domingo, 13 de julho de 2014

(Parte 22) Capítulo Dois: Prece dos refugiados



Lacktum acordou. Estava muito mal pelo soco que recebeu daquele homem. Era extremamente forte, apesar da pouca idade que aparentava. Mas se o que disse foi verdade, ele era bem mais velho que a maioria das pessoas no mundo.
Pelo que soube de seus estudos com Azerov e do período em Avalon, o grupo era formado por vinte e um membros em algumas lendas. Entre eles haviam homens e mulheres de diversas profissões e ofícios, entre magos, guerreiros, sacerdotes, menestréis, necromantes e rastreadores. Os membros eram, em sua grande maioria, humanos. Porém, havia também elfos, meio elfos, anões, elfos negros, filhos de anjos e demônios. Entre eles, não havia uma única liderança, mas um trio de homens que tomavam a frente das decisões. Seus nomes eram Kalidor Hein Hagen, James Gawain e Galtran Coração Prateado.
Galtran, quando o grupo surgiu, era o mais novo dos três. Era o mais poderoso deles também. Sua fúria era implacável. Um animal em batalha, alguns contavam. Ele derrotava seus oponentes, como uma fera que devora sua presa. Sua marca registrada era o uso de dois machados em combate, além lógico, do uso de machadinhas. As armas serviam como proteção do mesmo modo que se tornavam destruidoras em um combate. Mas seu maior dom surgia da transformação dele como um dos membros dos druidas, os sacerdotes celtas. Pois a junção de seus dons divinos com a perícia nos machados o tornava um monstro. Havia uma frase sobre Galtran, recitada pelos bardos como alerta: nunca enfrente um homem que luta que parece com um urso com cabelos vermelhos. Ele é pior que um animal ou qualquer outro ser na face da terra.
O arcano estava em uma grande, mas improvisada tenda. Tiraram o máximo de neve para fazer um acampamento, era notável. Havia muitas vozes lá fora, como se preparassem para algo. Suas mãos estavam amarradas a um dos alicerces da tenda. Em outro, estava o cão conselheiro, Alexander. Preso como Lacktum.
Sem pestanejar, ele tentou levantar. Conseguiu com muita dificuldade. Após isso, com muita calma chamou Alexander.
-Acorda Alex!
-O que... Como? – levantou o focinho rapidamente com muita dificuldade. Ele estava amarrado, e bem, pelo pescoço.
-Onde estamos? Você sabe?
-Estamos no acampamento do Coração Prateado.
-Quer disser que aquele era realmente um Imortal Esquecido? Pelas traquinagens de Loki e pela arma de Thor!
-Bem, até onde sei já conheceu Gor e Gibraltan. Qual é o espanto?
-Talvez esteja possuindo consciência do quão importante esse grupo é para a história do mundo. Suas ações afetaram povos afastados, mesmo atuando especialmente na Inglaterra. Com Gor parecia que sentia que estava junto a um colega, nada mais. Gibraltan, não conhecia direito. Só pedi a ele algumas magias para auxiliar no combate. Tirando logicamente, quando encontramos Kalidor Hein Hagen.
-Vocês conheceram Kalidor Hein Hagen? O mestre do baronato do lobo negro? Ao qual passou suas terras aos Van Kristen?
-Sim... Mas não sabia que isso ocorreu. Van Sirian era dos Hein Hagen? Na verdade, ouvi lendas. Mas como sempre nunca acreditei. Como não deveria ter acreditado que seria um bom líder...
Alexander ouviu essa última frase com estranhamento.
-Depois lhe contarei como se sucedeu de seu ancestral obter suas terras. Mas acredita que não é digno de liderar os Dragões da Justiça? Ora Van Kristen, você é o mais correto para liderar.
-Como posso fazer isso? – um enfurecido Lacktum bravejou – Halphy é sagaz como uma águia e uma cobra juntas. Thror pode ser tolo, mas não confiaria minha vida a nenhuma outra espada com um coração tão bom. Até Arctus se mostra um sensato líder. E olhe que sempre odiei os sacerdotes do Deus Cristo, como meu pai falava. Não entendo o motivo dessa escolha.
-Não foi Arda que o escolheu.
O silêncio se instaurou entre os dois. Uma pergunta surgiu na mente de Lacktum.
-Como assim? Não foi o regente quem me nomeou como líder do grupo?
-Não. Você já deve saber. Foi Aluniel.
Era tão estranho ouvir aquilo. Como se deu aquela situação? Ele continuava não se sentindo como merecedor daquele posto.
-Mas ela sempre foi mais amiga de Halphy. Já vi isso. Quer dizer, ela sempre conversou mais com ela.
Alexander latiu com raiva.
-Você não entendeu. Halphy é ágil e inteligente, Thror é perito no combate e Arctus é sábio. Você esta certo. Mas eles não possuem uma coisa. Solidão.
-Solidão?
-Sim, solidão. Entenda, você é alguém com um passado sombrio e triste. Você mesmo se gaba disso. Alguém que sofreu com a morte dos entes queridos e precisou superar isso. Esse alguém forte seria a escolha para lidar com decisões perigosas. Alguém que pensaria na dor alcançada por aqueles que ele ama. A solidão nos fortalece, mesmo quando nos consome. É só não se deixar vencer por ela. Pois é fácil não acreditar. Ou a magia que você tanto estudou foi simples de controlar? Aluniel confia em você, assim como Azerov confiava.
Calaram-se mais uma vez. Quando Lacktum digeria as palavras do cão, notou que realmente as palavras faziam sentido. Era algo que deveria ter sido falado antes. Um homem entrou na tenda interrompendo a conversa e qualquer tentativa de fuga que pensassem.
-O mestre pediu sua presença diante dele.
O guerreiro desamarrou somente Lacktum, que pensou em reagir, mas então notou mais três homens fora da tenda. Além disso, seu físico fraco e o golpe que levou do suposto Galtran, impedia qualquer chance de fuga. Sem contar com a musculatura de seus captores. Era como se fossem feito de puro aço.

Eles passaram pelos ogros sem dificuldades. Afinal, ogros não eram conhecidos por seu intelecto. Muito menos pela sua percepção. E mesmo que não pudesse ver, o som era um possível delator de Halphy e Nico.
O cheiro daqueles ogros era diferente dos que encontrou na ilha da bruxa. O odor de maresia foi trocado por um de carniça. Criava certo enjôo na ladina, mas ela como líder, estava preparada para aturar qualquer coisa. Mesmo o fedor de um horrível ogro pestilento. Humanos já eram terríveis com isso, mas os monstros pareciam abusar desse problema. Pelo menos os homens eram bonitos.
Os ogros apesar de sua leve semelhança humana tinham uma aparência brutal e bestial. A pele estava coberta por verrugas grandes e nojentas. Possuíam mais que o dobro de um homem. Esses tinham o tom de pele marrom escuro. Suas vestes consistiam em peles sobrepostas uma em cima da outra.
A caverna que adentravam não tinha nada de incomum, só o fato de ter sido construída recentemente. Com certeza, o construtor usou poderes arcanos na fabricação daquele local. Talvez tenha sido a tal prole de Argos. Quanto poder surgia de um verme mágico como as tais criaturas das lendas gregas? Não era momento para isso.
Passavam por vários corredores. Um mais escuro e sinistro que o anterior. O mal residia naquele lugar. Era possível notar as trevas daquele lugar devido ao inerente em cada pedra. A magia do lugar criava esse ar de escuridão. Talvez realmente o inimigo fosse poderoso.
Enquanto cruzavam alguns dos inúmeros corredores, encontraram cerca de dez ogros desde a entrada. Quando pensavam em voltar para pedir auxilio ao grupo, um ogro moveu a cabeça em direção aos dois. Foi quando Halphy se lembrou de algo.
-Essas bestas têm o faro apurado não é? – cochichou ela para o feiticeiro.
-Acredito que sim.
-Praga! Se soubesse disso, ou melhor, se me lembrasse... Teria reparado na direção do vento dentro da caverna.
-E o que faremos? Estamos em desvantagem.
Notou que estavam no lugar mais desfavorável da caverna. O ser enorme que com certeza mostrava que tinha sentido o cheiro dos dois no ar, logo encurralaria a dupla de batedores invisíveis. E mesmo que fosse burro como uma porta, aquele ser não seria enganado por algo tão aparente para seu sentido.
Halphy colocou as mãos para trás, na altura da cintura. Ela engoliu em seco, como se estivesse prestes a cometer um grave e terrível erro, assim como em Starten. Mas aquilo já não significava mais nada. Toda essa jornada foi o maior de todos os erros. Um a mais não faria diferença. A ladina iria agir. Então, ela quebrou o efeito mágico da invisibilidade.
Quando o ogro iria esboçar um ataque com as poderosas mãos em combate, a ladina correu na direção dele feito uma ave de rapina.
Ela pegou pela juba do monstro e subiu no pescoço alongado, como uma cobra que se entrelaça em uma árvore. Em instantes, a jovem ladina já estava acima do monstro. E em muito menos tempo ainda, uma faca estava perfurando o crânio do ser. Isso fez com que ele caísse. Foi quando ela saltou para longe do corpo inerte, fazendo um grande eco.
Sem poder ser enxergado, Nico falou:
-Impressionante! Pareceu com um dos homens do Oriente!
Do corredor, começou a surgir um enorme ogro. Ele segurava, com as duas mãos, uma clava do tamanho de uma árvore pequena. Corria como se ele fosse destruir quem surgisse na sua frente. Batia a arma no chão como a fera brutal que era, enquanto gritava algo na língua profana daquela raça. Com certeza, ouviu o barulho da queda do companheiro.
Halphy não se abalou com o surgimento do novo desafiante. Ela retirou a arma que estava enfiada na cabeça do monstro como um relâmpago. Com igual velocidade, ele arremessou a faca na direção da garganta do ogro. Isso fez com que um espirro de sangue surgisse. Ao que parece, a jovem acertou um ponto vital preciso dele. Um novo oponente caiu, gritando.
A meio elfa falou para Nico:
-Eu não estou fazendo como os homens do Oriente. Estou fazendo melhor do que eles. Homens não fariam metade do que faço.

O resto do grupo esperava, olhando os dois ogros que ficavam se com suas armas. Era nojento. Às vezes coçavam as costas e um estranho inseto – do tamanho de uma bota – caia de lá. Outras coçavam com as mãos as partes baixas com as mãos. Nesses momentos, Thror e Valente sentiam uma imensa vontade de vomitar.
Ficavam esperando um sinal de Halphy. O que demorava demais a acontecer. A garota era a mais inteligente de todos, mais também a mais ousada. Era até engraçado imaginar que eles tinham certo receio de entrar em lugares que não temia. Parecia tão frágil fisicamente falando. Mas sua alma era preenchida com uma poderosa chama e força. Isso fazia deles um grupo extremamente diferente, afinal, os lideres eram muito impulsivos.
O padre Arctus achava que os membros do grupo seguiam muito mais os instintos do que a razão. O que causava medo na mente dele. Então, ele se tornaria a razão dos Dragões da Justiça. Junto com Gustavo, poderia lidar com problemas que a Igreja tinha. Eles eram bons, só mal guiados. Uma mão de aço com a força de Deus seria o suficiente.
Mas não era mais o momento para isso.
Os dois ogros que ficavam na entrada, olharam na direção da caverna. Um grito ecoou até a saída. Se houvesse um sinal para Halphy, deveria ser esse. Turin iria ficar escondido enquanto entrassem.

Nesse momento, o guerreiro grego saltou. O escudo na frente como um estandarte. A espada curta afiada como a língua de uma serpente, ficava abaixada, enquanto percorria o campo nevado. Os ogros olharam aquela cena com certo medo. Não por conta do homem armado, indo na direção deles. E sim, por conta do grande número de pessoas surgindo como um bando de lobos famintos.
Seton, Arctus, Gustavo, Valente e Fiel, saltaram na mesma direção do guerreiro. Eles pretendiam não chamar a atenção antes. Coisa que Thror impediu com seus ataques inconseqüentes. Companheiros não abandonam os outros, alguns pensaram, mesmo nos piores momentos.
-Maldito grego da cicatriz! – gritou o padre com raiva.
-E vocês falaram que eu traria problemas! – falou de forma ferina o pequeno Valente.
Os dois ogros se posicionaram se preparando para o golpe dos inimigos. Mas o guerreiro Thror se adiantou com a arma acertando o flanco esquerdo de um dos monstros. Então acertou o lado em que o guerreiro segurava o escudo. Um golpe como aquele deveria ter inutilizado o braço dele. Ele só não ficou bem, como zombou do inimigo.
-Isso é máximo que os ogros conseguem em combate? Ha!
Com os olhos cheios de fúria ele tentou golpear Thror. Só que Seton chegou virando a enorme foice, acertando a mão da criatura. E por alguns instantes, o monstro estava desarmado.
Enquanto isso, Arctus, Gustavo, Valente e Fiel flanqueavam o ogro. Os animais atrapalhavam a visão do monstro, enquanto os outros atacavam. Porém, sem tanto sucesso. Arctus então entoou:
-Che mano di Dio in quest'uomo diventi un protettore delle anime attraverso il potere di Miguel.
O corpo de Gustavo se encheu de uma poderosa luz. Parecia como um anjo vingativo. E com isso, ergueu a espada como um Davi que enfrentava seu Golias. Assim, sua espada se encheu de grande poder, enquanto atingia seu oponente. Era como uma chama divina preenchida no mesmo momento em que recitava sua oração.
O monstro cruel se feriu com sua própria maldade. Corações cheios de raiva se tornam fracos em um combate. E isso fere demais quando a luz toca essas pessoas ou criaturas.
Então o ogro estava quase acabado. Mas usava ainda a clava como apoio para impedir sua queda. De repente, surge a maça de Arctus. E com ela, a destruição da clava do monstro e de seu maxilar.
O outro se mantinha firme. Sabia se posicionar. Girou o corpo com intenção se acertar Thror e Seton. Porém, só conseguiu atingir o grego.
-Pelos deuses! Você esta bem Thror? – falou um Seton espantado.
-Estou! – soltou um ferido guerreiro – Acabe com ele Seton.
Ele então levantou a foice rapidamente, de uma maneira que atingisse a cabeça do oponente. O bloqueio da clava foi preciso naquele momento.
Um fitava o outro. O druida da foice encarava pacientemente o ogro e sua clava. Era uma luta, tanto física quanto espiritual. Um celta fosse um sacerdote, guerreiro ou seu descendente sempre tinha em seus corações a força para derrotar qualquer ser. Pelo menos é o que sentiam no coração, todos aqueles de sangue poderoso. Houve então uma reação, e ela foi de Seton.
Novamente, ele levantou a foice tentando acertar o ogro. Quando notou um novo golpe, o ogro gargalhou. O bloqueou com a clava.
-Não saber lutar humano! – disse o inimigo enorme – Você tem que acertar.
-Eu acertei – falou isso enquanto aproximava a face do enorme ser que enfrentava – Nos chamamos isso de distração na minha terra.
O ogro notou que Thror se adiantou em sua direção com a espada em punho. Um golpe seria preciso, se no mesmo momento o adversário monstruoso não conseguisse se defender com um sonoro golpe com a mão livre. Ele acertou o punho do grego antes que fosse acertado pela espada do mesmo.
Outra espada surgiu. Ela atravessou a criatura. O sangue escorreu dele. Tanto pela boca, como pelo peito dele. O monstro se ajoelhou pela dor. Mas não sem antes golpear o atacante Gustavo.
Como golpe de misericórdia, a maça de Arctus acertou a cabeça do ogro. Nesse instante, era como se uma fruta atingisse o chão. E vários pedaços dela voassem nas roupas das pessoas próximas.
-Eca! – falou o enojado Seton.
-Bem – falou o sacerdote Arctus – melhor que nada.
Gustavo andou em direção ao guerreiro grego caído no chão. Estendeu sua mão ao amigo ferido. Mesmo com o orgulho despedaçado, Thror segurou o braço do colega paladino. Este o levantou de uma vez.
Enquanto tirava a neve de sua armadura, Thror viu Arctus se aproximando com olhos de raiva para ele. Uma bronca logo viria.
-Você tem algum problema com autoridades? – disse um irado Arctus – Não era para contornar os dois ogros pelo menos? Sem chamar a atenção lembra?
Quando Thror iria falar, o paladino interrompeu:
-Ele esqueceu.
-Ora essa. Com vocês dois para me ajudar... Não sei como estamos vivos.
Os dois continuavam o riso, quase gargalhando. Arctus olhou para eles com ar de reprovação. Já o druida tirava a foice da clava do ogro. Era cômico reparar que alguns do grupo sentiam que aquilo parecia uma diversão para eles. Foi quando uma tocha se acendeu. Iriam entrar na caverna como um resgate para a jovem ladina imprudente.

Ele estava sozinho naquele instante. O mago estava no meio acampamento cheio de homens bem armados e fortes o bastante, para com o punho, atravessasse o peito do mago. Nesse momento, Lacktum decidiu que não iria lançar magias. Quando tentasse, pensou ele, alguém quebraria seu braço
Tinha um pouco de lama que sujou a face do arcano. Ele teria gritado de raiva, se não tivesse medo de levar os golpes dos outros membros do acampamento. Os homens ali riam do fato. Ele segurava o temor dentro de si.
-Ora vejam! – soltou Galtran – Nosso mago despertou.
-Você é o Coração Prateado? – perguntou irredutível Lacktum.
-Sim. Sou Galtran.
-Antigo membro dos Imortais Esquecidos?
O guerreiro se espantou com a última pergunta do jovem. Poucos tinham noção da vida de Galtran. Pelo menos, quando participava de seu antigo grupo. Não eram muitos os membros de sua antiga companhia que nasceram nas Terras Altas. E mesmo que ele fosse um fanfarrão e gozador, nunca revelava certos fatos de seu passado. Mesmo quando ficava extremamente bêbado. Onde o garoto ficou sabendo sobre isso? Era um enigma. Mas não para agora.
-Não sei onde você soube sobre os Imortais, mas eu juro que você vai falar disso depois.
-Depois? – pensou alto o mago – Depois do que?
-Bem, nosso povo tem um modo bem peculiar de resolver problemas. Como você é um invasor...
-Eu? Invasor? – falou Lacktum indignado.
-É, você! Não é inglês?
-Sim, mas...
-Então é um invasor.
-Isso não faz sentido! Pensei que você fosse um líder. Alguém...
-Alto lá! – retrucou o guerreiro ruivo – Sou um líder, mas como um maldito inglês que é com certeza deveria ter chegado aqui ferido ou morto! Tanto faz. Como não sei se você é um dos espiões das tropas invasoras?
Foi então que Lacktum procurou a adaga que lhe foi concedida por seu pai. Não achou.
Galtran então retirou de seu manto um pequeno item. Lacktum notou que o item que ele segurava era o presente de seu pai.
-Devolva-me! – exigiu ele.
-Devolver? Por acaso é parente dos Van Kristen? Essa arma tem o brasão dos Van Kristen.
-Sou um Van Kristen criatura sem mente! Devolva-me!
O druida guerreiro começou a andar em volta do mago. Não parecia com ninguém da família que conhecia. Era fraco e nem sabia lutar pelo pouco que viu. Soube que a família de seu antigo companheiro era voltada para a batalha, pelos boatos. O que aquele saco de carne mal feita poderia fazer em um combate verdadeiro?
-Você não pode ser um Van Kristen.
-Eu sou!
-Então prove.
-Você esta com a minha prova! – falava isso enquanto apontava para a adaga na mão de Galtran.
-Não com isso! Você poderia ser um ladrão que roubou um deles, ou até um assassino que colocou veneno em sua comida e vinho. Você irá provar do nosso modo.
-Eu um ladrão? Você esta ficando louco homem? Veja se tinha algum item de ladino comigo! Nenhum! Qual o motivo para tanto então? Isso não vai servir de nada! Por acaso – pensou o mago enquanto começava a compreender parte da intenção de tudo aquilo – quer que eu lute? Mas isso não provaria nada! É patético! É ridículo!
-Era de se esperar isso de um inglês. Mas saiba... Nosso país, nossas regras.
Todos que estavam ao redor da arena riram. Era uma cena engraçada, ver um inglês mostrando o quando era patético para eles.
O mago olhou ao redor. Então gritou com raiva, enquanto envergava o corpo para trás. Todos olhavam com receio para ele. Não parecia mais um mero inglês.
-Tudo bem bando de bárbaros idiotas! Eu entro no seu desafio sem sentido! Se essa é a única maneira de se fazer entender! E verão como age um Van Kristen em combate! Venha logo Galtran! E termine com essa besteira!
Todos se calaram, enquanto Galtran esboçou um sorriso.
-O que foi que eu disse de errado? Hein?
-Nada. Mas não serei eu que vou lutar com você.
-Como assim?
-Adoraria fazer isso com um inglês pulguento. Mas fico meio irado e fora de controle em combate. E é muito ruim. Não queira ver. Mas meu amigo Eric será um desafio melhor.
Surgiu então um homem, aparentemente mais forte que Galtran. Era loiro, com uma barba e não usava camisa. Portava um escudo e uma espada de madeira. Parecia estar cheio de cicatrizes. Um guerreiro experiente era claro. O que já causou temor em Lacktum.
-É com Eric que você lutará suposto Van Kristen.
-Ah, esta certo, suposto Coração Prateado. Que maldito dia para despertar...

Entregaram-lhe uma espada de madeira improvisada. Lacktum não quis um escudo.
Sorte que havia decorado magias suficientes para aquele dia. A magia não funcionaria direito em um combate direto. De repente, sentiu muita falta do velho Thror. Mas achava que mesmo que o grego da cicatriz teria dificuldades com aquele homem enorme. Pelo menos ele teria uma maior chance de vitória.
Os dois se uniram no meio da arena. Enquanto Eric batia a espada na madeira do escudo. Era algo que até onde Lacktum sabia, vinha dos costumes dos homens do norte. Com certeza ele também deveria se um homem da religião asgardiana. Costumes de bárbaros, alguns diziam. Lacktum começava a concordar.
Gritos pediram por uma luta. Eis que Galtran saiu da arena. Então, gritou com certa satisfação:
-Que comecem o duelo!
-Praga! – gritou Lacktum quando notou o homem loiro correndo na direção de si em uma investida, com a espada erguida.
O mago se esquivava dos golpes, enquanto tentava conjurar uma magia, mas o guerreiro não permitiria. Sempre o acertando em todos os pontos possíveis. Fazia Lacktum perder a concentração.
Ele corria para alcançar um dos cantos da arena. Pensava que poderia conjurar uma magia ali. Mas não conseguia.
-Praga! – um novo acerto em sua mão a fez arder. Tanto pela dor do golpe, quanto pelo choque da magia partida.
Magias partidas, normalmente causavam efeitos ruins. Poderiam ser pequenos ou enormes. Desde dor física a efeitos colaterais arcanos bizarros. E era isso que Lacktum mais temia.
Esquivou-se de um novo golpe de guerreiro. Aproveitou a deixa para correr para o outro canto. Quando o fez, tentou conjurar uma magia, mas sua mão tremia muito. Novamente, perdeu a concentração devido aos golpes que sofreu.
E uma nova investida apareceu devido ao guerreiro Eric. Muitos juraram, que mesmo feito de madeira, se acertasse perfuraria o peito dele. Especialmente o mago que serviu de alvo. Lacktum esquiva.
Em certo momento, o arcano ruivo se esquivou de um dos vários golpes e pensou em lançar uma magia que destruiria todos ao redor. Contraiu sua mão. Mesmo não gostando disso não poderia machucar todos no acampamento.
Uma investida iria surgir.
O meio do campo. Lá seria seguro conjurar algo. Então a magia não afetaria nenhum inocente. Mas será que ela não falharia, era o que pensava. Um erro ali poderia colocar tudo a perder.
-Magia é acreditar em si mesmo – ele falava enquanto começava a correr com as mãos cheias de mana. Lembrou-se de palavras de muito tempo atrás de alguém que lhe serviu de mestre.
O inimigo não se intimidava com o esquálido mago. Mas deveria. Parecia que o mana não saia só de sua mão, mas de todo seu corpo. Era como uma fonte de água cristalina com cores distintas, mas que se concentravam especialmente em um tom vermelho. A magia começou a tomar forma de uma esfera de energia pura em fogo. Pulsando como um coração, Lacktum colocou a magia na frente do corpo na mão esquerda.
O adversário estava próximo demais, para sair de frente do golpe arcano. De repente, o mago soltou a esfera.
-Magia é acreditar em si mesmo! In my hands the flame dragon emerges. The ancestral force of destruction.
Então o coração de fogo tomou toda a arena em um movimento de pensamento. Era uma bela e imensa bola de fogo. Tão grande, que até mesmo um observador distante veria ela claramente. O vermelho se confundia com outros tons de destruição. A magia se consumiu tão rapidamente quando surgiu.
Todos os observadores olhavam atônitos para a arena cheia de chamas. O fogo estava se dissipando. Se acertasse uma das tendas, com certeza iria colocar fogo em todo o acampamento. Aquele inglês era louco alguns diziam.
Galtran observava arena, severo. Especialmente para o centro da fumaça.
Foi quando a figura cheia de queimaduras e feridas, de Lacktum surgiu no campo de batalha triunfante. Parecia um rei que retomava seu domínio após anos. Ele olhou na direção do líder daquele acampamento com muita raiva.
-Eu acho que venci Galtran! Se quiser saber, achei tudo isso sem sentido! Não havia motivo para matar um homem seu! Não teria como saber se eu sou um Van Kristen através de uma luta!
Galtran riu.
-Sinceramente, eu não quero saber o que acha ou o que deixa de achar. Nós temos certos costumes. A luta demonstra sua verdadeira natureza, não suas palavras. A prova disso, é que fui enganado varias vezes em minha vida. Por palavras. Eu te amo é fácil de pronunciar, mas difícil de provar. Disser que tem saudades qualquer um poder falar. Mas demonstrar, normalmente é impossível às vezes. Pois somos fracos como meros homens sempre são. Mas algo entre os que nascem do sangue dos Imortais Esquecidos mostra que seus corações estão em suas ações – e soltando novo riso – Ah! E Lacktum... Eric não morreu.
Lacktum notou que Galtran apontava para trás. Quando observou a fumaça se dissipando, notou que surgia a forma do guerreiro descamisado e loiro. Com o punho cerrado, ele golpeou o arcano que logo caiu no chão. O guerreiro sentou ao lado do corpo do desmaiado mago ruivo.
Galtran falou com seus homens, pedindo que levassem os dois para sua tenda onde os curaria.

Eles entraram na caverna temendo o que pudesse acontecer com Halphy. Mas então notaram, que deveriam se preocupar com os pobres ogros.
Havia vários corpos de ogros por toda a extensão da caverna. Quase todos com golpes precisos em áreas específicas do corpo. Era como se tivessem enfrentado um furacão.
Seis ogros foram mortos pelo que contaram. Passaram pelos corpos com ar de espanto. Será que teriam sido Halphy e Nico? Mas eles não seriam tão perigosos.
O grupo nunca esteve tão enganado.
No último corpo, encontraram a ladina Halphy Brown, limpando sua arma, enquanto o feiticeiro misterioso ajustava o pulso que crepitava mana. Não pareciam nem um pouco cansados ou exaustos. A jovem tinha uma feição de satisfação, quase sádica. O rapaz parecia meio irritado com a atitude dela. Todos estavam espantados com a cena, mas não poderiam se abalar ali.
-Halphy! – gritou Arctus desesperado – Sabe onde é que estão os prisioneiros? E a prole de Argos?
A jovem guardou a adaga e então respondeu:
-Acho que estão no caminho da esquerda – falava enquanto apontava para um dos túneis – Mas o do meio... Acredito ter visto dois ogros fugindo. Não sei... Meus instintos dizem que a prole esta lá. Vamos, me sigam!
-Certo! Você esta no comando de novo.
Halphy se sentiu bem. O comando do grupo não era sua meta, mas agradava a idéia de liderar. Sempre se achou mais competente que Lacktum ou Thror juntos. E Arctus, apesar de sua suposta sabedoria estava há pouco tempo no grupo. Além de que ela compartilhava as idéias de Lacktum sobre os sacerdotes católicos.
Mesmo assim, o grupo se movimentava na direção do túnel. Como uma tropa que adentrava território inimigo, todos se preparavam para um ataque surpresa.
Seton então olhou para Nico e perguntou:
-Foram mesmo vocês que fizeram aquela chacina? Com certeza foi através de sua magia que conseguiram.
Nico balançou a cabeça em negativa. Seu rosto diante da luz da tocha que Seton havia acendido e segurava, parecia espantado. Mas não assustado.
-Conheci muitas pessoas e monstros. Posso lidar com diversos seres, pois sei que sou poderoso. Tenho certeza! Mas essa garota não teme nada! Parece possuir a persistência humana e o orgulho da raça dos mais perigosos elfos. Ela poder ser só uma meio elfa, mas poucas vezes viu um sidhe tão corajoso, quanto ela. Tenho pena de quem se intrometer em seu caminho.
Quando Seton perguntou, sabia que ouviria uma boa resposta. Mas não imaginaria que escutaria alguma coisa que deixaria suas pernas tremendo tanto. O grupo não tinha só uma ladina feiticeira e meio elfa. Possuía uma especialista na arte de matar, uma assassina.

Argos.
Esse tipo de monstro se esconde em cavernas enormes e perigosas, pois as lendas contam que a luz do sol feria seus olhos arcanos, como punição de Apolo, como um favor a Zeus. Por isso era uma criatura subterrânea, alguns diziam.
Isso foi mais notado, quando todo o grupo viu que onde a prole de Argos se escondia, era cheio de pedras mais pontudas. Pareciam até as presas de um dragão, de tão afiadas que estavam. O que não conseguia amedrontar os companheiros.
Algo que poderia trazer temor para os Dragões era a cena que eles presenciavam. No lugar havia os dois últimos ogros daquele bando. Estavam usando armaduras leves, que para eles, mais pareciam pequenas tiras de metal. Suas clavas eram feitas de um enorme e resistente carvalho. Havia uma sombra entre as duas criaturas, que parecia ser protegida pelos seres enormes.
Aquilo era uma prole de Argos.
Uma esfera de carne aparentemente distorcida. Vários olhos estavam incrustados na pele do monstro. Algumas vezes, era possível notar que os olhos formavam quase um rosto, mas só ocorria para criar um senso bizarro de estética. Só possuía uma única bocarra que parecia estar sempre sorrindo. Era como se surgisse do seu pesadelo mais horrível. O ser repulsivo flutuava no ar como uma mancha negra que surgia nas mentes dos mais fracos.
Os dois seres truculentos se posicionaram de forma que protegessem a prole. Mas era possível notar que o lugar forçava os inimigos a passarem por ele para chegar até o monstro.
Com isso, a criatura começou a falar:
-Ora então são esses os tolos aventureiros que adentraram meu covil. Por qual motivo invadem o lar de Ortro?
Seton segurou o riso, enquanto Halphy falou:
-Pois nós viemos destruir você criatura. Solte os habitantes da vila e pouparemos você e seus servos. Que tal isso?
-Acreditam mesmo que poderá me enfrentar? Noto que fizeram um bom serviço até agora. Mas os dois ogros que sobraram são meus melhores soldados. Além do que, não conseguiram me enfrentar em um combate arcano.
-É isso – grunhiu o ogro.
-Mestre certo – soltou o outro.
Foi quando a ladina pegou a besta que não usava a um bom tempo, apontou para a criatura líder. Ela mirava com extrema cautela.
-É isso que você diz – ela respondeu – Nico ataque com tudo!
A mão de Nico se encheu com um raio de energia pura. Era como se uma lança fosse jogada. Halphy percebeu que o golpe arcano era tão poderoso, que tinha quase certeza que seu efeito tinha surgido com sua força máxima. Ela ouviu sobre arcanos que conseguiam trazer a potência máxima da Arte, mas eram raros. Como poucos dominavam esse poder, ela pensou que ele talvez fosse do Oriente na verdade.
A prole de Argos se protegeu flutuando para longe da linha de visão do golpe. Parecia que ele mesmo, sentia medo daquela magia. Nico poderia ser calmo, perigoso e tremendamente assustador, é o que os mais inteligentes se perguntavam.
Mas logo em seguida, literalmente, em um piscar de olhos, a bizarra criatura disparou uma grande carga de energia. Foi em direção de Thror.
Quando o raio atingiu, fez o guerreiro grego se sentir cansado e exausto. Ele já se sentia fraco pelo dia difícil que passou, mas não tão rápido e de forma terrível quanto aquela magia o fazia sentir. Era algo pavoroso.
Os ogros partiram para o combate, acreditando que Thror estava fraco demais para combater.
-Venha aqui careca da cicatriz. Irei enfiar meu punho no seu peito e arrancar seu coração como se fosse uma galinha.
Foi um ledo engano do ogro.
Nesse mesmo instante, o guerreiro que ainda parecia abatido, olhou com raiva para o inimigo.
-Você me chamou de careca da cicatriz?
Quando o ogro levantou a clava, foi possível notar que Thror se agachava com a finalidade de acertar suas pernas. O que conseguiu tão rápido como um relâmpago.
Isso não desestabilizou o monstro, mas concedeu tempo suficiente para que Thror pudesse passar por debaixo dele. Foi quando o grego bradou:
-Não... Fale... Mal... Da cicatriz!

Um dos ogros mantinha-se firme. Enquanto o outro parecia firme, sem levar nenhum golpe. Enfrentando ele, estavam Seton e Arctus. O druida tentava, inutilmente, acertar o monstro. Era como tentar afetar uma parede de tijolos.
Mas um sacerdote como Arctus sabia exatamente o que fazer nesses momentos.
-Metatron's words, let the weak by putting yourself in the way of the righteous.
De repente, a muralha viva parecia não conseguir conter os golpes do jovem druida. Enfraqueceu rapidamente, devido às palavras místicas. Mesmo em uma língua que não conhecia, elas afetavam o ouvinte. O enorme ogro se sentia desestabilizado.
-Ah! Homenzinho maldito!
-O que acha disso agora? – falou Seton.
Então a foice acertou a mão do enorme adversário. Esse, nem sequer demonstrava dor. Aproveitou para golpear os sacerdotes.
Enquanto isso, os animais ficavam escondidos. Não pelo fato de temerem algo, afinal, Valente e Fiel não temiam coisa alguma. O problema é que Furta Trufas desmaiou ao ver a prole.
-Acorda Furta Trufas! – dizia Valente, enquanto batia no focinho do colega.
A prole de Argos, autodenominada Ortro, soltou raios na direção de quatro alvos. Um raio azul atingiu Gustavo, enquanto um raio vermelho acertou Seton. Para Halphy, surgiu uma enorme nuvem de fumaça. Por último, uma mancha negra tocou Thror.
O ombro do paladino foi machucado por uma grande parcela de gelo. Aquilo impedia o movimento do braço, além de gerar uma dor tremenda. Era como partir gravetos de madeira.
Já o raio de cor avermelhada, jogou o druida contra a parede. Foi possível ouvir os ossos partindo como um boneco quebrado. A parede ficou cheia de fissuras.
A fumaça que afetava Halphy parecia querer sufocar. Mas o ar estava cheio de um veneno estranho. Ele entendia disso. O efeito daquela magia era criar uma névoa venenosa, mas que na afetava mais a jovem, pois ela tinha trabalhado seu corpo contra forças nocivas – naturais ou não.
Com a mancha negra afetando Thror, parecia que nem sentiu a perigosa força arcana.
Halphy, após tossir o veneno, voltou a preparar a besta.
-Gustavo, esta bem? – gritou enquanto mirava para o oponente sua arma – Pode me ajudar atacando o monstro?
-Tudo bem – ele respondeu. Pegou a lâmina com a mão inábil, já que a outra estava parcialmente paralisada, e golpeou o humanóide monstruoso. O golpe foi eficiente, mas não o suficiente. Ele se mantinha de pé.
A ladina se mantinha na posição. A arma estava na posição precisa. Não havia erro. E não houve.
O virote zuniu no ar, atravessando o combate entre os heróis e os ogros, para conseguir acertar o líder dos monstros. Mesmo com os olhos se revirando no ar, o projétil dela acertou o alvo. A criatura flutuante gritou de dor finalmente.
Ninguém saiu do lugar. As armas se colocavam entre eles como se impedissem os aventureiros de atingir Ortro. Um dos ogros cuidava de Thror e Gustavo, enquanto o outro lidava com Seton e Arctus. Não era uma situação comum dois combatentes e dois sacerdotes partirem para cima de seus alvos de forma direta, mas Halphy tinha um plano: se eliminassem um dos ogros rapidamente, seria mais fácil o grupo alcançar a prole de Argos.
Depois de certo tempo, a criatura preparou outras magias pelos olhos. Uma enorme carga de energia – do mesmo tipo que afetou Thror inicialmente – atingiu Gustavo. Sem resultado. Outro raio, de luz acertou Halphy, mas sem uma conseqüência verdadeira. Seton e Arctus foram atingidos pelo mesmo raio espiralado, mas só o druida foi realmente atingido sentindo muita dor. Ele caiu no chão. Um último, rápido, explodiu na pele do guerreiro grego. Nada que ele não lidasse sozinho.
Foi quando a ladina feiticeira notou algo. Os olhos não disparavam as magias em uma ordem correta. Eram aleatórios. E até os números de ataques aumentavam.
-Gustavo, passe logo por esse monstro! – gritou ela comandando o grupo – Se não o matarmos logo, ele poderá lançar magias mais perigosas!
-Esta bem! Vou tentar! – foi quando o paladino levantou sua espada na direção do oponente. O golpe de sua lâmina foi perfeito na parte esquerda do ogro. Tanto que com seu último corte, fez a criatura cair, enfim.
Terminando o golpe, Gustavo se abaixou, enquanto colocava a espada para trás se posicionava na direção do monstro. Fazia isso enquanto corria. Um novo golpe acertou a criatura flutuante.
O ogro continuava seus ataques. Agora com uma freqüência louca. Se ele não se defendesse seria morto com certeza. O padre mais esperto conseguiu prejudicar sua mira. Era o momento de se mostrar como alguém forte.
Foi quando o ogro cometeu um deslize. Sua clava bateu no teto da caverna. Isso fez com que pedras caíssem. Algumas o acertaram. Nem sequer o machucou o bastante, mas foi tempo suficiente para um golpe certeiro de Arctus.
-Era minha vez! – gritou Seton como uma criança insatisfeita, enquanto estava no chão.
O ogro caiu, enquanto os ossos da face se partiam devido a arma do padre.
-Desculpe... Eu acho...

Só obrou Ortro no combate. Halphy com a besta começou a querer negociar:
-Olhe aqui Ortro, – disse ela enquanto preparava outro projétil – acredito que seria melhor se entregar ou será destruído. O que acha? Podemos ser clementes.
-Clemência? De uma fealith e um bando de humanos fedorentos? Nunca! Não irei entregar meu corpo e alma corrompidos para criaturas tão insignificantes e gananciosas. O mal permeia o meu ser, mas meus olhos enxergam não só o que é aparente. E essa mancha negra que eu possuo vocês também tem. Não serei tolo para me entregar.
-Então, - disse Gustavo agitando a espada longa – não diga que não avisamos.
-Dragões, ataquem! – gritou Halphy liderando.
-Por Ares e Zeus! – disse Thror saltando na direção do monstro coberto de olhos. O golpe acertou um dos olhos do monstro.
Os olhos piscaram novamente. Uma grande quantidade de magia se espalhou por todos os lados como uma terrível e poderosa tempestade. Com força o suficiente para danificar a caverna. Mas não o suficiente para destruir.
Novamente os raios foram atingindo o grupo. Vários deles estavam extremamente feridos. Gustavo parecia não se conter de dor. Vários espinhos de madeira surgiam no corpo de Arctus . Seton sofria com uma mancha profana no seu corpo. Thror parecia confuso, sem saber quem atacar. Só Halphy se matinha de pé mesmo com pedras afiadas cortando sua pele. Apontava a besta na direção da prole.
-Ora essa fealith! Esta com tanto medo que não consegue me atacar? – gritou o monstro se achando superior.
Ela riu daquilo.
-Qual foi a graça?
-Primeiro não sou uma fealith. Sou uma meio elfa e me chamo Halphy. E eu não estou atacando, pois estava preparando uma magia. Soyez doux comme un oiseau survolant la mer. Et aussi dévastateur que le loup sur la proie!
A seta atravessou a boca do monstro como se fosse água. Ele caiu no chão sangrando um líquido verde fedorento.

Seton foi ajudar o resto do grupo, incluindo Halphy, que conteve a dor até agora. Os golpes das pedras feriram suas pernas, barriga e o rosto. Mas se manteve firme até então. Alguns efeitos arcanos estavam sendo dissipados.
-Dói muito? – disse o druida para a garota.
-Só quando eu fico olhando para esse seu rosto de... Ai! – ela soltou enquanto o druida curava a ladina feiticeira. Ela ficava muito irritada com perguntas tolas.
Arctus se aproximava do corpo da prole. Ela tentava manter-se viva. E era algo que o sacerdote logo resolveria.
Ele ergueu sua arma quando a massa de carne e olhos fitou o sacerdote de Deus. Quando ele iria golpear o monstro, a criatura disse:
-Espere homem do deus Cristo!
O padre hesitou. Por algum motivo sabia que ouviria não seria plena verdade, mas não estaria tão longe dela também.
-O que quer demônio? Não queria clemência antes. Qual o motivo de querer falar agora?
-Nunca pedirei clemência a um humano! Mas sei de algo que poderá lhe ser útil... Meus olhos arcanos conseguem não só lançar magias, mas podem ver o que as almas sentem e desejam... Um de vocês esta para trair o grupo... Posso lhe falar quem é. Uma barganha.
As palavras faziam sentido para Arctus.
-Isso deve ser uma gestão mágica! Morra cria infernal! – após isso, golpeou o temível ser.
-Argh! – soltou em agonia ser – Isso não foi magia e você sabe que eu falo a verdade.
Todos olharam e ouviram a conversa entre Arctus e Ortro. Todos se entreolhavam, enquanto o padre fitava todo o grupo. Era verdade. Ortro não lançou magia alguma. Esse é o maior poder de um demônio: semear o mal e a mentira usando uma verdade cruel.

Laccktum despertou na garupa de um cavalo. Ele estava junto de Galtran, enquanto cruzava a neve. Havia vários cavaleiros ao redor deles. E em um deles, o mais próximo, estava o cão Alexander.
-Mas que loucura é essa? Para onde vamos? Ei? – perguntou o mago nervoso e afobado.
-Vila dos Meio Sangue. Seu amigo Alexander nos avisou sobre o seu grupo. Então, vamos ajudar eles.
-Ele falou com vocês? – se espantou o mago, enquanto olhou novamente para o canino colega.
-Ele falou comigo. E ele é de Avalon. Não era para falar?
Para ele, o guerreiro ruivo, fazia todo sentido.
-É faz sentido – disse o mago conformado.
-Vocês ingleses são muito tristes. Não tem calor nem paixão. Precisam de mais força. E mais poder. Desistem facilmente.
-Você se refere aos ingleses ou só a mim?
Galtran sorriu e completou.
-Você tem o sangue dos Van Kristen. Uma família nobre e forte pelo sangue. Sua vontade é mais poderosa que qualquer outro ser nessas terras. Mostre um orgulho maior! Mas não humilhe quem esta abaixo de você. É como um código de cavalaria. Parece muito fácil, mas não é tão simples quanto pensa. Com grandes poderes surgem responsabilidades de igual tamanho. Compreende? Não, acho que não. É um inglês! – gritou sorrindo o guerreiro druida – Nunca entendem o que significa ser forte.
-Olha, - disse um irritado Lacktum – não sei qual o motivo de agir feito um garoto comigo. Mas se você acha que isso vai causar algum efeito positivo... Detesto lhe contar, mas não irá.
Galtran se calou. Mas logo continuou com menos empolgação.
-Seus pais foram mortos por Kalic Benton II? Não foi isso? Foi mais de um ano atrás pelo que soube. Ficamos sempre sabendo sobre nossos entes queridos. Mesmo que esses parentes, de muitas gerações ou não, nem saibam sobre nós. Meu filho esta em outro plano de existência[1], por isso não sei muito dele. Nem sei se ele esta vivo. Mas sempre me lembro dele com carinho... Não nos envolvemos com eles, pois podemos ferir quem amamos.
Com tudo isso Lacktum abaixou a cabeça. Só que o guerreiro ruivo continuou:
-Nunca abaixe a cabeça honre a memória deles. Mas se lembre: não será com sangue que vai fazer isso.
-Então será como?
-Isso você terá que descobrir. E sozinho.
O cavalo cruzava a neve com força. O homem de cabelos ruivos e trajes tipicamente dos homens das Terras Altas liderava com um ar de orgulho um grupo enorme de homens armados e, aparentemente, prontos para qualquer problema que surgisse. Eles balançavam as armas que zuniam no ar.
Gritavam frases de ofensas uns aos outros, como brincadeiras tolas de crianças. Hinos de guerra eram entoados, sempre que possível, junto a hinos de morte, com tom de deboche. Lacktum tentava entender como funcionava a mente daqueles homens das Terras Altas. Pareciam moleques armados com espadas e machados. A felicidade deles e suas risadas não acabavam mais. Era como se estivessem se dirigindo a uma enorme festa, ao qual, estavam empolgados demais. Mas se aquele grupo de homens guerreiros se sentia em uma comemoração, o inimigo seria sua refeição como prato principal.

Após descobrir uma boa quantidade do tesouro de Ortro, o grupo foi procurar pelos membros da vila. Era o caminho que não haviam seguido antes.
Não havia mais nenhum ogro. Tochas fortes mostravam onde estavam presos os habitantes da vila. Era uma cela de ferro, com certeza moldada com magia pura. Atrás das grades, os rostos desolados dos moradores, fitavam para o grupo como anjos que vieram lhes tirar do Inferno em vida. Todos lá dentro, mostravam rostos desolados de dor, cansaço e fome.
Halphy foi à frente, preparando os equipamentos para abrir a jaula.
-Esperem um pouco, - falou ela rapidamente enquanto mexia na tranca com os aparelhos – já te soltaremos.
-Graças aos deuses esquecidos! – soltou um deles.
-Quem são vocês? – outro perguntou.
Foi quando Thror soltou, com as mãos na cintura falando:
-Nós somos os Dragões da Justiça!
-Thror... – falou Gustavo com ar de vergonha – Qual o motivo de falar dessa forma para eles? Nem devem nos conhecer.
-Bem, agora nos conhecem.
-Ainda tento compreender sua mente grego louco.
As pessoas da vila saíram da prisão de ferro amedrontadas e  bem lentamente. Devia-se isso ao fato de não confiar plenamente no grupo. Afinal, foram aterrorizados até então pela prole de Argos. Estavam fragilizados, mesmo que ver rostos humanos os tranqüilizasse.
Era possível ver o motivo do ataque a vila. Além de possui meio elfos ali, tinham entre eles filhos de elementais, de gênios, de demônios e dragões. Cada um com suas próprias características. Eram um diferente do outro, em vários aspectos. Chifres, asas, patas, olhos faiscantes, peles de pedra e até um terceiro olho que Thror jura ter visto em uma moça com tom de pele diferente. O que era meio difícil de notar com tantas pessoas impares.
Um homem, um ancião entre os de meio sangue, surgiu como líder daqueles pobres seres. Parecia ser uma mistura de um elfo com dragão. As orelhas eram mais longas que o normal, quase transparentes também. A pele, especialmente próximo do rosto, era cheia de escamas. Os traços élficos superavam os dracônicos, mas ainda assim, mostravam a elegância e o poder de ambas às raças em sua fisionomia. Estranhamente, uma barba longa surgia daquela criatura. Halphy estranhou que tanto o pai e a mãe dele eram criaturas que são conhecidas por sua longevidade e físico excelente.  Ele ainda vestia uma roupa verde cheia detalhes arcanos. Parecia que antigamente foi mago ou algo parecido. Mas agora suas vestes estavam tão mal cuidadas que mais parecia um mendigo.
-Muito grato meus queridos jovens – começou ele – Meu nome é Vardemis Kanon, sou o líder dessa vila. Então possuem o nome de Dragões da Justiça? Muito apropriado.
-Obrigado – disse Halphy calmamente.
-Muito grato – falou Thror.
-Como podemos retribuir ao salvamento de vocês?
-Não precisa! Espoliamos o lugar onde estava a prole – disse Seton segurando um enorme saco de moedas.
Todos os membros do grupo e alguns moradores da vila olhavam para Seton com raiva e espanto. Aqueles que o conheciam duvidavam que fosse um druida. Os que não, achavam que era um louco. Mas nada que fosse para se preocupar. Agora pelo menos.
-Mesmo assim, - continuou o líder da vila – posso os presentear com itens únicos.
Quando ele falou isso, apontou para um meio elfo que começou a correr em sua direção, do fundo da multidão de aldeões. Os membros do grupo não entenderam, mas foi pedido que esperassem. Eles o fizeram, e logo em seguida, e logo em seguida foram surpreendidos com aquele rapaz ao seu lado. Com ele estava: duas espadas longas distintas, uma esfera coberta por um pano e um item pequeno que lembrava o que viram em Delfos.
-Meus amigos – disse Vardemis, enquanto pegava os itens e os distribuía – esses são itens que nos foram concedidos por nossos pais, ancestrais ou entes queridos. E eles agora passarão a ser de vocês, pois os merecem depois do que fizeram por nós. Tomem, e não aceitarei suas recusas de forma alguma. Deixe que explique o que cada uma possui de propriedades arcanas e divinas. A espada negra, com a caveira no cabo, é chamada de Vampira de Almas. Ela drena o adversário até não restar mais nada. É o que dizem as lendas sobre ela. Esta, mais clara e com runas na lâmina, é uma de três irmãs. Fim-dos-Dragões tem um dom sagrado contra os dragões malignos. Seu poder é único contra eles. Já essa esfera – falava isso enquanto retirava o pano que estava sobre ela – é conhecida como bola de cristal. Era muito usada pelos antigos atlantes, pois através de sua magia ela vislumbra longas distâncias. Ótima para estudar inimigos. Desde que saiba onde ele esta. Por ultimo, um espelho com dons parecidos com a bola. Mas com uma habilidade incrível inerente. Ele também lê os corações de quem se vê através dele. Tanto que pode se comunicar com a pessoa escolhida. Esses itens agora são seus. Pois os merecem.
Todos agradeceram e os itens foram distribuídos o melhor possível.
A Vampira de Almas foi entregue para a ladina, com quem muitos acharam estar adequada a arma. Além de ser uma ótima proteção. Já Fim-de-Dragões ficou com o padre, afinal, era ele o mais preparado para tal dom. Outro item caiu nas mãos de Halphy. A bola de cristal foi entregue para ela. Já o espelho se tornava um problema: Arctus e Seton queriam o entregar para Lacktum, enquanto Halphy queria mais um dos presentes. No final, foi guardado.
A meio elfa ficou furiosa com a decisão do grupo, mas precisou aceitar aquilo. Pelo menos por enquanto.
Todos os habitantes  da vila agradeciam aos heróis. Mas nenhum deles se sentia como um. Afinal, eles não sabiam como lidar com pessoas que precisavam de auxilio. Na Grécia e no Reino da França, quase não puderam notar como os agradecimentos eram sinceros.
Com as poucas peles que tinham, Halphy mandava cobrir os pobres seres que moravam na Vila dos Meio Sangue. Eles na eram preparados – em boa parte – para o tempo frio que estava lá fora. Esses que aturavam climas pesados de inverno ficavam sem peles.
Feito a entrega dos itens, assim como as das peles para o bando de refugiados, todos abandonaram a caverna. Um por um, guiados pela ladina, saíram do lugar que foram mantidos como cativos.
Mesmo que a cena fosse deprimente para um espectador desavisado, para os Dragões da Justiça era algo maravilhoso. Pois o que faziam, significava algo maior. Algo de valor.
Arctus abraçava Gustavo e Seton enganchando pelas cabeças de ambos. Era como se por alguns segundos fossem irmãos de sangue. Enquanto os três andavam, Halphy fitou a lâmina com o nome Fim-dos-Dragões. Ela fazia isso enquanto andava. Mas sua espada negra era mais poderosa pensava ela.
Valente arrastava o companheiro furão. Ele ainda estava desmaiado. Como sempre, Furta-Trufas só atrapalhava. Pelo menos era o que o suricate pensava.
O ferido Turin que via tudo de fora da caverna, notava que a frente estava seus familiares. Eram uns dos primeiros a sair daquela escuridão. Os abraçou como se tivessem nascido novamente.
De repente, a águia pousou no braço da jovem dizendo:
-Você foi muito bem Halphy. Uma excelente líder.
-É, mas não vejo o momento em que entregarei esse posto ao Lacktum. Isso cansa a alma!
Thror que ouvia tudo riu por alguns instantes. De qualquer modo, era verdade o que a ave disse. A garota era uma ótima líder. Sempre foi perspicaz e muito capaz, mas naquele dia ela se mostrou apta a liderar um grupo de combatentes.
O dia estava acabando, mas parecia que alguém tinha feito uma linda imagem no horizonte. Como salvadores, os Dragões da Justiça fitavam aqueles com salvaram com orgulho.
-Minha alma parece triste mesmo assim – disse Thror – Gostaria de compartilhar isso com meu pai Orfeu.
-Relaxe. Não é o único – falou Gustavo.

Quando chegavam à vila, as pessoas olhavam com desconfiança para um estranho grupo armado que chegou, pouco depois deles.
Os Dragões partiram na frente dos habitantes da vila. Tinham medo, pois estavam sem boa parte das magias de cura do padre e do druida. Tirando que não houve tempo para curar os aldeões e os membros do grupo de várias das feridas em combate.
Thror sacava sua espada curta, com o escudo de lado. Halphy retirou com as duas mãos, sua espada recém adquirida da bainha, colocando ela na sua frente de modo ameaçador. Gustavo colocou a espada na sua frente, como se fosse um sinal de sorte contra os inimigos estranhos que surgiam. Arctus e Seton foram colocados atrás para quaisquer eventualidades. Valente mostrava os dentes em uma cena bizarra e engraçada. Furta Trufas, que finalmente despertou, desmaiou novamente. Só fiel não era visto. Para o grego isso era até bom.
-Qual é o plano Halphy? – perguntou Gustavo, já se preparando para o combate.
-Não sei. Nem se haverá um combate. Não sei... Mas acho que esses homens não vieram atacar.
-Por Zeus, Poseidon e Hades! Garota dominada pela lua! Acha que vieram então fazer o que, afinal? – soltou Thror com raiva – Brincar?
-Calado Thror! – gritou Arctus.
-Me deixe fazer algo – sugeriu o druida pronto para o combate.
Nesse mesmo instante, o líder atravessou de modo atrapalhado entre os habitantes da vila. Parecia aflito. Logo se intrepôs entre os heróis e os forasteiros. Queria impedir o conflito.
-Se acalmem meus jovens! Eles não são invasores! – disse Vardemis, temendo o pior.
-Então quem são eles? – perguntou a já preocupada Halphy.
Eis que um homem de cabelos longos e ruivos surgiu na frente deles. Era forte. Possuía uma pele de urso cobrindo parte de seu corpo. Dois machados estavam em sua cintura. Havia um pequeno símbolo neles.

Ele desceu de sua montaria conde havia um rapaz encapuzado. Chegou até Vardemis o abraçando. E então olhando para seu rosto, enquanto segurava seu ombro disse:
-Olá velho amigo!
-Galtran! O que faz aqui? Não era sua função proteger as fronteiras?
-Fiquei sabendo que vocês estavam com problemas e então vim auxiliar... Mas parece que era mentira! – disse o ruivo sarcasticamente.
Os habitantes do vilarejo começaram a falar, enquanto os Dragões da Justiça se perguntavam como o guerreiro ficou sabendo dsso. Afinal, eles disso através de Turin que até onde sabiam, tinha sido o único que conseguiu fugir julgo da prole de Argos. E só.
-Me perdoe à indiscrição, mas quem contou a condição dessa vila? – perguntou Halphy diretamente ao tal Galtran.
-Alguém muito arrependido e que quer rever vocês – falou o homem com peles de urso. Nesse momento apontou para sua própria montaria. Havia nela, um homem usando capuz até então que não notaram. Ele o retirou. Era Lacktum. Comum rosto todo inchado, mas era ele.
Todos do grupo aventureiros soltaram sons de alegria.
-Lacktum! – disse Thror completando – Você esta mais feio que o monstro minotauro! Hehe!
-Muito grato – falava isso enquanto saltava do cavalo com certa dificuldade. Parecia bem ferido. Arctus foi ajudar o companheiro.
-Meu Deus! Onde conseguiu tantas marcas? Tem até queimaduras! Onde esteve? Em um combate contra um exército de magos?
Foi quando Lacktum olhou para Galtran com ar de satisfação. Como se tivesse conquistado algo. Agora entendia como aqueles bárbaros pensavam.
-Brinquei com uma bola de fogo.
Os Dragões olhavam com estranhamento, enquanto Lacktum e Galtran riam com um fato desconhecido para o grupo. Novamente, olhos de estranhamento.
Arctus foi levando o amigo até uma cabana, enquanto Valente arrasta Furta Trufas.
-Maldito gordo! – esbravejava o suricate.
Muitos não estranhavam aquela cena da vila, já que conheciam uma grande quantidade de seres bem mais estranhos. Mas os soldados de Galtran olhavam com espanto para os pequenos animais.
Foi quando a ladina feiticeira olhou para Seton. Ela sorriu.
-Que bom! Pelo menos a liderança não esta mais em minhas mãos.
-É – disse Seton – Deveria ser um fardo.
-Era mesmo.



[1] Plano de existência se refere a mundos primários, ou seja, mundos que em resumo tem várias características de Gaya. Mas cada qual, com sua peculiaridade. Mais detalhes durante os outros volumes dos Contos.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

(Parte 21) Capítulo Um: Coração sangrando


A terra dos Scots. Colonos que teriam vindo pelo mar. Se estabeleceram no norte da grande ilha há alguns anos. Os povos bretões acreditavam que eles eram piratas, invasores e ladrões. Mas mesmo os ingleses tinham que admitir os valores contidos nos guerreiros daquele povo. Suas espadas e machados se mostravam cada vez mais poderosos se tratava da liberdade de sua terra e de quem amavam.
Naquelas terras, muitos heróis surgiram. Entre eles o poderoso guerreiro Galtran Coração Prateado.
Galtran é o guerreiro que simbolizava os preceitos das Terras Altas. Um homem de passado extremamente honrado. Sua lenda remonta, principalmente, o Vale das Esmeralda: seu lar, terra natal e covil de uma fera ancestral. Quando o guerreiro de cabelos ruivos era jovem, os homens do Vale enfrentavam muitos problemas devido a uma raça de humanóides com face de lagarto. Alguns diziam que eles eram frutos de experiência de um ser ancestral que residia nas jazidas que ficavam nas proximidades. O pai de Galtran teria enfrentado sozinho esse ser, mas morreu.
O próprio Galtran enfrentou o monstro duas vezes. Uma dessas vezes teria sido nos Portões Infernais. O encontro inicial com a temida fera foi no Vale das Esmeraldas.
E existem lendas desse confronto. Uma delas trata sobre os cortes que nunca cicatrizam. A fera era muito poderosa, na época, para os Imortais Esquecidos. Os componente do grupo eram James Gawain, Meg Ryan, Agness Idisamir, Edgar Felkar, Demetrios D’London, Zoltan e o próprio Galtran. O bando enfrentou o monstro sem conseguir fazer muitos efeitos. Porém, a raiva de Galtran e a fé ensandecida de James, fizeram uma ferida perto do olho e outra na mandíbula, respectivamente. O confronto foi relatado pelos bardos como, a Canção dos Dois Cortes na Alma.
Coração Prateado era tratado como uma lenda. Mas poucos sabiam que não era só uma história de conto de fadas, mas sim um herói que vive até hoje. Ele é mais que um guerreiro lendário, era o protetor das Terras Altas.
E logo, todos os Dragões da Justiça saberiam o que um legado dessa magnitude significava. Não das vitórias, mas das batalhas que perderiam. Essas sim, nunca esqueceriam.

Em um castelo, ainda na Inglaterra, um homem mascarado olhava na arquibancada em direção ao horizonte. Um homem chegou até o sinistro Kalic Benton. Era um mensageiro.
-Mestre. Tenho informações do mestre Diogo.
-O que ele relata?
-A mensagem dizia que ele encontrou Van Kristen e Salles. Parece que os dois já cruzaram as fronteiras do reino com seu grupo. Halphy também os acompanhava.
-Muito bem... É certeza que vão até o Portal de Ixxanon. Pelas informações que meus espiões concederam, era essa a direção que tomariam. Só não sei qual o motivo... Para onde estará indo exatamente?
O mensageiro estava quase indo embora, até que o mago mascarado apontou para ele.
-Avisem Daehim – começou ele – Com o surgimento do grupo deles, conforme nosso plano em Van Sirian... Precisamos nos preparar. Os corpos foram levados até o Vale das Esmeraldas?
-Sim mestre! – disse o mensageiro prontamente – Foram protegidos e colocados naquele lugar conforme as especificações. Alias o filhote do dragão também foi levado como nosso mestre pediu. Os magos já fizeram as runas que foram pedidas.
-Excelente! Logo nosso mestre ressurgirá. Mande a mensagem para Daehim e se lembre que Lacktum e Halphy não devem ser tocados.
-Como quiser mestre Kalic Benton II.
O mensageiro começou a andar apressadamente. Enquanto isso, o mago fitava o horizonte. Então, uma voz no salão começou:
-Kalic... Não gosto de seus joguinhos com Lacktum. Isso compromete a minha ressurreição!
Saindo na arquibancada, era possível ver o interior do salão claramente. No fundo uma imensa fogueira verde. Era dela que a voz vinha. As chamas crepitavam mais, com a raiva e o rancor da voz. Que era oculta sua localização exata pelo fogo.
Foi quando o mago voltou ao salão, olhando direto naquele ponto.
-Mestre, sua ressurreição é certa. Não se preocupe. Lacktum irá morrer lhe asseguro. Só lhe peço mais tempo para concretizar meus planos.
-Só permito seus planos tolos, pois compreendo o que a vingança significa para alguém... Continue meu filho insolente! Destrua Lacktum em corpo e alma!
-Eu o farei – disse Kalic Benton II – Esteja certo que eu o farei mestre...
Falando isso, o mago mascarado se levantou e foi em direção do parapeito. E em sua alma corrompida, só existia um só pensamento. O nome do último Van Kristen que vivo.

A neve batia nos joelhos de boa parte dos Dragões da Justiça. O mesmo não se poderia falar sobre Rufgar e os animais. Eles engoliam gelo pelo rosto e focinhos. Mas Seton não se preocupava muito com o anão. E que motivo teria para isso? Ele era um inimigo.
Foi quando notaram que passaram as fronteiras, que Lacktum pediu que parassem. Estavam em uma planície amplamente aberta. Thror se aproximou do anão indefeso. Os outros só olhavam. Ares de reprovação deixavam Rufgar com medo. Que motivo eles teriam para fitar ele daquele jeito? A não ser...
-Thror, - ordenou Lacktum – agora!
Eles iriam o matar! Maldita plebe humana, pensou Rufgar! Isso era de se esperar dos humanos. Quando a sua serventia terminasse o... Soltariam?
-Mas como? – Rufgar ficou confuso – Qual motivo tem para fazer isso? Sou um soldado inimigo!
As cordas que o amarravam há dias caiam pelo golpe da espada curta de Thror. Em seguida, ele a depositou em sua respectiva bainha.
-Eu pensei o mesmo – soltou o grego – Mas se fosse por mim, você seria decapitado imediatamente. Sorte sua anão! Se eu fosse o líder...
-Nós não faríamos parte desse grupo – terminou Seton.
-Ora seu...
-Silêncio Thror! – falou Lacktum, apartando a discussão – Não temos tempo para isso. Devolva as coisas dele.
-Esta bem – falando isso, o homem da cicatriz pegou um machado e a armdura que pertencia ao próprio Rufgar.
Ele começou a colocar os itens, com olhar da desconfiança para os Dragões. Não entendia como a cabeça daqueles filhotes humanos funcionava. Um inimigo deve ser morto ou rendido, nunca liberto. Isso explicava a pouca idade avançada que os humanos atingiam. Não tinham corações feitos de terra como os anões.
-Bem, agora esta livre para partir – disse Arctus com os braços cruzados.
-Parta Rufgar – falou Lacktum sorridente.
O anão terminou de ajustar a armadura e colocar o machado em suas costas.
-Tem certeza disso? – disse Rufgar ainda não acreditando.
-O que foi? Quer voltar a ficar amarrado – disse Halphy se aproximando e colocando a mão na cintura – Vocês anões são tão esquisitos.
-Certo! Então partirei. Mas isso não ficará assim Van Kristen! Um dia, meu mestre o enfrentará!
-Conto com isso Rufgar – Lacktum falava isso segurando com força sua adaga. Aquilo parecia um instrumento de vingança, sempre pronto a destruir quem quer que fosse. E agora, não só Kalic, mas Mallmor se tornou seu alvo. Tudo por Azerov.
Foi quando Nico se aproximou do mago inglês. Estranhamente, o feiticeiro tinha um poderoso efeito apaziguador na alma de Lacktum. Ele já havia notado isso na Grécia. Mas pelo calor do momento, não concedeu a devida atenção. Além de já ter sentido aquela aura em outro lugar.
De repente, Lacktum disse:
-Mas prefiro que, que um dia encontrar Mallmor possa dialogar.
-Assim também espero Lacktum Van Kristen – nesse momento o anão correu na direção contrária do grupo. Obviamente, querendo cruzar a fronteira. Algo mudou em sua alma. Será que os humanos eram todos tão terríveis quando os boatos diziam?
Os Dragões caminhavam na direção de seu destino inicial, com exceção de Lacktum, Alexander e Nico. O mago fitava a estrada que o anão tomou. Ele simplesmente observava Rufgar sumir na neve, esperando que algo mudasse. Que o ódio também sumisse. Mas como faria isso, se nem ele conseguiu livrar da vontade de imensa de matar? O ódio sempre esta nos corações das raças, não importa como.

Dias se passaram desde que  o anão foi abandonado na planície. Lacktum estava inquieto em sua mente. Precisavam chegar logo ao Portal de Ixxanon, para voltarem a se concentrar na busca dos artefatos. Nem sabiam se o ser ancestral que estava em Starten despertou. Havia muitos problemas a serem resolvidos para uma excursão inconseqüente. E no topo dos problemas estava Kalic Benton II. O assassino de sua vida passada.
Halphy se incomodava era com Seton. O maldito druida andava pela neve melhor que Furta Trufas. Enquanto todos se esforçavam para atravessar o mar de gelo, ele conseguia se movimentar livremente. Mesmo assim, ele não poderia ver o que estava próximo das árvores.
-Fiel! – ela gritou para a águia.
-O que foi? – enquanto abaixava até chegar próxima da ladina.
-Vá até aquelas árvores. Acho que notei algo ali.
-Certo!
O grupo parou no meio do caminho. Halphy, assim como os outros, achou que poderia ser um batedor do inimigo. O que poderia causar grandes problemas se caísse nos ouvidos do oponente, que um grupo cruzava aquele território. Mesmo que Kalic Benton estivesse os manipulando não se atreveu, até então, a comentar para as tropas onde os Dragões da Justiça estavam. Se soubessem, o grupo já teria sido destruído. Ou simplesmente queria o clima de paranóia instalado entre eles.
Foi então que Fiel voltou.
-É um homem! Extremamente ferido!

Ele despertou. E a sua volta havia vários rostos diferentes. Um deles possuía uma enorme cicatriz na testa. Outro tinha cabelos vermelhos. Havia ainda um rosto feminino e de animais. Alguns bem esquisitos. Mas o que mais notava, era o rosto do que parecia ser um padre. Afinal, o estava curando.
-Ele esta bem? – perguntou Furta Trufas.
-Já disse que sim – respondeu Arctus.
-O que o feriu? – perguntou mais sabiamente Halphy.
-Agora sim uma boa pergunta – soltou um padre – Há feridas por todo o corpo e de diversos tipos. Acredito ser produto de magia. Mas, estranho... Nunca vi feridas tão dispersas.
-Olhe! – se espantou Valente – Despertou!
O acomodaram próximo a uma árvore enquanto Arctus tratava das feridas.
-Meu caro, o que houve? – questionou o sacerdote preocupado.
-Fugi da minha vila. Fomos atacados por ogros e o seu líder arcano. Eles vieram atrás de nós e nossos itens. Com muita sorte, consegui escapar. Mas não sem antes ser ferido.
-Realmente. Olhem! – falando isso, todos, com exceção de Lacktum, fitaram o suposto ferimento da mão. Não era um golpe, e sim, uma petrificação do membro. Literalmente, petrificado. Seu braço esquerdo completamente em pedra.
-Meu Deus! O ogro fez isso com você? – perguntou o padre.
-Um ogro com tamanho poder arcano seria um grande problema – falou com temor Seton.
-Mas não se trata de um ogro – soltou o homem ferido – Era uma prole de Argos[1].
-Argos? – se questionou Lacktum que ouvia tudo quieto até então.
-Havia dois Argos nas lendas antigas – começou Thror em um de seus acessos de sabedoria, muito raros – Um deles era o navio usado por Jasão e os argonautas. O outro era um monstro extremamente poderoso com vários olhos.
-Onde esta o Thror que eu conheço? – falou Halphy rindo da explicação do grego. Este parecia estar em um transe.
-Uma prole pode ser perigosa. Muitos desses monstros possuem com habilidades nos olhos que os tornam em arcano naturais. Perigosos demais.
-Ele pareceu aproveitar que essas terras estão sendo atacadas por seres bizarros para tomar nossa vila – completou o ferido.
-O que tem de tão importante lá?
O homem engoliu seco. Gustavo notava que ele falava parecia verdade. Mas também, que as próximas palavras entregariam um grande segredo.
-Eu... Venho da Vila dos Meios-Sangue.
-Como? – falou curioso Valente.
-Essa é uma lenda das Terras Altas. Refere-se um território composto por pessoas que descendem de cruzamentos entre as raças – falou Lacktum, aproveitando para citar o que conhecia – Realmente, agora que pude notar que ele é um fealith.
-Como o chamou? – disse furiosa Halphy, enquanto preparava sua mão com uma magia.
-Ah nada – desconversou o jovem.
Ele continuou:
-As lendas contam sobre um antigo tratado entre as raças, em que suas progênies não seriam desrespeitadas, nem usadas como peões em guerras. Logicamente, nem todos concordaram com o plano, mas os poucos que o fizeram criaram uma vila. A lenda chama de Meios-Sangue. Já que os filhos ficaram naquele lugar para manter as tradições de paz, esse nome foi dado. As lendas contam que ela é composta por filhos de elfos, dragões, demônios, elementais e toda a sorte de criaturas antigas. Com certeza, existem itens poderosos naquela região também.
-Bem, vamos cuidar do problema desse pobre coitado, então vamos lá – soltou Arctus, enquanto levantava o pobre homem.
Lacktum olhou com reprovação para o padre.
-Nós não vamos para a vila.

Arctus não era como os padres comuns. Ele tinha iniciativa e força de vontade. E deixar aquelas pessoas em perigo era algo que ele não poderia admitir. O padre quase sacou sua maça, quando Halphy interferiu.
-Deixa que falarei com o mago – ela disse.
-Esta bem – ele concordou.
Halphy se afastou de todos, levando Lacktum com ele. Precisava falar com ele longe do padre e do paladino. Pois também notou a cara de poucos amigos de Gustavo. Quando estavam longe, falaram.
-Vamos lá – começou ela – Me explica.
-Você notou que isso pode ser uma armadilha de Diogo?
-E não acha que imaginei isso? Sou uma mestra das artes furtivas. Mas não acho que isso seja um golpe. Eu entendo sobre isso.
-Certo... Digamos que seja verdade. Necessitamos chegar até o Portal de Ixxanon. Sem tempo para auxiliar um bando de desconhecidos.
Halphy encheu a boca de fúria.
-Veja bem mago, eu escuto a anos que eu só penso em mim mesma, pois sou uma ladina. E eles estão certos. Minhas intenções não têm haver com dinheiro. É poder, por isso despertei meus dons de feiticeira. Mas mesmo alguém como eu sabe o que é certo ou errado nesses seus conceitos ultrapassados de humanos. Precisamos ir até a vila!
-Não! Não precisamos ir até lá! Quer ir até lá, pois se identifica com eles. Nunca comentei sobre seu legado fealith, mas isso não é desculpa para tal atitude.
Halphy não segurou mais a raiva que tinha do inglês. Sentiu-se ultrajada com as atitudes do mago. E falar em fealith, foi à pior das atitudes com ela. A jovem lhe virou um tapa tão forte que foi ouvido por toda extensão de gelo.
-Olha aqui cabeça de fogo, sempre lhe fui fiel e verdadeira! E sabe como você me recompensou? Tratando-me como uma fealith! Esse é o pior dos insultos entre os meio elfos. Isso é jargão daquele enjoados dos sidhe. E se for ver sobre questões pessoais nessa missão teríamos que ver especialmente as atitudes de nosso líder não acha?
O inglês andou para trás na neve.
-Não sei...
-Ah, faça um favor a si mesmo e não minta – disse a ladina feiticeira – nem haveria como. Seria patético isso na verdade. Agora a pouco comentou sobre uma armadilha de Diogo. Qual o motivo de não citar uma de Kalic Benton II? Para que eu não note que sua vingança, diferente do que você pensa se torna algo que compromete sua mente e nossa missão? O motivo de estar em Starten, em primazia, era encontrar o assassino de toda sua família. O verdadeiro fato de querer viajar conosco, era para conhecer o mundo, mas com isso obter as ferramentas necessárias para conseguir seus desejos. E isso foi mais claro em Delfos: quando o Oráculo tocou você, algo ocorreu. Algo que o fez querer ficar conosco. Sou boa para notar esse tipo de coisa. Se quiser continuar o caminho vá! – terminou ela enquanto apontava para o caminho do norte.
O mago hesitou. Queria permanecer com o grupo, mas o que a jovem falava fazia sentido. Mas seus passos ficavam cada vez mais fortes na direção que a meio elfa apontou. Não sem Lacktum disser:
-Estarei esperando você. Mas não se atrasem.
Com olhar triste, a jovem olhava o companheiro cruzar a neve. Temia que algo ruim acontecesse aquele teimoso. Mas nada poderia ser feito. Com uma única exceção.
-Alexander! – gritou ela.
Nesse momento, o cão que estava longe, correu rapidamente a neve em saltos. Quando se aproximou de Halphy, esta se abaixou tocando o pelo dele.
-Vá atrás daquele teimoso do Lacktum e cuide dele.
-Certo Halphy.
E enquanto o cão partia, ela se via em uma situação nova. Era ela quem lideraria o grupo como membro com mais tempo na equipe. Thror não poderia ser, pois era uma negação. Enfim, ela provaria para si mesma que poderia fazer a diferença naquele mundo. Mesmo sendo uma mulher.

O jovem Lacktum então cruzou todo aquele terreno com Alexander ao seu lado.  Um dia se passou depois da discussão com a meio elfa. E ele refletia sobre o que a garota havia lhe falado até então. Ela não estava errada, mas não era necessário agir daquele modo. As pessoas não compreendiam o que um acontecimento como aquele que passou significava. A dor e a angustia que surgiu em seu coração eram imensas.
-Você sabe que ela gosta de você, não sabe? – falou Alexander.
-Ah, mas ela tem um jeito interessante de mostra – respondeu o arcano.
-É verdade isso! Lembra o que falei sobre venenos?
-Que o veneno inserido nos corações é parte das trevas que eles mesmos criaram? Eu acho que era algo parecido com isso, não é?
-É mais ou menos isso. Os nossos sentimentos nos tornam fortes, mas também criam males enormes. Dependendo do que eles falam, afetam nossa alma de modo único. Os homens têm a teimosia de agarrarem um sentimento como se fosse seu ultimo dia de vida.
-Mas é o que normalmente fazemos. E não acho ruim.
O cão, que atravessava a neve junto com Lacktum, o olhou com sarcasmo. Era engraçado ver a feição de um animal com expressões quase humanas.
-Você esta vivo?
-Sim, mas...
-Não terminei! Você acha que nesse mundo antigo e fora do eixo é o único que quer se vingar de alguém?
-Lógico que não! Mas tenho mais coragem que a grande maioria. E a magia é minha arma e aliada.
Foi quando o cão parou e mostrou o quanto era sábio.
-Exato. Você tem magia. Tem algo que poucos possuem. E a usa como? Como uma arma. Uma mera ferramenta de sua vontade mesquinha. Ela é muito mais que isso. É uma chave que abre portas. Portas da realidade. E mesmo havendo dezenas... Talvez, centenas de outros que tem como meta se vingar de alguém, nem todos a usam assim.
-E o que isso tem de relação comigo?
-Quantos são guiados por um só sentimento? Alguém forte não é controlado por emoções, mas sim as domina. Como a magia que domina tão bem. Se fizesse o mesmo com suas vontades, seria um dos homens mais fortes do mundo.
-Exagerado, não acha Alexander?
-Como um mago que evoca a Arte.
O mago então riu da comparação. Ele então notou que poderia ser patético às vezes. Quantas vezes ele agira, mais por motivos pessoais do que pelo bom senso? A meio elfa estava certa.
-Bem, - decidiu o mago – vamos prosseguir. Mas vamos esperar por eles em Ixxanon...
Quando ele iria terminar a frase, foi interrompido por sons de cavalos pela neve. Eles se aproximavam do mago e do cão. Eram tantos, que os dois mal sabiam de onde eles estavam surgindo.
As patas jogavam neve para todos os lados. Era claro que mesmo na floresta tão grande e vasta, notaram o estranho mago e cão. Ainda por cima, os cavalos pareciam criar o barulho de trovões, assustando a ambos. Alexander se colocava em uma posse agressiva, rara de se ver.
Era possível ver cerca de vinte e dois cavalos montados, no mínimo. Todos possuíam homens bem armados e com trajes típicos das Terras Altas. Os machados, espadas, clavas e maça batiam no ar, enquanto o ritmo frenético das montarias continuava quase que acompanhando as armas.
Quando os cavaleiros se aproximavam de Lacktum, ele se preparou para soltar uma magia, sua mão foi acertada por uma machadinha. Um pouco mais preciso e o golpe cortaria sua mão ao meio. Mas só houve uma pequena ferida na palma, pelo menos.
O líder dos cavaleiros desceu de montaria. Ele era imponente. Não como os outros, que só aterrorizavam. Seu carisma parecia vir de seu andar. A confiança em sua face lembrava as lendas sobre bárbaros tão poderosos que faziam tremer impérios e reinos. Não havia barba em seu rosto, mas ele parecia marcado como se muitas batalhas tivessem se passado diante dele. Seu traje, apesar de típico das Terras Altas, mostrava as peculiaridades de um druida: uma foice curta na cintura, um pequeno saco que parecia conter erva e outras coisas. Os cabelos vermelhos possuíam uma trança que mostrava seu cuidado com a aparência, mesmo tão judiados. E era claro, pelo seu físico exposto, que facilmente venceria Thror em uma queda de braços.
Ele se aproximou do mago, pegando pelo braço da mão machucada. Esboçando um sorriso, ele começou a falar para o mago.
-Pelo jeito, você além de um mago de segunda é um maldito inglês!
Alexander pensou em atacar, mas antes de esboçar uma reação o druida, com a mão vazia, soltou uma magia em galês:
-Stop!
Quando isso ocorreu o cão ficou paralisado. Lacktum mal tentou reagir quando levou um golpe que fez cair bem afastado do agressor. O sangue jorrou fazendo uma linha enorme.
O agressor chegou próximo de Lacktum.
-Quem é você? Qual o motivo de querer me matar? Eu não fiz nada! Praga! Minha mão...
-A mão da criança esta doendo?
Todos os cavaleiros riram do jovem. Com exceção do líder dos mesmos. Este levantou a mão pausando as risadas. Ele agachou até o arcano falando:
-Eu, se quisesse, te mataria no momento que joguei a machadinha. Ou no momento em que torci seu braço, enquanto paralisava o cão. Talvez, quando atingi seu rosto. Não importa inglês, pois até agora ninguém cruzou a fronteira sem estar extremamente ferido ou morto. Não sei como fugiu daqueles malditos mortos e armaduras que servem ao falso Kalic Benton, mas quero lhe fazer umas perguntas – enquanto falava isso, segurava pelo cabelo de Lacktum agora – Ah, mais uma coisa... Sou o protetor das Terras Altas desde o século V. Chamo-me Galtran Coração Prateado, para responder sua pergunta.
Feito isso, o druida jogou o rosto de Lacktum contra a neve com toda a força possível. Aproveitou, pegou Alexander e o colocou nas costas do cavalo de um dos homens ali presente. Já o mago, ele jogou em sua própria montaria. Cavalgaram para a direção de onde vieram.

Como Lacktum, o grupo atravessou a noite até chegar a Vila dos Meios Sangue. O lugar era afastado, e não parecia ser de fácil acesso. Isso alterou drasticamente o caminho feito até então. Havia muitas árvores colocadas de modo estratégico. Isso era óbvio.
A maioria do grupo se sentia mal em deixar o arcano partir sozinho. Não havia como alterar os pensamentos de Lacktum quando colocava algo em sua mente. Mas já diziam as lendas que alguns magos enlouqueciam com o poder que ganhavam. Então ele deveria estar seguro, pois loucura era com Van Kristen.
No começo ele vinha aparecendo com todo aquele jeito sombrio, não se importando com nada e ninguém. Aos poucos, especialmente depois que conseguiu tirar aquela maldita máscara, ele começou a reagir como alguém melhor. Uma pessoa diferente.
A ladina e o padre concordaram na mudança do membro arcano do grupo. Ele estava bem mais receptivo do que quando o conheceram. Mas ainda não retirava a impulsividade e inconseqüência inerentes no jovem de nobre de cabelos vermelhos. Na verdade, o fato de ser o antigo filho de um barão talvez afetasse seus julgamentos, eles pensavam.
Pessoas que eram tão dispares quando Halphy e Arctus concordavam sobre muitas coisas.
O mesmo se dizia sobre as opiniões sobre os outros membros do grupo. Um exemplo era a questão de Thror liderar. Era um bom homem, mas muito passional para comandar os Dragões da Justiça. Além disso, estava o óbvio questionamento ao intelecto do grego e sobre sua memória. Poderia ser um grande problema.
Chegando até a vila, notaram que estava vazia. O meio elfo – que eles souberam depois, se chamava Turin – disse que deveriam estar todos presos em uma caverna próxima. Era o refúgio da prole de Argos.
Turin dizia que depois dos acontecimentos relacionados com a nova Cruzada instaurada pelo papa, os monstros começaram a ficar mais perigosos e se mostravam mais aos olhos humanos. O pior surgiu, quando as Alianças que servem Kalic Benton II dominaram aquelas terras. Deve ter forçado alguns monstros e criaturas das trevas a fugirem de seus esconderijos. Isso foi um fato comentado por Azerov e reforçado por Aluniel. E agora, isso foi reforçado com o ataque da vila.
Quase sempre, quando os habitantes se revoltaram, eram presos nas cavernas. E Turin dizia que isso ocorria constantemente.
Chegaram de frente a caverna, mas se mantinham escondidos. Encontraram um tronco, onde não eram vistos e ficavam protegidos. Halphy criava um plano:
-Bem eu entrarei lá como uma batedora. Assim sabemos como estão armados e onde estão as pessoas da vila.
-Me deixe ir até lá com você – falou Thror como uma criança que pede algo.
Halphy o fitou com raiva.
-Olha, não reparou que possui uma armadura pesada demais? Irá fazer barulho e preciso ser silenciosa.
Arctus tocou o ombro de Thror, falando passivamente:
-Não se preocupe grego. Nem eu, nem Gustavo podemos entrar com ela. E Seton não quer entrar. Minha armadura também pode se tornar um grande problema.
-Isso não é justo! – disse o grego como uma criança cheia de manha.
Seton então começou a questionar o motivo para ele também não ir.
-Disseram que eu não queria ir, mas foi mais por insistência da ladina.
-Sua foice é grande – ela respondeu – O túnel é pequeno pelo que Turin comentou. Largo o bastante para os ogros se locomoverem bem. Mas sua arma ficaria batendo no teto,
-Não tenho culpa disso...
-Ah – disse Halphy levantando o dedo em desaprovação – e você não vem comigo Valente. Então saia da minha mochila.
Foi quando todos notaram, com espanto, a cabeça saindo das costas da meio elfa. Ele saia da mochila com certo receio. Ninguém, com exceção da moça havia notado que ele havia entrado ali.
-Como me viu aqui? Falando sobre isso – disse com ar de sarcasmo Valente – su mochila parece maior por dentro do que por fora. Bem maior!
-Primeiro, sou uma ladina e uma feiticeira de primeira grandeza. Não acha que enganaria alguém como eu? Além disso... É essa mochila é grande por dentro sim.
-Me deixa ir! – pediu humildemente o suricate.
-Olhe aqui, eu até deixaria... – comentou a jovem – mas ainda estou nervosa com você por quase atacar aquele bando de mortos famintos.
-Foi um acidente!
Nesse momento, Gustavo interferiu na conversa, falando sobre o fato que ocorreu na noite antes de chegarem de frente a caverna:
-Você gritou contra ele, dizendo que cortaria os seus pescoços!
-Foi um momento de fraqueza.
-Não importa agora – terminou a ladina – Tenho que ir até lá. E sei como ficar invisível para eles – falava enquanto jogava uma espécie de pó sobre seu corpo. E a visão de seu belo corpo começou a sumir diante dos Dragões da Justiça, literalmente.
O grupo se espantou com a habilidade de Halphy. Isso se devia ao item conhecido como Lágrimas de Odin, uma substância que tornava invisível seu usuário. Ela disse ter ganhado de Aluniel, mas Arctus desconfiava. O pouco que sabia sobre o item dizia que item era fabricado no norte, por duendes que imitavam uma magia e um item raros.
Foi então que Nico fez o mesmo, mas através de uma magia própria. Magia de invisibilidade. Halphy notava que o feiticeiro era bem poderoso para a idade. Se é que aquela era realmente sua idade, pensava ela.
Ainda lembrava-se do fato que ouviu na torre de Azerov. Tratou Lacktum como um jovem, quase uma criança. Qual era o motivo? Ela não acreditava que era uma falha na conversa. Não era o momento para isso, e ele estava bem concentrado nisso.
-Vamos? – disse o ar com a voz de Halphy.
-Vamos! – disse o ar, na direção contrária, com a voz de Nico.
Os dois então começaram a andar na direção da caverna. Era possível notar ver seus passos na neve, mas ambos eram precavidos o bastante para não serem pegos pelos monstros daquele lugar.
Mesmo com os dois ogros enormes e vigilantes na frente da caverna, o feiticeiro e a ladina que começava a trilhar aquele mesmo caminho arcano, entraram na escuridão.
Enquanto isso, o grupo esperava por um sinal dos dois. Assim como esperavam que Lacktum estivesse bem.

Gustavo seguiria a jovem Halphy. Isso se devia ao fato de que ele acreditava que ela tinha razão. Mas afinal, será que o mago estava tão errado? Sua mente começava a criar tantas duvidas quanto inimigos que surgiam a sua frente. Mas não era momento para questionar isso. Era o de esperar. Mas cada instante parecia um século.




[1] Uma prole de Argos só possui um olho, mas sua massa física esta sempre em constante mudança.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

(EXTRA) 5 perguntas de James Gawain para: Lacktum Van Kristen, o mago inglês ruivo de Contos do Tempo Perdido!


Bem agora como alter ego do escritor, coloco agora uma entrevista com o personagem mais SANGUE NOS OLHOS de Contos. Não, não estou falando do Thror... Lacktum Van Kristen, antigo nobre inglês, atualmente um mago e que pretende se tornar um mestre do destino. Ele busca vingança pelo que um arcano mascarado fez ao baronato de seu pai. Além de perder pai, mãe e irmã no ataque (além de toda a sua vila), perdeu também sua amada Lirah. Agora com vocês, o abridor que Halphy chama de cabeça de fogo...

1-O que esta achando da história de Contos do Tempo Perdido?
Ah esta uma praga... Só me ferrei até agora. Pense dessa forma: meu pai e minha mãe foram mortos, minha vila incendiada. Nem sei o que fizeram com minha noiva e minha irmã. Essa última, nem é muito citada! Coitada. A única coisa boa ultimamente tem sido meu grupo. E olhe lá. A Halphy tem uma mente parecida comigo. O Thror pode ser um tonto mas sabe bater como ninguém em monstros, pessoas ou coisas em geral que podem atacar ou machucar você. Seton pode cobrir o grupo na falta de Arctus. Não tão bem, mas... Gustavo é nossa peça chave para alguns problemas divinos, assim como Arctus. E o padre... Bem, precisa mesmo falar algo sobre ele? O problema maior é que estamos devassados em relação a combate pois nem sempre o paladino pode fazer as vezes de combatente. Já o Thror pode ser forte mas nem pode aguentar tudo. Eu acho.

2-Qual foi o seu pior inimigo até agora?
Não tive problema nenhum em matar inimigo, mas se quiser que eu diga quem eu tive problema para eliminar... Temos dois: o corpo do esqueleto gigante coberto de gelo e Mallmor.
O gigante, controlado pelo antigo mestre de Gustavo, Diogo, através de uma cópia da Lanterna dos Condenados. Ao que parece tem grandes propriedades esse item em relação as forças necromânticas. E se quisesse, poderia colocar mais mortos famintos contra nós. E ai sim seria impossível vencer! Conquistamos a vitória contra o gigante. Admito que quase enlouqueci vendo um monstro de tal estatura - literal e figuradamente - só que conquistamos nossa vitória apesar de tudo.
Já Mallmor... Não o enfrentamos pessoalmente. Acredito que isso um dia talvez ocorra, agora porém, seria uma loucura. O combate contra seus servos foi complicado. Sei que eramos poderosos, e uma tática precisa nos fez vencer esse inimigo formidável. Além de minhas magias, que digamos, estão cada vez mais poderosas. É óbvio que eu sou o principal motivo de estarmos vencendo até agora nesses combates e...
Ei por qual motivo esta indo embora! Volte aqui. Não terminei!

3-Quem é seu melhor amigo no grupo?
Halphy Brown... Se posso chamar amizade isso. É mais uma espécie de... Companheirismo? É, companheirismo! Somo aliados. E seus pensamentos muitas vezes batem com os meus. O que torna nossa amizade algo bem mais, verdadeiro. Disse amizade? Ah bem que seja. De qualquer forma minhas batalhas com ela mostram que precisamos nos ajudar mais. E eu sempre pago minhas dividas. Além do que, ninguém é louco de dever um favor a uma ladina...

4-O que prefere: espada, magia ou especialização?
Boa pergunta! Não parece tão fácil assim:
Espada parece atraente em um começo de carreira. E lembrando que estamos na época das cruzadas, resolver as coisas com golpes rapidos e eficazes é o que manda. A espada é a lei! Só que quando observamos mais atentadamente, notamos que não é tão seguro. E quase sempre partimos para o caminho da violência. Um caminho tolo, maligno, podre e ignorante. Vejam o Thror para se ter uma ideia (risos). Falando sério. Lutar não é um caminho de pessoas sábias.
Especialização usa bastante a mente, mas de outro modo. Lábia, manha, intimidação, extorsão e usar venenos... Não é comigo! Prefiro usar uma bola de fogo. Maneiras rapidas e certeiras de eliminar oponentes em que o inimigo. Especialmente se ele é perigoso... Vai se entender.
Por isso o uso de mana me fascina.

5-Por último: quem você quer morto?
Kalic... Benton... Kalic Benton. Kalic Benton! Kalic Benton!!! KALIC BENTON!!!!!


sexta-feira, 20 de junho de 2014

(Parte 2 de Diário de Caça) 19:00 até 19:59 – Queen – Under pressure.

Pressure, pushing down on me
Pressing down on you, no man ask for
Under pressure! That burns a building down
Splits a family in two
Puts people on streets


Arrumei-me da melhor maneira possível naquela noite que iria começar a ser barulhenta mais uma vez. Já que estava voltando para casa, lembrando que estava em uma das maiores cidades do mundo. Ou a maior cidade. Ou com a maior população do mundo. Nunca soube direito. Fazer o que. Nunca fui muito boa com essas coisas de escola. Ao menos era boa o bastante para escrever. Isso vem das minhas aulas de inglês. Nisso eu era boa o bastante para lidar. Nada, além disso. Mas sabia enganar como toda a boa mulher fazia... E nenhum homem faz direito.
De qualquer modo eu precisava voltar para casa. Esquentar a comida para o meu irmão.
Iria pegar o metrô, mas fazer isso quando a noite chegava era como pedir pra ser morta, assaltada, atacada sexualmente ou algo pior. E pode ter certeza, com a quantidade de loucos que surgem nos dias de hoje, você teria medo de entrar em algum lugar como o metrô. Recomendações que até o meu patrão fazia a mim para sobreviver naquela selva de concreto.
Então, aproveitei uma brecha entre os carros estacionados. Passei por eles e comecei a pedir por um táxi.  Depois de alguns segundos, pela sorte – ou azar – consegui pegar um dos amarelinhos. Fiquei com medo, pois até os motoristas eram dos tipos mais diversos. Certa vez, tinha entrado em um ônibus, e o motorista não tirava os olhos das minhas pernas. Filha da puta. E nem sou exibida mostrando minhas pernas como uma garota oferecida qualquer. Era uma saia bem abaixo do joelho, mesmo estando no verão. Cafajestes, que não conseguem sair com mulheres e ficam fantasiando na cabeça cenas sexuais com elas.
Minha sorte é que era um indiano pelo que me lembro. Esses não têm a libido muito aflorada.
Pegando o táxi, entrei prontamente no carro com meu piloto indiano de libido baixa. Notei que logo chegaria a minha casa onde teria que preparar a comida para meu irmão mala. Comprei algumas coisas e já sabia o que iria preparar para o besta. O idiota do Sidney que mandava várias mensagens para estar em casa com a comida pronta quando chegasse. Estivesse lá onde Deus permitisse. Aliás, eu nasci e fui criada como uma protestante. Comentário rápido. Nada de mais.
Só para entender que sempre fui religiosa, mais por obrigação do que por vontade. E isso me fez uma cética por natureza. Menos mal, já que isso me tornou uma pessoa forte por natureza.
De qualquer modo, estava voltando para minha casa. Demorava meia hora com algum táxi ou ônibus para alcançar meu lar. Mais de uma hora a pé. Tirando o risco de andar a pé. Literalmente, o custo benefício de voltar sem um veículo até onde morava era extremamente perigoso. Perder minha escassa grana é algo horrível. O problema maior é quando nem dinheiro possuía. A vida nas cidades grandes se tornava perigosa. O que me faz querer morar em uma pequena cidade que um amigo me falou. Heber Village. Não é tão pequena quando uma cidade do interior, só que tem o estilo de uma em certos pontos.
Olhava pela janela do carro todas aquelas pessoas calmas e tristes muitas vezes. Vez ou outra surgia uma cena bonita. Como quando vi a mãe brincando com seu filho, com roupinha amarela contra chuva. Eu falava assim, mas era uma mera capa. Com tudo isso sendo tão simples e tão bonito, trazia a mim memórias tão dolorosas de minha mãe. Sendo assim mesmo, algo que me trazia dor, fiquei ali observando bem a dupla pulando poças de água com botas bem coloridas. Vi também amigos brigando e brincando uns com os outros, como só quem volta da escola pode fazer. Não tinha tantos amigos no meu período de colégio, então nem foi algo que me comoveu. Nem tanto se comparado ao cachorrinho que surgia todo sujo de um Opala velho e antiquado, que esqueceram em uma rua. Fazia meses que ele estava ali. Já o vi antes, quando caminhava para chegar ao serviço. Eram tão bonitos, carro e cão. E estavam ali, abandonados como se fizessem companhia um ao outro.
Só que aquela área não era formada só por bons fluidos. Passando por uma rua mais escura, que já estava bem longe do consultório, vi alguns rapazes sendo presos por porte ilegal de drogas. Malditos traficantes. Acabando com a vida de bons rapazes e moças. Se permitissem, pegaria uma arma e estouraria os miolos de qualquer um que me surgisse tentando fazer algo de errado – em especial ao meu irmão que lidava com essas coisas horríveis – e conseguisse ver. Do que adiantava isso, de qualquer jeito? Na esquina seguinte, conseguia ver um garoto de blusa pesada cinza e tênis bem claros fumando o que com certeza era um baseado. Detalhe: ele não deveria ter mais do que quinze anos, aposto. Essa juventude não nota que são eles que sustentam a criminalidade e os marginais que matam bons e honestos policiais. Isso na cidade de Nova Iorque existia e até demais.
Tínhamos como um de nossos vizinhos, um policial de maravilhosa índole. Seu nome Robert Snyder. Quando Sidney havia sido preso por alguns crimes cometidos, como furto para pagar apostas, quem nos salvou? O Tio Bob como o chamava. Lógico, tudo dentro dos limites da lei. Prender um tonto como meu irmão era algo comum entre os policiais de onde morávamos. De qualquer modo era maravilhoso ter alguém com quem poderíamos contar. Não ficar falando e tagarelando como eu sempre fazia antigamente.
De qualquer forma cheguei à minha casa. Fui descendo do veículo amarelado, porém, tirei de um bolinho de notas sujas e surradas o que deveria ser o pagamento da viagem. Ele deve ter agradecido muito por isso, já que começou a falar algumas coisas que não pareciam ser grosseria. Entretanto, qualquer coisa que um estrangeiro fale ainda me parece alguma grosseria e xingamento. Vai se entender... Talvez tenha sido o convívio com os porto riquenhos que surgem pela cidade.
Finalmente, casa! Lugar maravilhoso, pelo menos para mim. Nos últimos dias, meu irmãozinho havia se tornado um tanto chato com relação a nossa casa. Engraçado, visto que foi ele quem encontrou o lugar para nós. Graças é lógico, a uma ajudinha do doutor Fitzgerald, meu anjo da guarda pessoal. O meu irmão falava que ele na verdade tinha alguma tara por mim. Só que nunca vi nada de mais. Ele não ficava me fitando como um daqueles tarados das ruas. Muito menos comprava coisas para mim. Ajudar sim, mas nunca ultrapassava essa linha. Por isso considerava ele como um segundo irmão mais velho. Quase um pai. Nunca iria falar isso a ele, pois... Bem, ele era muito novo para ser pai. Pelo menos fisicamente.
Ele era bonito, mas mais por natureza do que por se cuidar. Não fazia bem a barba e tirando o consultório, dificilmente se vestia bem. Era alguém bem simples em tudo. Sim, eu olhava para ele, oras. Esqueçam o que acabei de escrever, ok?
De qualquer forma estava ali na minha casa. Coisa simples no Queens, com estilo de madeira antiga. Bem conservada por mim. Já que eu passava sempre produtos e vernizes no final de semana para manter a casa inteira. Acabava com meu tempo livre, mas fazia a casa brilhar e ficar inteira. Mais uma das coisas da lista de coisas que eu tinha que fazer para nos manter em pé. Literalmente.
Entrei como um furacão pela varanda, abri a porta de casa, girei em direção a sala e deitei no meu sofá menor. Pode ser pequeno entre os dois que tínhamos, mas era mais confortável. Nessas poucas vezes, me lembrava de que meu irmão deveria estar ali em casa, com fome. Sempre quando chegava das apostas, voltava com fome. Perdendo, chutava as latas de lixo por toda a cidade, até em casa. Ganhando, gastava todo o dinheiro que recebeu da premiação em bebidas e mulheres. Sentia falta de quando meu irmão pulava em cima de mima para brincar, não por estar mal depois das porcarias de apostas.
Na verdade ele fazia esses jogos no Hipódromo Aqueduct, e conhecia os homens que lidavam com dinheiro nessas apostas muito bem. Em especial, alguém que ele conseguiu conhecer antes de ficar nessa onda autodestrutiva. Japoneses, e seu líder era o empresário Hiro Mishima. Eu sempre tive medo que eu encontrasse meu irmão em um saco de lixo, ou até mesmo, que afundasse bem no fundo do rio East. Histórias contavam que ele era um yakuza de grande poder dentro de sua família. Outras histórias diziam que ele na verdade nem mais pertencia a alguma das famílias, participava de algo maior. A pior falava que na verdade ele era um dragão na forma de um homem. Dessa eu ria muito. Bando de medrosos. Como diria o Batman, enquanto houver medo e superstição no coração dos ladrões haverá uma esperança. Babaquice não é? Mas prefiro assim. Hoje eu sei que era pior. Desgraçado.
Deitei por alguns minutos. Como disse antes, demora cerca de meia hora para chegarmos de carro em casa. E o táxi conseguiu pegar uma rota bem livre até. Lembrando que falávamos de uma das maiores cidades do mundo. Peguei com o pé um dos CDs que estavam sobre a mesa. Tirei-o da capa e comecei a escutar. E me fez saltar e cantar. Mesmo exausta.

There was a friend of mine on murder
And the judge's gavel fell
Jury found him guilty
Gave him sixteen years in Hell
He said, I ain't spending my life here
I ain't living alone
Ain't breaking no rocks on the chain gang
I'm breakin' out and headin' home

     E eu já cantava os refrões “Gonna make a jailbreak” enquanto pulava e dançava. Não como aquelas vedetes ridículas de show de rock. Era mais gostosa. Ridículo eu sei. Mas era como eu aproveitava minhas noites de descanso. O final de semana estava chegando. E veria o meu lindo namorado. Qual não foi minha surpresa quando o telefone de casa e escuto a voz dele. Estava ainda no serviço pelo jeito. Algo em que tinha trabalhado mesmo a noite, pois era um bom dinheiro e era para prefeitura. Mesmo assim sentia sua voz cansada. Como queria estar com ele.
     -Olá quem fala? – perguntei cheia de sarcasmo.
     -Você sabe que sou eu Sel – falou se referindo ao apelido carinhoso que me deu.
     -Sel? Não conheço nenhuma moça que tenha esse nome aqui – continuei.
     -Esta bem. Então Vou desligar...
     -Fala seu bobo!
     Ele riu por ter visto que a chantagem deu certo. Como gostava dessas pequenas conversas. Se você possui alguém com quem possa fazer isso, aproveite. Você nunca saberá quando isso poderá ser retirado de você. Não falo isso por me achar dona da verdade. Só conhecimento de causa.
     -Tudo bem amor?
     -Tudo meu anjo. Esta no serviço?
     -Sim, mas fugi um pouco do canteiro de obras.
     -Coisa feia. Matando trabalho para falar com as suas namoradas.
     -Plural? Eu era bom de cama e não sabia? Tenho dupla personalidade? Sel você tem que me falar essas…
     -Ah cala boca seu tonto! Você é um doce...
     -Desde que derreta em sua boca.
     Mordi os lábios. Nem preciso falar o motive. Apesar de não o querer só em minha boca, confesso que era... Digamos, nem grande, nem curto, mas fazia bem o trabalho quando exigido. Mas se fosse para fazer aquele homem gemer de prazer como eu com ele, fazíamos sexo oral facilmente. Homens pensam mais no próprio prazer e Lankford não era diferente. Nem ligava. Homem como aquele era raro. E com um pau daqueles também.
     Deve estar pensando, como ela é tarada. Grande merda. Estou escrevendo minhas memórias. Lembro de cada detalhe como se fosse hoje. Talvez para manter uma faísca de vida nesses olhos já cansados. Eu agora sei como um professor se sente, exausto depois de uma vida trabalhando – mesmo quando se mexe com isso alguns anos – pois faço isso há vinte anos. Gosta de lembrar-se dos tempos melhores e mais calmos. Quando poderia até mesmo pensar no seu prazer como se fosse eterno.
     Nada é eterno. Nem mesmo isso.
     -Eu iria falar que vou levar as cervejas depois do trabalho e dormimos juntos. Levo um filme. Que tal
     -Tudo bem por mim. Que não seja um de terror, esta bem?
     -Ainda esta com medo desde que viu aquele filme?
     -Lógico! Era horrível!
     -Esta bem. Tentarei levar um de comédia. Só que tem que ser bom. E que não será com Adam Sandler. Já me cansei daquele cara.
     -Esta bem. Pois saiba que um dia ele vai ser um grande ator.
     -Se for quando ele deixar de fazer filmes de segunda. Acho que ele só vai fazer pontinhas em produções.
     -Esta bem. Vai trabalhar ou o seu patrão vai te despedir.
     -Tudo bem, antes... Tenho que te falar...
     Ele parou um pouco antes de continuar. Eu sabia que tinha algo para me falar. Era uma mania que só eu entendia. Ainda tinha algo a me falar.
     -Fale – soltei como um inquisidor espanhol.
     -Eu vi seu irmão... No território do Hiro. Estava com dinheiro.
     Nesse mesmo instante saltei do sofá. Ele foi lá. Mesmo eu falando tantas vezes. Repetidas vezes disse, não vá mais atrás daqueles caras. E o que ele me faz? Vai assim mesmo. Havia vezes que eu pensava que não era a mais nova dos dois. Algumas vezes até achava que era a mãe. Nunca entendi como a cabeça daquele idiota funcionava. Nem me interessava. Desde que ele voltasse vivo depois. Para eu acabar com ele.
     -Estou indo John.
     -Amor...
     -A gente se vê mais tarde. Eu prometo.
     Peguei um casaco o mais rápido que pude. Nem lembro como era, mas depois notei que era cinza. Um antigo que não conseguia me livrar e sempre gostei. Acho que era da minha mãe. Parecia que me dava forças. Precisaria delas agora. Quando meu irmão se metia em enrascadas, era federal.
     Antes de sair, peguei o telefone do tio Bob. Rezei para que estivesse em serviço. Já que da última vez em que Sidney esteve no território de Hiro, foi jurado de morte. Idiota, idiota, idiota! Deus! Como acabamos sendo irmãos? Irmã do cara mais idiota do mundo? Juro que não sei como. Posso não ser um Einstein, mas juro que teria mais inteligência do que aquele pedaço de carne mal gerado.
     Pedi desculpas ao meu pai e minha mãe mentalmente.
     Tio Bob não estava. Pelo menos não na delegacia. Liguei então para a casa. Atenderam. Era sua mulher. Ela nunca foi com a minha cara.
     -O que foi? – disse a voz de Elisabeth, a mulher de tio Bob. Cheia de raiva.
     -Estou procurando o policial Snyder. Meu irmão Sidney Queen...
     -Ah! Você é a Queen? A filha da puta que retira meu marido da cama pra arrumar as merdas que seu irmão faz? Aquele vagabundo...
     -Ele não esta pelo jeito – falei rápido.
     -Como sabe?
     -Se não ele teria tirado o telefone da sua mão piranha mal comida!
     Em seguida desliguei rapidamente na cara dela. Bob entenderia. Certa vez me disse que tinha uma amante e só não se separava da mulher por conta dos filhos. Só nunca entendi como ele fez cinco filhos naquele ser do outro mundo. Bem, vai se entender.
     Peguei minhas chaves, minha bolsa e uma faca de cozinha. Aquela que fosse mais afiada. Sabe como é ainda não entendia muitas coisas. Um dos meus primeiros ensinamentos de caça foi: não é a arma que faz o estrago. É até onde você a enfia no corpo do desgraçado que você esta tentando matar.
     Coloquei-a no casaco e fui correndo fechando minha casa as pressas. Eu nunca imaginei que ao girar aquela chave na maçaneta nunca mais a veria. Na verdade, não como antes. Hoje em dia a vejo sendo de um casal que deve dois filhos. Essa não é uma história em que no final estarei morta camarada. É onde mostrarei que o mundo esta indo pro buraco e nos dois estaremos nele. Sim, eu e você.
     Peguei e comecei a correr para onde era o território do Hiro. Dessa vez, peguei um táxi. Era um dos tarados... Droga.
     Antes de entrar estava com a nítida impressão que um desgraçado lá de fora ficava me olhando com um casaco pesado e grande. Que cobria muito bem o rosto. Se fosse o tipo que imaginava seria pior que um tarado. Ignorei, pois já tinha muita coisa na cabeça. E já tinha que me preocupar com os olhos do veado que dirigia o táxi. Pensei em usar minha faca.
     Antes de ir, parecia que do casaco do estranho eu vi a ponta de uma faca. Nem sabia eu que era um facão. Ele entrou em um carro. Ele me seguiria, mas eu não sabia.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

(Parte 1 de Diário de Caça) Começo do Arquivo



Bem isso deveria ser um simples diário, mas não é. Escrevo aqui sobre minha vida. Mas minha vida não é como de muitos por ai. Acreditem. Até tentei sair desse rumo, mas não consegui. Se é que posso chamar isso de rumo, sendo que me vi sendo empurrada para ele. Não funcionou. Sabe quando você diz que é mentira, o ocorrido é falso? Pois isso é o que sempre faço quando acordo.
Mas não é para poder me vangloriar do que aconteceu... Não nunca iria fazer isso. Quem o faz só pode ser um amador que nunca olha direito. Não enxergam o estrago causado por si, as pessoas que nem conhece. Assim como para seus entes queridos e amigos próximos. Lembrou-me de um caso em Washington. Você não imagina como aquela cidade é suja no que chamamos de periferia. Isso sem falar no meu tipo de sujeira. Pensando bem, às vezes acho que muitos dos tipos que encontro no meu “trabalho”, tem um jeito simpático. Se compararmos aos miseráveis que abusam dos inocentes nas grandes cidades, parece nada.
Então, por onde começar? Parece mais fácil falar do que fazer. Juro. Muitos só juntariam um monte de papéis e anotações, talvez recordes de jornais. Eu não. Prefiro algo mais verdadeiro. Simples mas eficaz. É o que aprendemos desde cedo. Nada de uma bagunça na casa alheia. Ou onde nossa busca nos leve.
Escrevi muito, mas não imaginam o que faço. Certo? Bem, devo primeiro me apresentar. Meu nome é Selina Queen. Sou uma mulher que atualmente tem 38 anos. Não tenho residência física. Na verdade viajo por boa parte dos Estados Unidos. Atualmente sozinha. Antigamente com alguns homens e mulheres com os mesmos ideais que os meus. Se isso pode ser chamado como uma ideologia. Conheci muitos como eu. Estranhos e até louco. Todos corajosos pelo menos. Já li certa vez (até mesmo nos quadrinhos do Homem-Aranha se me lembro bem), que a linha que divide o sábio do louco é tênue. E eu a atravessei.
Antes de tudo saibam que não vivi minha vida inteira assim.
Antes eu era Selina Queen, secretária de um dentista. Uma vida comum, um trabalho comum, um namorado comum e um irmão nada comum. Mas a gente não pode ter tudo na vida também. Mesmo assim, eu trocaria tudo que eu tenho agora por aquilo. Muitos pensam que possa ser exagero, que estou mentindo. Não meu amigo, estou sendo o máximo possível verdadeira. E nenhuma linha aqui será exagerada. Já será difícil você acreditar em mim sem ser assim. Imagine se eu viajasse no que escreverei a seguir.
Mas voltemos ao assunto...
Nasci em Seatle. Mas minha família se mudou, logo após eu nascer, para Nova Iorque. Deveria ser por conta de oportunidades de emprego. Bobagem não é? Cidade suja essa em que vivi até os meus vinte e cinco. Só que eu pensava “ei, é agora minha cidade suja!”. Coisa rara de uma pessoa pensar fazer, gostar da cidade.
Após os meus oito anos tive a primeira grande fatalidade da minha vida: meus pais morreram em um acidente de carro. Um caminhão surgiu do nada na contramão e os fez bater em uma árvore na rodovia I-78, quando voltavam de Nova Jersey. Meu pai dirigia. E ele que adorava beber, não tomou uma gota naquele dia. Pelo menos é isso que o exame toxicológico mostrou. Já o caminhoneiro não poderia dizer o mesmo. Estava tão alcoolizado que mal conseguiu levantar para ofender os policiais que o encontraram a meia-noite de um dia de abril. Comemorariam o aniversário de casamento.
Desde então vivemos com minha tia, Elizabeth. Uma velha chata que batia em mim e no meu irmão mais velho Sidney. Só que as coisas eram diferentes com o Sid. Sim, brigas épicas. Ah se eram...
Meu irmão era um herói. Mas não com capa e espada, como o que aparece naqueles filmes antigos que apareciam nos filmes em preto e branco. Muito menos como aquele escoteiro do Super Homem. Não, nem um pouco. Parecia mais com algo entre o Justiceiro e o Batman. E sim, sou uma ex-viciada em quadrinhos. Não tenho mais tempo para acompanhar as histórias. Adorava os escritos de Alan Moore e Neil Gaiman. Se bem que eu adorava os desenhos de Jim Lee. Homens musculosos e lindos como aqueles eram raros. Continuam. Sidney usava os quadrinhos e um walkman antigo de marca ??? para me fazer viajar com histórias da Vertigo e da Image. Enquanto ele se atracava com nossa tia em mais umas das famosas brigas dos Queen. ´
Tirando nossa tia, éramos felizes. E quando atingimos certa idade pudemos viver por conta própria. Saímos do bairro Bronx e fomos para Manhanttan. Evolução rápida e astronômica. Lindo, parecia quase um conto de fadas. O maninho era um gênio quando se tratava de negócios.
Só que muitas vezes nossa vida se torna uma pequena caixa de surpresas. E entre elas estava que meu irmão que havia conseguido um magnífico emprego na bolsa de valores perdeu tudo com a única coisa que nunca conseguiu vencer: seu vício por apostas. Gastava tudo em corridas de cavalo. Nunca odiei tanto esses animais. Na verdade, sempre odiei animais de qualquer espécie. Porém desde então eu tenho um ódio mortal por cavalos em especial. Se ao menos eu soubesse...
Bem, graças ao meu sábio irmão, tivemos que parar no lugar mais pobre em todo o Queens. Estávamos na nossa segunda crise após a morte de nossos pais e deixarmos a casa de nossa tia. Pouca grana, comida pouca. Não iríamos voltar a morar com ela, mas eu tinha que fazer algo. Comecei a mudar isso trabalhando como secretária. Como, nem eu me lembro, mas me lembro que menti minha idade. Afinal, não iriam querer contratar uma adolescente. Quantas vezes fugi do azar de ter alguém revelando minha idade no consultório. Amigos do colégio, ou quem sabe um parente. Namorados? Demorei a ter. Até um tempo antes do desastre.
Fui passando de emprego para emprego, mas sempre bem recomendada por todos os meus patrões. Nunca fiz nada do que uma moça possa se arrepender. E algo que sempre fiz foi para lutar contra os problemas. Às vezes causados pelo meu irmão, às vezes pela vida. Complicado.
O que escrevo se refere a um período em minha vida ao qual tudo estava bem. Trabalhava como secretária para um dentista chamado David Fitzgerald Jr., até que bem renomado. Os problemas com relação a meu irmão estavam, digamos, controlados. Eu mesma estava namorando.
E como ele era bom pra mim. John Lankford. Rapaz trabalhador. Não pensava muito, nem era tão inteligente, mas se importava comigo. Idiotas são essas garotas que procuram satisfação com o corpo de um homem sem nenhum conteúdo. Ridículo e patético. Tive uma amiga que terminou com um bom rapaz do nada. Sem motivo algum, simplesmente disse que não o amava mais e que estava tentando mudar o coitado. Estranho mesmo. O que é uma coisa idiota. Mas eu sempre valorizei o meu namorado. Trabalhava como um dos inúmeros pedreiros da cidade. E mesmo sendo um rapaz cheio de palavrões e xingamentos no seu dia-a-dia, ele sempre tinha o seu bom humor no final, falando como eu era linda. Que queria ver meu sorriso sempre. Por isso me presenteava com aquilo que as mulheres normalmente gostam: livros. Algumas, sem personalidade, só se fixavam nas compras de sapatos e roupas. Nunca gostei, prefiro estar completamente nua, mas cercada das grandes obras que ele me trouxe. Era um pequeno paraíso.
Essa vida com Lankford e o babaca do meu irmão Sidney era boa e se foi... Com tanta rapidez que nem sei em que dia, semana, mês ou ano ela se foi. Mais forte que qualquer tornado ou ciclone. Ou um maremoto. Quando as pessoas se pegam olhando as fotos dos desastres naturais ninguém imagina o que ocorre nesses lugares. Assim como quem presenciou tudo aquilo de dentro do olho do furacão. Que lindo era aquilo comparado com hoje em dia. Era um paraíso o frio que sentia na pele depois do serviço. Os tons cinza da cidade se confundiam com as roupas baratas que conseguia comprar. Valia à pena tudo aquilo mesmo com as dificuldades que passávamos.
Só me lembro que naquele dia era inverno. Sei disso, pois estava pensando no que comprar para os enfeites de natal. Eu sempre fui muito sistemática com isso. Era engraçado como tínhamos, eu e o Sidney, esse costume bobo ainda. Carregava-me nas costas e me fazia colocar a estrela na ponta da árvore de Natal. Era um rito, uma prática que tínhamos. Nunca poderíamos deixar de fazer isso no final do ano. Uma vez voltei muito tarde para casa e não avisei a ele. Quase brigamos fisicamente, mas ele tropeçou na varanda de casa. Ri muito. Parecia tão patético. Ele também riu e se levantou, ofendendo Deus e o mundo. Só que aquela época festiva também se tornou complicada para mim.
Estávamos com muitas consultas. O doutor Fitzgerald, que sempre insistiu que o chamasse pelo primeiro nome, estava cheio de consultas no meio do dia. Isso sem lembrar que eu já cheguei atrasada.
Abríamos o consultório às nove da manhã. E eu acordei mais tarde... Quase uma hora mais tarde. Bem, depois me entenderia com meu patrão. Ele sempre tão prestativo e me doava altas broncas. Eu até me sentia mal por ser tão relaxada por isso. No geral, mesmo assim, trabalhar lá era bom. Salário médio para uma mulher nos Estados Unidos.  Melhor que nada era o que sempre dizia. Sempre piorava, mas usava esse refrão para não perder a força. Nem a vontade de viver. O que era difícil.
Almocei como um foguete. Não queria me atrasar mais uma vez. Batatas fritas, com um pouco de arroz, uma panqueca, salada de alface e tomate, além de um refrigerante para que tudo isso entrasse de uma só vez. Parecia até um hipopótamo comendo ali. Refeição barata em um dos lugares mais sujos da cidade. Um verdadeiro cinzeiro em forma de restaurante. Porém, como disse antes, comida com preço acessível e era melhor que muitos outros lugares.
E lá fui eu trabalhar novamente. Era cada tipo de pessoa com bocas cheias de dentes podres, cáries, crianças mal educadas, barulhentas ou fedendo. Admito, não tenho paciência com pestes assim. Só que sabia lidar com eles melhor que as mães algumas vezes. Elas não tinham que lidar com caras como Bradley, o valentão da escola. Sempre tem um deles nos colégios. Aprendemos a fugir deles, ou como se livrar deles na base da pancada. Se fosse tão fácil lidar com eles não aprenderíamos nada nessa vida. Descobri que na nossa vida temos sempre uma terceira opção. No caso do brigão era arrumar alguém mais forte pra bater nas bolas dele. No caso das crianças, é simplesmente fazer uma ameaça velada longe das mães. O dentista garante que tenham dentes limpos e saudáveis, já eu garanto que não os percam antes da consulta.
O doutor até sabia do meu “truquezinho” para manter calmos os pacientes mais novos. Porém, fazia vista grossa. Entendia que fazia algo assim, pois não era fácil lidar com isso todo o dia.  Nem pra mim, nem para ele. Que amor ele era.
De qualquer forma estou divagando. Enrolando, para não escrever o que realmente preciso. Colocar nessas páginas um dos piores fatos que constatei nesses últimos anos, devido ao que aconteceu naquela noite. Algo que veio antes dessas noites sem dormir. Antes de ter que escolher um novo caminho. Onde pessoas não são pessoas. Sangue é bem mais comum do que se imagina. Matar se tornou fácil nesse mundo.
Um mundo de sombras, trevas e escuridão. E ele esta aqui. Ou melhor, ali, depois da próxima esquina.
Para começo de conversa, saiba que foi assim que perdi meu irmão e meu namorado. Não de um modo convencional. Ah não senhor, meu amigo. Mas foi assim que conheci Vanessa Garcia, uma bruxa na melhor das hipóteses. E em especial o homem que nunca me treinou, mas que me fez seguir o meu caminho. Ao qual ninguém jamais gostaria de seguir por livre e espontânea vontade. Essa foi minha terceira opção. Eu caço e mato monstros. Isto é sério.

Nova história! Diário de Caça! terror ao estilo Storyteller!

Sou e sempre fui um grande fã do estilo Storyteller que usa um cenário de terror punk-gótico. Que atualmente esta muito perdido... Por isso comecei a saga de Selina Queen. Espero que gostem.
Selina é uma excelente caçadora, conhecida demais no submundo dos caçadores de monstros em geral. Toda a saga tem um começo.... Leiam e aproveitem!
Índice

Começo do arquivo.
19:00 até 19:59 – Queen – Under pressure.
20:00 até 20:59 – Aerosmith – Livin on the edge.
21:00 até 21:59 – Misfits – Die, die my darling.
22:00 até 22:59 – Charly Garcia – Simpathy for the devil.
23:00 até 23:59 – Megadeth – Never dead.
00:00 até 00:59 – The Animals – House of rising sun.
01:00 até 01:59 – AC/DC – Safe in New York City.
05:00 até 05:59 – AC/DC – Highway to Hell.
Final do arquivo.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Voltando com Contos do Tempo Perdido!

Não passei na primeira fase do concurso do LeYa. Mas voltarei a postar logo, logo as aventuras dos Dragões da Justiça. Calma que eles voltarão. Lacktum, Halphy e Thror estarão de volta quando terminar Junho. Preparem-se!