras:
-That slide down on my enemies! Like I do with dangers!
E assim, o chão foi coberto por um óleo negro e deslizante, o que impedia a subida dos anões na frente de Thror. Eles caiam sobre os de trás. O que tava tempo ao grupo para chegar até Azerov. Mas não muito.

Todos estavam apreensivos. A magia estava pronta e Azerov mandou que todos entrassem no círculo. O círculo arcano foi formado como sempre. Mas Lacktum notou algo estranho nas ações de Azerov:
-Como eles não irão nos seguir?
-Tome isso.
Falando isso, o experiente mago entregou um pergaminho e um tomo. Era o livro escrito em diversas linguagens.
-Azerov, você não me respondeu.
-A mensagem deve ser entregue ao regente Arda de Avalon.
-Vamos mesmo para Avalon? – perguntou Halphy.
-Calada! E você Azerov – exigiu o mago – me diga como eles não irão nos seguir?
-O tomo deve ser entregue, também ao regente. Ele poderá decifrar as escritas contidas nele.
-Me diga o que quero saber!
-Madelyne vai poder ajudar vocês. Em ultimo caso.
Pegando o mago pelos braços, Lacktum grita:
-Você não quer me falar!
-Eu vou ficar e partir o portal.
Lacktum não se conformava. Os outros gritavam para que o mago tomasse seu lugar entre o grupo que seria afetado pela magia.
-Não.
-Alguém tem que ficar...
-Não.
-Com a finalidade de impedir...
-Não.
-O rastreamento através da Arte...
-Não! Não! Não!
-Não digo eu Lacktum! Você não pode exigir nada de mim garoto. Eu fiz muito por vocês, e exijo – falou apontando para o jovem como um pai que trata com o filho – que se salvem. Faço isso, pois jovens como vocês merecem um futuro que não traga guerras e mortes desnecessárias. Eu estou velho e cansado demais para deixar que façam isso com vocês garotos.
-Mas eu não acredito que seja necessário isso. Você não pode... Não deve ficar aqui!
-Eu estarei bem, mas veja.
Foi então que Lacktum notou Gustavo e Thror segurando a porta com uma barricada improvisada.
-Seus amigos precisam de você agora. Pense meu jovem. Ou você será tão tolo como eu já fui um dia?
-Mas...
Azerov abraça fortemente o intrépido Lacktum.
-Um dia, - falou isso chorando – esperava ter um filho como você.
Foi então que o mago inglês notou que ela havia conquistado algo que perdeu a muito tempo. Azerov era mais que um mestre, era um pai que o tratava como Lacktum queria. Os olhos do inglês se encheram de lágrimas. Então, ele se desvencilhou do abraço do velho.
-Que a Arte lhe seja útil, velho louco.
-Ela sempre protegeu e sempre irá proteger jovem inconseqüente.
Foi então que Gor gritou:
-Vão estourar a porta!

           
Quase todos se mantinham no círculo. Gor, que ficava na entrada superior, se colocou dentro da magia. Thror e Gustavo pularam longe da barricada improvisada.
Lacktum olhou para Azerov pesadamente.
-Você não partira conosco, velho caduco? – tentou em um ultimo esforço inútil o mago.
-Não se preocupem comigo. Eu sei me cuidar e terei Nico comigo.
Foi quando Lacktum olhou para o jovem feiticeiro que resgataram no templo de Ixxanon... Mas não era momento de dúvidas.
-O destino nos trouxe aqui, - começou o feiticeiro – e nos manterá enquanto quisermos. Se cuide meu jovem.
Halphy reparou a frase de Nico. Alguma coisa estava escondida na frase do feiticeiro. Jovem? Ele possuía aparentemente, dois ou três anos a menos que o mago inglês. Como poderia tratar Lacktum como um jovem? Ela já desconfiava, mas não iria disser nada. Por enquanto.
Os machados começavam a mostrar suas pontas na barricada. Não havia desespero, mas sim tristeza nos olhos de todos. Com formas de lagrimas.
-Adeus, Azerov – todos diziam.
-Proteja o mago, Nico – falavam alguns.
-Se cuide, velho amigo – soltou baixo Lacktum.
-Não é um adeus, - sorriu Azerov – é um até logo.
A barricada se partia ao meio. Azerov esticava o braço em um gesto de magia.
-Quando o veremos novamente, - perguntou Halphy – meu velho amigo?
-Por favor, - falou Gor – você vai estar bem? Vai ficar bem?
As madeiras dos armários não existiam mais. Elas deixaram um caminho aberto até a sala. Foi quando o mago Lacktum enxugava os olhos, enquanto o velho Azerov se concentrava.
-O destino é um só!
Quando ouviram isso de Lacktum, todos se sentiram bem. Thror sorriu, Gor guardava a espada, Seton olhava esperançoso, Halphy se sentia mais confiante, Arctus orava com mais vontade, Hugo se mantinha firme, Madelyne chorava, Gustavo segurava fortemente a arma, enquanto Richard olhava com esperança para Azerov. Foi então que Lacktum acenou com o gesto de despedida que aprendeu com Naktuh.
-Partam! – conjurou Azerov.
Só restaram na sala Nico e Azerov. O ar do lugar parecia com uma calmaria que antecede a tempestade. Foi quando um único anão atravessou os restos barricada. Era Mallmor, antigo lorde dos anões, mestre do Norte, o Príncipe Negro dos anões, o traidor dos forjadores e o ouro negro dos protetores.
-Onde esta o grupo Azerov? Onde estão Gor, Halphy, Lacktum, Thror e os outros, velho humano?  – clamou como um trovão o anão.
-Longe – falando isso, Azerov esticou o braço partindo ao meio o círculo arcano com um movimento da mão. A magia crepitava como se fosse algo vivo que definha lentamente.
-O que fez velho louco?
Quando Azerov iria falar foi ouvida uma voz sinistra no recinto. Como se ela tocasse a alma do experiente mago e do jovem feiticeiro de cabelos loiros.
-Não importa. Sei para onde foram.
Foi quando um manto surgiu na sala. Era longo e grande, trazendo um ar de superioridade. O negro da roupa se confundia com o manto. Na cintura vários utensílios arcanos. Suas mãos eram podres como as de um cadáver. Seus cabelos castanhos e bem cuidados demonstravam que descendia de linhagem nobre ou aristocrática. O peito não era coberto por nenhuma vestimenta, a não ser um medalhão que parecia ser arcano. A face era coberta por uma máscara de aço fria, que não trazia expressão alguma. Do buraco dos olhos na máscara emanava energia sinistra esverdeada que crescia como uma linha toda vez que se movia.
Essa figura aterrorizou a mente de Azerov naquele instante.
-Pelo grande Hermes, - falou aterrorizado Azerov – o que ou quem é você?
-Eu sou aquele que forjou Lacktum Van Kristen, e você é mais uma impureza que vou eliminar.
           
Quando abriram os olhos, Lacktum e o grupo estavam em outro lugar. Parecia o outono da Inglaterra, alguns pensavam. Os mais sábios em assuntos geográficos, como Arctus e Seton, sabiam que se tratava de um lugar próximo da Terra das Brumas. Pararam de frente a uma pedra, que dava para um lago enorme. A pedra era grande e um pescador usava uma vara para pegar alguns peixes. Quando notaram, repararam que o pescador era um elfo e calmamente mexia com a linha na água.
Um cenário das terras gregas que das quais partiram, que os fizeram estranhar a situação. Tanto lá, como ali, o outono os atingia do mesmo modo, mas não com o mesmo gosto. Eles saíram de um massacre e estavam agora numa terra de quietude e paz.
-Vieram em nome de quem? – disse o pescador.
-Como? – estranhou Thror.
-Vocês vieram em nome de quem? Foram trazidos aqui pela Arte. Então com certeza vieram atrás de mim.
-Quem é você? – questionou Gor.
-Meu nome é Lunariel. Um dos porteiros de Avalon. Alguém que abre a conexão entre esse mundo e o das fadas. Os portais antigos aos quais os homens esqueceram, por se preocuparem mais com eles mesmos, do que com que realmente importa.
-Mas Avalon esta em outro plano? – perguntou curioso Lacktum.
-Não e sim, sim e não. Os homens não enxergam como nós e para eles, o espaço não é o mesmo, escondendo de sua vista os que não crêem. E quando acreditam, acham tão fantástico, que parece ser outro mundo. Vocês humanos são tão tolos.
Halphy e Richard riram. Parecia uma conversa, que os patriarcas das famílias élficas, falavam aos mais novos. Era uma tradição entre eles a passagem desses ideais, afim manter o respeito com as leis élficas e que os sidhe não perdessem essa visão do mundo.
Foi então que Lacktum disse:
-O universo é um só.
Richard olhou com espanto. Essa é uma frase que muitos sábios elfos usam para designar como a vida funcionava em todos os reinos, mundos e planos. A vida de todos pode mudar, mas o universo sempre foi e sempre será um só conosco. Uma filosofia era eternamente citada nos reinos élficos. Um humano não deveria saber sobre isso. Era um conhecimento que pouco difundido entre os não puros.
Lunariel sorriu. Ele sabia que havia verdade nas palavras do mago.
-Muito bem! Tenho alguns barcos preparados para a travessia até Avalon... Ah! E vocês estão na Inglaterra. Queiram me seguir.

Enquanto todos andavam, tentavam entender as coisas e se preparavam para partir seguindo o elfo, os pensamentos de Lacktum se concentravam em Azerov. Ele só queria que o caduco estivesse bem.