segunda-feira, 28 de setembro de 2015
sábado, 19 de setembro de 2015
(Parte 41) Ruínas assombradas
Ela despertou em um lugar que conhecia bem. Cheio de sombras
e crueldade. Onde antes havia um espelho, sabia bem. Agora surgiam olhares de
desaprovação e maldade. Um inimaginável ninho de cobras perigosas. Se estivesse
bem, e não sendo tratada como uma traidora chamaria o lugar como lar. Mas
aquele era o castelo de Sinestro.
Halphy estava cercada por boa parte dos membros do Pacto de
Guerra. Ainda assim, faltavam Daehim, Matadouro e Mallmor. Nikolai, desacordado
e ferido também estava ali.
Queria que tudo fosse um simples sonho. Contudo, era
realidade e nada mais seria como antes.
Estava sem nenhuma de suas armas. Nem as facas, nem a bestas,
muito menos Vampira de Almas. Só lhe restava suas roupas rasgadas. Além de suas
algemas, pesadas e com símbolos arcanos. Era óbvio que elas tinham grande
poder. Notou que Nikolai também possuía um par ao redor de seus pulsos. Nenhum
deles poderia usar magia.
Em um trono de pedra estava sentado Sinestro, coberto por
manto só deixando só os olhos reptilianos a mostra. Uma espada estava acima das
pernas do ser. Era Fim- dos- Dragões. A pouca expressão visível trazia certa
raiva. Constatava-se que ele já soube da tentativa daquela jovem em tentar
abandonar o Pacto de Guerra. Era claro como a luz esse fato.
-Sinto por suas atitudes Halphy... – começou o dragão que
ainda estava sem sua forma original. Não deveria ter se passado muito tempo
desde que ficou desacordada pensou a jovem assassina. Ela o interrompeu de
forma pesada.
-Poupe-me Sinestro! Tem outros planos. Para mim e todo o seu
maldito Pacto não é?
O líder daquele grupo se levantou com demasiada raiva.
-Como ousa levantar a voz para mim! Não passa de um animal!
Um ser domesticado.
-Ouso isso e muito mais! Maldito é aquele que confiou em
Coração Gélido. E mais ainda, quem o fará. Chamou-me de domesticada? Até um cão
pode morder seu dono quando for maltratado!
Nesse momento, as garras dele levantaram o corpo de Halphy.
Em questão de instantes, ele saiu do trono. Igual a uma assombração alguns
diriam. Não que estivesse muito longe disso. Erguia a jovem pelo pescoço.
-Cale esse buraco cheio de fezes que acredite ser uma boca –
disse ele enquanto a asfixiava. Em seguida, lembrando que ela ainda teria um
propósito, lançou ela para longe.
Nenhuma reação vinha dos espectadores. Só os artistas daquela
peça profana.
-Sorte sua ainda termos você como uma peça chave. Nossos
planos necessitam de você.
Nikolai despertou com o golpe que jogou a jovem para longe.
Ele a viu usando a parede para se apoiar. Lentamente se levantou. Seu corpo
parecia moído, ainda assim tentava manter-se firme diante de tudo. Cada vez
mais difícil. Ainda assim, ela ria.
Sua risada veio de forma irônica. Meio triste, ainda assim
queria ferir seu antigo mentor. Já foi dito que as palavras trazem dor. E
algumas outras coisas surgiram na sua cabeça com um sorriso enlouquecido.
-Não sei o que é pior: saber que fui usada ou me lembrar quem
fez isso. Queria alcançar o poder, só que agora noto com tristeza, ele não
estava em você. Pois caso o tivesse não teria ardis necessitando de humanos como
capangas – e ao falar isso ela cuspiu no chão.
Ele ficou de costas tentando se controlar. Em seguida exigiu
que as duas criaturas fossem retiradas de sua presença.
-Eu vou lhe mostrar quem é inferior! – gritou Halphy enquanto
era levada por uma dupla de revenants. Essas criaturas ficavam nas sombras,
imperceptíveis. Com a forma de uma armadura ninguém imaginaria que eram
monstros.
-Halphy o que houve? – pediu o alquimista. Ele também era
levado.
-Estamos sendo preso para mais tarde auxiliar os planos de
Sinestro.
Enquanto eram arrastados, o dragão sentiu que algo estava
errado. Não era para isso ocorrer. Pois o que ele queria estava perto de si e
de vários outros.
Foram presos os dois. Em uma das celas do castelo. Uma das
que passou poucas vezes quando participava do Pacto de Guerra. Por qual motivo
pensaria naquele lugar questionou muitas vezes.
-Por todas as forças do oculto! – Nikolai falava isso
enquanto batia sua algema contra a grade – Quem concedeu essas algemas para os
servos de Sinestro? Eles não teriam capacidade para isso.
Halphy encostada na parede ficou pensativa. Lembrou-se da
morte de Jean. Da mão de Raquel o atravessando com um golpe arcano. Era sua
culpa isso acontecer com ele. Tão grande era sua sina. Será que alguém teria
piedade dela, depois de suas atitudes covardes? Nunca ela pensou.
-Ei! Donzela? Poderia me ajudar a reclamar aqui?
A moça parecia ter saído de um transe. Lembrou onde estava
quando notou Nikolai na sua frente, pedindo atenção.
-Desculpe... Estava em outro lugar.
Ele se agachou e se aproximou da moça. Parecia bem mais
calmo, do que quando reclama de suas mãos presas.
-Não foi sua culpa minha cara.
-Do que esta falando Nikolai.
-Foi Raquel quem matou Jean. Não você.
Ela o olhou carinhosamente. Finalmente se levantou. Tentou
arrumar a si como podia.
-Obrigado Laskov.
Foi até a direção da porta da cela onde estavam. Ficou de
costas para ele.
-Eu sei que você sabe meus segredos – ele falou com tom
sombrio.
A jovem virou seu pescoço na direção de Nikolai.
-Como sabe... Ah! Zacharias, não é?
O pobre alquimista afirmou com sua cabeça. Era constrangedor.
Nunca pensou naquela situação a jovem.
-Eu não quis... Eu só... Perdoe-me – só agora notou o quão
invasivo poderia ser aquele artefato.
-Você não pensou que o seu feito foi mais que uma carta? O
que soube?
-Você trabalha para a Santa Sé.
-Parece pouco. Não parece algo que arrancaria de mim donzela.
Suspirou fundo a jovem antes de relatar:
-E da mulher que um dia amou.
-Ah!
Era a vez dele se sentar.
-Nunca pensei que voltaria a me lembrar de minha amada. Não
desse modo. Se me recordo bem, eu era um alquimista em começo de treinamento.
Só que tinha talento. Muito. E me apaixonei quase que por acaso. Eu pegava
ervas para uma solução alquímica. Ela procurava algumas para um corte que sua
mãe sofrerá. Não sei o motivo para isso acontecer àquela senhora. Algumas
coisas ainda ficam nubladas em minha mente. O que é certeza... Éramos felizes.
Sendo tolos ou não. Só que o destino é cheio de artimanhas. Ela era do legado
de Andrômeda.
-Legado?
-Sim. Ao que tudo indica algumas mulheres que descendem de
Andrômeda eram sacrificadas. Para um tipo de fera antiga. Deve saber da lenda.
-Andrômeda, oferecida a uma fera. Para aplacar o ódio de um
deus. Não é isso? Nunca fui especializada com mitos gregos.
-Exato. Eu morava próximo a essa vila que mantinha os
costumes. E cheguei tarde demais. Por isso sou assim. Cheio de vontades para
tentar esquecer a dor.
-Compreendo.
A garota queria lhe conceder pêsames, ainda assim não o fez.
Do que adiantaria? E de qualquer modo não havia necessidade para aquilo no
momento. Nem tempo suficiente.
-Como podemos fugir – ela questionou.
-Eu estou pensando. Mas tem pelo menos dois revenants na
passagem que nos concederia a liberdade.
-O problema nem é esse. Eu me refiro a essas coisas –
apontando para as algemas.
-Deixe-me pensar...
-Vejo que estão em dificuldades – disse uma voz no canto da
cela.
Os dois pularam de susto. Aquela cela pequena tinha outra
pessoa? Impossível. Ainda mais sem nenhum item no local.
No lugar de onde ouviram aquela voz, uma forma estranha
surgia. Começando por sua pele. Tinha escamas, como um marduk, só que essas
eram mais brilhantes e coloridas. Além de lembrar mesmo, partes de uma
serpente. Até os cabelos pareciam mais com uma cobra. Seus olhos totalmente e
com um parentesco mais claro ainda com um ofídio. Garras de um poderoso dragão
no lugar das mãos e pés – estes descalços. Possuía uma roupa que Halphy tinha
certeza ser de pura seda muito cara. Nela, além de haver um estilo diferente de
qualquer vestimenta que já viu seu contorno era recheado de desenhos. Estranho
para a assassina e o alquimista.
-Quem é você? Ou melhor, o que é você? – perguntou Laskov.
-Parece um marduk.
Aquele ser cuspiu de lado. Estava enojado com a comparação.
-Perdoe-me, mas não me rebaixo a um nível de meio-dragão.
-Não vou tomar isso como pessoal, ainda. Então é o que? Ou
melhor, veio de onde? – perguntou mais uma vez a jovem.
-Vim de uma terra muito longínqua. Na desconhecida, por
vocês, Yamato[1].
Só que essas terras possuíram outros nomes. Até pelos homens do continente. É
como uma ilha para vocês. Águas poderosas por todos os lados. Pelo que eu vi,
ela não esta nos mapas de vocês das terras do Oeste.
-Não existem terras assim – soltou Halphy.
-Conhece pouco do mundo com seus olhos jovens, Brown.
-Sei...
-Também aquelas terras são chamadas de Hinomoto[2].
-Eu não quero saber disso! Por qual motivo esta aqui?
-Vocês são apressados. Meu mestre chama-se Yo-Long. Ele é o
que vocês chamariam de um dragão. Para mim é como um deus. Pois foi ele que me
ensinou a obter essa forma. Devo tudo a ele. Ele disse que você pode
auxiliá-lo. E que lhe concederia o que quisesse. Se o libertasse.
Ela riu.
-Tem muita gente que quer muito de mim.
-Pode até ser. Mas ao menos não pode ficar do que já esta
Brown.
Ao falar isso, em um piscar da dupla presa, o estranho homem
saiu daquela cela. Ele se virou para os jovens antes de partir.
-Sou Long, um pupilo do dragão. Adeus Brown.
Eis que o homem caminhava para longe das grades. Uma nova
alternativa surgiu para a jovem. O que não era muito bom de qualquer forma. Eis
que uma idéia lhe veio à cabeça.
-O Portal da Verdade.
Estava uma vez mais no
lugar que foi mandado após encontrar a Chama Gélida. Dessa vez estava tudo
branco. Mas o imenso portão continuava onipotente e flutuante. Igual as forças
mais antigas, perigosas e poderosas do universo. Era como se um medo enorme lhe
surgisse na mente, só de encarar a construção. O motivo lhe era um mistério,
mesmo já sabendo seu conteúdo. Que os mais loucos deuses parariam e se
perderiam contemplando aquilo. Não era momento para aquilo.
-Kalic Benton! Onde
esta?
Momentos depois, como
por encanto, o mago mascarado apareceu. Ele a encarou.
-Você sabe que esta
encrencada? Em um nível que nunca poderei lhe auxiliar, se é isso que pensou.
-Não me diga! Qual foi
a primeira pista? Acho que o seu silêncio, enquanto Sinestro quase me enforcava
já demonstrou bem isso.
-Interferir só seria um
desperdício. Acha mesmo que eu o deteria? Qualquer um de nós não conseguiria
nem sequer lhe causar dano. Mesmo naquela forma decrépita dele.
-Eu imagino mesmo.
O mago olhou impaciente
para a moça. Sabia que ela queria algo dele mesmo assim. Ela sempre faz de tudo
para se livrar.
-O que quer?
-Um método de fugir.
Ele riu. Nunca ouviu
tamanha besteira. E Halphy nunca o ouviu rir tanto de algo ou alguém.
-Não há como.
-Mas você pode me
ajudar.
-Disse bem. Eu posso.
Tenho poder para tanto. Só que não o farei. Há uma grande diferença.
-Sinestro é um morto
sem descanso. Não pode utilizar o dom da Lei em você. Mesmo que pudesse você
nem seria afetado. Esse tipo de criatura, como vocês, é impossível ser afetada.
Eu sei. Já tentei.
-Compreendo. De
qualquer forma enfrentar Sinestro não se encaixa nos meus planos. De forma
alguma.
-Você realmente é um
homem difícil às vezes.
-Deuses! Você acha que
seria fácil? – disse inconformado Kalic benton II.
-Não. Mas bem que
poderia trazer uma solução.
-Entenda que não sou
seu amigo. Nem tão pouco, seu aliado. E atualmente nunca serei mais nada seu
devido as suas atitudes. Trair Sinestro é trair o Pacto de Guerra.
-Só me diga uma coisa:
você crê em Sinestro?
Foi quando ele se
calou, virou de costas e se afastou da assassina que parecia já desesperada.
-Adeus Halphy Brown.
-Espere! Tenho uma
coisa a lhe falar.
Ele então parou sua
caminhada.
-Eu eliminei sua mãe.
O mago colocou sua mão
direita na máscara. Parecia refletir sobre algo.
-Você a queimou?
-Do que esta falando?
-Não ouviu? Perguntei
se você a queimou.
-Acredito que não. Não.
Não o fiz.
-Tudo bem. Então ela
continua viva... Ou melhor, não esta morta. Adeus Halphy Brown.
Mesmo de costas aquele
mago deveria imaginar qual era o rosto da assassina. Ela cortou sua cabeça, e a
desgraçada ainda estava viva. O que lhe fez crer nisso foi à visão da destruição
do Kalic Benton original. Realmente aquilo fazia sentido. Infelizmente.
Teria que voltar até
Nikolai e se preparar. Samara ainda estava viva.
Despertou com Nikolai desenhando algo. Parecia ter uma cor
vermelha, onde estava aquela forma. Então notou o ombro e o rosto do rapaz.
Além, lógico, das suas mãos. Era vermelho sangue. Pois era sangue. O que ele
fez, pensou ela. Foi quando uma idéia macabra lhe surgiu.
-Você se mordeu até sangrar? Enlouqueceu Nikolai!
Suas mãos formaram um círculo de transmutação. Grande e
poderoso. Estava muito claro aquilo.
-Enquanto você caçava algo no plano astral[3],
eu tentava outro modo de fuga minha donzela querida. E então? Obteve sucesso?
Balançou a cabeça em negativa. Um rosto de tristeza e
frustração lhe veio rapidamente.
-Imaginei isso quando despertou minha pequena. Não se
martirize. Convencer seria impossível. Eu acredito.
-O que pretende com isso – perguntou a aflita assassina –
Esta sangrando muito e nem pode fazer magia!
Ele sorriu. Mesmo com a boca suja se sangue. Parecia sabre
mais que ela. Ao menos estava feliz.
-Você aprendeu sobre a Arte e a Lei. Nunca sobre suas
variantes. Nesse caso, a alquimia. Ela não é como magia. Dizem que um feiticeiro
ou arcano de qualquer tipo age como um abridor. Por isso usam esse termo. O que
realmente eles se parecem são chaves. Pois armazenam o mana em si. Seus corpos
são um meio para os fins específicos. Já os que transmutam – alquimistas – não
a armazenam. Usam a energia em tudo que existe para façanhas.
Em seguida tocou com ambas as mãos o símbolo. Nesse instante,
as algemas se partiram ao meio com a força de um brilho arcano.
-Ainda bem que como você, mesmo os membros do Pacto que usam
um pouco de alquimia, não entendem disso. Pois se soubessem me cegariam. Ou
quebrariam minhas mãos. Talvez os dois... Bem, de qualquer forma logo estaremos
livres, donzela.
Um grande barulho surgiu da cela. Poderiam tentar usar magia
para fazer tudo de forma silenciosa e furtiva. Só que então se lembraram que
seus vigias eram construtos. Imunes a ilusões.
Ainda assim magia era uma boa arma agora. Ela soltou uma
faísca na direção do guardião. Isso o deixou extremamente lento. Ao menos uma
vantagem contra estes seres.
Enquanto o outro, Nikolai atingiu com uma lança de pedra, ao
qual usou parte da parede da prisão para criar. Atravessou a couraça atingindo
o pentáculo. A armadura caiu e o jovem gritou de dor.
-Nikolai!
-Não foi nada. Usei o braço com meu ombro ferido. Vamos caçar
nossos equipamentos. Adiante.
E os dois fizeram isso. O mais rápido que puderam, já que
sabiam que logo seriam atacados.
Chegaram à câmara de espólios. Ali, naquele lugar, os servos
de Sinestro depositavam seu butim. Ou seja, todo o ouro ou itens mágicos dos
adversários caídos. Até de povoados indefesos.
Conseguiam enxergar onde estavam seus itens, inclusive
Vampira de Almas e a besta. O alquimista pensou em legar parte do ouro – uma
pequena fração – mas foi dissimulado pela jovem. Seria já muito perigoso sem o
peso extra. Caso isso ocorresse o corpo ficaria lento como uma lesma. Realmente
fazia sentido.
-Se for como diz... – falou um inconformado jovem.
Um detalhe é que ela encarou outra arma. Talvez seu maior
símbolo de traição. Pois não feriu Daehim com ela, quando possuiu uma chance
para tal. Tratava-se de um item que os Dragões obtiveram com justiça. Os mais
antigos e sábios a chamavam de Silthar-Mor. Fim-de-Dragões.
Segurou-a com ambas as mãos observando bem seu brilho. E
quantas lembranças ela conseguia trazer. Lembrou que foi um presente e de
quando a pediu no Vale das Esmeraldas. Memórias de antes e depois dela. Por
último, em como traiu os antigos colegas. Ela iria levar a espada, como oferta
de paz.
-Será que me perdoariam? Eu...
-Donzela Halphy! Esta ouvindo? – disse o rapaz pedindo
atenção. Um som de sino era claramente ouvido – Devem saber que estamos
fugindo.
-Não é nada disso. O sino para fugas é outro. Fui instruída
sobre isso por Kalic Benton. A construção esta sob ataque.
Eles corriam. O faziam por suas vidas. Para tal necessitavam
cruzar a ponte. E mesmo estando longe do ataque ouviam vários sons. Alguns
conhecidos, outros nem tanto. Grunhidos, barulhos de armaduras e poucos gritos
que pareciam humanos. Jurariam até que ouviram o som de um urso.
E então uma idéia surgiu para Halphy: poderia ser que Brigid
estivesse atacando a fortaleza de Sinestro. Ela com enxergaria aquele lugar. Em
especial devido aos seus grandes poderes. Além disso, usando uma forma animal
apropriada, era fácil rastrear qualquer um.
-Algo possível. Mas não é momento para nos preocuparmos com
isso – soltou a moça, enquanto corriam. Precisavam sai vivos daquele lugar
primeiro.
Passando por corredores iluminados só pelas chamas de tochas.
E quando mais chegavam perto do lugar. Uma luz fraca surgia. Tratava-se da
abertura para a ponte.
Enfim chegaram até o arco que concedia acesso ao lugar que
queriam tanto chegar. O único problema é que havia sentinelas já ali. Alguns
com espadas e outros com arcos.
-Revenants – disse Nikolai.
-São sei. Eu lido com eles.
-Donzela Halphy! – e antes que pudesse fazer ou falar qualquer
coisa, ela partiu em investida. Não havia notado que tinha os ferimentos do
ataque de Zacharias. Mesmo sendo entorpecida com as ervas raras, seu corpo não
cicatrizou devido a um efeito colateral. Ainda que fisicamente continuasse
forte, seu corpo tombaria diante alguns golpes. Ele só poderia ajudar naquele
instante. O quanto pudesse e conseguisse.
Atacou um dos primeiros na frente. Não era uma combatente boa
o suficiente para eliminar todos de uma só vez. Ao acabar com um pularia para o
outro com Vampira ao seu lado.
Como uma boa ladina encontrou uma brecha na armadura.
Conseguindo isso, com a lâmina rasgando o símbolo que mantinha aquele ser em
pé. De certo modo foi até fácil. O problema eram os dois ao seu lado. Alguns
ataques deles fizeram-na cambalear. Se Thror ainda estivesse com ela em
combate. Poderia até ver a silhueta dele lidando com o outro oponente.
-Detesto admitir, mas eu sinto falta de uma retaguarda
protegida – admitiu a si mesma.
-Não seja por isso donzela.
Eis que os inimigos são atingidos por energia bruta. Ainda
assim, não de forma fatal. Pedaços de metal danificado caem das armaduras
vivas. Um grande auxílio. Facilitando o ataque contras os símbolos de
transmutação.
O que nenhum daqueles dois fugitivos notou foi que os
revenants de trás levantaram finalmente seus arcos. Nunca haviam visto aquelas
criaturas usando armas de longa distância. Cada um com três flechas preparadas.
Foram então disparadas sem cerimônia.
Aqueles golpes não foram esperados. De modo algum. A primeira
saraivada atingiu a área do estômago, o seio e o seu ombro do lado esquerdo.
Isso a deixou atenta. Só que era tarde. A segunda leva atingiu o braço que
segurava sua espada. Um grito pior que de um animal abatido surgia naquele
lugar. E estranhamente, ele ecoava. O sangue escorria, jorrava. A quantidade do
liquido escarlate era imensa. Tinha que se manter em pé. Trocou sua arma da mão
hábil, assim usando-a como bengala. Abriu os olhos só para notar aquele que
seria o último e fatídico golpe. Das três flechas, a única que atingiu foi
mortal. No pescoço.
Seu corpo tremeu demais. Estática por enquanto e sem força,
ela tombou finalmente. Ainda no chão se sentia leve. De repente estremeceu como
um cão faminto. Gemeu como uma assombração. Era uma poça tão grande daquele líquido
saindo do seu corpo que engolia facilmente sua saliva. O dia sumia em sua
vista. E a vida também.
Nikolai chegou ao corpo desfalecido, daquela que sempre ele
tratava por donzela.
-Halphy! Minha linda! Fala comigo! Vamos! Reage! Ofenda-me!
Desistir agora não! Halphy! Não me abandone!
Enquanto ele falava, a jovem encarava aquele céu. Na verdade
não sabia em que lugar sua visão deveria ver. Os sentidos sumiram e como dito,
enxergava só a escuridão. Suas palavras, nem sentido faziam mais. Nada além de
letras separadas e jogadas a esmo, sem conseguir obter uma forma. E tantas
coisas, assim mesmo elas significavam. Em especial perdão. Pelo menos ao jovem
Nikolai, ao qual nem imaginou causar tamanho mal. Seus atos canalhas ainda
tinham motivos mais dignos em comparação e ela. Era um sujeito cheio de falhas,
mas ainda assim, mais nobre.
Ela queria poder. Única, exclusivamente e simplesmente. Envergonhava-se
disso agora. Pelo menos era sincera em sua mente. Nunca achou que aquilo era
tão tolo.
Em seus instantes finais, lentamente se lembrou dos Dragões.
E queria os contemplar uma última vez. Assim como Jean.
E Yo-Long a ouviu na sua própria mente. Atentamente.
terça-feira, 8 de setembro de 2015
(Parte 40) O herói sem um nome
A lâmina do homem santo atravessou o peito de Lacktum. Ainda
assim aquele anão continuava a segurar todos os Dragões da Justiça. Deveria ser
louco como seu mestre. Ele queria seus companheiros – mais que isso, amigos –
não fizessem nada enquanto aquele bêbado enlouquecido o matava diante de seus
olhos. Era demais para Thror que devia sua vida e muito mais para aquele mago arrogante.
Enquanto isso, o Homem Santo falou:
-Você é só uma criança. Não sabe o que é dor. Esse golpe que
sofreu não é nem metade da dor que senti em minha extensa vida. No dia em que
sofrer tanto quanto eu... Então poderá dialogar comigo criança.
No momento em que esse homem iria retirar a espada, o mago
segurou aquela lâmina com ambas às mãos. Havia levantado seus olhos com raiva e
a boca expelindo sangue.
-Pensa que por ter perdido algo ou alguém sua dor é maior que
a minha? – após falar isso soltou mais sangue ainda. Manteve-se firme assim
mesmo – Sua imortalidade ou tempo nessa terra não o torna especial. Sua família
deve ter morrido, como a minha que foi completamente destruída. Não importa
como ou onde. O que significam para nós é o que importa. Só acha que sua dor
vai se resolver isolando-se? Física e mentalmente sei que a resposta nunca será
essa. Pois hoje... Eu tenho uma nova família.
Quando aquilo foi dito, era claro a felicidade nos rostos de
Thror, Gustavo, Seton e Arctus. Até mesmo nos dos recentes novos aliados
Ulfgar, Bahamunt, Siegfried e Tom. Valente quase chorou com aquelas palavras.
Ao notar aqueles rostos, o Homem Santo se espantou como as
palavras do moribundo eram tão belas aos outros.
-Qual o seu nome abridor? Não sei se falou isso. Foram tantas
tolices que proferiu...
-Lacktum... Van Kristen.
Em resposta a isso, finalmente tirou a espada, gritando:
-Por Kanglor, Senhor da Fúria, peço que esse tolo herói seja
curado do mal que lhe causei! Eu lhe imploro Mestre da Ira!
Em seguida, o corte causado no peito de Lacktum simplesmente
não existia mais. Nenhuma marca sequer.
Finalmente Deenar permitiu ais Dragões que se aproximassem do
companheiro e líder. Thror o abraçava com força suficiente para partir um homem
normal no meio. A maioria ria da situação, com exceção de Bahamunt, que nada
entendeu.
Ainda assim, algo deixava Lacktum intrigado. Enquanto o Homem
Santo se afastava ele fez uma pergunta:
-Por qual motivo me atacou? Não faz sentido.
Ele parou. Passou a mão pelo rosto como se estivesse limpando
a barba.
-Queria ver se você era igual Kalidor. Pelos deuses, você não
é. Pelos deuses, não é.
O Homem Santo saiu da caverna.
Deenar então disse que aquele era o modo dele falar sim ao
pedido dos Dragões. Realmente, o homem deveria ter um grande ódio por Hein
Hagen.
Passaram uma noite naquela caverna. Nela conversaram por um
longo tempo. Primeiramente, os Dragões da Justiça falaram de sua união no Reino
da França, devido a um mal que estava para ressurgir. Os amigos Ulfgar,
Bahamunt e Siegfried também conversavam de modo engraçado, sobre a origem
daquela estranha união. Deenar comentou que foi adotado e criado pelo Homem
Santo. O que faz pela sua honra querer melhorar a vida do seu tutor. Por
último, Tom falou que foi adotado e criado de modo a ser um clérigo de Zeus.
Talvez o único que nada falava seu anfitrião ranzinza. Ele nem se aproximou da
fogueira improvisado por aqueles homens.
Lacktum se levantou. Pegou um dos odres vazios e o encheu.
Depois caminou até aquele homem oferecendo bebida. Foi aceito o gesto de
gentileza.
-Ei! Lacktum, não desperdice bebida com esse chato! – soltou
Thror.
-Não deveriam desperdiçar vinho é com você seu bêbado! –
gritou Gustavo – Ele é nosso anfitrião.
-Ah! Cale a boca paladino medroso.
Quando o guerreiro grego disse aquilo parecia que houve uma
reação do Homem Santo. Só que ninguém sabia se era um bom ou mau sinal.
-Tome – disse Lacktum ao homem.
-Eu não quero.
-Não é que seu hálito demonstra – ao disser isso o mago
sentou-se ao seu lado oferecendo aquele odre ainda – Vamos. Deve-me uma. Devido
aquela espada no peito lembra?
-Eu sinceramente não compreendo os jovens dessa época. Parece
muito relaxado para alguém que possuiu uma lâmina dentro do peito. Ou alguém
com uma missão tão importante.
-Na verdade, eu sempre faço isso para lidar com meus
problemas. Ser triste não resolveria muito. Se bem que agir como eu era antes,
também não era nada saudável. Igual a um tolo. Você viu um pouco desses modos.
-Deveria ser um arrogante e ignorante homem.
-Obrigado, mas não era bem assim.
-Era sim! – disse um Thror bem bêbado. Foi silenciado por
Seton com sua mão.
-Muito grato meu amigo guerreiro. Continuando... Já agi de
formas inapropriadas. Até pensei em trair meus atuais companheiros. Isso
ocorreu por influência de um dos itens malditos. Um dos artefatos do Desalmado.
O que não me redime dos meus pecados. E os erros de minha linhagem. Só que isso
já me custou minha família. Todos que amei e conheci desde quando era criança
pereceram diante de mim. Da pior forma possível.
-O que ocorreu contigo mago? Sinto um pouco de raiva nas suas
palavras.
-De mim mesmo talvez.
-É um Van Kristen não é?
Bebeu um belo gole de seu próprio odre. Sua boca se encheu
com o vinho. Parecia fazer algum bem para si. Como se precisasse muito mais daquilo
para lhe deixar melhor.
-Sou do sangue Van Kristen.
-Uma maldição esta em seu sangue. Assim como no meu.
-Quer dizer em nossos nomes? Por isso você não utiliza seu
nome verdadeiro. Nunca soube que entre os membros dos Imortais Esquecidos
haveria um Homem Santo. E me lembro de todos. Esse termo me parece coisa de um
cristão. Mas parece servir Kanglor.
-Leu o livro de Gibraltan pelo jeito.
-Sim.
-Não acredite muito naquele louco.
-Mas ele é um dos membros do Conselho Arcano de Avalon.
-Sim.
-E quer que acredite em você – disse isso olhando bem seu
anfitrião – mais do que em um arquimago?
-Sim.
-Nem deveria ter lhe entregado o odre.
O estranho encarou Lacktum com um sorriso. Depois se ajeitou
melhor contra a parede.
-Você não conhece aquele velho louco como eu rapaz, rapaz.
Quando ele era mais novo... Digamos que ele gostava te saber como o mundo iria
acabar. Nunca confie em um homem gordo que gosta de se vestir bem o tempo todo.
-Isso eu realmente não compreendi.
-Leia mais atentamente os textos rapaz. Leia. Pois mesmo nem
tudo sendo verdade, alguns fatos têm certo sentido.
-Como alguns de vocês ressurgindo no ano mil pelo calendário
dos cristãos?
-Exato!
Os homens, anões e o elfo, agora se voltavam para conversa
entre aqueles dois. Uma afinidade entre o jovem e o suposto guerreiro era
clara. Na verdade, alguns ali tinham certeza tratar-se de um paladino. Devido
ao fato de ter curado o mago usando sua voz somente. Como se atendido pela
divindade. Talvez até demais.
Lacktum perguntou:
-Por qual motivo se isolou nas terras do Norte? Em um lugar
tão gélido...
E ele puxou pela memória, nos recantos dela, fragmentos de
algo único. Uma batalha não registrada em nenhum livro. Óbvio. Todos os livros
que possuem um final feliz, mesmo que fraco, nunca terminam naquele ponto. A
personagem continua enfrentando os desafios impostos pela vida. E se o os fatos
forem mesmo baseados na realidade, nem sempre conseguem a vitória. Muitas vezes
os textos tratam somente da glória deles. Os transformando em invencíveis. Pobres
tolos são os leitores que crêem nisso.
Todos que estavam na caverna pararam o que faziam para
escutar. Apenas Thror estava no chão, bêbado e estirado pelo bom vinho tomado
antes. Até a fogueira crepitava com menos força, ao que parecia. Tudo se
silenciou para que o Homem Santo. Pudesse falar. E quando aqueles lábios se
mexeram estava óbvio que muita dor ocorreu com eles. Pois muito amor também
esteve com ele.
-Eu tinha uma família depois do último conflito contra Hades.
Minha mulher Illyana, era uma elfa que servia Ixxanon. Um grande aliado
naqueles conflitos e que ascendeu devido a mim e aos outros. Com a paz que
obtivemos foi possível termos filhos. A eles nomeamos Kamui e Youko – riu
rapidamente, mas ele voltou ao seu rosto seco – Eu pedi ajuda para Shizuko.
Enfim, pensamos que não pegaríamos tão cedo em uma arma. Só que uma guerra
estava para eclodir no horizonte. O papa Urbano II conseguiu convencer em
especial a aristocracia dos francos, para partir em 1096 e chegar até
Constantinopla. Inclusive, tropas saqueavam a fim de conseguir se alimentar sem
pudor ou piedade. Assim foi a primeira Cruzada. Com o grande número de pessoas
partindo para a Terra Santa, devido indulgências, aqueles que eram poderosos o
suficiente se preparavam. Sim, pois todos notavam que algo foi tramado nas
sombras. Os mais pobres não detinham conhecimento sobre a Bíblia. Nela matar ou
comentar atos malignos. Não faria sentido então essa investida. Fazendo os mais
humildes partirem nessa viagem sem sentido. De qualquer forma eu e os Imortais
nos colocamos a disposição dos mais aflitos. Foi quando descobrimos quem
tramava isso. Kalic Benton – respirou um pouco e deu um gole grande no odre.
Todos observavam cada palavra proferida com muito cuidado – Havia um plano dele
de dominar a cidade de York. Eu como um paladino, me prontifiquei a enfrentar o
exército desse ser decadente. O problema é que minha amada me seguiu. Antes não
tivesse feito isso. Até hoje tenho pesadelos com aquilo. Ao redor daquele
feudo, nas sombras, ogros e mortos famintos nos atacavam. Parecido com aquilo
que ocorre agora nas terras inglesas e outras. Muitos dos vivos eram bem
treinados. Nada que cada um de nos não soubéssemos lidar. Só que de alguma
forma, o miserável conhecido conseguiu se esconder entre os seus servos. Um
cavaleiro sem honra é o que digo. Pois nenhum que conheci usaria tal
subterfúgio. Não imaginando que havia um inimigo tão perigoso me afastei dela.
Ela me convenceu me lembrando de uma história, um conto de uma fada que queria
ser humana. Tratava-se da lenda de Karin. Falado isso, eu teria saído de perto
dela. Essa parte me ficou vaga na memória. E foi quando... – entre soluços ele
continuou – Ainda sinto o sangue de minha amada nessas mãos. Sem mais poder
curativo eu gritei de raiva. O desgraçado se vangloriava disso! Então, eu fui
um servo perfeito de Kanglor, pois minha ira nunca foi tanta. Pelos deuses...
Como eu o odeio.
-Eu entendo como se sente... A sua sorte é que tem um modo de
se vingar. Ou melhor, já o fez.
-Para eliminar um inimigo como Kalic, necessito de um pedaço
de sua arma. Isso é a forma definitiva. Mas nunca a tive.
-Pedaço de sua arma? – questionou curioso o jovem Lacktum.
O imortal assentiu com a cabeça de forma bem devagar.
Enfim, ele levantou. O tal paladino mexeu nos cabelos e encarou
todos os Dragões.
-Saibam que os irei treinar. Só que para isso partiremos para
Avalon.
Todos ficaram espantados. Gustavo até gritou de satisfação:
-Seremos treinados por um verdadeiro herói!
Aquele homem riu da frase. Nunca acreditou naquela idéia. Não
era um herói para si mesmo. Queria só ajudar os tolos jovens que vieram até
ele. Só não disse isso, pois poderia diminuir a empolgação no coração de cada
um.
Fora da caverna se encontravam Siegfried e Gustavo. Os dois
aventureiros observavam ao longe a vila de que vieram. Parecia até que calma,
especialmente depois de toda a neve caída. Lembraram do que viram ali.
-Você passou por aquela vila com Lacktum? – perguntou o
paladino.
-Sim. Estava completamente devastada.
-Não é para tanto.
-Você não viu o medo que eles continham em seus olhos?
-Ah certo! Diz desse modo...
Os dois estavam apoiados em pedras contemplando toda aquela
extensão de terras cobertas por neve. Mesmo na noite, o lugar possuía um tom
mais azulado. Não que as terras de onde vieram possuíssem pouco ou nenhum gelo.
É que aquele lugar parecia mágico.
Terras de invasores alguns diriam. Com aquele território
notaram que uma sensação surgia. Lembrava sons de tambores. Recordavam-se dos
textos sobre os antigos vikings e huskalars[1]que
ouviram em histórias e lendas. Sobre como o corpo de alguns homens daquele
local era protegido por Odin. Em alguns momentos sentiam que seu coração
queimava com esses relatos das épocas passadas.
-Ei! Aceitam um pouco mais de bebida?
Quando ouviram isso, foi notável a aparição de tom ao lado
deles. Carregava dois odres.
-Eu aceito um pouco – falou Siegfried tirando um dos itens da
mão do clérigo de Zeus.
O paladino aproveitou e fez isso também. Parecia que não se
tratava de vinho.
-O Deenar me entregou. Disse que é hidromel. Não sei do que é
feito, mas é bom – completou Tom.
-Realmente. E onde Thror esta? – perguntou Gustavo temeroso.
-Ele esta dormindo. Sempre foi fraco para bebidas aquele
sujeito?
-Desde que o conheço...
-Parece ser um rapaz bem engraçado – soltou Siegfried.
-Isso ele é! – falou rindo o paladino – E um ótimo
combatente.
Os três começaram a rir. Talvez por conta do jeito como agia
o bom Thror. Ou quem sabe foi efeito das bebidas. Tanto faz. Estavam alegres de
verdade. Era o que importava.
Eles se voltaram para a entrada da caverna. Onde estava
cravada na neve como se fosse uma bainha, aquela espada. Todos ali acreditam
que deveria ser uma arma do Homem Santo.
Após um bom tempo dos três ficarem em silêncio, Gustavo
quebrou:
-Não sei se já ouviram falar, mas acredito que aquilo é uma
lâmina sagrada.
Tom se espantou. Já Siegfried, claramente ficou confuso e
pediu respostas.
-Uma lâmina sagrada – disse Tom puxando um pouco de seus
conhecimentos – é uma arma que uma divindade concede a um de seus servos mais
fiel. Muitos confudem isso com um adorador poderoso. Esse item só é entregue
quem realmente acredita nos preceitos antigos.
-Não é a toa que ele é tratado como Homem Santo! – disse um
espantado Siegfried.
-Bem, não tenho certeza se é por isso que o tratam assim –
falou Gustavo com a mão no queixo, de forma pensativa – Talvez seja por outro
motivo. Lembre-se que muitos ainda acreditam nos deuses antigos aqui. O termo
santo não seria usado por eles.
-E a tristeza que sentiu? Que maldito deve ser Kalic Benton.
Vingança nunca funciona. Nem para lidar com quem feriu ou nos tirou quem
amamos.
-Para falar assim, eu sinto que possui uma mulher no coração.
Deve ser isso.
-Não exatamente – disse timidamente o guerreiro do norte – Eu
tenho em minha cabeça uma jovem linda que conheci naquela vila.
Nesse instante, Tom bateu nas costas do homem com certa
empolgação.
-Ora! Se não é Eros atuando sobre o nosso valoroso guerreiro.
Como se chama a dama? – perguntou o sacerdote.
-Hilde.
-Ora, ora! Assim como eu também me enamorei por uma jovem
curandeira. De lá também. Valquíria.
-E não é bom? E você paladino? Tem alguém em mente?
-Fiz voto de castidade – respondeu prontamente o guerreiro
divino.
Tom e Siegfried se calaram. Era raro ouvir isso de uma pessoa
tão jovem.
-Mas não lhe faz falta? Digo o calor de uma mulher?
-Nunca. Se acharem que é difícil para mim, conversem com
Arctus. Ele nunca possuiu sequer uma família. É um irmão que nem tenho mais.
Tento sempre fazer o bem com ele. E para ele.
-Não fale desse modo tão serio. Ou vamos parecer duas
crianças em comparação a você – disse Siegfried com certo ar de infantilidade.
-Eu não me importo – falou rapidamente o clérigo com um
sorriso malicioso e juvenil.
Siegfried o encarou com raiva. Gustavo riu do constrangimento
do homem que sempre viveu no norte. E mais uma vez riram todos.
-Vamos dormir. Estamos muito bêbados ou cansados – pediu o
paladino.
Concordaram depois de muito rirem dos fatos anteriores.
Cada um foi caminhando até entrada da caverna. Bem
lentamente, de modo que não escorregassem ou batesse em algo alguém.
Primeiramente foi Tom. Falava bem alto até. Obviamente era o
mais embriagado dos três. E ainda fez piada de Thror por seu sono forçado pela
bebida.
Em seguida, Siegfried desceu. Bem mais calado e cheio de cuidado.
Porém, como todo bom guerreiro, era barulhento. Mesmo quando tentava manter o
silêncio. Além de pisar uma vez ou outra na mão – ou outra parte do corpo – de
alguém.
Gustavo se demorou um pouco mais. Abaixou-se um pouco diante
da entrada e olhou aquela lâmina.
Lhe fez lembrar-se dos combates até então. Pensou como ele
seria digno de uma arma igual aquela. Lembrou de itens como a espada de Carlos
Magno ou a de Arthur Pendragon. Dizem que elas concediam propriedades místicas
ao usuário. Um dia seria ele o portador de tal honra. Outro detalhe é que não
reconhecia aqueles símbolos. Era realmente material de fonte atlante.
-Kanglor... Não pode ser...
Eis que ouviu o som de um dos membros dos Dragões para que
entrasse. Ele o fez deixando a misteriosa arma para trás.
Todos dormiam bem, até que logo cedo ouviram os gritos de
Deenar. Parecia apavorado com algo.
-Pare de gritar anão louco! Não nota que estou dormindo? –
disse um Thror com uma horrível ressaca.
Ignorou aquilo e foi aonde seu mestre dormia. Todos usavam
cobertas, ele usava uma grande parcela.
-Acorde mestre! Acuda a vila! – ele gritava enquanto
balançava o homem. Esse depois de alguns empurrões desperta com raiva.
Questiona o motivo daquelas atitudes infantis.
-A vila meu senhor! Esta sendo atacada! Daqui vejo fogo. E
temo ser visto a asa de um dragão.
-Como? – muitos soltaram. Despertando lentamente alguns.
Ainda assim isso lhes fez levantar.
Todos, mesmo não conseguindo colocar suas roupas, chegaram
até a saída da caverna. Transtornados e com medo que o lugar que pensavam estar
a salvo fosse destruído. Algo que os mais antigos acreditavam não ser uma
coincidência. Já eram calejados em fatos inusitados. Os Dragões acreditavam que
isso poderia estar relacionado a eles.
O frio não foi problema, pois nem se importavam com esse
fato. Só queriam confirmar o que Deenar falou.
Finalmente alcançaram a saída. E qual não foi à surpresa de
todos quando nuvens da fumaça mais negra que já viram subiam. E era na direção
da vila.
Com algum esforço Lacktum forçou a visão. Então notou um par
de asas negras.
-Daehim! Seu maldito!
Hilde levantava a curandeira Valquíria. Estava ferida
gravemente. Isso ocorreu, não devido aos ataques do monstro com força tremenda,
ou por conta do dragão. Tratava-se de uma viga poderosa em cima da perna. A
jovem, no entanto era resistente, pois agüentava aquela dor tremenda.
A vila estava sendo atacada só por duas criaturas. Ainda
assim quebraram uma boa parte do templo. Suas armas eram só um machado
poderoso, garras e o sopro maligno de um dragão. Era impensável, se não
estivesse ocorrendo de verdade com elas. E com seu povo.
Sabiam que não poderiam lutar. Fugir também não seria uma
opção que duraria.
Ficaram em um dos becos na cidade. Queriam ter um lugar para
descansar. Já que em seguida teriam que fugir para algum lugar. Aonde, não
imaginavam. Eram criaturas enormes, e que facilmente alcançariam qualquer ser
vivo. Em especial o dragão. Ainda se mantinham escondidas de qualquer maneira.
A jovem pediu que a amiga ficasse parada. Levantou a saia e
observou onde estava ferido. Estava feio o local do golpe.
-Puxe – pediu Valquíria para sua amiga. Hilde entendeu que
era para puxar a perna ferida.
-Não prefere que façamos isso fora daqui?
-Faça! – exigiu a jovem.
Eis que Hilde olhou para aquele ponto ferido. Mesmo com pena
da amiga faz seu pedido. O gritp só não foi maior, pois foi abafado pelos sons
do ataque daqueles monstros.
Não só os golpes daquelas bestas malditas. Havia também os
lamentos das mulheres, jovens e idosas. Vez ou outra, um homem tentava atacar
aqueles seres. Só gritos de morte eram ouvidos em seguida. Pena os homens estarem
em viagem. Assim como os aventureiros, que se prontificaram a salvar todos dos
ogros. Deveriam estar mortos.
Valquíria pediu que corressem dali. Sua amiga deteve seu
ímpeto. Teria que ir com calma aquela perna. Poderia ser forte, não imortal.
-Onde esta a velha Urda? – perguntou Valquíria querendo
ignorar a dor.
-Eu não sei. Desapareceu. Antes mesmo do ataque. O que me faz
crer que ela adivinhou que haveria um ataque.
-Bem coisa de Urda.
Respiravam bem. Tentavam se tranqüilizar com o mal em sua
volta. Valquíria mais uma vez encarou a amiga.
-Será que aqueles aventureiros estão vivos? Digo como o tal
Tom que me ajudou?
-Esta com saudades do tal sacerdote grego? – com um sorriso
inapropriado para o momento.
-Lógico que não! Só imagino que poderia nos ajudar. Assim
como os grupos que passaram aqui.
-Isso é verdade...
-Esta se lembrando do guerreiro de cabelos negros?
-Como sabe disso? – questionou Hilde extremamente tímida –
Quer disser...
-A vila é pequena minha amiga. E você é filha do líder
daqui...
Enquanto falavam só ouviram o golpe do machado, próximo de
suas cabeças. Era o perigoso ogro que notou onde estavam as moças. Elas
gritaram de pavor devido ao ataque mal sucedido.
-Ora essa. Matadouro encontrar presas com forma de mulheres.
Vocês falar muito e cheirar a medo.
Hilde empurrou sua amiga gritando:
-Vai Valquíria!
A jovem ferida gritava e chorava. Tanto pela dor, como pelo
desespero. Talvez por sua culpa Hilde morreria.
Contudo a fortuna de ambas era alta.
Quando o temível ogro tentou mais um ataque, foi travado pelo
pouco espaço do beco. Isso concedeu tempo suficiente para as duas jovens
escaparem. Obviamente deixando o inimigo irado, até demais.
Elas saíram do lugar fechado. Estavam em lugar aberto agora,
o que poderia ser um grande problema. Já que quando aquele monstro saísse
daquele ponto iria atacar com tudo. Tirando que o dragão poderia vir naquela
direção.
A simples Valquíria tinha um plano, quando observou para
certa direção. Lá havia itens para uma armadilha.
Matadouro havia chegado até o lugar aberto. Onde acreditava
estarem suas presas. Pensou então que seria inútil, pois com certeza fugiram.
Qual não foi sua surpresa quando notou uma delas no chão. Era o momento de
aproveitar.
-Mulher humana deve ser apetitoso. Outra ser bem covarde.
Covardia tem bom tempero.
O ogro não notou um plano contra ele. Havia uma grande
quantidade de toras de madeira em uma esquina que descia até onde ele estava. E
a filha do líder foi até lá para fazê-las rolar. Lógico, colocando antes sua
amiga em uma área segura. Assim mesmo Valquíria pediu para ser uma isca. Se
algo falhasse, ao menos uma sobreviveria.
Ao notar que o ogro estava no campo onde seria atingido
começou a empurrar aquela madeira. Era um esforço tremendo. Nunca foi
acostumada em mexer com tanto peso de uma vez. Suas mãos poderiam lhe ajudar,
no entanto, já que sempre fazia o possível para trabalhar. Era esforçada.
Enquanto tentava fazer rolar aquelas coisas Matadouro se
aproximava. Se Hilde não fizesse algo logo sua amiga seria devorada por um
monstro. Amaldiçoou a si mesma por nascer mulher. Nascendo como homem teria um
modo de combater. Ainda assim, ela sabia como lidar com sujeitos atrevidos. Não
com monstros.
Finalmente, aqueles malditos pedaços de madeira estavam
soltando-se. Notou isso pelos estalos. Tinha que tomar cuidado para não alertar
aquele inimigo. Um milagre ocorreu então, pois as terras rolaram e Matadouro
foi pego no truque.
Sem ter como se esquivar aquela imensa pilha de madeira o
esmagou só se ouviu seu grunhido. Só se ouviu grunhido. Valquíria só torcia que
não morresse como seu perseguidor. Sua sorte continuava ali.
O mais rápido que pode, Valquíria foi à direção de Hilde.
Essa fez o mesmo, para auxiliar sua amiga que mancava.
-Esta bem Valquíria?
-Na medida do possível Hilde.
-Vamos. Se apóie em mim. Vamos conseguir ajuda.
Antes que saíssem daquele lugar a jovem curandeira notou algo
estranho. Que não notasse aquilo.
-Espere... Onde esta o sangue?
-Do que esta falando? – a outra se sentiu confusa.
-Não há sangue. Nem pele. Ou sequer um osso. Eu já vi meu pai
trazendo esses monstros até aqui. Pedaços deles. E eles têm um sangue verde.
Por acaso viu alguma marca assim?
-Deve estar debaixo das toras. Esqueça.
-Não estar não – ouviram com temor atrás delas.
Quando se viraram não queriam acreditar naquilo. O escutaram
poucas vezes, mas sabiam que era ele. Nem conseguiam fazer idéia de como, mas
se tratava do ogro.
Finalmente encararam o fato que a voz tinha atrás delas.
Compreenderam ao olhar para aquele lado que ele estava vivo.
Ao virara seus rostos, uma fumaça espessa surgia. Pior que
isso, do tamanho de Matadouro. Era grande o bastante, para cobrir um ser humano
comum. Isso já deixava ambas apavoradas, só que não era isso apenas. Além
disso, vez ou outra pareciam surgir partes do corpo da mesma criatura que as
seguiram.
Aquela fumaça, com certa lentidão, foi tomando uma forma
humanóide. Enquanto isso ocorria as garotas subiam na área onde antes havia a
pilha de madeira. Só que foram impedidos pelo imenso machado do perseguidor
monstruoso.
Parecia que pelo menos o braço já estava em uma forma
estável. Cada fração daquela fumaça começava a criar uma silhueta. Uma vez ou
outra enxergavam brasas, como de uma fogueira. Era claro que uma grande
habilidade mágica foi usada. Mesmo sabendo tão pouco sobre esse assunto. Enfim,
o inimigo estava vivo, na frente dela.
Ele se abaixou de forma com que pegasse impulso para algo.
Era um salto, pois no instante seguinte a ter feito isso, ele caiu próximo
delas.
-Surpresa presas. Vocês terem gosto de galinha ou cavalo?
Ambas ficaram paralisadas pelo medo. Em um ato de extrema
coragem, Valquíria lança Hilde para longe, com sua baixa força. De raiva o ogro
golpeia-a. isso a faz se lançada em outra área aberta. Desacordada, no entanto.
-Valquíria! – gritou a desesperada moça notando que a amiga
poderia estar morta.
O ogro tirou seu machado do chão com certo esforço. Caminhou
de uma forma sinistra e arrastada até perto de Hilde. Levantou seu machado para
trás.
Era notável que sua vítima chorava e soluçava. Ele antes que
desferisse o golpe solta de forma pervertida:
-Lágrimas temperam as presas.
-Meça suas palavras criatura!
As palavras mal foram ouvidas quando ataque ocorreu. Contra
Matadouro.
Um golpe surgiu do nada. Proveniente de um homem portando
escudo. Na verdade, aquele homem usou aquela defesa como arma. Fazendo o
monstro se afastar um pouco. Uma marca forte no rosto surgiu naquele ser.
-Quem ser você? – exigiu aquele ser.
Atrás do homem se encontravam os novos Dragões da Justiça.
Era o suposto Homem Santo o defensor da jovem. Todos armados.
Ele levantou Valquíria a despertando. Quando o fez tomou
muito cuidado.
-Esse tipo de criatura sente prazer com o medo – disse o
homem a jovem.
-Obrigado Homem Santo.
-QUEM SER VOCÊ? – exigiu de forma furiosa.
Os olhos do homem voltaram para aquele ser. Dentro deles,
Matadouro encarou muitas coisas que lhe deixaram apavorado. Era do mesmo modo
quando se encara alguém com um passado terrível de difícil. E só pelo olhar,
uma pessoa nota todo sofrimento no coração da outra. Essa sensação apavorante
fez o ogro vacilar.
Abaixo do casaco de peles havia uma armadura poderosa. Com
várias placas forjadas e encaixadas de modo a recobrir seu corpo todo. Havia
manoplas cheias de detalhes, botas pesadas de couro cheias de barro e um cinto
reforçado. Correias e fivelas distribuem o peso igualmente, sem atrapalhar seu
movimento. Um grande escudo ficava em seu antebraço. Feito de metal, mas
possuía um brasão com um símbolo em madeira. Um lobo branco. Não fosse pela
barba mal cuidada, muitos diriam se tratar de um rei.
-O meu nome não lhe interessa. E mesmo que lhe contasse fera,
de nada serviria. Eu não o concedo a ouvidos dos mortos.
Lacktum riu e gostou do que ouviu. Assim como Tom. Thror e
Bahamunt nada entenderam. Já estavam se acostumando com tudo aquilo, inclusive
em relação ao elfo louco.
-Vá para outro lugar minha jovem. Deenar esta auxiliando os
mais feridos. Leve sua amiga.
E assim o fez. Despertou a colega e falou para fugirem. Logo
depois tentaram correr.
Tanto Siegfried, quanto Tom haviam notado de quem se tratava.
Só observaram e falaram rapidamente. Agradeceram na frente de ambas, aos
deuses, por elas estarem vivas. O momento alegre foi interrompido. Já que as
jovens tinham que se cuidar. E os aventureiros terminar um assunto.
-E vocês achar justo tantos contra um? – falou o grande ogro.
Houve um grito de fúria por parte daquele homem poderoso e
perigoso.
-E acha justo atacar duas moças indefesas? Agora me deixe lhe
mostrar o que é pânico.
Um silêncio sepulcral caiu entre o herói sem um nome o membro
do bando de Sinestro.
Eis que surge entre eles um elfo negro. Ou ao menos era o que
muitos ali pensavam.
-Desculpe interromper.
-Daehim! Praga dos infernos! – gritou o mago Lacktum.
-Calma meu amigo arcano! – soltou Ulfgar – Pelo que me falou
esse é o tal dragão que enfrentou?
O jovem de cabelos vermelhos assentiu com a cabeça.
-Ora essa. Comentou do Vale das Esmeraldas e de nosso pequeno
e primeiro encontro? E como os humilhei? Disso não deve ter falado.
Uma raiva tremenda surgiu naqueles que participaram daquele
combate.
-Deixemos o passado de lado. Você deve ser o tal Homem Santo
do norte. Prazer – e ao falar isso se curvou em referência – Nós temos algumas
coisas para tratar com os Dragões. Poderia se afastar? Só um pouco?
O antigo membro dos Imortais Esquecidos ficou calado,
impassível. Sua resposta, naquele momento, com certeza era não.
-Bem... Eu tentei ser educado. Vocês viram. Não viram? Nunca
digam que Vento Gélido é um mal educado. Mesmo entre vocês mortais, minha
palavra é perfeita. Esta vendo isso? – o dragão em forma de elfo levantou uma
caixa de forma quadrada e com pequenos filamentos saindo da mesma – Sinestro
mandou isso como lembrança. Disse-me que é a Caixa do Renascido Infernal ou
Chave do Pandemônio. Você sabe do que isso se trata na realidade? Um detalhe:
eu soltei o que estava aqui dentro.
O poderoso paladino se enfureceu mais uma vez. E dessa se
conteve.
-Dragões. Terei que deixar esses dois para vocês. Mas creiam
que voltarei quando for possível. Esses loucos soltaram um lorde infernal na
vila.
-Hilde! – disse Siegfried atônito.
-E Valquíria falou apavorado Tom.
-Temos que ir até lá! – exigiu Lacktum.
-Não – falou o Homem Santo.
-Como não? – questionou Arctus – Estes seres estão aqui por
nossa causa!
-Eu sei. Mas o que querem é nos dividir. Vocês enfrentam o
ogro mago e o dragão. Lidarei com o demônio.
Quando decretou aquilo cruzou o caminho entre os jovens aventureiros.
Levantou sua mão, um brilho dourado surgiu. Através dela era possível se sentir
paz e confiança.
Então que enquanto sentiam aquela aura benigna afetando todo
o lugar, a poderosa lâmina surgiu feito um fantasma. Ela zuniu feito uma flecha
atirada pelo melhor arqueiro. Se qualquer outro tentasse segurar semelhante
artefato talvez tivesse seus dedos decepados instantaneamente. Porém, isso não
ocorreu com ele. Pois era um paladino poderoso, um campeão consagrado pelas
forças do bem.
Ainda estava cheia dos pedaços de gelo onde foi depositada
por tanto tempo. Só que agora, eram notáveis detalhes no corte da arma e seu
cabo. Havia um rubi em sua guarda. A extremidade onde se segurava aquela arma
tinha forma de um lobo branco e faminto. E a sua lâmina ficava mais bela devido
a escritos. Era a língua dos dragões e da desaparecida Atlântida.
-Antes que eu parta devo me apresentar... Chamaram-me por
vários títulos. Bons ou maus – ainda de costas aos Dragões da Justiça continuou
sua fala – Paladino Covarde, Maneta, Aquele que Tombou, Espada Perdida, Lobo
Sagrado, Cão Branco, Amigo de Ixxanon, Paladino da Ira... Meu irmão me tratava
por Pequeno Pombo... Recebi esse nome de meu pai, Edward Gawain III. Sou o único
paladino de Kanglor nessas terras, James Gawain.
Ao terminar te falar isso, o paladino correu para derrotar
aquele mal.
Daehim riu.
-O mais forte entre vocês fugiu. Agora não terão mais
chances.
Lacktum se virou com um rosto cheio de confiança.
-Você sabe que aquele homem nunca revelava seu nome. Só
outros Imortais Esquecidos conheciam esse segredo. Ele revelou isso por saber
que não morreremos como disse para Matadouro. Mas o fez, em especial por
confiar em nós. Além disso, Gawain é um conhecido eliminador de demônios.
-Muito bem, vamos ver se terá a mesma confiança depois que
farei. Matadouro! Se levante.
O ogro fez isso prontamente.
-Dragões preparem-se!
Cada um dos jovens heróis cercou os dois membros do Pacto de
Guerra. Ao redor de Matadouro ficaram Tom, Siegfried e Ulfgar. Daehim tinha
como seus adversários Gustavo, Bahamunt, Seton, Thror e Lacktum. Estavam
motivados. O dragão assumiu sua forma verdadeira em instantes.
O ogro colocou seu machado na frente usando seu tamanho como
vantagem. Criando uma linha imaginária na sua frente. Impedindo um ataque
direto. Até que funcionaria se não fosse plano dos três.
Em um salto, Siegfried usando duas mãos na armas partiu para
o ataque. Enquanto ele fazia isso, o anão corria por baixo com seu martelo. Um
truque fatal, já que ambos poderiam acertar seu alvo. Só que um deles seria
atingido.
O escolhido foi Siegfried.
Seu golpe tinha sido detido pelo machado do ogro. Ele acertou
o guerreiro humano, mas não de um modo fatal. Deixando o caminho livre para
Ulfgar, paladino de Thor. Ele teve uma surpresa, ao descobrir que seu inimigo
girou o corpo todo com sua arma. O que significava um novo ataque logo.
Aquele monstro girou em torno de si mesmo com o item
cortante. Assim lhe concedendo uma nova chance de golpe. Por um milagre, foi
detido pelo martelo do servo de Thor.
Os dois se mantiveram em disputa entres armas. Ulfgar com um
simples item de combate. Enquanto Matadouro carregava claramente uma força
arcana. Não fosse pelo ataque com ímpeto do anão, talvez tivesse seu crânio
partido. Uma disputa entre ambos.
Eis que a lâmina de Tom acertou o lado esquerdo daquele
monstro.
-Ataque pelo flanco. Minha especialidade.
De um momento para o outro, aquele ser estava encurralado. E
com um corte imenso.
Do outro lado, estava Daehim. Cercado por um número bem maior
de inimigos, ele flutuou um pouco. Assim dificultava os ataques alguns como
Gustavo.
-Não tenho nenhum arco – reclamou o paladino de Deus – Desde
que combateram o kraken.
-Que pena, pois eu tenho! – soltou um feliz Thror atacando.
O guerreiro careca disparou sem sucesso no antigo inimigo.
Ainda que fosse bom com arco, não acertou.
-Ninguém é tão bom quanto um elfo com arco.
Quando isso ocorreu, uma flecha cruzou o ar. Acompanhado de
mais duas. A primeira não obteve o sucesso desejado. Diferente das outras, em
que uma atingiu a pata inferior esquerda e outra, o que vagamente lembrava um
ombro. A anatomia daqueles seres não era muito perfeita. Para padrões
humanóides.
-É a minha vez! – falado isso, o mago esticou sua mão para
trás. Ele formou um chicote de pura energia com calor. Sua magia predileta. A
força arcana se tornou uma língua de chamas atingindo o oponente que voava.
Mesmo sendo um dragão, Daehim estava se sentindo muito
acuado. Pois aquela magia que o mortal soltou era tremendamente poderosa. Ainda
que para padrões tão baixo quanto o dos humanos. Aquele arcano aumentou seus
poderes e bastante.
Seton aproveitou e bateu as mãos no chão levantando algumas
plantas. Queriam aprisionar a monstruosidade alada. Só que os reflexos de
Daehim ainda eram superiores. Não obteve sucesso nesse truque.
O dragão agora atacava. Inflou seu peito com grande força.
Disparou de sua bocarra um jato de chamas negras poderosas e perigosas.
Todos fugiram do golpe daquele sopor, com exceção de Arctus.
Este usou um poderoso encanto impedindo um ataque de chamas contra si. Mesmo as
negras.
-Estava preparado para você. Por muito tempo! – gritou o sacerdote
batendo o punho que estava com a arma no peito.
Desse jeito o dragão fez um golpe em rasante como resposta a
bravata. As asas fizeram boa parte dos jovens serem lançados para longe. Com
exceção de Lacktum e Thror.
Ainda assim, Bahamunt no chão disparou uma de suas flechas.
Na verdade, como antes foram mais de uma. Todas juntas. Acertaram aquele enorme
corpo de besta.
O mago levantou um dos seus pulsos, e quando o fez, uma
esfera de chamas surgiu. Poderosa e grande o suficiente para cobrir uma pequena
casa. E a iria lançar com toda a sua força remanescente.
-Da outra vez eu não usei isso, pois estávamos em lugar
fechado – disse rindo aquele jovem – Só que dessa vez, nada me impede.
Houve o lançamento da grande bola de fogo. E enfim atingiu o
monstro. Como um inimigo tão pequeno obteve um resultado tão grandioso,
questionaria Daehim. Pois com isso, o dragão caiu nochão.
Ele se mantinha em pé com relativa dificuldade. Os jovens
eram perigosos. Aquilo o forçava a usar mana. Nunca imaginou que necessitaria disso.
Com um simples agitar de sua garra uma magia atingiu vários
de uma só vez. Era pura energia elétrica. Só atingiu os Dragões da Justiça.
Eles de debatiam pela dor como se alguém forçasse a carne de cada um. Todos
caíram.
Era possível ouvir o sorriso de Matadouro e sua voz cruel:
-Parece que estes Dragões parecer um bando de salamandras – e
ao falar isso, o ogro chutou o corpo do clérigo de Zeus – Esse aqui parecia que
iria trazer problema.
Ficou de costas para Tom. Sem perceber um movimento atrás de
si, Matadouro foi atingido. Na perna esquerda para ser mais preciso.
-Argh! – gritou a criatura pela dor causada. Em seguida rolou
para longe do seu inimigo.
Tom se regozijou:
-Acha mesmo que eu deixaria você impune depois do que causou
aquelas jovens? Depois que eu terminar com você, eu mesmo pegarei as presas
daquela serpente de asas.
Mais lentamente, os outros jovens foram levantando. Lacktum
gritou para alertar.
-Vamos! Rápido! Vai demorar a ele atacar com o sopro de novo.
Enquanto faziam isso, o machado de Matadouro disputava contra
a espada do jovem Tom. Esse último deslizou sua arma para baixo – sendo que seu
inimigo mantinha a defesa na horizontal – e se afastou em um salto. E em outro
voltou atacando com sua lâmina. Além de acertar o golpe no ombro, seu item
estava com uma magia elétrica poderosa. Foi quando o monstro se afastou.
O ogro mago colocou umas das mãos no ombro ferido. Ele bufou
de raiva e dor.
-Você é o que?
-Tom Drake Harem. E leve esse nome para o Tártaro. Pois é o
que merece.
Ele nunca teria sido apenas um homem comum.
Um pouco mais afastado, o cerco contra Daehim continuava.
Parecia fazer um sucesso considerável.
O dragão, mesmo sabendo que eles estavam feridos notou algo.
Eram muito mais perigosos que anteriormente. Mesmo com os novos membros, não
achou que seria tão difícil com humanóides. Dragões são naturalmente poderosos.
Desde que nascem. Sem um ser igual a ele. Pelo menos ali, nunca existiria.
-Vermes imundos! Deveriam se render. E então estender suas
cabeças com seus pescoços diante de nós. Para nos alimentar com suas carnes.
Estranhamente, o elfo arqueiro riu.
-E dizem que o louco sou eu!
De longe, Ulfgar gritou.
-Mas você é! Essa criatura é prepotente! É diferente!
-Como ousam? Fazer piadas de uma criatura divina como eu!
-Senhor divino! – gritou o guerreiro Thror – Que tal resistir
a dois golpes de espadas?
Falado isso, ele correu como um touro sem freio por baixo das
patas traseiras de Daehim. O grito de dor causado na criatura era percebido por
todos dentro da vila, já que o combatente acertou ambas ao mesmo tempo. Eram
realmente arcanas. Além do corte, o dragão sofreu com forças que lembravam um
trovão e um relâmpago.
Lacktum meio atordoado olhou para o guerreiro e se apoiou
nele.
-Trovoada e relampejar? – disse o mago.
-Trovoada e relampejar! – respondeu o amigo combatente.
O combate entre Tom e Matadouro chegava próximo de um fim. O
clérigo rodeava aquele ogro como uma fera próxima do momento certo de um bote.
Os papéis haviam se invertido.
Quem iniciasse o próximo golpe não importava. Mas quem o
terminaria sim. Se bem que o sacerdote não estava tão ferido como o seu
oponente.
E em um instante, quase tão rápido quanto uma gota de água
caindo, a espada de Tom atravessou o peito de Matadouro. A fera com aspectos de
homem se ajoelhou não agüentando aquela dor. Como golpe de misericórdia, o
executor tirou a lâmina do monstro lentamente. E em um corte seco, o decapitou.
-Pronto! Eliminei. Agora só me falta o dragão.
Não era possível. O ser que havia unificado ogros e goblins
jazia caído no chão. Aquele acontecimento era intolerável. Inimaginável para
alguns. Ao contrário, Daehim encarava um monstro humanóide jogado naquela
terra. Haviam derrotado Matadouro. Ou melhor, um único homem.
Sem notar seu próprio aspecto, Tom caminhava até o dragão.
Quando sua lâmina obteve sucesso, uma grande quantidade de sangue o cobria. E o seu sorrido lhe concedia um aspecto quase
demoníaco. Por ultimo, a espada sendo arrastada fazia pequenas faíscas voarem
com o atrito.
-Obrigado Lacktum. Se ele tivesse usado alguma habilidade
arcana... – falou Tom.
-Com certeza ele teria fugido – completou Lacktum – Ainda bem
que alterei alguns aspectos da realidade, não acha?
-Lógico.
Foi isso que ocorreu. Era uma das habilidades de um mestro do
destino. Já ouviu rumores de uma feiticeira que usava só tons rubros em suas
vestimentas. Ela controlava as chances de algo ocorrer. Talvez seu aliado até
quisesse usar seus dons, mas foi detido pelo poder de controlar a realidade.
Lacktum estava poderoso nesse caminho.
Recuar era preciso.
Quando se deram conta, o dragão ficou de costas. Sem mais nem
menos. Parecia que ele fugia dos pequeninos humanos. Eis que Lacktum grita:
-Não o deixem escapar seus tolos!
Era possível ver Tom correr na direção do monstro. Sem
sucesso.
-Pelas tarefas de Hércules! Quase que eu pego essa fera!
-Sem problemas, mortal. Eu o faço – soltou um Bahamunt
arrogante – Minhas flechas o acertarão.
Falado isso, uma saraivada de projéteis foi lançada pelo
elfo. Ainda assim, nenhuma delas alcançou o objetivo.
Antes que pudesse ficar longe da vista de qualquer um ali, o
Vento Gélido soltou uma última magia. Pedaços de um metal negro brotaram em
pleno ar. Semelhantes a lanças.
Cada um dos Dragões de protegeu como conseguia. Siegfried
ficou atrás de uma parte das casas. Lacktum criou uma barreira de energia que
quase falhou. Tom bloqueou uma lança com a própria arma, mas notou que outra
atingiu sua perna. Seton e Arctus saltaram para direções opostas. Ainda assim
foram feridos. O primeiro no braço e o segundo no pescoço levemente. O tolo
Thror ficou só preso, pois sua roupa foi rasgada pela magia. Já o paladino
Gustavo deve mais sorte. Não foi pego por nenhuma delas.
Onde estavam, no entanto, o anão e o elfo? Depois da
confusão, onde quer que o dragão esteja talvez tenha vitimado aqueles jovens.
Daehim, o Covarde seria um titulo mais apropriado para aquele lagarto com asas.
Mas caso aqueles dois estivessem mortos, o líder dos Dragões nunca se
perdoaria.
Eis que quando Gustavo se virou para um lugar, ele conseguiu
notar uma cena. No mínimo épica. Ele chamou a atenção dos outros.
Lá estavam o paladino e o arqueiro. Ulfgar segurava um escudo
atravessado pela lança arcana. Isso acontecia, pois, o elfo foi protegido do
ataque pelo colega. Quando os outros se aproximaram dele notaram que não
somente a defesa foi trespassada. O braço do anão também.
Todos correram para acudir o anão. Gustavo auxiliou. Fez isso
o segurando. Ao mesmo tempo em que temiam pela vida do amigo, eles exaltavam
seu amigo. Uma atitude heróica.
-Grato anão! – soltou Bahamunt pela atitude do companheiro.
-Não quero o agradecimento de um orelhudo... – fala Ulfgar
tentando resistir a dor – Só me faça um favor: nunca mais precise de meu
escudo.
-Farei muito mais que isso! Muito mais que isso!
Após o conflito tudo se pacificou finalmente. Com certeza
Daehim fugiu. Para o Pacto de Guerra. Ele quis criar desespero entre os
dragões. Obteve coragem e atitude heróicas.
O anão foi rapidamente tratado e curado por Gustavo e Arctus.
As outras pessoas da vila também foram cuidadas, incluindo Hilde e Valquíria.
Mesmo o ferido Ulfgar foi prontamente curado. A única coisa que sobrou foi uma
marca no braço onde usava o escudo.
Depois que o padre fez suas preces e restaurou a saúde do
anão eis que Lacktum se aproximou dele.
-Ulfgar, como se sente?
-Como se tivesse um braço novo!
Os dois riram. Arctus não poderia parar. Ainda havia muitos
feridos. Estavam debaixo da cobertura de uma casa. Além dos três aventureiros,
e alguns aldeões estava Tom.
-Alias o clérigo do trovão grego bem que poderia ter ajudado.
Lacktum virou o rosto diretamente para onde estava Tom. O
mesmo estava de costas.
-Por qual motivo não fez nada?
Sem se virar ele lhe respondeu prontamente:
-Foi para que eu guardasse meus dons para uma emergência.
O mago estranhou aquele fato. Mas ignorou. Pois como
combatente ele era ótimos nisso. Praticamente, o duelo dele com Matadouro
decidido por sua lâmina. Um pouco maior que o normal, por sinal aquela arma
usada pelo clérigo.
Ele saiu do lugar em seguida. Foi procurar o resto de seu
grupo. E quem sabe o paladino de Kanglor que não era visto um bom tempo.
Encontrou Thror, Gustavo e Bahamunt. Todos unidos em uma
espécie de comemoração. O grego sentou em cima do corpo do ogro derrotado.
-Venha mago! Tome uma dose de vinho.
-Grato – se aproximou o arcano pegando aquele vinho – Onde
está Seton? E Siegfried? – pegou um belo gole da bebida.
-Seton foi ajudar Deenar. Siegfried foi ajudar a moça que se
chama Hilde. Parece que a tal de velha Urda sumiu – falou Gustavo.
-Entendo. Não vejo onde esta a cabeça do ogro.
-Esta ali – indicou o guerreiro grego para o centro do lugar.
O jovem mago de cabelos ruivos notou uma estranha figura onde
Thror apontou. Em três das lanças de ferro estava a cabeça de Matadouro. Cheio
de moscas e com presas faltando. E um olho saltando da face.
-Belo rosto! – disse Lacktum notando a cabeça trespassada.
-Verdade. Como era maior que o normal precisou de três
lanças. E a magia do dragão não se dissipa – enquanto falava isso, Bahamunt
parecia carregar um odre invisível.
Lacktum olhou para aquilo e questionou:
-O que esta fazendo elfo?
Gustavo e Thror riram.
-Ele disse que esta bebendo vinho élfico – falou Gustavo
segurando o riso com uma das mãos.
-Compreendo... – disse Lacktum com certo medo das ações do
arqueiro.
-Isso mesmo. Tome mortal. Todos merecem um gole dessa bebida
que nos revitaliza – e quando disse isso estendeu a mão vazia para Lacktum.
-Não. Muito grato amigo – ao falar isso notou as risadas dos
outros dois.
Depois de certo tempo ali, logo ouviram o som pesado de uma
armadura surgindo. Seus olhos notaram aquele a quem chamavam de Homem Santo
anteriormente. O semblante carregava uma felicidade completamente diferente de
um dia atrás. A espada sagrada brilhava como o Farol de Alexandria alguns
diziam.
Ele carregava junto a si um saco de tom marrom. Na parte de
baixo dele havia um liquido meio negro, ao qual aproximando um pouco mais
notariam tratar-se de sangue.
-Vejo que como eu, vocês tem preferência por decapitações – o
homem disse.
-Verdade – disse Thror – Pegou como troféu?
-Diferente de vocês, jovens, não necessito disso. Isso aqui
irá servir para alertar Avalon, Midgard, Arcádia e Moredhel. Faça-me um favor e
leve isso para um lugar seguro. Faria isso guerreiro.
-Lógico. Mas se você arrancaria um dente pelo menos. Eu e Tom
fizemos isso. Se bem que ele pegou o pedaço maior.
Levantou-se e carregou o saco. Com certa dificuldade. Parecia
mais pesado que a careta de Matadouro.
Lacktum se aproximou do homem com aura de rei.
-Então estávamos diante de James Gawain, um dos líderes dos
Imortais Esquecidos?
O homem riu. Em seguida bateu no ombro do mago com certa
força, mas de forma amistosa.
-Sim. E você e seus homens fizeram me revelar.
Apesar de que gostava de ser tratado como um sem nome. Pois na verdade nunca me
senti um heróis. Agora vamos. Tenho muito a lhe falar. O lorde infernal me
confidenciou algumas coisas. E acredite... Ele não ousaria mentir para mim. Um
cavaleiro eliminador demoníaco.
[1]
Guerreiros profissionais eram poucos, chamados como huskalars. Viking era uma
ocupação que teria o significado de pirata ou bandoleiro.
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
(Parte 39) Caçador e presa
Em um único salto, a jovem alcançou o céu. Com suas asas
quase coriáceas, se manteve no ar como um morcego. Ou algo pior.
Antes de procurar sua vítima pensou onde estariam Jean e
Raquel. Ficou um bom tempo presa em uma armadilha. E deveriam a ter alcançado
ou até ultrapassado ela. Só que nenhum sinal do rastreador e da mestra do
saber. Algo estava errado em tudo aquilo. E isso a preocupava. O rapaz poderia
ser um incomodo, mas entre todos que a cercavam ele parecia ser o menos terrível.
E o único que não deveria guardar um segredo sombrio. Isso a fez lembrar que
foi o único ao qual não usou Chama Gélida. Questionou um motivo para não ter
feito isso. Não achou nenhum, no máximo confiava nele. Pelo menos é o que
pensou.
Ao que parecia seus pensamentos turvaram-se. Queria encontrar
Brigid. E enfim imaginou como o fazer.
Uma idéia que lhe surgiu foi que a elfa tentaria se ocultar.
Como? Bem, não poderia ser em algum dos círculos de pedra dos druidas. Esses
locais não trazem defesa alguma. Foi então que imaginou que havia alguma ruína
por ali. Algo coberto por aquela vegetação mágica e imensa. Seus olhos tentavam
se acostumar com tudo. E então, depois de muito tempo, o sucesso parecia estar
à vista. Conseguiu notar as formas de um imenso castelo, soterrado por muitos
arbustos e plantas.
Com suas asas sobrevoou o lugar, sendo que poderia haver
outras pessoas ali. Druidas, guerreiros ou até algo pior. Obviamente, ainda
fazia aquilo em uma distância segura. Ou seja, longe o bastante para não ser atingida.
Mas perto o suficiente para ver quem estava lá dentro.
Era notável a ruína de um castelo. Havia fragmentos de ???
Que nada espantavam a ela. Era só mais um lugar como qualquer
outro. Ela queria só encontrar a druida e eliminá-la de uma vez. Assim acabar
com a chance de seu artefato ser finalmente selado. Atrapalhar Sinestro
realmente era fazer o mesmo com Halphy pensou ela.
Desceu com calma diante do portão da construção. Era feito de
madeira antiga. Estranhamente, não parecia envelhecida de forma alguma. Na
realidade, partes da estrutura pareciam reforçadas com outros pedaços e
possuíam efeitos arcanos. Pequenos e faziam brilhar com uma mágica única,
maravilhosa. Os poderes da natureza são incríveis, isso tinha que admitir.
Colocou a mão, de forma que empurrasse a estrutura. Ela se
abriu revelando um salão em forma de corredor. No meio do lugar havia uma luz.
Era Brigid Loghan e o seu selamento.
Dentro de uma série de símbolos ela evocava palavras de
abjuração. Palavras de proteção contra o mal. Com certeza relativos a Sinestro,
ao que tudo indicava e parecia.
Sacou Vampira de Almas, como tantas vezes fez. Era sua marca
registrada agora. Um corte, uma morte. Quando estava correndo para eliminar a
elfa, Halphy foi detida por uma muralha invisível.
-Ah! Nada é fácil na minha vida!
Brigid, antes ajoelhada, - tentando finalizar os ritos –
levantou em um só golpe. Colocou as mãos
na cintura de forma única.
-Você deve ser a tal halphy Brown.
Enfim, as duas se encararam de forma mais calma. Nada que não
tenham visto antes.
-Sou. E desculpe não me apresentar antes. Eu precisava
eliminar você e seu marido.
Brigid conteve um sorriso com a mão em sua boca. Ela parecia
controlar bem a situação em que estava. Pelo jeito, o inimigo era bem mais
poderoso que suponha. Pena ela não imaginar que tinha Zacharias do lado dela.
Ou a extensão do poder.
-Você lembra muito Ilianel
-Ilianel? Esse nome...
-Logo irá saber. Ou melhor, você vai se lembrar. Antes, não
notou algo?
-Deveria notar o que?
-Olhe ao redor.
-Deve estar falando da barreira de energia.
-Isso esta mais para uma muralha de energia. E pensei que
fosse mais inteligente, pelo menos. Note os escrito próximo de cada símbolo.
Era a vez de Halphy olhar atentamente para aquelas marcas.
Cada uma para sua devida função perigosa. Ao menos, o que achava aquela
assassina daquilo tudo.
Ao notar algo, se virou irritada para a druida.
-Qual o motivo de ter escrito Brown por todo o lugar?
-Pense bem.
-Ah é! Óbvio! Assim irão selar meu poder.
Dessa vez, a druida fitou ela de forma séria.
-Então é como imaginei. Você não sabe do que precisa.
Ela colocou a mão no cabelo e o arrumou. De modo que pudesse
se acalmar.
-Antes de tentar mais uma vez me matar... Acredito que você
deveria saber... Sou do seu sangue. Sou irmã da mulher que chamaria de avó.
-Como? – perguntou perplexa Brown.
-Sou irmã de sua avó.
-Um método bem inútil...
-Se quisesse mais do que lhe deter encontraria outras formas!
– interrompeu Brigid – Não acha.
-Verdade. Não faria sentido. Eu acho.
-Bem, vamos começar por partes. Deve saber que Iliana, nome
que assumiu quando deixou Avalon, fez isso em seiscentos depois de Cristo. Não
sei. Não me lembro direito à época. Era muito nova... Para os padrões élficos.
Nesse tempo, eu soube que a Guerra do Arco e do Machado eclodiu. Foi quando
tudo mudou aos poucos em todas as terras. Humanos, elfos e anões. Todos estavam
de certo modo se alterando drasticamente. O primeiro grupo começou a ter um
aumento imenso em sua população. Devida a falta de conflitos e por aprenderem
alguns truques relativos ao plantio e alimentação. Proteger-se e como obter o
máximo dos terrenos também conseguiu auxiliar. Já os seres elementais,
secretamente mantinham um conflito muito danoso para ambos os lados. E quando
estávamos próximos do ano mil, as hostilidades cessaram. O que deixou os sábios
de ambas as raças em dúvida: que teria feito seus líderes se deterem? Os atuais
lordes dos anões e o regente élfico, sem motivo não atacaram mais ninguém. Na
verdade, os dois grupos declararam que cada vida que poderiam ser perdidas não
compensaria o esforço. Entende? Quase quatrocentos anos de morte, e sem mais
nem menos... Acabou.
-E o que tem isso?
-A Guerra surgiu com o sumiço de minha irmã. E entre os
anões, Mallmor matou o imperador.
-Já sei! Irá disser que foi culpa de Sinestro – falou com tom
irônico a mulher que descendia do dragão – Conte-me algo novo.
-Sim. É culpa dele, em partes. Não o principal culpado,
porém. Mas consegui ver que existe uma mão tão sinistra quanto. Seu nome é Kalic
Benton I. Suas atitudes queriam que um conflito surgisse. Por se aliar ao
dragão de esmeralda os planos seguiriam uma trama que atingiria toda Gaya.
Nunca lhe veio à cabeça que o nome do grupo criado por seu avô é Pacto de
Guerra? Entrarei nesse assunto daqui a pouco.
-Como se tivesse muito tempo de vida.
-Enquanto não puder quebrar essa magia, nunca irá tirar minha
vida.
-Isso é verdade...
-Então se cale e me escute!
-Ai. Mas não demore.
Brigid sorriu. Parecia gostar de ouvir aquilo.
-Você realmente se parece com Iliana.
-Como assim?
-Em outro momento lhe explico.
-Espero mesmo.
-De qualquer forma, um ser tão poderoso necessitava de
grandes conflitos. Entre os elfos e anões isso não era mais possível. Pelo
menos não do jeito que se quer. Massacres. Talvez surja uma nova guerra entre
raças. Só que se ocorrer será daqui a séculos. Um milênio eu diria. E qual
seria outro modo de obter tão terrível batalha? Usar a raça mais patética para
os outros povos de Gaya. Os humanos. Pegando sua tola crença em uma entidade.
Alguns dizem que Urbano II foi o que preparou e planejou essas guerras sem
sentido. Uma força antiga, na verdade, manipulou secretamente os aristocratas
francos. Número maior que trinta e cinco mil homens partiram no ano de 1096.
Maridos, jovens, sonhadores, vários deles tombariam. Ou vários deles cairiam
por suas armas. Pessoas que ironicamente, eles matavam e possuíam uma divindade
semelhante à deles. Pobres diabos. Eles teriam devastado tudo em nome do Deus
Único, do Deus Cristo. E em 1099, a chacina terminou.
-E o que tem isso?
-A cruzada atual foi causada por essa mesma força sinistra...
-Que você acredita ter relação com Sinestro?
-Sim. E algo mais.
-Como assim?
-Maelstrom. Depois de que ocorreu e pesquisei cheguei a esse
nome. Já o ouviu?
Algo naquela palavra, seu som. Isso fazia a jovem Brown se
lembrar de algo. Aquilo parecia ter um significado. Qual era nem imaginava mais
agora.
-Não me parece estranho isso.
-Sim. Como uma druida e exploradora sempre imaginei que o
dragão tivesse algo haver com todo esse mal. Que fez Iliana deixar Avalon,
todos nós que pesquisamos já sabemos hoje. E que há um segredo nisso tudo, bem,
isso é mais que claro. O que acabei sozinha descobrindo, antes mesmo de me estabilizar
em uma vila... – a sacerdotisa parou o discurso e tomou fôlego – foi que muitos
dos envolvidos coma criação e aumentos desses conflitos sonharam e ouviram esse
nome. Não importava se era um elfo, anão e humano, os principais líderes
conseguiram manter isso em suas memórias. Como se essa palavra, ou melhor, algo
por trás dela estivesse manipulando tudo. Não digo que eles não tiveram culpa.
Suas ações ceifaram vidas incalculáveis. Mas se isso tiver obra de um terceiro
instigando tudo explicaria muitas coisas.
Halphy ficou confusa.
-Nunca imaginou por que Sinestro fundou o Pacto de Guerra? Já
lhe advirto que não sei o motivo. Mas já confirmei interessados nesse projeto.
-Como quem?
-Como um demônio chamado Syrus.
Dessa vez Halphy riu. É lógico que o faria. A elfa queria lhe
enganar.
-Não minta mulher. Ele esta preso.
-Seu corpo e alma podem estar. Porém, ele era um dos
principais generais de Hades. Ele esta tentando se libertar. Com a parcela de
poder que lhe foi concedida por seu deus, e sabendo que só em seu plano de
origem vai conseguir a divindade. Isso, pois só quem descende de alguma forma
do aspecto do Senhor do Submundo conseguiria tal feito...
A assassina pediu a druida que parasse o relatório. Queria
deixar os pensamentos no lugar. Se Syrus, que possuía uma fração de Hades
também. Talvez realmente se tornasse um deus chegando ao plano infernal. E
Zacharias poderia tentar o mesmo. Não imaginava como seria isso. O que já sabia
era como eles pretendiam esse feito.
-O Portal Infernal.
-Isso mesmo. Quando Sinestro obtiver seu corpo de volta será
o momento para agirem. Compreende? Além do que, mesmo possuindo os artefatos do
Desalmado e do Cavaleiro da Pele de Platina, o dragão Sinestro não os quer para
impedir o fechamento do portal. Pelo menos nesse ponto temos certeza. Seria
loucura.
Suicidio era a palavra mais apropriada. Estava claro. O
Portal Infernal era parte de uma estratégia maior do dragão. Nem ele, porém,
teria como lidar com as legiões do plano Hades. Realmente havia pelo menos,
mais três mentes perversas agindo nas costas do senhor do Pacto de Guerra:
Zacharias, Syrus e o até então desconhecido Maelstrom. Se isso fosse o nome de
alguém.
-Você foi muito bondosa me falando tudo isso – disse a
assassina interrompendo seu próprio raciocínio – Mas que vou acabar com você...
Isso eu vou.
Brigid balançou a cabeça de forma negativa. Parecia
decepcionada como quem estava a sua frente.
-Então faça o seguinte. Use Chama Gélida. Já que imagino eu,
já deve estar com ele sob seu poder.
Ela olhou para baixo na direção do artefato. De raiva, mais
do que para provar seu poder, Halphy o usou. E quando notou instruiu a suposta
parenta para encerrar sua magia. Qual não foi sua surpresa, quando notou a elfa
rindo daquela ordem. Brigid parou um pouco e disse que mais tarde falaria
daquilo também. De qualquer forma, estava perto de terminar seu diálogo:
-Você que é bondosa. Ou melhor, ingênua. Como ela também foi.
Acha mesmo que estou selando seu poder pelo que pode fazer de mal? Óbvio que
não. Ele é perigoso, mas não é isso o agravante. Eu sei quem é você, pois somos
parentes. Com isso possuímos certo laço. Que eu fiz para saber onde estão
aqueles que descendem de Iliana.
Agora estava explicado o fato de saber tanto sobre ela. Ainda
assim, Loghan continuou:
-Minha vida inteira quis saber o motivo de Iliana abandonar
Avalon. Um dia a encontrei. Disse que possuía uma filha. Estava cega. Quando questionei
sobre tudo, me respondeu prontamente. Disse que o dragão a atraiu em sonhos.
Poderia ter usado seus dons mentais relativos à Lei contra ela, mas talvez
Avalon impedisse tais avanços de algum modo. Assim mesmo foi enganada. Pois
viveu com Sinestro sem saber que ele fazia um ritual com a intenção de gerar
descendentes poderosos. Já que poderiam vir a se tornar marduks, meio dragões.
E nesse instante, Halphy tirou um dos brincos revelando sua
atual forma verdadeira. Queria saber o que ela pensaria daquilo.
-Por Morrigan! O que fez menina?
-Obtive mais poder. E sem essa forma provando que sou uma
descendente de Sinestro, talvez não conseguisse manipular a Chama Gélida.
A elfa colocou suas mãos na cabeça em sinal de extrema
tristeza. Pediu em seguida que Jalphy tocasse sua própria nuca. O fez receosa,
mas notou uma marca quente ali. Como um símbolo. Que nunca teria notado.
-Em minhas pesquisas sobre o rito, encontrei sua mãe. Ela
também possuía essa marca. Só depois de um bom tempo essa coisa surgiria
naqueles que Sinestro criou com o ritual. Pois não estaria ligado com o dom de
se tornar um marduk. É um segundo ritual. Tem algo relacionado com a
necromância nele. Um imenso perigo para você. Seu mestre não me quer morta em
relação à Chama Gélida. É por poder impedir os dois encantos. Sou imune a esse
item! Pois só quem tem o sangue dos
envolvidos, ao que tudo indica – mas não foi maculado pelo dragão – pode deter
isso. Eu posso ser a única a lhe salvar.
Por todas as almas torturadas nos bosques perdidos! O que foi
dito ali fez sentido! Até demais! E algo de muito ruim pode acontecer com
Halphy. Algo teria que ser feito. Mas nem imaginava o que poderia fazer.
Ao tênar começar um diálogo, foi ouvido um grande trovão das
costas da assassina. Mesmo com a fumaça do portão, que havia sido destruído,
sendo pesada, ela sabia de quem se tratava.
-Zacharias! – e então se virou para a druida – Brigid! Fuja
mulher!
-Mas e o ritual? Quase o terminei!
-Não importa. Quem vem ai tem o poder suficiente para acabar
com isso tudo que fez. Acredite em mim. Fuja! Nem um dragão dourado conseguiu
enfrentá-lo em combate corporal! Saia! Confie no que digo.
A elfa fechou seu rosto de raiva. Só que assim mesmo acatou
as ordens de sua parenta mais nova. Quebrou sua muralha de mana e tomou mais
uma vez a forma de águia.
Halphy olhou por uma janela aquela que era sua recém
descoberta família fugindo. Talvez tivesse falado com sua mãe depois dela sair
da casa. Sem importância agora. Pois depois de tudo, os atos que cometeu teriam
finalmente conseqüências.
Respirou fundo. Guardou a sua lâmina. Virou-se na direção do
portão destruído. E se preparou para encarar um homem com os dons de um deus.
-Halphy... Você me decepcionou – falou isso apontando para a
assassina de modo acusador.
Ela o encarou. Para a danação o poder divino. O desgraçado não
poderia eliminá-la agora. Precisava dela por algum motivo.
-Nessa linha do tempo achei que você faria tudo para eliminar
Loghan. Enganei-me.
-Do que fala seu louco?
-Ah! Vocês humanos... Se é que tem uma parte humana ainda.
Mesmo você sendo uma feiticeira não compreende as nuances da magia temporal. Ou
do paradoxo temporal. Os seres vivos podem criar possibilidades, e isso cria
linhas de tempo. Cada uma possui chances de uma nova vida. Por exemplo, na que
eu vi – e que é minha predileta – você arrumou um jeito de matar Brigid, antes
que falasse alguma coisa.
-Eu não ligo para nada disso! Descobri parte do motivo de
estar do lado de Sinestro. Mesmo sendo mais poderoso que ele você quer alcançar
a imortalidade, ser um pleno. Não é isso?
Ele bateu palmas lentamente de uma forma irônica, sarcástica
e maligna.
-Até que enfim. Compreende sua função nesse mistério[1]?
Talvez. Mas só em partes. Todo enredo foi criado por alguém. Enquanto não
souber nada irá mudar.
-Chega de enigmas! – aquilo ecoou por toda a construção – Só
consegui notar depois de perder meu tempo com você que aqui não é o meu lugar.
Ao lado de vocês. Junto ao Pacto.
Começou a caminhar para daquele lugar. Ficou de costas para o
estranho Zacharias. Quando esta sairia daquele lugar ouviu do clérigo.
-Onde pensa estar indo?
-Para qualquer lugar longe de vocês. Fique despreocupado.
Ninguém saberá de seus segredos.
-Ah! Halphy... Gosto muito de você, mas esse não é o
problema.
Ela continuou seu caminho. Notou que na frente da porta havia
uma figura conhecida.
-Raquel. Onde estão Jean e Nikolai?
Em seguida viu a cena bizarra do sapo que servia a mestra do
saber arrastando dois corpos. Algo horrível.
-Jean! Nikolai!
Halphy aproximou-se dos dois afastando aquele ser pegajoso.
Examinou a ambos. Os dois ainda respiravam. Feridos mas vivos.
-Quem fez isso com eles? – exigiu a assassina exaltada.
-Fui eu – disse Raquel de forma seca e cruel.
A marduk levantou os olhos de forma espantada. Não conseguia
compreender que justo a Raquel tenha feito isso. Nunca. Nem em dez vidas
élficas. Porém é que ela disse isso. E parecia muito orgulhosa do que fez.
Em seguida a mestra da pequena criatura pediu uma pedra ao
sapo. Mais uma imagem bizarra para os olhos de Halphy. Ela apontou aquele item
para sua antiga líder.
-Esta vendo isso? É um item criado por Sinestro. Ele impede
que um usuário da Lei afete um que não a utilize. Chamado de o Olho da
Providência. Bem pretensioso, não acha?
-Por qual motivo atacou eles? Como Sinestro fez isso comigo?
Sou sua descendente!
-Correta minha querida. Uma única coisa que não deve ter
imaginado: Sinestro nunca deixou de estar de olho em você.
E com um estalar dos dedos uma magia se dissipou. Estava
sobre o sapo. Ou melhor, um duende. O mesmo que espionou os Dragões da Justiça.
Sempre havia alguém para detê-la caso fosse contra o mestre do Pacto de Guerra.
-Desgraçado! – rangeu os dentes de raiva. Quase até sangrar.
Raquel riu daquilo.
-Desgraçado? Ele? Você traiu seus antigos amigos. Viu um ser
quase divino, que gostava de você, ser morto na sua frente. Queria matar
pessoas que nem sequer conhecia. Desculpe, mas o termo que usou é mais
apropriado, para você mesma.
Em seguida a essa frase a jovem se levantou. Com a arma
apontada para o pescoço de sua recém descoberta inimiga. Isso ocorreu, pois um
escudo de origem arcana a bloqueou.
-Outra coisa que vocês não, sabe é que me fiz de tímida para
permanecer incógnita. E fazer você não saber a verdadeira extensão dos meus
poderes.
Em seguida a isso, uma explosão surgiu. Algo que feriu Halphy
gravemente.
Foi lançada para fera daquelas ruínas. Girou em pleno ar. Seu
corpo estava cheia de feridas imensas até. Ao cair no chão, gritou de dor, pois
suas costas devem ter atingido uma pedra extremamente pontiaguda. Aquela magia
a teria matado em começo de carreira. Pela primeira vez, ela queria que aquilo
realmente acontecesse.
A dor fazia seu corpo inteiro contorcer-se. Mal sabia ela que
havia muito mais nisso. Algo cruel iria ocorrer.
Raquel acordou Jean. De modo bruto, obviamente. Em seguida, o
conduziu pela porta para que pudesse ser visto por Halphy. Ela pretendia algo.
-Eu não posso matá-la. Algo que foi uma instrução do próprio
Sinestro. O que não significa que sou impedida de torturá-la. Sabia de uma
coisa? Eu já tinha conhecimento sobre Nikolai ter sido mandado pela Santa Sé
até nós. Só que acabei descobrindo algo com relação ao nosso rastreador. Jean
queria nos abandonar após o Mausoléu do Silêncio. Não o fez por qual motivo meu
amigo?
Mesmo com um dos olhos extremamente ferido, uma das pernas
aparentemente quebrada e seu braço tremendo pela dor, o guerreiro florestal
encarava a mulher de forma impassível. Forte, mesmo na dor.
-Fale! – e quando Raquel disse isso, ela colocou o dedo em
cima do olho com a ferida.
-Raquel! Pare! –gritou uma fraca e acabada assassina. Nada
poderia fazer.
-Nunca! – ela soltava risadas de satisfação com aquilo tudo –
Fale Jean. Por qual motivo não nos abandonou?
Depois de terríveis torturas contra o jovem, ele falou:
-Eu gosto dela!
-Gosta é? – disse a jovem cruelmente mais uma vez.
-Pare Raquel! Eu faço o que quiser! – implorou Halphy.
-Fale mais Jean. Fale a verdade – exigiu aquela mulher.
Quando falou aquilo, a mestra do saber espremeu com as unhas
o ombro do rastreador. Até que lhe fez gritar. Tinha unhas longas notou Halphy só
agora.
-Eu me apaixonei por Halphy! Sinto amor por ela. Decidi que
mesmo achando os seus atos errados a acompanharia por onde fosse. Eu sinto que
a amo. Mesmo a conhecendo pouco. O que quer mais de mim?
Halphy olhou com a expressão até de felicidade. Nunca
imaginou aquilo, só que seu coração se encheu de alegria juvenil. Tola, mas
cheia de amor agora. Quanto tempo não sentia aquilo. Era mais que uma mera
paixão. Isso admitiu em seu coração. E sorriu docemente até.
Ao falar aquelas palavras Jean decretou sua pena de morte.
Pois seu peito foi atravessado por um golpe arcano da mão de Raquel. Sangue
pulsante e quente. Fazendo o corpo finalmente tombar. Com os olhos fechados
cheios de uma estranha alegria. Ele partiu para o outro mundo sem remorsos,
pois se declarou.
Os corações, quando falam o que sentem transbordam de
alegria.
Não houve tempo de reação para Halphy, pois foi desacordada
por Zacharias. Talvez tenha sido por meios arcanos, mas queria deixar aquela
moça bem. Pelo menos por enquanto. Pois um inferno na terra viraria a dela de
agora em diante. Os planos de Sinestro prosseguiam.
Em outro lugar, muito distante dos últimos acontecimentos
citados, Mallmor invadia uma igreja. Estava no território onde os homens mais
poderosos detinham o titulo de César na antiguidade.
Um padre pedia clemência a um anão. O Principe Negro dos
Anões achava engraçado aquele fato. Um dos sacerdotes que deveria afirmar que
seres elementais não existiam pedia piedade de um. Quanta fraqueza.
-Serei piedoso com você monge – assim que disse aquilo, com
suas poderosas manoplas de ferro quebrou o pescoço do homem – Humanos
franzinos.
Toda a parte principal da construção foi revirada. Bancos
destruídos, cruzes partidas ao meio, sangue escorrendo por todos os cantos. Um
massacre.
Passando por corpos de monges diversos – e mortos de diversas
formas – um dos servos do anão chegou até Mallmor. Ele carregava uma flor de
tom negro, completamente petrificada.
-Aqui esta meu senhor. Muitos homens pereceram para obter tal
relíquia. Havia armadilhas no local meu senhor.
Suavemente o líder da Aliança dos Mestres do Martelo estendeu
sua mão. O mensageiro lhe entregou aquela rosa sinistra. Agora era possível ver
os detalhes nela.
-Que as almas deles partam para o Imperador dos Reinos Além
das Nuvens. Pois foi dito que eu encontraria meu destino ao encontrar a Rosa
Negra para Sinestro. Mande essa relíquia até Kalic Benton II – devolveu o item
a quem havia lhe entregado – Pois não faremos mais parte de seu bando de
carniceiros. Vamos nos dirigir para perto de Jerusalém.
-Sim meu senhor! – e ao falar isso bateu em seu peito com
força tremenda. Deixou o poderoso anão sozinho naquele lugar.
Finalmente, Mallmor colocou sua mão direita na
altura do peito. Não sabia se era dor ou mau pressentimento. Talvez os dois. E
acreditava Brown esperava estar completamente errado.
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